{"id":11068,"date":"2026-06-21T23:37:15","date_gmt":"2026-06-21T22:37:15","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11068"},"modified":"2026-06-21T23:37:15","modified_gmt":"2026-06-21T22:37:15","slug":"as-mtamorfoses-do-misterio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11068","title":{"rendered":"AS MTAMORFOSES DO MIST\u00c9RIO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Os enigmas dos chamamentos<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<pre><em>A natureza, a hist\u00f3ria e a cultura s\u00e3o a tela <\/em>\r\n<em>onde o divino nos chama a situar-nos<\/em><\/pre>\n<p>Vivemos suspensos entre o indiz\u00edvel e o vis\u00edvel. Tudo o que nos cerca, desde a seiva que sobe na \u00e1rvore, o eco dos passos que marcam as eras, a palavra que insiste em nascer, tudo \u00e9 lineamento de um apelo que n\u00e3o se deixa aprisionar em defini\u00e7\u00f5es. N\u00e3o somos donos do real, mas espectadores e actores a viver no palco do mist\u00e9rio. A realidade n\u00e3o se desvenda numa \u00fanica chave, nem \u00e9 um dado que se submete ao nosso dom\u00ednio, mas um enigma que se oferece \u00e0 nossa liberdade numa sinfonia de imensas tonalidades. Diante de n\u00f3s, abrem-se tr\u00eas grandes \u201cmanuscritos\u201d simultaneamente: o livro da Natureza, escrito em metamorfoses e ciclos; o livro da Hist\u00f3ria, tecido de gl\u00f3rias e ru\u00ednas; e o livro da Cultura, povoado de s\u00edmbolos e narrativas. L\u00ea-los exige mais do que a raz\u00e3o instrumental; exige a humildade do aprendiz que aceita ser interpelado, que aceita ser questionado pela pergunta primordial: &#8220;Onde est\u00e1s?&#8221;. Ao contemplarmos esta tr\u00edplice manifesta\u00e7\u00e3o, percebemos que o ef\u00e9mero \u00e9 porta para o eterno e que o s\u00f3lido se dissolve em gasoso para nos lembrar do voo espiritual.<\/p>\n<p>A natureza n\u00e3o \u00e9 mero cen\u00e1rio passivo, mas met\u00e1fora viva da vida cultural e individual. Em cada bi\u00f3topo, em cada ecossistema coexistente, pulsa um enigma que nos interpela. Tudo se torna sinal e imagem, um puzzle c\u00f3smico cuja solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 dada, mas proposta como um chamamento misterioso dirigido \u00e0 humanidade e \u00e0 pr\u00f3pria Terra. Investigar a natureza \u00e9, assim, um imperativo hermen\u00eautico, porque a natureza tem algo essencial a dizer-nos, se nos dispusermos a escut\u00e1-la para al\u00e9m do ru\u00eddo superficial da utilidade.<\/p>\n<p>Tal como as pessoas, a natureza ostenta, \u00e0 primeira vista, uma harmonia aparente. Mas essa harmonia, tal como a refina\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter humano, s\u00f3 se revela verdadeiramente na profundidade do tempo e da observa\u00e7\u00e3o atenta que ultrapassa o imediato e o cronol\u00f3gico. O ser humano assume, ent\u00e3o, o papel de observador, an\u00e1logo ao amante da arte que contempla um quadro. Olha para ele, n\u00e3o para o possuir, mas para se deixar interpelar pelas camadas de sentido que ele esconde. Na natureza, descobrimos os mesmos enigmas que fil\u00f3sofos e artistas, de Oriente a Ocidente, tentaram desvendar. A natureza \u00e9, simultaneamente, sonho e realidade concretizada, v\u00e9u e epifania.<\/p>\n<p>Somos todos alunos do Todo. Ao observar a natureza, o ser humano procura organiz\u00e1-la e abord\u00e1-la nos diferentes n\u00edveis, f\u00edsico, biol\u00f3gico, est\u00e9tico, espiritual, sem excluir nenhum, se quiser que a sua leitura seja verdadeiramente integral. Nesse movimento, oscilamos entre o autorretrato (microcosmo que somos) e a vis\u00e3o do cosmos (macrocosmo). Como na teia de Indra (onde as filosofias hindu\u00edsta e budista procura ilustrar a interconex\u00e3o de todo o universo), onde cada ser reflete todos os outros e o mist\u00e9rio do Todo pulsa em cada fra\u00e7\u00e3o do mundo. Atrav\u00e9s de narrativas, filos\u00f3ficas, cient\u00edficas ou po\u00e9ticas, tentamos encontrar-nos a n\u00f3s pr\u00f3prios no \u00e2mbito do todo, desejando sempre seguir o caminho ideal (o <em>Tao<\/em> que se faz caminho na filosofia chinesa baseada na harmonia com o universo e\u00a0 ensina a viver com naturalidade, aceita\u00e7\u00e3o e sem resist\u00eancia, numa atitude de &#8220;n\u00e3o a\u00e7\u00e3o&#8221; ou da mera viv\u00eancia do momento presente) e, ao participar nos sinais dos tempos, represent\u00e1-los da forma mais plena poss\u00edvel. Na vertente do Ocidente o caminho ideal permanece no chamamento mais pr\u00f3ximo do Humano na pessoa de Jesus Cristo, como prot\u00f3tipo para toda a humanidade e cria\u00e7\u00e3o no \u201cEu sou o caminho a verdade a vida\u201d!<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, nesse ponto, oferece uma intui\u00e7\u00e3o luminosa, verdadeiramente cat\u00f3lica, ao afirmar que a Revela\u00e7\u00e3o n\u00e3o se encerra num \u00fanico livro pois ela transcende a palavra discurso. Ela desdobra-se em tr\u00eas grandes manifesta\u00e7\u00f5es, ou seja, a Revela\u00e7\u00e3o contida na Escritura de que Jesus Cristo \u00e9 o prot\u00f3tipo (mais que uma cultura, discurso ou livro), a Revela\u00e7\u00e3o presente na Natureza e a Revela\u00e7\u00e3o inscrita na Hist\u00f3ria. Cada uma delas exige dedica\u00e7\u00e3o e humildade; caso contr\u00e1rio, seguimos a narrativa superficial que nos desvia do caminho, escravizada pelos l\u00edderes e pelos seus interesses m\u00edopes. Todas elas, por\u00e9m, ecoam no fundo do Homem e da humanidade a mesma pergunta inicial e fundadora que \u00e9: <em>\u00abAd\u00e3o, onde est\u00e1s?\u00bb<\/em> e a mesma resposta silenciosa que nos convoca a todos na intui\u00e7\u00e3o do <em>\u00abEstou mais al\u00e9m; segue-Me.\u00bb<\/em> A natureza, a hist\u00f3ria e a cultura tornam-se, assim, o lugar teof\u00e2nico onde Deus nos interpela e onde somos chamados a transcender-nos.<\/p>\n<p>Infelizmente, a tenta\u00e7\u00e3o da simplifica\u00e7\u00e3o \u00e9 enorme. Esquecemos toda a faixa de cores do arco-\u00edris para seguirmos a redu\u00e7\u00e3o manique\u00edsta do preto e branco de uma l\u00f3gica meramente dial\u00e9tica dos opostos como em Marx. Destru\u00edmos, com isso, as complexas estruturas coloridas das liga\u00e7\u00f5es e perdemo-nos na m\u00e1scara pura da realidade, contentando-nos com uma perce\u00e7\u00e3o primitiva. A \u00abgravidade\u00bb do olhar naturalista prende-nos \u00e0 crosta do imediato, impedindo-nos de ascender \u00e0 leveza do esp\u00edrito. Para tentar compreender o insond\u00e1vel, o mist\u00e9rio, \u00e9 necess\u00e1rio captar, de forma puramente perspectivista, o car\u00e1ter ef\u00e9mero do espa\u00e7o e do tempo; de contr\u00e1rio, tornamo-nos v\u00edtimas dessa gravidade que nos afasta da harmonia do todo que \u00e9 aperspectivo; aquela harmonia que se encontra em paralelo nas diversas revela\u00e7\u00f5es que a chamada realidade aplicada esconde, embora pretenda justamente conduzir-nos \u00e0 Realidade \u00faltima.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente nesse ponto que a natureza se nos oferece como s\u00edmbolo din\u00e2mico do apelo vol\u00e1til, que corresponde \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o do s\u00f3lido em l\u00edquido e do l\u00edquido em gasoso; isto n\u00e3o \u00e9 mero fen\u00f3meno f\u00edsico, mas met\u00e1fora e indica\u00e7\u00e3o do percurso do material para o espiritual. Assim como as \u00e1rvores florescem nas suas flores e frutos, tamb\u00e9m o corpo do ser humano floresce no espiritual. O nosso desenvolvimento n\u00e3o pode limitar-se a uma adapta\u00e7\u00e3o passiva aos gostos ef\u00e9meros da \u00e9poca. Tamb\u00e9m a literatura \u00e9 chamada a fazer mais do que apenas tornar-se a narrativa do esp\u00edrito do tempo; ela deve ser profecia, mem\u00f3ria e abertura ao transcendente.<\/p>\n<p>Tudo isto deve, por\u00e9m, acontecer num campo aberto, onde o ser humano, as ci\u00eancias, os povos e as na\u00e7\u00f5es n\u00e3o se limitem ao primeiro impulso de se definirem a si pr\u00f3prios por oposi\u00e7\u00e3o ao outro. Urge uma cultura de perce\u00e7\u00e3o diferente, alimentada por novas imagens profundas, para que n\u00e3o vivamos constantemente num clima de tempestade e para que ousemos criar, finalmente, uma cultura de paz. Estamos incompletos, tal como o mundo; a nossa voca\u00e7\u00e3o mostra-nos o caminho numa realidade que n\u00e3o \u00e9 meramente circular, mas aberta ao novo, como formulou o cristianismo.<\/p>\n<p>Somos, simultaneamente, observadores, actores e realiza\u00e7\u00e3o. \u201cNo princ\u00edpio era o Verbo e o Verbo fez-se carne\u201d, para que, pela carne, regressemos ao Esp\u00edrito. N\u00e3o podemos deixar-nos prender nem fascinar pelos fogos de artif\u00edcio da cultura, mas sim tentar ver o que est\u00e1 por detr\u00e1s deles: a chama eterna que os alimenta, o \u201csou o que sou, sou o tornar-se\u201d que no Monte Horeb n\u00e3o quis receber nome para anunciar-se como processo no prot\u00f3tipo Jesus Cristo. O nosso caminho reside no mist\u00e9rio de uma terra obscurecida, mas n\u00e3o abandonada. Estamos todos na oficina do real, aprendizes humildes da realidade, num processo inacabado de busca da Verdade. A luz da inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos faltar\u00e1, tal como o sol que, inexoravelmente, brilha sobre a Terra e sobre cada criatura que nela habita, convidando-nos a participar, com toda a cria\u00e7\u00e3o, no desenvolvimento do mundo e da hist\u00f3ria, seguindo o apelo misterioso que nos chama para Al\u00e9m.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\nTe\u00f3logo e Pedagogo Social<br \/>\nPegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os enigmas dos chamamentos Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo A natureza, a hist\u00f3ria e a cultura s\u00e3o a tela onde o divino nos chama a situar-nos Vivemos suspensos entre o indiz\u00edvel e o vis\u00edvel. 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