{"id":11061,"date":"2026-06-20T13:36:13","date_gmt":"2026-06-20T12:36:13","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11061"},"modified":"2026-06-20T14:12:26","modified_gmt":"2026-06-20T13:12:26","slug":"a-europa-que-se-quer-unica-e-se-divide-numa-geopolitica-do-norte-contra-a-diplomacia-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11061","title":{"rendered":"A EUROPA QUE SE QUER UNA E SE DIVIDE NUMA GEOPOL\u00cdTICA DO NORTE CONTRA A DIPLOMACIA DO SUL"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>A lucidez de Ant\u00f3nio Costa entre a oposi\u00e7\u00e3o da E3 e os interesses negligenciados do Sul<\/strong><\/p>\n<pre><em>\u00c0 laia de resumo deste ensaio: A Europa, que se quer casa comum, n\u00e3o pode tolerar que alguns inquilinos se julguem senhores do lar. A velha diplomacia portuguesa ensina que o poder n\u00e3o se mede pela for\u00e7a do punho, mas pela largura do olhar, aquele olhar universalista de quem, sentado no extremo do continente, v\u00ea o mundo como um todo, n\u00e3o como um tabuleiro de xadrez dividido entre vencedores e vencidos. Quem s\u00f3 ouve Berlim e Paris, escuta o eco do poder; quem ouve Lisboa, escuta a voz da raz\u00e3o.<\/em><\/pre>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A iniciativa do presidente do Conselho Europeu, Ant\u00f3nio Costa, de abrir canais diplom\u00e1ticos com Moscovo n\u00e3o foi um mero gesto protocolar. Foi um teste \u00e0 coes\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia e o resultado do teste foi revelador. <strong>Ao tentar estabelecer contacto com o Kremlin para avaliar a disponibilidade russa para negocia\u00e7\u00f5es, Costa exp\u00f4s uma fratura que h\u00e1 muito se adivinhava, mas raramente se assumia em p\u00fablico: a Europa n\u00e3o fala a uma s\u00f3 voz, nem sabe bem quem deve falar por ela. O que \u00e9 mais grave ainda \u00e9 a Europa n\u00e3o se mostrar disposta a ouvir todas as suas vozes porque o grupo E3 (Alemanha, Inglaterra e Fran\u00e7a) pretende ser a voz da Europa e opem-se veementemente \u00e0 tentativa de Ant\u00f3nio Costa, Presidente do Conselho Europeu, de preparar rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com Moscovo.<\/strong><\/p>\n<p>O que est\u00e1 verdadeiramente em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas o protocolo diplom\u00e1tico ou a oportunidade pol\u00edtica de um contacto telef\u00f3nico. <strong>O que est\u00e1 em causa \u00e9 a pr\u00f3pria natureza do projeto europeu, a tens\u00e3o entre as suas tradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, a anglo-sax\u00f3nica e a latina e a persistente dificuldade em conciliar os interesses de um continente que se quer unido mas que continua a ser gerido por uma l\u00f3gica de pesos e contrapesos onde nem todos os pesos s\u00e3o iguais.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O E3 e a pretens\u00e3o de um poder moral<\/strong><\/p>\n<p>Fran\u00e7a, Alemanha e Reino Unido, o chamado grupo E3, reuniram-se em Londres com Volodymyr Zelensky para delinear as condi\u00e7\u00f5es para uma paz \u201cjusta e duradoura\u201d. <strong>O formato E3, segundo o chanceler alem\u00e3o Friedrich Merz, teria sido criado \u201ca pedido expresso da Ucr\u00e2nia\u201d. Mas esta justifica\u00e7\u00e3o, por mais leg\u00edtima que seja, n\u00e3o esconde uma realidade mais inc\u00f3moda que \u00e9 o facto de o grupo E3 se arrogar a si n\u00e3o apenas o poder econ\u00f3mico e militar, mas tamb\u00e9m um poder moral que, na pr\u00e1tica, funciona como uma esp\u00e9cie de colonialismo mental sobre os restantes Estados-membros.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Quando Macron e Merz criticaram a iniciativa de Costa, argumentaram que o momento ainda n\u00e3o era o certo para dialogar com Putin e que, quando esse momento chegasse, deveria ser o E3 a liderar.<\/strong> <strong>Mas quem lhes confere esse direito? O tratado europeu \u00e9 claro quanto ao papel do presidente do Conselho Europeu: \u00e9 o \u201crepresentante natural\u201d dos interesses do bloco.<\/strong> <strong>Costa, como ex-primeiro-ministro portugu\u00eas, n\u00e3o age por capricho ou por vaidade pessoal; age dentro das suas compet\u00eancias institucionais. A rea\u00e7\u00e3o de Merz e Macron revela menos uma preocupa\u00e7\u00e3o com o protocolo do que com a perda de controlo sobre o processo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A geopol\u00edtica do Norte contra a diplomacia do Sul<\/strong><\/p>\n<p><strong>A oposi\u00e7\u00e3o a Costa reflete duas vis\u00f5es antag\u00f3nicas da pol\u00edtica externa europeia. De um lado, a tradi\u00e7\u00e3o anglo-sax\u00f3nica, que v\u00ea o mundo em termos de poder, de alian\u00e7as militares e de vit\u00f3rias estrat\u00e9gicas. Do outro, a tradi\u00e7\u00e3o latina e, dentro dela, a velha escola diplom\u00e1tica portuguesa; que privilegia o di\u00e1logo, a media\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o de pontes, mesmo com advers\u00e1rios.<\/strong><\/p>\n<p>Costa defendeu a sua posi\u00e7\u00e3o com clareza: \u201cN\u00e3o podemos depender apenas de outros para interpretar as mensagens russas\u201d. O seu objetivo era \u201cestabelecer um canal diplom\u00e1tico\u201d para, \u201cquando chegar o momento, defender os interesses da UE\u201d. N\u00e3o se tratava de mediar, nem de substituir os Estados Unidos, nem de abrir uma via negocial paralela. Tratava-se, simplesmente, de garantir que a Europa tem uma linha direta com Moscovo, em vez de depender de terceiros para saber o que o Kremlin pensa.<\/p>\n<p>Esta abordagem, que qualquer diplomata experiente consideraria elementar, foi recebida com f\u00faria por Berlim e Paris. Um diplomata do E3 chegou ao ponto de classificar a iniciativa como \u201caltamente pouco profissional\u201d. Outros l\u00edderes, como o primeiro-ministro est\u00f3nio, rejeitaram liminarmente a necessidade de \u201ccanais alternativos\u201d com \u201cditadores\u201d. A mensagem \u00e9 clara: para o n\u00facleo duro europeu, a diplomacia s\u00f3 \u00e9 leg\u00edtima quando gerida por quem se considera no direito de a gerir.<\/p>\n<p><strong>Os pa\u00edses que apoiam Costa e a raz\u00e3o do seu apoio<\/strong><\/p>\n<p>Mas Costa n\u00e3o est\u00e1 isolado. A Irlanda e a Let\u00f3nia pronunciaram-se a favor da sua lideran\u00e7a. A B\u00e9lgica, na voz do primeiro-ministro Bart De Wever, apoiou-o publicamente: \u201c\u00c9s o \u00fanico que nos pode representar\u201d. A Eslov\u00e9nia saudou \u201cquaisquer passos que possam levar \u00e0 cessa\u00e7\u00e3o das hostilidades\u201d. Uma fonte oficial europeia referiu mesmo que \u201cum n\u00famero enorme\u201d de Estados-membros apoiou a posi\u00e7\u00e3o de Costa.<\/p>\n<p>Porque raz\u00e3o estes pa\u00edses, muitos deles pequenos ou perif\u00e9ricos, se colocam ao lado de Costa? <strong>Porque veem nele a possibilidade de uma Europa que n\u00e3o \u00e9 apenas o prolongamento dos interesses franco-alem\u00e3es. Veem nele a esperan\u00e7a de que a diplomacia n\u00e3o se resuma \u00e0 l\u00f3gica da ind\u00fastria b\u00e9lica, de que a paz n\u00e3o seja apenas uma palavra vazia e de que os interesses do Sul, <\/strong>onde a guerra parece distante, mas os seus custos s\u00e3o quotidianos, possam finalmente ser ouvidos.<\/p>\n<p><strong>Os custos da guerra e o or\u00e7amento dos sacrif\u00edcios<\/strong><\/p>\n<p>A pergunta que Costa, conscientemente ou n\u00e3o, colocou no centro do debate \u00e9 simples, mas inc\u00f3moda! <strong>Por que raz\u00e3o os Estados do Sul teriam de cortar nas presta\u00e7\u00f5es sociais, nos servi\u00e7os de sa\u00fade, na educa\u00e7\u00e3o e no bem-estar das suas popula\u00e7\u00f5es para financiar uma pol\u00edtica de confronto que beneficia sobretudo os interesses industriais e militares do Norte?<\/strong> A Uni\u00e3o Europeia est\u00e1 a pagar um pre\u00e7o elevado pela guerra na Ucr\u00e2nia, um pre\u00e7o que, como sempre, \u00e9 suportado de forma desigual.<\/p>\n<p><strong>Enquanto Berlim e Paris lideram a ret\u00f3rica da vit\u00f3ria \u201ccuste o que custar\u201d, s\u00e3o os cidad\u00e3os do Sul, com os seus sal\u00e1rios mais baixos e os seus Estados sociais mais fr\u00e1geis, que sentem na pele o impacto da infla\u00e7\u00e3o, do aumento do custo de vida e da press\u00e3o or\u00e7amental para aumentar as despesas com defesa.<\/strong> A unidade da Europa, na vis\u00e3o do E3, serve os interesses do E3. A solidariedade europeia, na pr\u00e1tica, tem um programa muito preciso.<\/p>\n<p><strong>A velha pol\u00edtica portuguesa e o futuro da Europa<\/strong><\/p>\n<p><strong>Costa, ao estender as suas antenas em dire\u00e7\u00e3o a Moscovo sem consultar previamente as pot\u00eancias do E3, n\u00e3o cometeu um ato de indisciplina. O que cometeu foi um ato de lucidez, pois recordou \u00e0 Europa que a diplomacia n\u00e3o se faz apenas com san\u00e7\u00f5es e com amea\u00e7as.<\/strong> Recordou que Portugal, pa\u00eds situado na extremidade ocidental da Europa, longe do centro belicoso do continente, tem uma tradi\u00e7\u00e3o de media\u00e7\u00e3o entre o Norte e o Sul, entre a Europa e o mundo. <strong>Esta posi\u00e7\u00e3o tomou-a Portugal ao fundar a escola de Sagres em torno do infante D. Henrique, adiantando-se a uma Europa tamb\u00e9m ela na altura embrenhada em guerras.<\/strong><\/p>\n<p>A velha pol\u00edtica portuguesa, aquela que nos ensinou que \u00e9 poss\u00edvel dialogar com advers\u00e1rios sem capitular, que \u00e9 poss\u00edvel construir pontes sem abdicar de princ\u00edpios, tem muito para ensinar a uma Europa que parece ter esquecido as virtudes da diplomacia e parece renegar a sua heran\u00e7a cultural. Costa n\u00e3o prop\u00f4s uma rendi\u00e7\u00e3o, o que prop\u00f4s, foi que a Europa recuperasse o seu papel de actor diplom\u00e1tico aut\u00f3nomo, em vez de se limitar a seguir a agenda de Washington ou a dos seus pr\u00f3prios membros mais poderosos.<\/p>\n<p><strong>A Europa que queremos perante a Europa que temos<\/strong><\/p>\n<p>A Europa enfrenta uma escolha fundamental. Pode continuar a ser gerida por um n\u00facleo duro de pa\u00edses do Norte que ditam a agenda e esperam que os restantes obede\u00e7am. Ou pode redescobrir-se como um projeto verdadeiramente plural, onde a voz de Lisboa vale tanto como a de Berlim, onde a tradi\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica do Sul \u00e9 t\u00e3o valiosa como o poder militar do Norte, e onde a paz n\u00e3o \u00e9 uma concess\u00e3o aos inimigos, mas uma exig\u00eancia dos povos.<\/p>\n<p>A iniciativa de Costa foi criticada como \u201cdescoordenada\u201d e \u201cn\u00e3o profissional\u201d. Mas certamente foi a mais profissional de todas: a de um diplomata que sabe que o sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 uma estrat\u00e9gia e que a guerra n\u00e3o se vence apenas no campo de batalha. O E3 quer sentar-se \u00e0 mesa? Que se sente. Mas que n\u00e3o pretenda ocupar todos os lugares. A Europa tem 27 cadeiras. Est\u00e1 na altura de as ocupar todas.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\n<\/strong>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A lucidez de Ant\u00f3nio Costa entre a oposi\u00e7\u00e3o da E3 e os interesses negligenciados do Sul \u00c0 laia de resumo deste ensaio: A Europa, que se quer casa comum, n\u00e3o pode tolerar que alguns inquilinos se julguem senhores do lar. A velha diplomacia portuguesa ensina que o poder n\u00e3o se mede pela for\u00e7a do punho, &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11061\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">A EUROPA QUE SE QUER UNA E SE DIVIDE NUMA GEOPOL\u00cdTICA DO NORTE CONTRA A DIPLOMACIA DO SUL<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[15,14,7,8,16],"tags":[],"class_list":["post-11061","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura","category-economia","category-politica","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11061","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=11061"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11061\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11066,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11061\/revisions\/11066"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=11061"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=11061"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=11061"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}