{"id":11045,"date":"2026-06-17T13:42:52","date_gmt":"2026-06-17T12:42:52","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11045"},"modified":"2026-06-17T13:46:21","modified_gmt":"2026-06-17T12:46:21","slug":"a-redescoberta-de-cabo-verde-pelo-futebol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11045","title":{"rendered":"A REDESCOBERTA DE CABO VERDE PELO FUTEBOL"},"content":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria tem destas coisas inteligentes que \u00e9 nunca se deixar encerrar numa s\u00f3 narrativa, por vezes confinada pelos grandes. Para ser verdadeiramente fiel \u00e0 cronologia e a uma consci\u00eancia sempre reavivada, a Hist\u00f3ria serve-se, tamb\u00e9m da FIFA para mostrar o mundo na perspectiva de um outro jogo. Foi assim com a Isl\u00e2ndia, redescoberta no Europeu de 2016 e no Mundial de 2018, e depois compensada com uma vaga de turismo que transformou o pa\u00eds. Agora, chegou a hora de Cabo Verde.<\/p>\n<p>No dia 13 de outubro de 2025, os &#8220;Tubar\u00f5es Azuis&#8221; escreveram a p\u00e1gina mais bonita da sua hist\u00f3ria desportiva. Ao vencer o Essuat\u00edni por 3-0, no Est\u00e1dio Nacional da Cidade da Praia, a sele\u00e7\u00e3o cabo-verdiana garantiu, pela primeira vez, um lugar no Campeonato do Mundo da FIFA. Com golos de Livramento, Semedo e Stopira, o pa\u00eds insular liderou o Grupo D das eliminat\u00f3rias africanas, superando a favorita Camar\u00f5es. Uma conquista ainda mais not\u00e1vel se considerarmos que Cabo Verde, com os seus cerca de 525 mil habitantes, se torna, depois da Isl\u00e2ndia, o pa\u00eds menos populoso de sempre a marcar presen\u00e7a num Mundial. O governo local declarou at\u00e9 toler\u00e2ncia de ponto para que todo o pa\u00eds pudesse apoiar os seus her\u00f3is.<\/p>\n<p>Este feito desportivo ecoa, de forma po\u00e9tica, a pr\u00f3pria hist\u00f3ria do arquip\u00e9lago. Cabo Verde foi descoberto em 1460 por Diogo Gomes e Ant\u00f3nio da Noli, ao servi\u00e7o do Infante D. Henrique. Quando chegaram, as ilhas estavam habitadas apenas por aves e vegeta\u00e7\u00e3o selvagem, sem qualquer ind\u00edcio de presen\u00e7a humana anterior. A primeira ilha a ser descoberta foi a de Santiago, e em 1462 teve in\u00edcio o povoamento, com a funda\u00e7\u00e3o da Ribeira Grande, hoje Cidade Velha, a primeira cidade europeia nos tr\u00f3picos. Durante s\u00e9culos, o arquip\u00e9lago foi um ponto estrat\u00e9gico nas rotas do Atl\u00e2ntico, mas permaneceu, durante muito tempo, uma realidade distante no imagin\u00e1rio global.<\/p>\n<p>O paralelismo com a Isl\u00e2ndia \u00e9 inevit\u00e1vel. Tal como os islandeses, os cabo-verdianos provaram que a grandeza n\u00e3o se mede pelo tamanho do territ\u00f3rio ou pela popula\u00e7\u00e3o, mas pela for\u00e7a da vontade e pela uni\u00e3o de um povo. A Isl\u00e2ndia foi redescoberta no campeonato das na\u00e7\u00f5es e depois foi recompensada com muito turismo; o mesmo haver\u00e1 de contar-se para Cabo Verde.<\/p>\n<p>Agora que o futebol recolocou Cabo Verde no mapa do mundo, \u00e9 tempo de olhar para os seus filhos que, tal como os navegadores de outrora, partiram \u00e0 procura de um futuro melhor. A comunidade cabo-verdiana em Portugal \u00e9 uma das mais expressivas e antigas, com cerca de 48 mil residentes legais s\u00f3 com nacionalidade cabo-verdiana, um n\u00famero que ultrapassa largamente os 100 mil se contarmos os naturalizados e descendentes. A impress\u00e3o que muitos t\u00eam dos cabo-verdianos em Portugal \u00e9 que s\u00e3o pessoas ordeiras e religiosas, trabalhando elas como empregadas dom\u00e9sticas e nos lares de idosos, e eles nas obras. No entanto, a realidade que muitos enfrentam \u00e9 dura pois as dificuldades no acesso \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o laboral e a incerteza de viver em situa\u00e7\u00e3o irregular.<\/p>\n<p>Cabo Verde, no que toca \u00e0 emigra\u00e7\u00e3o, manifesta grandes semelhan\u00e7as com Portugal. Como pa\u00eds tamb\u00e9m de imigrantes, que acolhe cada vez mais cidad\u00e3os da \u00c1frica Ocidental, Europa e \u00c1sia, Portugal teria, em consci\u00eancia, o dever de beneficiar e privilegiar os migrantes das antigas col\u00f3nias\/prov\u00edncias ultramarinas, promovendo mais constru\u00e7\u00f5es que lhes facilite o viver. Afinal, a l\u00edngua e a hist\u00f3ria comum s\u00e3o pontes que n\u00e3o podem ser ignoradas e, a partir da multipolaridade da mesma l\u00edngua, at\u00e9 poderia ser o incentivo para se formar dos pa\u00edses lus\u00f3fonos um novo polo num mundo geopol\u00edtico que se est\u00e1 a orquestrar.<\/p>\n<p>Portugal tem de mostrar intelig\u00eancia nas prioridades que coloca, mesmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se deixar levar por pol\u00edticas meramente econ\u00f3micas de Bruxelas. Naturalmente, a acentua\u00e7\u00e3o da prioridade da imigra\u00e7\u00e3o para migrantes que provenham de pa\u00edses lus\u00f3fonos seria um passo l\u00f3gico e humano. Parab\u00e9ns aos cabo-verdianos que mostram o progresso em que se encontram empenhados, tamb\u00e9m no futebol. Que a redescoberta de Cabo Verde pelo desporto seja o pren\u00fancio de uma redescoberta mais profunda, a descoberta de um povo que, tal como a sua sele\u00e7\u00e3o, merece um lugar de destaque no palco do mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria tem destas coisas inteligentes que \u00e9 nunca se deixar encerrar numa s\u00f3 narrativa, por vezes confinada pelos grandes. Para ser verdadeiramente fiel \u00e0 cronologia e a uma consci\u00eancia sempre reavivada, a Hist\u00f3ria serve-se, tamb\u00e9m da FIFA para mostrar o mundo na perspectiva de um outro jogo. 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