{"id":11041,"date":"2026-06-16T09:12:37","date_gmt":"2026-06-16T08:12:37","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11041"},"modified":"2026-06-16T09:14:41","modified_gmt":"2026-06-16T08:14:41","slug":"o-empate-de-cabo-verde-espanha-que-abalou-atlanta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11041","title":{"rendered":"O EMPATE DE CABO VERDE\/ESPANHA QUE ABALOU ATLANTA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>A Alma feminina no Cora\u00e7\u00e3o do Futebol masculino e o Aviso a Portugal a reflectir a Lusofonia<\/strong><\/p>\n<p>Por Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/p>\n<p>O cron\u00f3metro do Mundial de Atlanta parecia ter engolido a l\u00f3gica. Quando o \u00e1rbitro apitou, o painel electr\u00f3nico gritava um zero a zero que n\u00e3o era apenas um resultado, mas um terramoto s\u00edsmico no Olimpo do futebol. A Espanha, colosso de t\u00edtulos e dona de uma posse de bola hipn\u00f3tica, saiu de campo engolida pelo sil\u00eancio; do outro lado, Cabo Verde, essa na\u00e7\u00e3o de 500 mil almas e 64.\u00ba lugar no ranking FIFA, celebrava o maior sucesso da sua hist\u00f3ria desportiva.<\/p>\n<p>Este empate n\u00e3o pode ser reduzido a uma anedota estat\u00edstica, pelo significado que tem. Ele \u00e9, na realidade, um poema \u00e9pico, um manifesto e, acima de tudo, um aviso cerrado a Portugal.<\/p>\n<p>Enquanto as grandes na\u00e7\u00f5es, intoxicadas pelo &#8220;direito divino&#8221; de vencer, se transformam em v\u00edtimas da sua pr\u00f3pria megalomania falhada, consumindo treinadores e atirando culpas ao vento, as pequenas na\u00e7\u00f5es ensinam a li\u00e7\u00e3o mais pura do desporto e Portugal \u00e9 mestre nisto. O treinador cabo-verdiano, Pedro Leit\u00e3o Brito, resumiu essa filosofia imortal antes do apito inicial ao dizer: \u00abN\u00e3o viemos aqui apenas para participar, viemos aqui para nos medirmos\u00bb<em>. <\/em>E mediram-se, mostrando criatividade, ritmo e uma alma indom\u00e1vel que suplantara o medo. Cabo Verde n\u00e3o jogou com a obsess\u00e3o do resultado; jogou com a arte de existir (aquele desejo natural do arbusto de tamb\u00e9m ele poder ser bafejado pelos raios do sol que brilha nas \u00e1rvores grandes.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o retrato do &#8220;Golias&#8221; moderno: Alemanha e Espanha, presas na armadura do favoritismo, esquecem-se que o futebol \u00e9 feito de p\u00e9s, mas vive de cora\u00e7\u00f5es. Se o triunfo f\u00e1cil corrompe, a luta pode dignificar. Um Cabo Verde feliz \u00e9 um Cabo Verde unido.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A Ora\u00e7\u00e3o de Cura\u00e7\u00e3o e o Princ\u00edpio feminino do Desporto<\/strong><\/p>\n<p>A noite de Atlanta ainda nos trouxe uma outra li\u00e7\u00e3o, ainda mais profunda, nos arredores do campo onde a Alemanha vencia Cura\u00e7\u00e3o com soberania (1-7). Para os olhos do mundo, uma goleada, mas para a mem\u00f3ria do cora\u00e7\u00e3o e para os olhos do mundo foi uma pequena rebeli\u00e3o. Os jogadores de Cura\u00e7\u00e3o perderam no marcador, mas venceram na eternidade.<\/p>\n<p>No seu jogo aconteceu o sublime. Ap\u00f3s o apito final, o alem\u00e3o Felix Nmecha, autor do primeiro golo germ\u00e2nico na competi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se dirigiu ao t\u00fanel para celebrar. Em vez disso, reuniu-se com os advers\u00e1rios de Cura\u00e7\u00e3o, e junto com alguns, ergueram os bra\u00e7os e rezaram juntos. Ao faz\u00ea-lo, Nmecha proferiu palavras que deveriam ser inscrevidas nos port\u00f5es de cada est\u00e1dio do mundo: \u00abNo jogo somos advers\u00e1rios e, depois, todos crist\u00e3os e irm\u00e3os. Queremos futebol com vis\u00e3o!\u00bb<\/p>\n<p>Eis onde o texto pretende chegar: Felix Nmecha, naquele gesto, n\u00e3o praticou apenas desporto masculino, a for\u00e7a, a penetra\u00e7\u00e3o, a estrat\u00e9gia b\u00e9lica do ataque e defesa. Ele juntou o princ\u00edpio masculino da luta e da competi\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio feminino que habita a alma do jogo: a comunh\u00e3o, a empatia, a religa\u00e7\u00e3o espiritual e a mem\u00f3ria afetiva. A mistura ajuda a vida e, sem d\u00favida, o bom viver.<\/p>\n<p>E isto, at\u00e9 porque, o futebol, tal como a vida, \u00e9 um grande teatro. Antes de a pe\u00e7a come\u00e7ar, os actores cruzam-se nos bastidores; carregam consigo a alma do povo, e essa alma \u00e9 profundamente feminina. Ela \u00e9 o \u00fatero onde germina a criatividade, a intui\u00e7\u00e3o que antecipa o passe, a ternura que transforma o rival em irm\u00e3o. Quando o corpo (masculino) e o esp\u00edrito (feminino) se alinham, as for\u00e7as multiplicam-se. Os jogadores de Cabo Verde e Cura\u00e7\u00e3o n\u00e3o corriam apenas com m\u00fasculos; corriam com o sentimento profundo das suas di\u00e1sporas, espalhadas pelo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Apelo \u00e0 Lusofonia: Uma Matriz masculino-feminina<\/strong><\/p>\n<p>E Portugal com os estados lus\u00f3fonos n\u00e3o podem perder-se na encruzilhada hist\u00f3rica. S\u00f3 juntos poder\u00e3o tornar-se num polo relevante no xadrez geopol\u00edtico \u00a0multipolar a desenhar-se.<\/p>\n<p>Cabo Verde n\u00e3o empatou com a Espanha por acaso. Foi um sinal dos tempos, um espelho levantado \u00e0 antiga metr\u00f3pole. Portugal tem vivido encostado ao &#8220;Mamon&#8221; da Uni\u00e3o Europeia, de olhos postos na tecnocracia, na burocracia e no euro, enquanto os seus irm\u00e3os lus\u00f3fonos navegam desgarrados no Atl\u00e2ntico e no \u00cdndico, e n\u00f3s nos esquecemos da nossa miss\u00e3o hist\u00f3rica comum.<\/p>\n<p>A Lusofonia n\u00e3o pode ser apenas uma linha geogr\u00e1fica ou um passado comum. Deve ser uma matriz social nova, onde o esp\u00edrito masculino e o esp\u00edrito feminino se fundem na \u00e2nsia de formar uma na\u00e7\u00e3o de cora\u00e7\u00f5es unidos. \u00c9 tempo de Portugal olhar para Cabo Verde e ver n\u00e3o um parceiro ao lado, mas um parceiro de alma e com a mesma alma. \u00c9 tempo de perceber que, tal como no futebol, o talento brota quando os olhos da sociedade se viram para os seus talentos, independentemente do tamanho do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Que o empate em Atlanta sirva de epifania e que a ora\u00e7\u00e3o ecum\u00e9nica de Nmecha sirva de rito de passagem. Precisamos de um futebol com vis\u00e3o, mas tamb\u00e9m de uma pol\u00edtica com alma. Abandonemos a megalomania est\u00e9ril das grandes pot\u00eancias e abracemos a riqueza da pequenez unida. Corpo e alma, masculino e feminino, Portugal e a sua di\u00e1spora, Portugal e os pa\u00edses seus irm\u00e3os, todos unidos no mesmo ritmo crioulo.<\/p>\n<p>E viva a LUSOFONIA! Que ela seja a na\u00e7\u00e3o de afetos conectados na mesma l\u00edngua, que transcende os resultados e onde cada empate \u00e9 uma vit\u00f3ria do esp\u00edrito humano.<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Alma feminina no Cora\u00e7\u00e3o do Futebol masculino e o Aviso a Portugal a reflectir a Lusofonia Por Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo O cron\u00f3metro do Mundial de Atlanta parecia ter engolido a l\u00f3gica. 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