{"id":11024,"date":"2026-06-13T21:16:58","date_gmt":"2026-06-13T20:16:58","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11024"},"modified":"2026-06-13T21:16:58","modified_gmt":"2026-06-13T20:16:58","slug":"o-oleo-da-discordia-alimentada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11024","title":{"rendered":"O \u00d3LEO DA DISC\u00d3RDIA ALIMENTADA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Para al\u00e9m das Trincheiras do Racismo<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um cheiro p\u00fatrido no discurso p\u00fablico contempor\u00e2neo. Cheira a queimado, a achas lan\u00e7adas para uma fogueira que j\u00e1 arde h\u00e1 s\u00e9culos, mas que agora, sob o pretexto de a apagar, se aviva com redobrado furor. Vivemos numa sociedade que se diz cuidada, mas que se alimenta da disc\u00f3rdia como um moinho de vento que m\u00f3i gr\u00e3os vazios, com muito ru\u00eddo, muita farinha, mas nenhum p\u00e3o que nutra a pessoa ou a sociedade. <strong>O paradoxo \u00e9 cruel pois quanto mais se fala em descrimina\u00e7\u00e3o e toler\u00e2ncia, mais se cavam trincheiras; quanto mais ativistas combatem o racismo, mais se refor\u00e7a a l\u00f3gica manique\u00edsta que o sustenta.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ora, \u00e9 preciso dizer o que a cortesia medi\u00e1tica e o ativismo de cheque em branco teimam em ocultar, dado que o racismo n\u00e3o \u00e9 branco nem preto.<\/strong> Esta afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um eufemismo nem uma tentativa de branqueamento (ou enegrecimento) de responsabilidades. <strong>\u00c9 uma constata\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica elementar: o bem e o mal n\u00e3o s\u00e3o propriedades de uma pele, mas qualidades inatas de cada pessoa. A diferen\u00e7a entre comportamentos justos e injustos reside na mobiliza\u00e7\u00e3o, por parte de cada indiv\u00edduo em circunst\u00e2ncias espec\u00edficas, das energias negativas ou positivas que todos, sem excep\u00e7\u00e3o, carregamos dentro de n\u00f3s. Nenhum grupo \u00e9tnico det\u00e9m o monop\u00f3lio da virtude, como nenhum grupo det\u00e9m o da culpa original nem da inoc\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Contudo, o discurso dominante, alimentado por interesses pol\u00edticos, jornal\u00edsticos e at\u00e9 bem-intencionados, imp\u00f4s um discurso moral simplista: de um lado, os racistas (sempre os outros, sempre os que se podem carimbar) e do outro, os anti-racistas (sempre n\u00f3s, sempre os puros de cora\u00e7\u00e3o).<\/strong> <strong>Esta catalogiza\u00e7\u00e3o em gavetas onde n\u00e3o cabem pessoas reais \u00e9 o pr\u00f3prio veneno que se diz combater.<\/strong> Racista \u00e9 o stempel, o carimbo branco (ou preto) que surge do racismo e alimenta o racismo<strong>. \u00c9 uma arma de distra\u00e7\u00e3o para a pol\u00edtica, um \u00f3leo que lubrifica a m\u00e1quina da indigna\u00e7\u00e3o seletiva.<\/strong> Vitimiza\u00e7\u00e3o e irrita\u00e7\u00e3o caminham de m\u00e3os dadas e, cada qual, escolhe as suas refer\u00eancias como quem escolhe um uniforme.<\/p>\n<p><strong>O grande equ\u00edvoco dos chamados \u201cactivistas anti-racistas\u201d \u00e9 confundirem, de uma maneira geral, a livre express\u00e3o das ideias com o insulto racista.<\/strong> <strong>Navegam \u00e1guas rancorosas do \u00f3dio, ainda que se julguem anjos, e encontram nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social amplificadores d\u00f3ceis para o seu formato de pensamento. Ao fazerem isso, enquadram o discurso numa moral inquisitorial onde a diverg\u00eancia se torna crime, a nuance vira cumplicidade, e o esp\u00edrito cr\u00edtico, esse sim, o maior advers\u00e1rio de qualquer totalitarismo, \u00e9 varrido para a fogueira dos \u201cnegacionistas\u201d ou dos \u201cinsens\u00edveis\u201d.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A sociedade encontra-se, assim, num dilema perverso: de um lado, os racistas declarados ou latentes; do outro, os que se julgam chamados a combater o racismo com o mesmo ardor maligno que combatem nos racistas. E o resultado \u00e9 que ambos chafurdam na agress\u00e3o que brota do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o.<\/strong> Em vez de contribu\u00edrem para uma sociedade mais tolerante e inclusiva, limitam-se a atirar achas para a fogueira da intoler\u00e2ncia. <strong>O anti-racismo radical, quando se torna dogm\u00e1tico e censor, deixa de ser um rem\u00e9dio para se transformar numa doen\u00e7a g\u00e9mea.<\/strong><\/p>\n<p>O pior cen\u00e1rio, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 apenas o debate de opini\u00f5es degradado a insulto. \u00c9 a instrumentaliza\u00e7\u00e3o das leis para punir discursos envenenados e perversos sob o manto da virtude. <strong>Quando o Estado e os seus bra\u00e7os medi\u00e1ticos entram neste jogo, a censura ganha rosto de justi\u00e7a, e a sociedade perde a sua capacidade de se purificar pelo debate. <\/strong>Voltemos aos tempos em que tudo era mais real, n\u00e3o porque n\u00e3o houvesse racismo, mas porque os argumentos ainda tinham lugar antes das agress\u00f5es an\u00f3nimas que hoje surgem na nuvem, onde qualquer an\u00f3nimo se arma em anjo da guarda e em juiz implac\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Uma cultura de paz verdadeira, que n\u00e3o se limite a slogans, deveria preocupar-se mais com o autoconhecimento do que com a cataloga\u00e7\u00e3o do outro<\/strong>. \u00c9 o autoconhecimento que produz compreens\u00e3o e \u00e9 a compreens\u00e3o que produz inclus\u00e3o. Enquanto projetarmos nos outros o racismo que trazemos em n\u00f3s, enquanto virmos no olhar alheio a trave \u00a0que n\u00e3o queremos ver no nosso pr\u00f3prio olho, nenhuma lei, nenhuma campanha, nenhuma indigna\u00e7\u00e3o transmitida em direto nos salvar\u00e1 da hipocrisia.<\/p>\n<p>O discurso sobre a toler\u00e2ncia n\u00e3o deve ser uma disputa entre posi\u00e7\u00f5es absolutas e dogm\u00e1ticas. Deve centrar-se na an\u00e1lise concreta dos conte\u00fados e na qualidade dos argumentos. <strong>A estrat\u00e9gia da indigna\u00e7\u00e3o, que favorece tantos interesses instalados, \u00e9 degradante e despropositada. Ela transforma o sofrimento real dos outros em espet\u00e1culo e a luta contra a discrimina\u00e7\u00e3o num mercado de virtudes.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 tabu menosprezar pessoas pelo que s\u00e3o ou fazem, e mais ainda pelo que dizem. <strong>Menosprezar algu\u00e9m pela cor da pele (branca ou negra), pela idade, pelo g\u00e9nero ou pela origem \u00e9tnico-racial \u00e9 uma viol\u00eancia prim\u00e1ria que nenhuma sofistica\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica pode justificar. No entanto, tamb\u00e9m \u00e9 tabu, ou deveria ser, usar essa viol\u00eancia como moeda de troca para silenciar o dissenso, para rotular advers\u00e1rios, para construir carreiras pol\u00edticas ou medi\u00e1ticas sobre as costas dos que sofrem.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A sa\u00edda deste impasse n\u00e3o est\u00e1 em escolher trincheiras, mas em abandon\u00e1-las.<\/strong> Est\u00e1 em reconhecer que cada ser humano \u00e9 uma constela\u00e7\u00e3o de luz e sombra, e que a diferen\u00e7a entre um comportamento racista e um comportamento fraterno n\u00e3o est\u00e1 na cor da pele, mas na decis\u00e3o, que \u00e9 sempre pessoal e sempre situada, de mobilizar as energias positivas em vez das negativas. Enquanto nos agarrarmos \u00e0 ilus\u00e3o de que o mal est\u00e1 sempre no outro, continuaremos a transportar \u00e1gua para moinhos que moem, mas n\u00e3o alimentam. E o p\u00e3o da verdadeira inclus\u00e3o que produz a paz social, continuar\u00e1 por amassar.<\/p>\n<p><strong>Ter uma cor, um sotaque ou uma hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 pedir uma gaveta, \u00e9 pedir um olhar. E a prova de que as diferen\u00e7as n\u00e3o dividem \u00e9 a experi\u00eancia que fazem muitos emigrantes. Tamb\u00e9m eu, quando estou em Portugal, vejo com alegria o car\u00e1cter racional e claro alem\u00e3o; quando estou na Alemanha, sinto com saudade o jeito de ser e sentir mais po\u00e9tico de Portugal. O preconceito \u00e9 a incapacidade de caber no mesmo peito duas p\u00e1trias.\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\n<\/strong>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para al\u00e9m das Trincheiras do Racismo H\u00e1 um cheiro p\u00fatrido no discurso p\u00fablico contempor\u00e2neo. 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