{"id":11022,"date":"2026-06-13T13:42:47","date_gmt":"2026-06-13T12:42:47","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11022"},"modified":"2026-06-13T13:42:47","modified_gmt":"2026-06-13T12:42:47","slug":"portugal-e-o-nevoeiro-europeu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11022","title":{"rendered":"PORTUGAL E O NEVOEIRO EUROPEU"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em>N\u00e3o pergunteis quando deixar\u00e3o as elites de atrai\u00e7oar a alma portuguesa: os avisos de Cam\u00f5es, Garrett e Vieira perderam-se no tempo e o mar ainda espera quem o entenda.<\/em><\/p>\n<p><strong>Por Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Vivemos um momento axial da hist\u00f3ria, um daqueles per\u00edodos de viragem em que as placas tect\u00f3nicas da geopol\u00edtica global se movem e reconfiguram o mapa do poder. No entanto, ao olharmos para a Europa atual, o que vemos \u00e9 um continente imerso num denso nevoeiro cultural e estrat\u00e9gico. Iludida pelo brilho do dinheiro e cega pela obsess\u00e3o do poder material, que se expressa no &#8220;Mamon&#8221; dos nossos tempos, a Uni\u00e3o Europeia parece querer despedir-se de si mesma, esquecendo a sua matriz humanista original e a soberania inalien\u00e1vel da pessoa humana. E Portugal, infelizmente, tem-se deixado arrastar por esta entropia decadente, refugiando-se numa passividade burocr\u00e1tica que atrai\u00e7oa a sua voca\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de seguir o chamamento universalista contra o Imp\u00e9rio de Mamon.<\/p>\n<p>Para compreendermos como o nosso pa\u00eds chegou a este estado de esvaziamento, \u00e9 preciso puxar o fio de uma &#8220;meada&#8221; liter\u00e1ria e prof\u00e9tica que h\u00e1 s\u00e9culos nos avisa sobre este perigo. No s\u00e9culo XVI, Lu\u00eds de Cam\u00f5es encerrou <em>Os Lus\u00edadas<\/em> com uma admoesta\u00e7\u00e3o severa aos reis, criticando a cobi\u00e7a e a burocracia que j\u00e1 ent\u00e3o cegavam a na\u00e7\u00e3o. No s\u00e9culo XVII, o Padre Ant\u00f3nio Vieira desenhou na sua <em>Hist\u00f3ria do Futuro<\/em> o horizonte do &#8220;Quinto Imp\u00e9rio&#8221;, onde resumia um des\u00edgnio que n\u00e3o se media pela for\u00e7a das armas, mas pela universalidade do esp\u00edrito, da l\u00edngua e do encontro ecum\u00e9nico. J\u00e1 no s\u00e9culo XIX, Almeida Garrett, no drama <em>Frei Lu\u00eds de Sousa<\/em>, encenou a nossa maior trag\u00e9dia identit\u00e1ria atrav\u00e9s da figura d&#8217;O Romeiro. Ao regressar ao lar e ver que o seu lugar fora ocupado, D. Jo\u00e3o de Portugal assume-se como &#8220;Ningu\u00e9m&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Esse &#8220;Ningu\u00e9m&#8221; de Garrett tornou-se a met\u00e1fora perfeita para o Portugal contempor\u00e2neo. A forma atabalhoada e cega como o pa\u00eds se desligou das suas antigas col\u00f3nias ap\u00f3s o 25 de Abril de 1974, ao entregar esses povos e territ\u00f3rios, \u00e0 pressa, ao xadrez bipolar da Guerra Fria (URSS e EUA), revelou um pa\u00eds que queimara os seus pr\u00f3prios retratos e ignorara os seus profetas. Em vez de fundar uma comunidade transcontinental e horizontal com a Lusofonia, Portugal escolheu &#8220;encostar-se&#8221; ao redil europeu em troca de fundos estruturais, diluindo a sua singularidade estatal e tornando-se um &#8220;Ningu\u00e9m&#8221; institucional na periferia de Bruxelas.<\/strong><\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo Agostinho da Silva, por\u00e9m, ensinou-nos que a despossess\u00e3o material de Portugal n\u00e3o tinha de ser uma trag\u00e9dia, mas sim a condi\u00e7\u00e3o para a nossa verdadeira liberta\u00e7\u00e3o. Para Agostinho, numa perspetiva cat\u00f3lica, a alma portuguesa realiza-se na ren\u00fancia \u00e0 posse e na celebra\u00e7\u00e3o da fraternidade. A Lusofonia, hoje com uma l\u00edngua assumidamente pluric\u00eantrica, \u00e9 o laborat\u00f3rio dessa nova era.<\/p>\n<p><strong>Mas como pode Portugal reatar um di\u00e1logo s\u00e9rio e consequente com este Sul Global?<\/strong><\/p>\n<p>A resposta exige uma decis\u00e3o decisiva e audaz nas inst\u00e2ncias europeias. Portugal s\u00f3 recuperar\u00e1 a sua relev\u00e2ncia internacional se assumir na Uni\u00e3o Europeia uma posi\u00e7\u00e3o autenticamente europeia, no seu pleno significado geogr\u00e1fico e cultural: uma vis\u00e3o que inclua a R\u00fassia e promova uma pol\u00edtica de irmandade continental. Ao defender uma ponte estrat\u00e9gica com Moscovo, Portugal n\u00e3o s\u00f3 ajuda a libertar a Europa do seu atual impasse e da cultura de guerra, como adquire a autoridade moral e a centralidade atl\u00e2ntica necess\u00e1rias para se ligar, com for\u00e7a renovada, ao Sul Global e aos pa\u00edses lus\u00f3fonos.<\/p>\n<p>Neste momento de transi\u00e7\u00e3o civilizacional, Portugal tem o dever de se erguer como o portador das grandes heran\u00e7as que moldaram a Europa: a espiritualidade judaico-crist\u00e3, a jurisprud\u00eancia e administra\u00e7\u00e3o romanas, e a filosofia grega. Isto n\u00e3o para impor um novo imp\u00e9rio, mas para ser o timoneiro de uma cultura da paz. \u00c9 tempo de rasgar o nevoeiro, rejeitar o pragmatismo cinzento dos novos atores da geopol\u00edtica expresso na domin\u00e2ncia arrogante anglo-sax\u00f3nica e recordar ao mundo que o verdadeiro tamanho de uma na\u00e7\u00e3o se mede pelo seu humanismo e pela defesa de uma autoridade humana e sadia que reconhe\u00e7a a dignidade de cada pessoa.<\/p>\n<p>Nem Cam\u00f5es, nem Garrett, nem Vieira!&#8230; Os avisos dos escritores n\u00e3o entram no cora\u00e7\u00e3o das elites. <strong>Por isso a alma portuguesa continuar\u00e1 a ressoar no mar, s\u00f3, como um sino de naufr\u00e1gio, at\u00e9 que um dia, cansados de esperar por quem nunca ouve, resolvamos todos, de baixo para cima, ensaiar o projeto universal portugu\u00eas numa pol\u00edtica finalmente virada para a Lusofonia<\/strong>.<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo \u00a9<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o pergunteis quando deixar\u00e3o as elites de atrai\u00e7oar a alma portuguesa: os avisos de Cam\u00f5es, Garrett e Vieira perderam-se no tempo e o mar ainda espera quem o entenda. 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