{"id":1102,"date":"2007-11-17T10:21:00","date_gmt":"2007-11-17T09:21:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1102"},"modified":"2007-11-17T10:21:00","modified_gmt":"2007-11-17T09:21:00","slug":"turquia-possivel-cavalo-de-troia-da-uniao-europeia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1102","title":{"rendered":"Turquia poss\u00edvel cavalo de Troia da Uni\u00e3o Europeia?"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"texto\">                    <b>Acordo desigual entre as fronteiras geog\u00e1ficas e as fronteiras culturais<\/b><\/p>\n<p>A Turquia, \u00e0 porta da Europa, foi aceite em 1997 como poss\u00edvel candidata \u00e0 UE e passou a candidata oficial em 1999. A Comiss\u00e3o Europeia recomendou que se iniciassem negocia\u00e7\u00f5es de ades\u00e3o e, em Dezembro passado, os chefes de estado europeus e os chefes de governo ratificaram a proposta para uma calendariza\u00e7\u00e3o das negocia\u00e7\u00f5es no sentido duma poss\u00edvel integra\u00e7\u00e3o nos pr\u00f3ximos 15 anos.<br \/>O Comiss\u00e1rio Europeu Gunter Verheugen, um alem\u00e3o respons\u00e1vel pelo relat\u00f3rio apresentado \u00e0 Comiss\u00e3o, na linha da esquerda europeia, n\u00e3o v\u00ea obst\u00e1culo ao ingresso no que respeita ao cumprimento dos crit\u00e9rios democr\u00e1ticos e de justi\u00e7a de Estado na Turquia.Os partidos conservadores, advogando o estatuto de apenas parceria privilegiada entre a Turquia e a UE conseguiram modifica\u00e7\u00f5es no relat\u00f3rio, de maneira a possibilitarem a suspens\u00e3o das negocia\u00e7\u00f5es ao longo do processo.<\/p>\n<p>Longe duma vista real, a recomenda\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio parte de algumas reformas turcas realizadas mais no papel, e que n\u00e3o convencem; possibilita por\u00e9m teoricamente a revis\u00e3o de promessas imprudentes feitas \u00e0 Turquia por parte dos pol\u00edticos da UE em tempos passados.<\/p>\n<p>Por sua vez o Primeiro Ministro turco Erdogan, comprometido com os mais conservadores isl\u00e2micos tenta vender gato por lebre a europeus desacautelados ou comprometidos. As contradi\u00e7\u00f5es que o acompanham ao longo da sua carreira pol\u00edtica s\u00e3o carater\u00edsticas para a causa que defende na qualidde de representante duma nova Turquia. A n\u00edvel privado comprova tamb\u00e9m o seu maquieaveliso ao mandar as suas duas filhas estudar para o estrangeiro pelo facto de lhes ser pro\u00edbido o uso do len\u00e7o nas universidades turcas. Erdogan argumenta que a Turquia n\u00e3o \u00e9 livre ao proibir o uso do len\u00e7o, calando as raz\u00f5es bem \u00f3bvias dessa proibi\u00e7\u00e3o.<br \/>Tem-se a impress\u00e3o  de que nenhuma das partes p\u00f5e as cartas na mesa.<br \/>O processo modernizador iniciado na Turquia por Ataturk h\u00e1 80 anos se se tem mantido, deve-se \u00e0 ac\u00e7\u00e3o moderadora do aparelho militar, garante da heran\u00e7a de Ataturk, e aos interesses da OTAN na Turquia como membro estrat\u00e9gico nos tempos da guerra fria.<br \/>O empenho da esquerda alem\u00e3 na defesa da causa turca complicar\u00e3o o processo europeu.<\/p>\n<p>Quem vive na Alemanha chega a ter a impress\u00e3o de que esta n\u00e3o querer ficar sozinha com o problema turco. Depois de 30 anos de presen\u00e7a turca na Alemanha os problemas s\u00f3 t\u00eam aumentado atendendo a que n\u00e3o se integram socialmente.Os ghettos estabilizam-se \u00e0 volta das suas mesquitas numa sociedade paralela imperme\u00e1vel bastante bem organizada que se afirma na contraposi\u00e7\u00e3o. Este problema sentido por grande parte da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 considerado tabu pela classe pol\u00edtica. A n\u00edvel econ\u00f3micoe a Alemnha j\u00e1 se encontra preparada e inserida na Turquia. A t\u00e1tica de conten\u00e7\u00e3o na cr\u00edtica ao mundo isl\u00e2mico abre o neg\u00f3cio \u00e0s firmas de pa\u00edses fortes nos pa\u00edses do petr\u00f3leo. Esta n\u00e3o \u00e9 por\u00e9m a situa\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses da UE mais fracos que n\u00e3o est\u00e3o preparados para a concorr\u00eancia de mercado, al\u00e9m disso a UE n\u00e3o se pode orientar apenas por raz\u00f5es econ\u00f3micas.<\/p>\n<p>As raz\u00f5es advogadas pela esquerda alem\u00e3 na defesa da entrada da Turquia como mera medida preventiva de defesa estrat\u00e9gica da UE e como esperan\u00e7a duma moderniza\u00e7\u00e3o do mundo isl\u00e2mico atrav\u00e9s da porta traseira turca mostram boa inten\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que de boa inten\u00e7\u00f5es est\u00e1 o Inferno cheio e quem ganha com os votos da popula\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica s\u00e3o os partidos de esquerda at\u00e9 que aquela organize os seus pr\u00f3prios partidos. Na Alemanha vivem j\u00e1 tr\u00eas milh\u00f5es e meio de mu\u00e7ulmanos. A entrada da Turquia na EU tem um potencial dez milh\u00f5es de emigrantes para a Alemanha, no dizer de especialistas. A Turquia seria o pa\u00eds da Europa com mais habitantes.<br \/>A cren\u00e7a numa adapta\u00e7\u00e3o for\u00e7ada da Turquia ignora a sua hist\u00f3ria. Enquanto que politicamente a Europa se compreende como uma sociedade secular de valores, sem religi\u00e3o de prefer\u00eancia, a sociedade turca compreende-se como uma sociedade isl\u00e2mica sem separa\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e conduta de vida. O isl\u00e3o determina no pormenor a vida individual, privada, familiar e social; mais que uma mundivis\u00e3o \u00e9 uma pol\u00edtica. N\u00e3o h\u00e1 agir pol\u00edtico sem motiva\u00e7\u00e3o religiosa e esta \u00e9 intolerante perante as outras culturas. A religi\u00e3o (Cor\u00e3o e scharia) \u00e9 o fundamento legitimador de todo o agir e n\u00e3o qualquer Constitui\u00e7\u00e3o, para mais ditada por \u201cinfi\u00e9is\u201d. <b>O processo \u00e9 prematuro.<\/b> A UE n\u00e3o se pode reduzir \u00e0 elite pol\u00edtica e econ\u00f3mica; tamb\u00e9m ela n\u00e3o est\u00e1 preparada para se defrontar com valores constitutivos inquestion\u00e1veis duma sociedade isl\u00e2mica ainda na Idade M\u00e9dia e al\u00e9rgica ao estado laico. <b>A integra\u00e7\u00e3o total da Turquia na UE nos pr\u00f3ximos quarenta anos corresponderia \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o do cavalo de Troia no sistema laicista da UE.<\/b> Estou certo que esta situa\u00e7\u00e3o acordaria uma religiosidade latente na sociedade europeia que, ao sentir-se questionada na sua identidade e na g\u00e9nese dos seus valores, correria tamb\u00e9m ela o perigo recorrer ao militantismo religioso como garante de identidade&#8230;Talvez a vontade pol\u00edtica agora expressa mais n\u00e3o seja do que a express\u00e3o de desorienta\u00e7\u00e3o e o desejo inconsciente duma mudan\u00e7a radical, para uma sociedade cada vez mais decadente que precisa de um aban\u00e3o exterior para se poder reorientar. Dum certo ponto de vista tamb\u00e9m isto se poderia considerar positivo, o problema seria a quest\u00e3o do pre\u00e7o a pagar.<br \/><b>S\u00f3 quem n\u00e3o conhece a realidade isl\u00e2mica na sua componente filos\u00f3fica, antropol\u00f3gico-sociol\u00f3gica poder\u00e1, de \u00e1nimo leve, tomar uma posi\u00e7\u00e3o claramente favor\u00e1vel. <\/b>A realidade \u00e9 que o mundo \u00e1rabe, o mundo isl\u00e2mico define a sua identidade atrav\u00e9s duma religi\u00e3o comunit\u00e1ria atrav\u00e9s dos seus estados ou nos ghettos nas regi\u00f5es em que se encontram em minoria e n\u00e3o atrav\u00e9s de fronteiras geogr\u00e1ficas.<br \/>Actualmente as na\u00e7\u00f5es europeias encontram-se num processo de transfer\u00eancia das suas fronteiras naturais para as fronteiras geogr\u00e1ficas da UE. Com a entrada da Turquia n\u00e3o se trataria apenas dum alargamento da fronteira geogr\u00e1fica mas sim dum salto qualitativo que implicaria a supera\u00e7\u00e3o mesmo das fronteiras culturais de que os mu\u00e7ulmanos n\u00e3o abdicam.<br \/><b>A autocompreens\u00e3o turca, como revelam estudos, n\u00e3o cabe ainda em categorias geogr\u00e1ficas e econ\u00f3micas porque ela \u00e9 ainda meramente religiosa.<\/b> Estamos perante duas linhas de tradi\u00e7\u00e3o, duas fronteiras de espa\u00e7os culturais. Enquanto que a cultura crist\u00e3 com a sua doutrina de que o seu \u201creino n\u00e3o \u00e9 deste mundo\u201d pressup\u00f5e uma cultura aberta podendo os indiv\u00edduos integrar-se em todas as formas de Estado j\u00e1 o mesmo se n\u00e3o d\u00e1 com o isl\u00e3o que se baseia n\u00e3o no indiv\u00edduo mas na comunidade pol\u00edtica de caracter hegem\u00f3nico, nisto se baseia tamb\u00e9m a t\u00e1tica de guerrilha pr\u00f3pria das sociedades mu\u00e7ulmanas ao longo da hist\u00f3ria. Quem n\u00e3o f\u00f4r paciente e n\u00e3o aceitar esta realidade desperta ressentimentos adormecidos numa \u00e9poca em que a UE se encontra num processo de transfer\u00eancia das fronteiras de espa\u00e7o geogr\u00e1fico para o espa\u00e7o cultural.<br \/>O processo de integra\u00e7\u00e3o europeia e a legitima\u00e7\u00e3o duma identidade nascente na UE ser\u00e3o questionadas e desequilibradas por uma outra cultura em que religi\u00e3o e pol\u00edtica se identificam. <b>Numa \u00e9poca em que a identidade europeia n\u00e3o se encontra ainda est\u00e1vel e em que a religi\u00e3o crist\u00e3 se encontra \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o seria question\u00e1vel, em contrapartida, a imposi\u00e7\u00e3o duma cultura religiosa reguladora da ac\u00e7\u00e3o humana a todos os n\u00edveis. <\/b><br \/>Atendendo a que at\u00e9 hoje n\u00e3o houve nenhum debate s\u00e9rio sobre a integra\u00e7\u00e3o da Turquia na UE e considerando o antagonismo e a incompatibilidade dos dois sistemas de valores, neste momento da hist\u00f3ria, o m\u00ednimo que se exigiria seria que os pol\u00edticos de todos os estados submetessem a entrada da Turquia a um referendo tal como defende diplomaticamente o presidente franc\u00eas para a fran\u00e7a. O melhor para os pa\u00edses latinos e \u00e1rabes seria que<b> o desenvolvimento da sociedade isl\u00e2mica viesse a possibilitar uma UE tamb\u00e9m abrangente de toda a \u00e1rea do antigo imp\u00e9rio romano<\/b>. Doutra maneira continuar\u00e1 a cimentar-se a posi\u00e7\u00e3o deficit\u00e1ria dos pa\u00edses latinos na sequ\u00eancia duma luta cultural (Kulturkampf) iniciada no s\u00e9culo 15 e que deu o predom\u00ednio aos pa\u00edses n\u00f3rdicos.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo                   <\/span><\/p>\n<div align=\"right\"> <span class=\"texto\"><b>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/b> <\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acordo desigual entre as fronteiras geog\u00e1ficas e as fronteiras culturais A Turquia, \u00e0 porta da Europa, foi aceite em 1997 como poss\u00edvel candidata \u00e0 UE e passou a candidata oficial em 1999. 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