{"id":10911,"date":"2026-04-25T11:25:21","date_gmt":"2026-04-25T10:25:21","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10911"},"modified":"2026-04-25T11:25:21","modified_gmt":"2026-04-25T10:25:21","slug":"celebracao-do-25-de-abril-entre-festa-da-nacao-e-disputa-ideologica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10911","title":{"rendered":"CELEBRA\u00c7\u00c3O DO 25 DE ABRIL ENTRE FESTA DA NA\u00c7\u00c3O E DISPUTA IDEOL\u00d3GICA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>A marca deixada pela transi\u00e7\u00e3o das antigas prov\u00edncias ultramarinas para a esfera de influ\u00eancia sovi\u00e9tica e norte-americana<\/strong><\/p>\n<p>A celebra\u00e7\u00e3o do 25 de Abril de 1974 reside numa encruzilhada de mem\u00f3rias, interesses pol\u00edticos e identidades culturais. Longe de ser um evento monol\u00edtico, a comemora\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos continua a ser um campo de batalha simb\u00f3lico onde se confrontam, por um lado, a aspira\u00e7\u00e3o a uma festa de afirma\u00e7\u00e3o nacional e, por outro, a instrumentaliza\u00e7\u00e3o do evento para fins partid\u00e1rios imediatos. Uma an\u00e1lise da g\u00eanese e do estado atual das comemora\u00e7\u00f5es, suportada por dados hist\u00f3ricos objetivos, permite evidenciar as virtudes e as contradi\u00e7\u00f5es inerentes \u00e0 forma como Portugal celebra a sua democracia. O 25 de Abril situa-se numa zona de tens\u00e3o permanente entre celebra\u00e7\u00e3o nacional, mem\u00f3ria traum\u00e1tica e instrumentaliza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. O bus\u00edlis da quest\u00e3o estar\u00e1 na express\u00e3o equilibrada dessa tens\u00e3o para o desenvolvimento de uma sociedade mais l\u00facida sem apropria\u00e7\u00f5es de esquerda ou de direita.<\/p>\n<p><strong>A Pol\u00edtica do Simbolismo entre Celebra\u00e7\u00e3o Nacional e Festa de Partidos<\/strong><\/p>\n<p>Do ponto de vista da ci\u00eancia pol\u00edtica, a apropria\u00e7\u00e3o de datas fundadoras \u00e9 uma pr\u00e1tica comum nos regimes democr\u00e1ticos, mas a an\u00e1lise emp\u00edrica do caso portugu\u00eas revela uma acentuada assimetria. O 25 de Abril proporcionou a Portugal a conquista da liberdade democr\u00e1tica, mas os padr\u00f5es de festejo atuais demonstram uma rutura perigosa: a diferen\u00e7a no tratamento do evento entre as for\u00e7as de esquerda e as de direita.<\/p>\n<p>De acordo com um levantamento exaustivo sobre as comemora\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas de 2026, os programas tendem a ser mais extensos e culturais nos munic\u00edpios liderados pela esquerda, enquanto nas c\u00e2maras da direita se observa um maior peso institucional e cerimonial, relegando frequentemente a data para o mero protocolo. Esta dicotomia evidencia que Abril deixou de ser um contrato social assente na palavra liberdade, transformando-se num trunfo ideol\u00f3gico mobilizado de forma assim\u00e9trica. A esquerda, sentindo-se detentora da mem\u00f3ria revolucion\u00e1ria socialista, promove uma festa de rua que refor\u00e7a a sua narrativa fundadora; parte da direita, por seu turno, tende a reduzir a data ao formalismo, como forma de sublimar o inc\u00f3modo hist\u00f3rico de uma revolu\u00e7\u00e3o que a desalojou do poder e a obrigou a adaptar-se ao novo regime.<\/p>\n<p>Contudo, o discurso pol\u00edtico oficial tende a ser vazio, autoreferencial e celebrat\u00f3rio tendendo a simplificar o processo hist\u00f3rico. (A revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi apenas um momento de liberta\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m o in\u00edcio de um per\u00edodo de instabilidade profunda, o Processo Revolucion\u00e1rio em Curso, marcado por confrontos ideol\u00f3gicos intensos e por uma persistente tentativa, em certos sectores, de reconfigurar o pa\u00eds segundo modelos revolucion\u00e1rios inspirados no marxismo, de que \u00e9 sombra o pr\u00f3logo da Constitui\u00e7\u00e3o que ainda considera o socialismo como meta e n\u00e3o como sociedade livre e aberta). Os apelos do Presidente da Rep\u00fablica para que as evoca\u00e7\u00f5es desta data sejam &#8220;mais doa\u00e7\u00e3o do que proclama\u00e7\u00e3o&#8221; e &#8220;mais futuro do que passado&#8221; s\u00e3o um sintoma de cansa\u00e7o relativamente \u00e0 liturgia repetitiva que domina a Assembleia da Rep\u00fablica. A festa, nestes moldes, serve mais os partidos que a na\u00e7\u00e3o, pois perpetua uma divis\u00e3o ideol\u00f3gica que impede o alargamento da celebra\u00e7\u00e3o a toda a sociedade portuguesa.<\/p>\n<p><strong>A Complexidade Da Mem\u00f3ria: A Dor dos Retornados e a Guerra do Ultramar<\/strong><\/p>\n<p>A fragilidade da narrativa oficial do 25 de Abril reside na sua tend\u00eancia para silenciar as mem\u00f3rias dissonantes. A aclama\u00e7\u00e3o da liberdade referenciada a um Abril s\u00f3 florido, se n\u00e3o for contextualizada, corre o risco de ser mal contada e de diluir os erros e a dor daqueles que foram v\u00edtimas da transi\u00e7\u00e3o. A an\u00e1lise demogr\u00e1fica e sociol\u00f3gica revela que, entre 1974 e 1976, Portugal recebeu cerca de 500 a 700 mil cidad\u00e3os portugueses vindos das ex-col\u00f3nias africanas durante o turbulento Processo Revolucion\u00e1rio em Curso (PREC).<\/p>\n<p>Estes &#8220;retornados&#8221; eram, na sua maioria, cidad\u00e3os que nasceram em \u00c1frica mas eram juridicamente portugueses, muitos com v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de fam\u00edlia no territ\u00f3rio ultramarino. A sua chegada a um pa\u00eds continental com apenas 10 milh\u00f5es de habitantes correspondeu a um aumento demogr\u00e1fico superior a 5% da popula\u00e7\u00e3o residente, o maior movimento migrat\u00f3rio for\u00e7ado da hist\u00f3ria contempor\u00e2nea portuguesa, com elevad\u00edssimos n\u00edveis de pobreza e desintegra\u00e7\u00e3o social. A integra\u00e7\u00e3o destas pessoas, bem como a dos militares que combateram no Ultramar, foi marcada por fric\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria e por uma n\u00e3o integra\u00e7\u00e3o do retorno na mem\u00f3ria coletiva nacional.<\/p>\n<p>Neste sentido, uma celebra\u00e7\u00e3o da liberdade que apenas exalta a queda do regime, mas omite erros e o drama dos soldados e dos civis desalojados pela descoloniza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o truncada. A liberdade genu\u00edna exige que se reconhe\u00e7a o custo humano do imp\u00e9rio e da sua brusca dissolu\u00e7\u00e3o ao \u00a0servi\u00e7o de uma ideologia extrema que influenciou o equil\u00edbrio geopol\u00edtico a favor das duas pot\u00eancias mundiais da altura.<\/p>\n<p><strong>A Geopol\u00edtica da Descoloniza\u00e7\u00e3o entre a Ideologia Nacional e o Jogo das Superpot\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>A an\u00e1lise cr\u00edtica negativa centra-se aqui na natureza diletante e apressada da descoloniza\u00e7\u00e3o portuguesa. A historiografia atual confirma que o processo de descoloniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi apenas um acto de justi\u00e7a ou de cumprimento da Carta da ONU, mas sobretudo um tabuleiro de xadrez da Guerra Fria. O PREC foi o per\u00edodo de instabilidade e luta pelo poder entre fac\u00e7\u00f5es de esquerda, que resultou em mais de um ano de incerteza econ\u00f3mica, social e institucional.<\/p>\n<p>A realidade geopolitica \u00e9 que as antigas col\u00f3nias (Angola e Mo\u00e7ambique) foram atiradas para guerras civis devastadoras que duraram d\u00e9cadas, nas quais a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e os Estados Unidos intervieram para apoiar movimentos sat\u00e9lites, em detrimento dos interesses das popula\u00e7\u00f5es locais, dos portugueses que ali residiam e em preju\u00edzo dos interesses de Portugal e de independ\u00eancias sem hegemonias partid\u00e1rias. A independ\u00eancia das col\u00f3nias n\u00e3o trouxe a paz imediata; pelo contr\u00e1rio, o fim do imp\u00e9rio em 1975 gerou uma redefini\u00e7\u00e3o for\u00e7ada das fronteiras e da identidade da na\u00e7\u00e3o, sem que houvesse um plano estruturado para mitigar os efeitos sociais e econ\u00f3micos.<\/p>\n<p>Contudo, uma an\u00e1lise positiva, partindo do mesmo facto, destaca a resili\u00eancia do pa\u00eds. A despeito da geringon\u00e7a ideol\u00f3gica do PREC, o pequeno Portugal conseguiu integrar meio milh\u00e3o de cidad\u00e3os, remodelando a sua estrutura social, educativa e empresarial com os quadros qualificados que chegaram de \u00c1frica. O caos da descoloniza\u00e7\u00e3o gerou o m\u00e9rito excecional da reintegra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O novo regime critica mas reproduz<\/strong><\/p>\n<p>Um dos pontos mais contestadores reside na ideia de que o sistema pol\u00edtico emergente do 25 de Abril, ao afirmar-se ideologicamente, pode ter reproduzido, ainda que sob formas diferentes, certas l\u00f3gicas de exclus\u00e3o e imposi\u00e7\u00e3o que atribu\u00eda ao regime anterior. N\u00e3o se trata de uma equival\u00eancia direta, mas de um alerta: qualquer sistema que se torne excessivamente dogm\u00e1tico corre o risco de limitar a pluralidade que diz defender.<\/p>\n<p><strong>Para uma Celebra\u00e7\u00e3o da Criatividade e da Unidade<\/strong><\/p>\n<p>A resolu\u00e7\u00e3o que evitaria o confronto narrativo seria a transi\u00e7\u00e3o para uma festa da vida, das regi\u00f5es e da liberdade criativa. Uma celebra\u00e7\u00e3o mais inclusiva poderia enfatizar dimens\u00f5es culturais, regionais e humanas em vez de privilegiar a interpreta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dominante. A liberdade, afinal, n\u00e3o \u00e9 monop\u00f3lio de uma ideologia; \u00e9 um valor plural, vivido de formas distintas por diferentes cidad\u00e3os. Esta vis\u00e3o parece encontrar eco na realidade actual; apesar das clivagens pol\u00edticas, multiplicam-se as iniciativas culturais, desportivas e art\u00edsticas de base local desde quando n\u00e3o peadas pelo car\u00e1cter celebrat\u00f3rio. \u00c9 confort\u00e1vel observar-se que em diversas escolas h\u00e1 uma movimenta\u00e7\u00e3o de associa\u00e7\u00f5es, escolas, coletividades e grupos culturais que exploram Abril como celebra\u00e7\u00e3o da vida, utilizando o teatro, a m\u00fasica e a literatura como ve\u00edculos de coes\u00e3o social, para al\u00e9m da dial\u00e9tica esquerda-direita.<strong><\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Resumindo<\/strong><\/p>\n<p>O 25 de Abril n\u00e3o pode ser, nem deve ser, territ\u00f3rio exclusivo de uma ideologia que d\u00ea a impress\u00e3o que a identidade portuguesa se reduz \u00e0 liberdade de Abril. Reduzir a festa a um desfile de partidos seria perpetuar as feridas do PREC e esquecer a na\u00e7\u00e3o e os retornados. A verdadeira celebra\u00e7\u00e3o da liberdade s\u00f3 ser\u00e1 plena quando conseguir integrar o m\u00e9ridto, os erros e a dor de Abril num verdadeiro patrim\u00f3nio da Na\u00e7\u00e3o. A sua celebra\u00e7\u00e3o ganha profundidade quando incorpora a complexidade: a liberta\u00e7\u00e3o e a dor, a esperan\u00e7a e a perda, o consenso e o conflito. S\u00f3 assim poder\u00e1 deixar de ser apenas um s\u00edmbolo ideol\u00f3gico e tornar-se, plenamente, um espa\u00e7o de encontro entre diferentes mem\u00f3rias e vis\u00f5es do pa\u00eds<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A marca deixada pela transi\u00e7\u00e3o das antigas prov\u00edncias ultramarinas para a esfera de influ\u00eancia sovi\u00e9tica e norte-americana A celebra\u00e7\u00e3o do 25 de Abril de 1974 reside numa encruzilhada de mem\u00f3rias, interesses pol\u00edticos e identidades culturais. 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