{"id":10905,"date":"2026-04-18T22:42:40","date_gmt":"2026-04-18T21:42:40","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10905"},"modified":"2026-04-18T22:43:08","modified_gmt":"2026-04-18T21:43:08","slug":"enquanto-a-europa-perde-o-passo-a-china-acelera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10905","title":{"rendered":"ENQUANTO A EUROPA PERDE O PASSO A CHINA ACELERA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Passar do espartilho da figura para a efic\u00e1cia do servi\u00e7o ao povo<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li><strong> O diagn\u00f3stico da paralisia europeia em contraste com o passado<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A Europa encontra-se, nesta fase da hist\u00f3ria, numa posi\u00e7\u00e3o paradoxal: nunca acumulou tantos recursos de conhecimento, nunca discursou tanto sobre o futuro e nunca esteve t\u00e3o emperrada. O que outrora foi ponta de lan\u00e7a das civiliza\u00e7\u00f5es, do m\u00e9todo cient\u00edfico ao Estado de direito, da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial \u00e0 integra\u00e7\u00e3o p\u00f3s-nacional, reduz-se hoje a um continente que marca passo, trope\u00e7ando at\u00e9 nas suas pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 de conte\u00fados. Muitos dos valores e princ\u00edpios que a Europa produziu continuam v\u00e1lidos: a separa\u00e7\u00e3o de poderes, a liberdade de investiga\u00e7\u00e3o, a protec\u00e7\u00e3o social, o humanismo cr\u00edtico. A quest\u00e3o est\u00e1 na linguagem e na forma de os tornar operativos. A linguagem tornou-se antiquada quando tenta evocar um passado glorioso sem o traduzir para os desafios presentes; e tornou-se verborreica quando se refugia em jarg\u00e3o sociopol\u00edtico, \u201cDefesa dos valores\u201d, \u201ctransi\u00e7\u00e3o justa\u201d, \u201csoberania estrat\u00e9gica\u201d, \u201cresili\u00eancia\u201d, que funciona menos como conceito operacional e mais como analg\u00e9sico discursivo para um povo distra\u00eddo. O resultado \u00e9 uma cultura pol\u00edtica que confunde intensidade declamat\u00f3ria com ac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> A li\u00e7\u00e3o inc\u00f3moda da China<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Critic\u00e1mos a China de maneira sobranceira, muitas vezes com raz\u00e3o, especialmente no que toca ao controlo comunista, \u00e0 aus\u00eancia de um cidad\u00e3o soberano no sentido ocidental e \u00e0 repress\u00e3o sistem\u00e1tica de liberdades fundamentais. Essa cr\u00edtica sobranceira impediu-nos de ver o \u00f3bvio: a China passou-nos a perna em sectores decisivos da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica, sobretudo nas tecnologias limpas.<\/p>\n<p>O caso do autom\u00f3vel el\u00e9ctrico \u00e9 exemplar. A ind\u00fastria europeia, protegida durante d\u00e9cadas por um <em>status quo<\/em> confort\u00e1vel de motores de combust\u00e3o, foi apanhada em contrap\u00e9. Enquanto o debate europeu se consumia em quotas de emiss\u00f5es e calend\u00e1rios de proibi\u00e7\u00e3o, a China produzia, escalava e baixava pre\u00e7os. Hoje, oferece ao seu cidad\u00e3o comum um ve\u00edculo el\u00e9ctrico acess\u00edvel, n\u00e3o por caridade, mas por planeamento industrial agressivo, economias de escala e uma l\u00f3gica que a Europa esqueceu: a de que a inova\u00e7\u00e3o sem penetra\u00e7\u00e3o de mercado \u00e9 mero exerc\u00edcio acad\u00e9mico.<\/p>\n<p>As pessoas e isto \u00e9 um facto emp\u00edrico, n\u00e3o um ju\u00edzo moral, querem comer e viver bem. N\u00e3o olham com rigor a quem as obriga, desde que as necessidades prim\u00e1rias estejam satisfeitas e haja perspectiva de melhoria. Este realismo elementar, que Maquiavel j\u00e1 entendia, continua a escapar \u00e0s elites europeias, demasiado ocupadas a gerir a sua pr\u00f3pria virtude sinalizadora.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong> A hipocrisia do controlo velado e dos discursos vazios<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A Europa sempre se prezou dos seus valores humanistas e do seu pioneirismo. Mas, paradoxalmente, nunca exerceu tanto controlo sobre as popula\u00e7\u00f5es como hoje; f\u00e1-lo de maneira mais sofisticada e aparentemente democr\u00e1tica. Onde a China usa um partido \u00fanico e uma arquitectura expl\u00edcita de vigil\u00e2ncia, a Europa usa regulamenta\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica, algoritmos de pontua\u00e7\u00e3o social disfar\u00e7ados de \u201can\u00e1lise de risco\u201d, condicionalidades de fundos europeus que moldam comportamentos, e uma correc\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que actua como censura difusa, sem necessidade de decretos.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 de ess\u00eancia, mas de estilo. O Ocidente aproxima-se perigosamente do sistema que critica, a n\u00edvel de controlo e influ\u00eancia da consci\u00eancia social. A diferen\u00e7a \u00e9 que o faz de maneira velada e hip\u00f3crita, de maneira a que a maioria das popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o se d\u00ea conta, porque as suas necessidades prim\u00e1rias encontram satisfa\u00e7\u00e3o. O cidad\u00e3o europeu m\u00e9dio, entretido com o acesso ao cr\u00e9dito, \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 conectividade digital, n\u00e3o percebe que o seu espa\u00e7o de dissentimento se estreitou tanto como o do chin\u00eas, apenas com verniz procedimental.<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong> A economia pol\u00edtica dos pre\u00e7os altos<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>H\u00e1 uma verdade inc\u00f3moda que raramente se enuncia: na Europa, quem conta primeiro a n\u00edvel de empreendimentos s\u00e3o as grandes empresas. O Estado e os seus governantes n\u00e3o est\u00e3o interessados em pre\u00e7os baixos para o povo, porque quanto mais caros s\u00e3o os produtos, mais o Estado ganha \u00e0 custa do povo que paga (IVA, impostos especiais de consumo, contribui\u00e7\u00f5es sociais embutidas nos pre\u00e7os). <\/strong>O sistema fiscal europeu \u00e9 progressivo na ret\u00f3rica, mas profundamente regressivo na pr\u00e1tica quando sobrecarrega o consumo de bens essenciais e de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica.<\/p>\n<p>A China, inversamente, usa o seu controlo estatal para for\u00e7ar pre\u00e7os baixos em sectores estrat\u00e9gicos, mesmo \u00e0 custa de margens e de concorr\u00eancia predat\u00f3ria externa. O resultado \u00e9 que o cidad\u00e3o chin\u00eas m\u00e9dio acede a tecnologias limpas, telecomunica\u00e7\u00f5es e infraestrutura a custos que o europeu considera irrealistas. Enquanto a Europa imp\u00f5e tarifas \u201canti-dumping\u201d ou regula\u00e7\u00f5es ambientais que funcionam como barreiras n\u00e3o pautais, est\u00e1 na realidade a proteger n\u00e3o o trabalhador, mas a inefici\u00eancia instalada e a captura de renda pelas grandes empresas que considera relevantes para o Estado.<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><strong> O futuro: aprender uns com os outros sem dogmas<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A tese final \u00e9 simples e inc\u00f3moda para ambos os lados: a China tem muito a aprender com a Europa em mat\u00e9ria de soberania do cidad\u00e3o, de garantias processuais e de pluralismo. Mas a Europa tem muito a aprender com a China em mat\u00e9ria de efic\u00e1cia executiva, de vis\u00e3o industrial de longo prazo e de coragem para subordinar interesses instalados ao bem-estar material da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O futuro em que todos aprendem uns dos outros n\u00e3o \u00e9 um futuro sem conflitos, \u00e9 um futuro sem posi\u00e7\u00f5es dogm\u00e1ticas. O dogma ocidental de que a democracia liberal \u00e9 condi\u00e7\u00e3o <em>sine qua non<\/em> para o desenvolvimento tecnol\u00f3gico est\u00e1 factualmente errado: a China desmentiu-o. O dogma chin\u00eas de que o controlo partid\u00e1rio \u00e9 compat\u00edvel com a inova\u00e7\u00e3o sustentada a longo prazo tamb\u00e9m enfrenta os seus limites, na demografia, na criatividade reprimida, na fuga de c\u00e9rebros.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica n\u00e3o deve emperrar as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f3mico-comerciais entre os povos, n\u00e3o por idealismo cosmopolita, mas por realismo: porque s\u00f3 assim se serve o povo. E servir o povo significa entregar resultados mensur\u00e1veis: poder de compra, esperan\u00e7a de vida, mobilidade social, acesso a tecnologia, liberdade efectiva de escolha. Qualquer sistema que se me\u00e7a apenas pela pureza dos seus princ\u00edpios, e n\u00e3o pelos seus efeitos, est\u00e1 condenado \u00e0 irrelev\u00e2ncia ou \u00e0 hipocrisia.<\/p>\n<p>A Europa ainda pode reivindicar o seu lugar como ponta de lan\u00e7a. Para isso, a elite europeia ter\u00e1 de abandonar a verborreia, baixar a sobranceria, e enfrentar uma verdade desconfort\u00e1vel: j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 ela s\u00f3 a ensinar; tamb\u00e9m ela tem de aprender. E aprender, para uma civiliza\u00e7\u00e3o que se quer humanista, \u00e9 o acto mais humilde e mais forte porque passa a caminhar com o povo sem perder a b\u00fassola da m\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passar do espartilho da figura para a efic\u00e1cia do servi\u00e7o ao povo O diagn\u00f3stico da paralisia europeia em contraste com o passado A Europa encontra-se, nesta fase da hist\u00f3ria, numa posi\u00e7\u00e3o paradoxal: nunca acumulou tantos recursos de conhecimento, nunca discursou tanto sobre o futuro e nunca esteve t\u00e3o emperrada. 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