{"id":10875,"date":"2026-03-23T15:05:14","date_gmt":"2026-03-23T14:05:14","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10875"},"modified":"2026-03-23T15:09:03","modified_gmt":"2026-03-23T14:09:03","slug":"a-viver-com-o-fado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10875","title":{"rendered":"A VIVER COM O FADO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">O Companheiro insepar\u00e1vel de Sombra e Luz que o Destino nos deu<\/p>\n<p>Se olharmos para a natureza com olhos atentos, descobrimos que nela tudo tende para a luz. Uma semente n\u00e3o germina antes de a terra estar pronta. Um rio n\u00e3o rompe a rocha pela for\u00e7a brusca, mas pela persist\u00eancia silenciosa de um fluxo que encontra o seu caminho. O inverno n\u00e3o se apressa para que a primavera chegue mais cedo. Cada esta\u00e7\u00e3o carrega o seu tempo, e o que n\u00e3o amadureceu no outono permanece como folha seca, n\u00e3o como falha, mas como mat\u00e9ria que a nova esta\u00e7\u00e3o transformar\u00e1 em adubo.<\/p>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, plantas e pessoas, que foram geradas nos primeiros anos de vida em lugares sombrios. O seu desenvolvimento parece ficar condicionado \u00e0 sombra origin\u00e1ria durante toda a exist\u00eancia, por muito sol exterior que tardiamente apare\u00e7a. At\u00e9 parece que cada um de n\u00f3s paga tributo pelo agir dos art\u00edfices que nos formaram.\u00a0 Isso n\u00e3o \u00e9 culpa, n\u00e3o \u00e9 desculpa, nem \u00e9 d\u00edvida, \u00e9 apenas a circunst\u00e2ncia. Tentar compreender a diferen\u00e7a entre culpa e circunst\u00e2ncia \u00e9 j\u00e1 o primeiro passo de um caminho mais consciente.<\/p>\n<p>Na vida, h\u00e1 padr\u00f5es de sofrimento que parecem querer acompanhar-nos sob roupagens diferentes. O mesmo conflito relacional repete-se em pessoas distintas, em contextos distintos, com uma persist\u00eancia que desconcerta. Numa autoan\u00e1lise purgativa, surge inevitavelmente a pergunta: pode este bloqueio existencial ser superado? Pode o fado ser vencido?<\/p>\n<p>Carl Jung dizia que aquilo que n\u00e3o \u00e9 conscientizado tende a ser vivido como destino. Outros psic\u00f3logos acrescentam que enquanto n\u00e3o compreendermos o chamamento contido naquela situa\u00e7\u00e3o, enquanto n\u00e3o lhe dermos um sentido que nos transforme, a vida repeti-lo-\u00e1, com a paci\u00eancia de quem espera que um filho aprenda uma li\u00e7\u00e3o n\u00e3o pela puni\u00e7\u00e3o, mas pela matura\u00e7\u00e3o. O chamamento n\u00e3o se imp\u00f5e, apenas aguarda. Tem uma paci\u00eancia que ultrapassa largamente a nossa.<\/p>\n<p>\u00c9 a mesma pergunta que ressoa desde os tempos primordiais: Ad\u00e3o, onde est\u00e1s? N\u00e3o um julgamento, mas um convite a situar-se, \u00e0 rela\u00e7\u00e3o, \u00e0 presen\u00e7a, ao enraizamento. Um chamamento \u00e0 inteireza que, como na natureza, se manifesta atrav\u00e9s da inter-rela\u00e7\u00e3o de tudo com todos.<\/p>\n<p>O sintoma, seja ele uma dificuldade externa ou um sofrimento interno, n\u00e3o \u00e9 um inimigo a eliminar, mas um mensageiro a interrogar. O inc\u00f3modo que se repete \u00e9 muitas vezes o sinal da nossa pr\u00f3pria surdez, da nossa pressa, do ainda n\u00e3o termos ouvido o chamamento, o que h\u00e1 muito nos chama. As situa\u00e7\u00f5es que persistem meses ou anos s\u00e3o, com frequ\u00eancia, aquelas que cont\u00eam o material do nosso pr\u00f3prio amadurecimento. A pergunta produtiva n\u00e3o \u00e9 &#8220;de quem \u00e9 a culpa?&#8221;, mas sim: O que \u00e9 que esta situa\u00e7\u00e3o persistente me est\u00e1 a pedir que eu veja em mim mesmo? Que parte de mim ainda n\u00e3o escutei? Que crescimento est\u00e1 \u00e0 espera?<\/p>\n<p>Seria erro culpar-se ou culpar algu\u00e9m pelo sofrimento que se traz. A sombra que nos acompanha vem do facto de sermos seres situados num mundo feito de situa\u00e7\u00f5es interligadas. Por vezes, ela tem origem numa ferida antiga, o mau olhado em crian\u00e7a por quem, em vez de amar, criticou e deste modo ensinou a pessoa a fugir de si mesma, a n\u00e3o se sentir em casa no seu pr\u00f3prio ser, porque quando dela precisava, outros a invadiram. Esta fuga de si, disfar\u00e7ada de combate ao exterior, \u00e9 o que tantos escritos pol\u00edticos e cr\u00edticos escondem: o combate \u00e0s pr\u00f3prias sombras projetadas l\u00e1 fora, onde \u00e9 mais f\u00e1cil reconhec\u00ea-las do que acolh\u00ea-las dentro.<\/p>\n<p>No fado portugu\u00eas encontra-se algo desta tens\u00e3o: no queixume lamenta-se um chamamento e a dor de ainda o n\u00e3o ter integrado. Mas a dificuldade do fado e de qualquer forma de lamenta\u00e7\u00e3o que se fecha sobre si mesma \u00e9 que n\u00e3o distingue entre uma dor repetida porque n\u00e3o integrada, uma estrutura externa que precisa de ser abandonada, ou uma ferida que precisa de cura antes de poder ser compreendida. As m\u00e1goas que se levam ao lavadouro p\u00fablico, aos amigos que confirmam a queixa ou aos autores que tudo justificam, acabam por ser apenas espelhos que devolvem a mesma imagem sem a transformar. Confirmam o fado em vez de apontar para o chamamento.<\/p>\n<p>A natureza oferece-nos o crit\u00e9rio: quando estamos verdadeiramente a escutar o chamamento, h\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de alinhamento, mesmo que dolorosa. Quando estamos apenas a repetir o mesmo padr\u00e3o sem crescimento, h\u00e1 exaust\u00e3o sem fruto. As flores que a \u00e1rvore produz, se se mantiverem na sombra das negatividades, aguardam o tempo prop\u00edcio para dar fruto. A \u00e1rvore n\u00e3o acelera o seu crescimento porque o agricultor tem pressa. H\u00e1 uma altura para plantar, uma altura para lavrar, uma altura para deixar o solo em pousio.<\/p>\n<p>Num desenvolvimento humano orientado para a paz e nem toda a repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 chamamento, importa diz\u00ea-lo com clareza, a autorreflex\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio de autocastigo, mas de escuta. Na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, este apelo vai al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica eu-tu, porque nos convida a entrar na l\u00f3gica relacional do n\u00f3s, da compaix\u00e3o e da sintonia, onde j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 castigo nem autocastigo, mas a viv\u00eancia de um mundo inteiro a sofrer em n\u00f3s e do sofrimento da germina\u00e7\u00e3o da flor a emergir o fruto, a ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os problemas n\u00e3o s\u00e3o fracassos. S\u00e3o chamamentos a ver o que ainda temos para compreender em n\u00f3s, para que os outros deixem de ser superf\u00edcies de proje\u00e7\u00e3o das nossas sombras.<\/p>\n<p>Talvez a tenacidade exasperante dos nossos bloqueios seja apenas o inverno que insiste at\u00e9 que finalmente preparemos a terra para a primavera. Uma primavera que n\u00e3o podemos apressar, mas que tamb\u00e9m n\u00e3o podemos eternamente adiar.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\nTe\u00f3logo e Pedagogo Social<br \/>\n\u00a9Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Companheiro insepar\u00e1vel de Sombra e Luz que o Destino nos deu Se olharmos para a natureza com olhos atentos, descobrimos que nela tudo tende para a luz. Uma semente n\u00e3o germina antes de a terra estar pronta. 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