{"id":10872,"date":"2026-03-22T14:49:56","date_gmt":"2026-03-22T13:49:56","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10872"},"modified":"2026-03-22T14:53:53","modified_gmt":"2026-03-22T13:53:53","slug":"a-esperanca-que-liberta-e-a-fe-que-incomoda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10872","title":{"rendered":"A ESPERAN\u00c7A QUE LIBERTA E A F\u00c9 QUE INCOMODA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Vivemos tempos gr\u00e1vidos de espera. Basta ligar os notici\u00e1rios ou olhar para dentro de n\u00f3s mesmos para percebermos que todos esperamos por algo. Uns esperam pela paz, outros, movidos por interesses ou desilus\u00f5es, esperam pela guerra; h\u00e1 ainda aqueles que apenas aspiram \u00e0 vit\u00f3ria, independentemente dos custos que ela exija <\/strong>e outros que esperam simplesmente pela oportunidade da vida.<\/p>\n<p>Esta constata\u00e7\u00e3o revela algo inc\u00f3modo: a esperan\u00e7a e a f\u00e9 s\u00e3o for\u00e7as poderosas, mas nem sempre s\u00e3o inocentes. Quem det\u00e9m o poder sabe disso h\u00e1 s\u00e9culos. Imp\u00e9rios e governantes aprenderam a instrumentalizar a esperan\u00e7a para acalmar os \u00e2nimos, a confian\u00e7a para unir os povos e o significado para criar lealdades. <strong>H\u00e1, assim, uma esperan\u00e7a que adormece e uma esperan\u00e7a que desperta; uma f\u00e9 que consola e enfraquece, e outra que assegura a dignidade e assume a responsabilidade.<br \/>\n<\/strong>A primeira beneficia os c\u00ednicos e a segunda torna-se perigosa para quem est\u00e1 no poder.<\/p>\n<p><strong>A dupla face da f\u00e9<br \/>\nAo longo da hist\u00f3ria, a f\u00e9 religiosa desempenhou pap\u00e9is aparentemente contradit\u00f3rios. Houve momentos em que foi a grande estabilizadora das ordens sociais existentes, na Europa medieval, no mundo isl\u00e2mico e nas sociedades influenciadas pelo confucionismo. Nesses contextos, a f\u00e9 ajudou a consolidar estruturas, oferecendo sentido, coes\u00e3o e a criar grandes civiliza\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mas houve tamb\u00e9m momentos em que a mesma f\u00e9 desencadeou dinamismos revolucion\u00e1rios. A Reforma Protestante abalou imp\u00e9rios inteiros. No s\u00e9culo XX, movimentos de liberta\u00e7\u00e3o inspirados em convic\u00e7\u00f5es religiosas enfrentaram regimes opressores, do totalitarismo \u00e0 escravatura e \u00e0 injusti\u00e7a estrutural. <\/strong><\/p>\n<p>O que pode explicar esta dualidade? A resposta reside numa dial\u00e9tica interna \u00e0 pr\u00f3pria f\u00e9; dado ela se dirigir a um padr\u00e3o superior a qualquer poder concreto, o seu efeito pr\u00e1tico depende da atitude de quem gere ou governa. <strong>Enquanto o poder se mostra compat\u00edvel com esse padr\u00e3o, de justi\u00e7a, dignidade e verdade, a f\u00e9 tende a ordenar e consolidar, mas quando o poder viola esse padr\u00e3o de forma flagrante, a mesma f\u00e9 pode transformar-se numa for\u00e7a cr\u00edtica, silenciosa ou mesmo rebelde.<\/strong> A maneira como a sociedade est\u00e1 a ser dirigida leva a crer na necessidade de um acentuar da for\u00e7a cr\u00edtica.<br \/>\n<strong>Assim, a f\u00e9 n\u00e3o clama constantemente por mudan\u00e7a ou por revolu\u00e7\u00e3o. A f\u00e9 n\u00e3o se reduz a uma lufada de vento que ocasionalmente passa; a f\u00e9 age como uma for\u00e7a contr\u00e1ria discreta: relativiza as pretens\u00f5es absolutas do dinheiro, do Estado ou da ideologia, sem recorrer imediatamente \u00e0 viol\u00eancia. O seu papel n\u00e3o \u00e9 tanto derrubar, mas impedir que o poder se torne absoluto. Ela \u00e9 um fogo santo que lembra o brasido a resplandecer uma fragr\u00e2ncia de incenso a acalentar a vida.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O dilema do indiv\u00edduo<br \/>\n<\/strong>E \u00e9 aqui que surge o grande dilema da vida individual. A mudan\u00e7a desejada, aquela que tornar\u00e1 o mundo mais justo, chega quase sempre tarde demais para quem mais precisa dela. E isto porque o indiv\u00edduo n\u00e3o vive no futuro idealizado, mas no presente, envolto nas estruturas de poder e das circunst\u00e2ncias que o moldam e at\u00e9 , por vezes, o subordinam.<\/p>\n<p>Entre a esperan\u00e7a e a realidade abre-se um espa\u00e7o de cansa\u00e7o, subordina\u00e7\u00e3o e, por vezes, resigna\u00e7\u00e3o. Se a esperan\u00e7a se fixar unicamente no &#8220;grande acontecimento&#8221; futuro, corremos o risco de permanecer paralisados numa eterna espera.<\/p>\n<p><strong>Mas h\u00e1 uma alternativa: compreender a esperan\u00e7a como liberdade interior. Quando assim entendida, algo muda profundamente. O indiv\u00edduo continua envolvido nas estruturas do mundo, sujeito \u00e0s suas press\u00f5es e circunst\u00e2ncias, mas j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 totalmente controlado por elas. Mant\u00e9m um espa\u00e7o de integridade que o poder n\u00e3o consegue colonizar.<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria ensina-nos que as transforma\u00e7\u00f5es profundas raramente surgem de revolu\u00e7\u00f5es permanentes. <strong>As transforma\u00e7\u00f5es profundas emergem, sobretudo, de mudan\u00e7as graduais na consci\u00eancia, nas rela\u00e7\u00f5es humanas e nos pressupostos culturais. Essas mudan\u00e7as ocorrem de forma discreta, muitas vezes impulsionadas por pessoas que vivem nesse &#8220;meio-termo&#8221;, nem totalmente conformadas, nem em permanente insurg\u00eancia. Aceitam a vida e o viver com naturalidade, mas sempre com a lanterna da intui\u00e7\u00e3o que orienta no lusco-fusco do acontecer.<br \/>\n<\/strong><br \/>\n<strong>A lentid\u00e3o que protege<br \/>\n<\/strong><strong>H\u00e1 aqui uma assimetria fundamental que cria uma tens\u00e3o a suportar-se: o poder age imediatamente; a esperan\u00e7a age lentamente. Essa lentid\u00e3o \u00e9, ao mesmo tempo, uma fraqueza e uma for\u00e7a. \u00c9 uma fraqueza porque n\u00e3o responde na mesma velocidade da opress\u00e3o. Mas \u00e9 uma for\u00e7a precisamente porque, ao n\u00e3o ser id\u00eantica ao poder, n\u00e3o \u00e9 totalmente control\u00e1vel por ele.<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o decisiva, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 se o mundo e as coias que desejamos chegar\u00e1 a tempo, porque, para muitos, ele nunca chegar\u00e1 a tempo. A quest\u00e3o verdadeira \u00e9 outra: enquanto esse mundo n\u00e3o chega, conseguir\u00e1 a pessoa humana preservar a sua dignidade no \u00e2mbito individual?<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a tens\u00e3o constante que atravessa a natureza humana e a hist\u00f3ria. Viver nessa tens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Exige uma f\u00e9 que n\u00e3o se deixa reduzir a consolo barato, e uma esperan\u00e7a que n\u00e3o se refugia na pura espera. Exige a capacidade de estar no mundo sem se render ao que ele tem de desumano e de agir sem a ilus\u00e3o de que a solu\u00e7\u00e3o ou a salva\u00e7\u00e3o vir\u00e1 apenas de um grande acontecimento.<\/p>\n<p><strong>A f\u00e9 e a esperan\u00e7a completam-se na caridade, entendida n\u00e3o como mera generosidade, mas como o compromisso de tratar cada ser humano como um fim em si mesmo, independentemente do ritmo das transforma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e das implica\u00e7\u00f5es do dia-a-dia, numa atitude soberana na imagem da do Cristo no deserto ao encarar as tenta\u00e7\u00f5es a partir da dist\u00e2ncia dos 40 dias.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Te\u00f3logo e Social-pedagogo<\/p>\n<p>\u00a9 Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos tempos gr\u00e1vidos de espera. Basta ligar os notici\u00e1rios ou olhar para dentro de n\u00f3s mesmos para percebermos que todos esperamos por algo. 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