{"id":10862,"date":"2026-03-19T16:56:51","date_gmt":"2026-03-19T15:56:51","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10862"},"modified":"2026-03-19T18:35:59","modified_gmt":"2026-03-19T17:35:59","slug":"quem-se-mete-com-o-mundo-islamico-apanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10862","title":{"rendered":"QUEM SE METE COM O MUNDO ISL\u00c2MICO APANHA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em>O grande erro estrat\u00e9gico do Ocidente e o nascimento de uma nova ordem multipolar<\/em><\/p>\n<p><em>Por Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/em><\/p>\n<p><strong>I. O Ego como Destino: A Heran\u00e7a Protestante<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma linha invis\u00edvel que une Calvino a Trump. N\u00e3o \u00e9 uma conspira\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma l\u00f3gica civilizacional que se foi construindo ao longo de cinco s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Com o surgimento do protestantismo no s\u00e9culo XVI, a emancipa\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade transformou-se em programa pol\u00edtico e espiritual. Foi Calvino quem deu o passo decisivo: ao declarar o trabalho uma \u201cvoca\u00e7\u00e3o divina\u201d e a riqueza uma b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus, subverteu a antiga \u00e9tica beneditina, que sacraliza o trabalho para dignificar todas as camadas sociais e criou uma nova \u00e9tica onde a efici\u00eancia e a racionalidade s\u00e3o virtudes teol\u00f3gicas. A pobreza torna-se, implicitamente, sinal de reprova\u00e7\u00e3o divina.<\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o foi-se radicalizando \u00e0 medida que atravessava o Canal da Mancha e o Atl\u00e2ntico. Na Inglaterra industrial, o desenraizamento das popula\u00e7\u00f5es rurais para as cidades fabris fortaleceu o individualismo. Nos Estados Unidos, esse individualismo tornou-se identidade nacional, sistema econ\u00f3mico e f\u00e9 c\u00edvica simultaneamente. O resultado \u00e9 uma teocracia laica, coesa em si, mas constru\u00edda sobre o ego, n\u00e3o sobre a comunidade.<\/p>\n<p>Donald Trump \u00e9 a express\u00e3o m\u00e1xima e talvez a mais honesta deste processo. Nele convergem, sem disfarce, as virtudes e os v\u00edcios do esp\u00edrito anglo-sax\u00f3nico: a aud\u00e1cia empreendedora, o desprezo pela nuance, a convic\u00e7\u00e3o de que o poder \u00e9 sin\u00f3nimo de raz\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>II. O Isl\u00e3o como Arquitectura Civilizacional<\/strong><\/p>\n<p>O mundo isl\u00e2mico construiu o seu edif\u00edcio sobre fundamentos opostos. O Cor\u00e3o, a Sharia e os <em>ahadith<\/em>, \u00a0os ditos e feitos do Profeta, reunidos na <em>Sunna<\/em>, \u00a0constituem uma inst\u00e2ncia superior ao indiv\u00edduo e a qualquer sistema de governo humano. A comunidade (<em>umma<\/em>) precede o sujeito. A identidade pessoal n\u00e3o se separa da identidade religiosa.<\/p>\n<p>Este modelo tem uma efici\u00eancia pol\u00edtica not\u00e1vel. A mesquita n\u00e3o \u00e9 apenas um espa\u00e7o de ora\u00e7\u00e3o: \u00e9 o n\u00f3 de uma rede social que atravessa gera\u00e7\u00f5es, fronteiras e Estados. As bases culturais do mundo \u00e1rabe, espalhadas pelos cinco continentes, revelam-se frequentemente mais eficazes do que bases militares. Enquanto o Ocidente projecta poder por sat\u00e9lite e porta-avi\u00f5es, o Isl\u00e3o projecta coes\u00e3o por fam\u00edlia, l\u00edngua e f\u00e9.<\/p>\n<p>Quando os Estados Unidos eliminaram uma figura religiosa de estatuto constitucional no Ir\u00e3o, n\u00e3o atacaram apenas um general ou um pol\u00edtico. Atacaram a identidade de um povo. A coer\u00eancia entre o religioso e o pol\u00edtico \u00e9, no mundo isl\u00e2mico, indissoci\u00e1vel, o que n\u00e3o tem equivalente no Ocidente laico. Se algo compar\u00e1vel fosse feito ao Papa, a reac\u00e7\u00e3o europeia seria indigna\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica. No Ir\u00e3o, \u00e9 uma ferida na alma colectiva.<\/p>\n<p><strong>III. A Geopol\u00edtica do Erro: Ormuz e o Ponto de Viragem<\/strong><\/p>\n<p>O Estreito de Ormuz foi, nos tempos de Afonso de Albuquerque, a chave do com\u00e9rcio com a \u00cdndia. Os portugueses compreenderam, no s\u00e9culo XVI, que quem controlasse Ormuz controlaria o mundo. Hoje, esse estreito \u00e9 novamente um fulcro, \u00a0n\u00e3o apenas de petr\u00f3leo, mas de uma mudan\u00e7a geopol\u00edtica profunda.<\/p>\n<p>O ataque americano ao Ir\u00e3o, qualquer que seja a sua forma, inscreve-se numa longa s\u00e9rie de interven\u00e7\u00f5es ocidentais no mundo isl\u00e2mico que terminaram, sem excep\u00e7\u00e3o, com uma retirada. Do Afeganist\u00e3o ao Iraque, da L\u00edbia \u00e0 S\u00edria, o padr\u00e3o repete-se: vit\u00f3ria militar de curto prazo, caos estrat\u00e9gico de longo prazo, e um mundo geopol\u00edtico pior do que antes.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o \u00e9 estrutural: a guerra americana \u00e9 uma guerra de elites. A guerra isl\u00e2mica \u00e9 uma guerra de povo que n\u00e3o perdeu a sua alma. N\u00e3o se derrota uma civiliza\u00e7\u00e3o com drones.<\/p>\n<p>Entretanto, a Turquia, advers\u00e1ria do Ir\u00e3o, atacada pelos seus foguetes, recebe permiss\u00e3o para evacuar os seus petroleiros, enquanto os navios ocidentais aguardam no Golfo. O pragmatismo do mundo mu\u00e7ulmano, como sistema de poder, \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o que o Ocidente ainda n\u00e3o soube ler.<\/p>\n<p>IV. <strong>A Europa \u00e0 Encruzilhada<\/strong><\/p>\n<p>A Europa encontra-se hoje numa posi\u00e7\u00e3o paradoxal: suficientemente pr\u00f3xima do conflito para ser afectada, suficientemente distante para poder escolher um caminho diferente.<\/p>\n<p>Friedrich Merz aproveitou o erro americano de fazer a guerra sem consultar os aliados para afirmar uma autonomia estrat\u00e9gica alem\u00e3 e, por extens\u00e3o, europeia, que estava adormecida desde 1945. A Alemanha, com a sua consci\u00eancia sax\u00f3nico-germ\u00e2nica, quebrou discretamente a subordina\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica a Washington. A Espanha, cujo primeiro-ministro mant\u00e9m la\u00e7os mais pr\u00f3ximos com os BRICS, foi dos primeiros a colocar o trav\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a Europa enfrenta uma contradi\u00e7\u00e3o interna que nenhuma alian\u00e7a militar resolve: ao seguir sistematicamente o modelo anglo-americano nas \u00faltimas d\u00e9cadas, foi renegando a sua pr\u00f3pria alma civilizacional, a heran\u00e7a grega da raz\u00e3o cr\u00edtica, a heran\u00e7a romana do direito e da ordem, a heran\u00e7a crist\u00e3 da comunidade, da soberania espiritual do indiv\u00edduo e da responsabilidade colectiva. Substituiu-a por um liberalismo de valores abstratos, sem ra\u00edzes culturais profundas que procura transformar moral em leis desencarnadas.<\/p>\n<p>Uma Europa que constr\u00f3i a sua for\u00e7a apenas sobre o poder econ\u00f3mico-militar, desprezando o povo e a sua alma, tem os dias contados. Quem despreza a dimens\u00e3o espiritual de uma civiliza\u00e7\u00e3o &#8211; chame-lhe &#8220;Deus&#8221;, &#8220;cultura&#8221; ou &#8220;identidade&#8221; &#8211; acaba por perder a sua sustentabilidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o que a Europa paga pela Ucr\u00e2nia \u00e9 desproporcional e revela a persist\u00eancia de uma velha l\u00f3gica nacionalista que n\u00e3o soube adaptar-se \u00e0s novas coordenadas de um mundo multipolar ao pretender passar do seu velho colonialismo para o colonialismo mental.<\/p>\n<p>V. <strong>A Nova Ordem e os Seus Actores<\/strong><\/p>\n<p>Os BRICS n\u00e3o s\u00e3o uma alian\u00e7a ideol\u00f3gica. S\u00e3o a express\u00e3o de um mundo que recusou o fim da hist\u00f3ria proclamado pelo Ocidente nos anos 90. China, \u00cdndia, R\u00fassia, Brasil, \u00c1frica do Sul, \u00a0e agora muitos outros, representam civiliza\u00e7\u00f5es que mantiveram a coes\u00e3o interna atrav\u00e9s das suas pr\u00f3prias doutrinas.<\/p>\n<p>A China tem Conf\u00facio: a fam\u00edlia como c\u00e9lula de coes\u00e3o social, o Estado como fam\u00edlia alargada, a paci\u00eancia estrat\u00e9gica como virtude suprema. O Isl\u00e3o tem a <strong>\u201cumma\u201d: <\/strong>a comunidade de crentes como horizonte de identidade. Ambos os sistemas oferecem o que o individualismo ocidental perdeu: uma raz\u00e3o para ser <em>\u201c<\/em>n\u00f3s<em>\u201d<\/em> antes de ser \u201ceu<em>\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>A nova ordem multipolar n\u00e3o ser\u00e1 constru\u00edda por nenhuma pot\u00eancia hegem\u00f3nica. Ser\u00e1 o resultado de um equil\u00edbrio din\u00e2mico entre civiliza\u00e7\u00f5es que aprenderam a negociar a partir das suas identidades, n\u00e3o apesar delas. A geopol\u00edtica emergente exige conversa\u00e7\u00f5es, compromissos e alian\u00e7as de car\u00e1cter complementar, n\u00e3o a imposi\u00e7\u00e3o de um modelo \u00fanico.<\/p>\n<p>VI.<strong>Conclus\u00e3o: O Que a Hist\u00f3ria Ensina<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o recorrente na hist\u00f3ria que o poder tende a esquecer no momento em que mais precisa dela: a for\u00e7a que n\u00e3o tem ra\u00edzes n\u00e3o tem futuro.<\/p>\n<p>O mundo isl\u00e2mico sobreviveu \u00e0s Cruzadas, ao colonialismo, \u00e0 Guerra Fria e \u00e0s guerras do Golfo. N\u00e3o porque fosse militarmente superior, frequentemente n\u00e3o era, mas porque a sua identidade era mais profunda do que qualquer ex\u00e9rcito inimigo conseguia alcan\u00e7ar. Os ventos das ideologias t\u00eam decomposto o ide\u00e1rio europeu no sentido de substituir a \u201calma\u201d da cultura e da pessoa pelas suas m\u00e1scaras reduzindo a pessoa e institui\u00e7\u00f5es ao n\u00edvel da sua funcionalidade ao contr\u00e1rio do mundo \u00e1rabe e do mundo chin\u00eas.<\/p>\n<p>O Ocidente, para se renovar, n\u00e3o precisa de mais armamento. Precisa de regressar \u00e0 pergunta que os gregos fizeram primeiro e que nenhuma civiliza\u00e7\u00e3o pode evitar: quem somos n\u00f3s e para onde vamos?<\/p>\n<p>Enquanto essa pergunta ficar sem resposta, quem se meter com o mundo isl\u00e2mico continuar\u00e1 a apanhar.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>\u00a9 Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O grande erro estrat\u00e9gico do Ocidente e o nascimento de uma nova ordem multipolar Por Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo I. 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