{"id":10860,"date":"2026-03-19T00:00:08","date_gmt":"2026-03-18T23:00:08","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10860"},"modified":"2026-03-19T00:00:08","modified_gmt":"2026-03-18T23:00:08","slug":"morreu-jurgen-habermas-o-filosofo-que-quis-tornar-o-mundo-um-pouco-melhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10860","title":{"rendered":"MORREU J\u00dcRGEN HABERMAS: O fil\u00f3sofo que quis tornar o mundo um pouco melhor"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O agn\u00f3stico que precisava da religi\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Partiu um dos grandes pensadores do nosso tempo. J\u00fcrgen Habermas, fil\u00f3sofo e soci\u00f3logo alem\u00e3o, herdeiro da tradi\u00e7\u00e3o iluminista de Immanuel Kant, dedicou a sua vida a uma causa t\u00e3o simples de enunciar quanto dif\u00edcil de concretizar: tornar o mundo um pouco melhor. \u00abConsidero o esfor\u00e7o de tornar o mundo um pouquinho melhor um motivo nada desprez\u00edvel\u00bb, afirmou numa das suas frases mais marcantes.<\/p>\n<p><strong>O pensador da democracia<\/strong><\/p>\n<p>Habermas foi, antes de mais, um te\u00f3rico da democracia. Para ele, esta n\u00e3o se reduzia \u00e0 tirania das maiorias, mas era antes uma busca permanente por melhores fundamentos. Com a sua obra magna <em>Teoria da A\u00e7\u00e3o Comunicativa<\/em> (1981), fundou a chamada Segunda Escola de Frankfurt e construiu uma teoria da democracia assente num princ\u00edpio aparentemente simples: os seres humanos, enquanto seres racionais, deveriam deixar-se guiar pela \u00abcoa\u00e7\u00e3o sem coa\u00e7\u00e3o do melhor argumento\u00bb, isto \u00e9, pela for\u00e7a persuasiva da raz\u00e3o e n\u00e3o pela for\u00e7a do poder.<\/p>\n<p>Este ideal do \u00abdiscurso livre de dom\u00ednio\u00bb pressup\u00f5e que o debate p\u00fablico seja um espa\u00e7o de troca genu\u00edna de argumentos, onde vence quem melhor raciocina e n\u00e3o quem det\u00e9m mais poder. Uma vis\u00e3o exigente e certamente n\u00e3o isenta de tens\u00f5es com a realidade. O pr\u00f3prio Habermas admitia que as circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas e sociais podem condicionar a raz\u00e3o, tornando o ideal mais fr\u00e1gil em situa\u00e7\u00f5es-limite.<\/p>\n<p><strong>Coragem intelectual e pol\u00e9mica<\/strong><\/p>\n<p>A perspic\u00e1cia anal\u00edtica de Habermas n\u00e3o o poupou \u00e0 controv\u00e9rsia. Em 1999, num dos momentos mais debatidos da sua carreira, defendeu a interven\u00e7\u00e3o militar da NATO contra a S\u00e9rvia por raz\u00f5es humanit\u00e1rias, mesmo sem mandato da ONU, \u00a0uma posi\u00e7\u00e3o que muitos dos seus admiradores acharam dif\u00edcil de conciliar com os seus princ\u00edpios pacifistas e com o primado do direito internacional que sempre defendeu. O epis\u00f3dio revelou, no entanto, a seriedade com que encarava as suas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es: a defesa dos direitos humanos, para ele, n\u00e3o era mat\u00e9ria de conveni\u00eancia.<\/p>\n<p>J\u00e1 nos \u00faltimos anos da sua vida, voltou a alertar para os perigos da nova comunica\u00e7\u00e3o digital. As redes sociais, representam, segundo ele, \u00abuma nova mudan\u00e7a estrutural da esfera p\u00fablica\u00bb, uma transforma\u00e7\u00e3o t\u00e3o profunda como a que a imprensa operou nos s\u00e9culos anteriores, mas desta vez potencialmente corrosiva: ao fragmentar o discurso, ao alimentar c\u00e2maras de eco e ao privilegiar a emo\u00e7\u00e3o sobre o argumento, colocam em risco os alicerces do debate democr\u00e1tico que tanto primava.<\/p>\n<p><strong>O agn\u00f3stico que precisava da religi\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Um dos aspectos mais surpreendentes e menos conhecidos do pensamento tardio de Habermas \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com a religi\u00e3o, \u00a0tanto mais significativa porque ele pr\u00f3prio se descreveu, num c\u00e9lebre debate com o ent\u00e3o cardeal Joseph Ratzinger (futuro Bento XVI), como \u00abreligiosamente desmusical\u00bb. A met\u00e1fora \u00e9 eloquente: como algu\u00e9m sem ouvido para a m\u00fasica pode reconhecer o seu valor e at\u00e9 precisar dela.<\/p>\n<p>Habermas, agn\u00f3stico convicto formado na tradi\u00e7\u00e3o racionalista, chegou a uma conclus\u00e3o que desafiou muitos dos seus seguidores: a raz\u00e3o secular, por si s\u00f3, pode n\u00e3o ser suficiente para sustentar os la\u00e7os morais que uma sociedade democr\u00e1tica exige. Ao longo dos seus \u00faltimos anos, foi procurando cada vez mais \u00abimpulsos morais para al\u00e9m da pura raz\u00e3o\u00bb, reconhecendo nas tradi\u00e7\u00f5es religiosas um reservat\u00f3rio de sentido, de solidariedade e de motiva\u00e7\u00e3o \u00e9tica que as filosofias puramente laicas n\u00e3o conseguir\u00e3o substituir.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que, no outono da sua vida, endere\u00e7ou \u00e0s igrejas uma recomenda\u00e7\u00e3o invulgar vinda de um ateu: que n\u00e3o cedessem \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de se tornarem demasiado mundanas, de dilu\u00edrem a sua linguagem pr\u00f3pria para serem mais aceit\u00e1veis no espa\u00e7o p\u00fablico secular. Pelo contr\u00e1rio, Habermas defendia que as comunidades religiosas prestam um servi\u00e7o inestim\u00e1vel \u00e0 democracia precisamente quando continuam a falar a partir dos seus impulsos metaf\u00edsicos, quando mant\u00eam viva a linguagem da dignidade absoluta, da esperan\u00e7a, da responsabilidade perante o outro e da resist\u00eancia ao que \u00e9 meramente \u00fatil ou eficiente.<\/p>\n<p>Esta posi\u00e7\u00e3o, por vezes chamada de \u00abp\u00f3s-secular\u00bb, n\u00e3o implica qualquer abandono do Estado laico nem da separa\u00e7\u00e3o entre a Igreja e a pol\u00edtica. Significa antes o reconhecimento de que numa sociedade plural, o pensamento religioso \u00e9 um interlocutor leg\u00edtimo e necess\u00e1rio no debate p\u00fablico, desde que traduza os seus argumentos de forma acess\u00edvel a todos os cidad\u00e3os. As igrejas que renunciam \u00e0 sua profundidade espiritual para se tornarem mais f\u00e1ceis de aceitar perdem precisamente aquilo que as torna indispens\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>Uma heran\u00e7a de exig\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Habermas deixa-nos uma heran\u00e7a inc\u00f3moda e necess\u00e1ria: a exig\u00eancia de que nos expliquemos uns aos outros, de que fundamentemos as nossas escolhas, de que n\u00e3o nos rendamos ao populismo do mais forte ou ao niilismo do \u00abtanto faz\u00bb. A sua vida foi ela pr\u00f3pria uma demonstra\u00e7\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel e desej\u00e1vel ao combinar o rigor intelectual com o compromisso \u00e9tico, a an\u00e1lise fria com a paix\u00e3o pela justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Num tempo em que o espa\u00e7o p\u00fablico est\u00e1 cada vez mais colonizado pelo ru\u00eddo, pela desinforma\u00e7\u00e3o e pela l\u00f3gica do espect\u00e1culo, a sua voz faz-nos uma grande falta. O melhor tributo que lhe podemos prestar \u00e9 levar a s\u00e9rio o que ele nunca deixou de nos pedir: que argumentemos bem, que escutemos melhor, e que n\u00e3o desistamos de tentar.<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O agn\u00f3stico que precisava da religi\u00e3o Por Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo &nbsp; Partiu um dos grandes pensadores do nosso tempo. 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