{"id":10855,"date":"2026-03-17T18:00:40","date_gmt":"2026-03-17T17:00:40","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10855"},"modified":"2026-03-17T18:00:40","modified_gmt":"2026-03-17T17:00:40","slug":"para-alem-da-sociologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10855","title":{"rendered":"PARA AL\u00c9M DA SOCIOLOGIA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">\nOs Limites da An\u00e1lise de Roxana Kreimer e a Exig\u00eancia de uma Matriz Antropol\u00f3gica Integral<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/p>\n<p>Resumo<\/p>\n<p>O presente artigo prop\u00f5e uma an\u00e1lise cr\u00edtica aos fundamentos argumentativos da obra &#8220;El patriarcado no existe m\u00e1s&#8221; (2020), de Roxana Kreimer. Partindo do m\u00e9rito da sua cr\u00edtica emp\u00edrica a certas vertentes do feminismo, identificam-se as limita\u00e7\u00f5es conceptuais e metodol\u00f3gicas que condicionam as suas conclus\u00f5es. Argumenta-se que Kreimer se circunscreve a uma an\u00e1lise predominantemente sociol\u00f3gica e formal, negligenciando as dimens\u00f5es estruturais, simb\u00f3licas e ontol\u00f3gicas que constituem o cerne da domina\u00e7\u00e3o patriarcal. Ao confundir igualdade formal com igualdade real e ao apoiar-se em generaliza\u00e7\u00f5es antropol\u00f3gicas e biol\u00f3gicas question\u00e1veis, a autora acaba por desconsiderar a persist\u00eancia de uma matriz masculina que estrutura profundamente a sociedade. Em contraponto, esbo\u00e7a-se a necessidade de uma abordagem que supere os reducionismos sociol\u00f3gico e biol\u00f3gico, propondo uma matriz antropol\u00f3gica integral, de raiz filos\u00f3fico-crist\u00e3, que reconcilie o feminino e o masculino como pilares constitutivos e indistintos da defini\u00e7\u00e3o plena do ser humano.<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Introdu\u00e7\u00e3o: O Desafio Emp\u00edrico ao Feminismo Maximalista<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A obra de Roxana Kreimer, \u201cEl patriarcado no existe m\u00e1s\u201d, insere-se num crescente corpus de literatura que questiona, a partir de dados emp\u00edricos, a validade contempor\u00e2nea do conceito de patriarcado. O seu m\u00e9rito inicial reside na contesta\u00e7\u00e3o de certas vers\u00f5es maximalistas do feminismo, que, por vezes, operam com generaliza\u00e7\u00f5es que a realidade social, na sua complexidade, parece desmentir. Ao recorrer a estudos transnacionais de larga escala, como o de Stoet e Geary (2019) envolvendo 134 na\u00e7\u00f5es, Kreimer exp\u00f5e assimetrias nos desafios enfrentados por homens e mulheres, sugerindo que a narrativa de uma domina\u00e7\u00e3o masculina un\u00edvoca e global \u00e9, no m\u00ednimo, insuficiente para explicar fen\u00f3menos como as desvantagens masculinas em 91 dos pa\u00edses analisados.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 precisamente neste ponto que a solidez da sua argumenta\u00e7\u00e3o come\u00e7a a fragmentar-se. A sua an\u00e1lise, embora ancorada em dados, revela-se metodologicamente limitada e conceptualmente fr\u00e1gil, operando uma redu\u00e7\u00e3o do problema a vari\u00e1veis quantific\u00e1veis e a uma leitura superficial das estruturas de poder. O presente texto pretende desconstruir os pilares dessa argumenta\u00e7\u00e3o, demonstrando que a conclus\u00e3o de Kreimer, \u00a0a nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia contempor\u00e2nea do patriarcado, depende de escolhas epistemol\u00f3gicas que ignoram as dimens\u00f5es estruturais, simb\u00f3licas e antropol\u00f3gicas da quest\u00e3o.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong>A Armadilha do Formalismo: Entre a Sociologia Descritiva e a Cegueira Estrutural<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O primeiro e mais grave problema da an\u00e1lise de Kreimer \u00e9 a confus\u00e3o entre igualdade formal e igualdade estrutural. A autora constata, com raz\u00e3o, que as mulheres t\u00eam, no mundo ocidental, acesso legal generalizado \u00e0s mesmas institui\u00e7\u00f5es que os homens, como, educa\u00e7\u00e3o, mercado de trabalho, cargos pol\u00edticos. Deste facto, infere uma tendencial supera\u00e7\u00e3o do patriarcado. No entanto, esta infer\u00eancia ignora que as estruturas de poder n\u00e3o se limitam ao seu aspeto legal ou institucional. Elas s\u00e3o constitu\u00eddas por uma teia complexa de normas informais, expectativas sociais, redes de influ\u00eancia e um capital simb\u00f3lico que perpetua a hegemonia de uma matriz cultural masculina enraizada na Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Kreimer limita-se a uma leitura sociol\u00f3gica descritiva: as mulheres j\u00e1 ocupam certos espa\u00e7os, logo, a exclus\u00e3o foi superada. N\u00e3o questiona se as regras do jogo, os crit\u00e9rios de avalia\u00e7\u00e3o, os modelos de lideran\u00e7a e os valores que estruturam esses espa\u00e7os permanecem inalterados e profundamente marcados por uma l\u00f3gica masculina. Ao faz\u00ea-lo, reduz a quest\u00e3o da presen\u00e7a feminina a uma mera quest\u00e3o de proporcionalidade num\u00e9rica em profiss\u00f5es ou cargos hier\u00e1rquicos, ignorando que a mulher \u00e9 chamada a integrar-se num mundo desenhado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de um ideal masculino, sendo-lhe exigida uma adapta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o questiona o modelo em si. A sua vis\u00e3o fica-se pela constata\u00e7\u00e3o de uma diferen\u00e7a no &#8220;estar&#8221; social da mulher, sem inquirir sobre as condi\u00e7\u00f5es profundas desse &#8220;ser&#8221; num mundo estruturalmente androc\u00eantrico.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong>Prefer\u00eancias, Biologia e o Espectro do Reducionismo<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Para sustentar a sua tese da ag\u00eancia feminina livre, Kreimer recorre a argumentos sobre prefer\u00eancias inatas, citando a maior propens\u00e3o m\u00e9dia das mulheres para profiss\u00f5es que envolvem cuidar de pessoas e dos homens para trabalhar com objetos e sistemas. Apoia-se, ainda, na biologia evolucionista para explicar tais diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>Esta abordagem \u00e9 metodologicamente arriscada e filosoficamente redutora. Em primeiro lugar, invocar a biologia evolucionista para justificar escolhas profissionais complexas no s\u00e9culo XXI \u00e9 um salto interpretativo que desconsidera o peso avassalador da socializa\u00e7\u00e3o e da cultura na forma\u00e7\u00e3o da subjetividade. Mesmo que existam predisposi\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas, a forma como elas s\u00e3o interpretadas, valorizadas e canalizadas \u00e9 sempre mediada por um contexto cultural que \u00e9, ele pr\u00f3prio, herdeiro de uma divis\u00e3o sexual do trabalho milenar.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, ao apresentar estas &#8220;prefer\u00eancias m\u00e9dias&#8221; como prova da liberdade de escolha num contexto p\u00f3s-patriarcal, Kreimer ignora o conceito de habitus de Bourdieu: a interioriza\u00e7\u00e3o da estrutura social objetiva sob a forma de disposi\u00e7\u00f5es subjetivas. Ou seja, as prefer\u00eancias podem ser precisamente o produto de s\u00e9culos de condicionamento, e n\u00e3o a sua supera\u00e7\u00e3o. A sua an\u00e1lise, ao ficar-se pela superf\u00edcie das escolhas, n\u00e3o escapa a um reducionismo que \u00e9 simultaneamente biol\u00f3gico (ao naturalizar prefer\u00eancias) e sociol\u00f3gico (ao descrever estat\u00edsticas sem lhes inquirir a g\u00e9nese). Fica, assim, ref\u00e9m de um dualismo que uma abordagem filos\u00f3fica mais profunda deve precisamente superar.<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong>O Conceito de Patriarcado: Entre a Defini\u00e7\u00e3o Jur\u00eddica e a Matriz Simb\u00f3lica<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o de patriarcado que Kreimer operacionaliza \u00e9 limitada e desfasada do uso filos\u00f3fico e feminista mais sofisticado. Ao defini-lo como um &#8220;sistema que autoriza os homens a explorar as mulheres&#8221;, a autora reduz o conceito a uma dimens\u00e3o quase jur\u00eddica e contratual, que pode ser facilmente desmentida pela constata\u00e7\u00e3o de que tal &#8220;autoriza\u00e7\u00e3o&#8221; formal j\u00e1 n\u00e3o existe no Ocidente.<\/p>\n<p>No entanto, o patriarcado, na tradi\u00e7\u00e3o do pensamento cr\u00edtico, \u00e9 entendido como uma matriz cultural e simb\u00f3lica profunda, uma estrutura de poder que se reproduz capilarmente, atrav\u00e9s da linguagem, dos s\u00edmbolos, dos afetos e das hierarquias invis\u00edveis do quotidiano. \u00c9 um sistema que domina at\u00e9 \u00e0 &#8220;medula&#8221;, moldando homens e mulheres, sacrificando ambos a um ideal de desempenho, de poder e de subjetividade que \u00e9 unilinear e excludente. Ignorar esta dimens\u00e3o estrutural leva a que fen\u00f3menos como a viol\u00eancia dom\u00e9stica e o feminic\u00eddio, que apresentam padr\u00f5es assim\u00e9tricos persistentes e transversais, sejam lidos fora do seu contexto sist\u00e9mico, perdendo-se a inteligibilidade da sua gravidade espec\u00edfica.<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><strong>Para uma Matriz Antropol\u00f3gica Integral: Superando o Reducionismo<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>\u00c9 neste ponto que a perspetiva que aqui proponho se distancia e se pretende complementar e superar a de Kreimer. A sua an\u00e1lise, confinada aos dados e \u00e0 superf\u00edcie do social, n\u00e3o alcan\u00e7a a quest\u00e3o fundamental: a da pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o do humano. O problema n\u00e3o \u00e9 meramente a desigualdade de acesso a estruturas feitas por homens, mas a pr\u00f3pria natureza dessas estruturas, forjadas a partir de uma vis\u00e3o antropol\u00f3gica unilateral.<\/p>\n<p>O projeto cient\u00edfico e filos\u00f3fico que aqui se anuncia prop\u00f5e uma rutura com este paradigma. N\u00e3o se trata de um feminismo superficial que visa reduzir as diferen\u00e7as \u00e0 influ\u00eancia cultural (reducionismo sociol\u00f3gico), nem de uma vis\u00e3o essencialista que as fixa biologicamente (reducionismo biol\u00f3gico). Trata-se, isso sim, de partir para uma antropologia filos\u00f3fica fundamental, ancorada numa filosofia crist\u00e3 que transcende o estritamente religioso para se afirmar como via de acesso \u00e0 compreens\u00e3o integral do ser.<\/p>\n<p>Esta perspetiva reconhece as diferen\u00e7as biol\u00f3gicas e as predisposi\u00e7\u00f5es inatas, mas insere-as num quadro ontol\u00f3gico mais amplo. O objetivo n\u00e3o \u00e9 a mera integra\u00e7\u00e3o do feminino num mundo masculino, mas a supera\u00e7\u00e3o desta pr\u00f3pria dualidade excludente. Prop\u00f5e-se, assim, uma matriz integral onde o feminino e o masculino n\u00e3o s\u00e3o ap\u00eandices ou pap\u00e9is sociais, mas pilares estruturais e indistintos da pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o do ser humano. \u00c9 uma refunda\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica que implica uma nova epistemologia, uma nova ontologia e, consequentemente, uma nova sociologia, capaz de ler para al\u00e9m dos n\u00fameros e de vislumbrar a tessitura profunda da nossa humanidade partilhada, numa perspetiva que supera o dualismo e o reducionismo das abordagens exclusivamente sociol\u00f3gicas.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Roxana Kreimer oferece uma cr\u00edtica pertinente a certos exageros do discurso feminista, mas a sua obra \u00e9 v\u00edtima de um positivismo ing\u00e9nuo e de um formalismo jur\u00eddico que a impede de ver a persist\u00eancia do patriarcado como matriz cultural e simb\u00f3lica. Ao confundir a descri\u00e7\u00e3o de superf\u00edcie com a an\u00e1lise estrutural, a autora n\u00e3o s\u00f3 falha o alvo como corre o risco de legitimar, involuntariamente, o status quo. A sua an\u00e1lise, embora \u00fatil como ponto de partida, demonstra a insufici\u00eancia de uma abordagem puramente sociol\u00f3gica para um problema que \u00e9, na sua raiz, ontol\u00f3gico. A supera\u00e7\u00e3o da ordem vigente exige, por isso, um mergulho mais profundo: uma reformula\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria antropologia que nos permita, finalmente, edificar uma sociedade onde o humano possa ser vivido na sua plenitude, para al\u00e9m das pris\u00f5es de g\u00e9nero e dos reducionismos de qualquer ordem.<\/p>\n<p>\u00a9 Pegadas do Tempo https:\/\/de.wikipedia.org\/wiki\/Ant%C3%B3nio_Justo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os Limites da An\u00e1lise de Roxana Kreimer e a Exig\u00eancia de uma Matriz Antropol\u00f3gica Integral Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo Resumo O presente artigo prop\u00f5e uma an\u00e1lise cr\u00edtica aos fundamentos argumentativos da obra &#8220;El patriarcado no existe m\u00e1s&#8221; (2020), de Roxana Kreimer. 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