{"id":10844,"date":"2026-03-14T00:15:27","date_gmt":"2026-03-13T23:15:27","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10844"},"modified":"2026-03-14T00:18:02","modified_gmt":"2026-03-13T23:18:02","slug":"antropoginecologia-a-antropologia-integral-para-o-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10844","title":{"rendered":"ANTROPOGINECOLOGIA: A ANTROPOLOGIA INTEGRAL PARA O S\u00c9CULO XXI"},"content":{"rendered":"<p><em>Uma proposta que visa superar a vis\u00e3o antropol\u00f3gica unilateral, integrando o feminino n\u00e3o como ap\u00eandice, mas como pilar estrutural da defini\u00e7\u00e3o do ser humano<\/em><\/p>\n<p><strong>Antropoginecologia \u2013 base etimol\u00f3gica da<\/strong> <strong>defini\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>O termo \u00e9 composto por:<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; <strong>Anthropos <\/strong>(\u1f04\u03bd\u03b8\u03c1\u03c9\u03c0\u03bf\u03c2), o ser humano, considerado na sua totalidade, n\u00e3o como categoria biol\u00f3gica, mas como ser pensante, sens\u00edvel e capaz de estabelecer rela\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>&#8211; <strong>Gynaik<\/strong><strong>\u0430<\/strong> (\u03b3\u03c5\u03bd\u03b1\u03af\u03ba\u03b1), a mulher, mas num sentido mais amplo: o princ\u00edpio do feminino como categoria epist\u00e9mica, n\u00e3o apenas biol\u00f3gica<\/p>\n<p>&#8211; Logos, a doutrina, a reflex\u00e3o sistem\u00e1tica<\/p>\n<p>\u00abAntropoginecologia\u00bb seria, portanto, literalmente: a doutrina do ser humano que compreende o feminino como parte constitutiva da pr\u00f3pria humanidade, n\u00e3o como complemento, n\u00e3o como caso especial, mas como dimens\u00e3o estruturalmente necess\u00e1ria de qualquer antropologia completa.<\/p>\n<p>Mais do que uma quest\u00e3o de g\u00e9nero, trata-se de uma quest\u00e3o de estrutura: ver como a inclus\u00e3o do princ\u00edpio feminino redefine o que chamamos de &#8220;ser humano&#8221; (ontologia) e amplia a nossa no\u00e7\u00e3o de humanidade e a nossa compreens\u00e3o sobre \u00e9tica, cuidado e transcend\u00eancia.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nO verdadeiro problema: a defini\u00e7\u00e3o funcional do ser humano<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria intelectual ocidental desde Arist\u00f3teles a Descartes e \u00e0s ci\u00eancias sociais modernas, definiu o ser humano principalmente atrav\u00e9s das suas fun\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8211; como animal racional (animal dotado de raz\u00e3o)<\/p>\n<p>&#8211; como homo faber (o criador)<\/p>\n<p>&#8211; \u00a0como homo oeconomicus (o calculista racional)<\/p>\n<p>Essas defini\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o neutras. Elas privilegiam sistematicamente as dimens\u00f5es da exist\u00eancia humana que historicamente foram atribu\u00eddas ao dom\u00ednio masculino: racionalidade, produ\u00e7\u00e3o, autonomia, linearidade.<\/p>\n<p>O que foi estruturalmente omitido n\u00e3o \u00e9 casual, mas sim sintom\u00e1tico: o cuidado, a relacionalidade, a incorpora\u00e7\u00e3o, a ciclicidade, o dar \u00e0 luz e a preserva\u00e7\u00e3o da vida, dimens\u00f5es da experi\u00eancia que, embora n\u00e3o sejam biologicamente restritas \u00e0s mulheres, foram historicamente codificadas como femininas e epistemicamente desvalorizadas.<\/p>\n<p>Como resultado temos uma antropologia com uma lacuna sistem\u00e1tica: ela n\u00e3o descreve o ser humano, mas uma determinada constru\u00e7\u00e3o historicamente dominante do que \u00e9 ser humano que se poderia denominar de matriz masculina.<\/p>\n<p>No feminino estrutural n\u00e3o se trata de &#8220;coisas de mulher&#8221;, mas de um princ\u00edpio antropol\u00f3gico (caracter\u00edsticas espec\u00edficas do ser) que \u00e9 negado ou subordinado na vis\u00e3o antropol\u00f3gica tradicional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O que a antropoginecologia poderia alcan\u00e7ar<\/strong><\/p>\n<p>Tal disciplina n\u00e3o seria um contraprograma, nem uma invers\u00e3o da hierarquia. Seria uma tentativa de completar a pr\u00f3pria imagem do ser humano.<\/p>\n<p><strong>Concretamente, isso significaria:<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li>Epistemologicamente, uma amplia\u00e7\u00e3o das fontes de conhecimento: n\u00e3o apenas a abstra\u00e7\u00e3o e a an\u00e1lise como acessos privilegiados \u00e0 realidade, mas tamb\u00e9m o conhecimento incorporado, a compreens\u00e3o relacional, o conhecimento que surge do cuidado, do lidar com a vulnerabilidade, do ritmo da vida.<\/li>\n<li>Ontologicamente, uma nova quest\u00e3o fundamental: o que \u00e9 o ser humano, se o definirmos n\u00e3o principalmente pelo seu desempenho, mas pela sua capacidade de relacionamento? N\u00e3o o que ele pode fazer, mas quem ele \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o com\/aos outros? O feminino n\u00e3o \u00e9 ap\u00eandice do humano, \u00e9 sim a sua matriz esquecida. Inclu\u00ed-lo estruturalmente n\u00e3o \u00e9 concess\u00e3o moderna nem cortesia social. \u00c9 acto de reconhecimento ontol\u00f3gico: o ser s\u00f3 \u00e9 integral quando abra\u00e7a a dualidade que o constitui. O masculino que rejeita o feminino dentro de si torna-se unidimensional; o feminino que n\u00e3o \u00e9 acolhido como estrutura permanece \u00e9 sombra a reclamar corpo.<\/li>\n<li>Eticamente, uma mudan\u00e7a de escala: da autonomia para a interdepend\u00eancia como categoria fundamental. O ser humano n\u00e3o como um indiv\u00edduo soberano que estabelece rela\u00e7\u00f5es, mas como um ser que surge da rela\u00e7\u00e3o e permanece nela, mas mantendo a sua personalidade numa din\u00e2mica de desenvolvimento entre mesmidade e ipseidade.<\/li>\n<li>Cultural e politicamente, uma reavalia\u00e7\u00e3o do que \u00e9 considerado socialmente valioso: n\u00e3o apenas o vis\u00edvel, o mensur\u00e1vel, o produzido, mas tamb\u00e9m o que preserva, o invis\u00edvel, o que torna a vida poss\u00edvel.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O espec\u00edfico desta abordagem<\/strong><\/p>\n<p>Neste ensaio quero apresentar o que distingue a minha linha de racioc\u00ednio das abordagens feministas ou de teoria de g\u00e9nero existentes e que \u00e9 certamente um passo decisivo: n\u00e3o se questiona \u00abComo \u00e9 que as mulheres podem ganhar mais espa\u00e7o no sistema existente?\u00bb. Isso seria integra\u00e7\u00e3o sem transforma\u00e7\u00e3o. Pergunta-se: \u00abO que falta ao sistema na sua ess\u00eancia, uma vez que n\u00e3o consegue conceber uma dimens\u00e3o fundamental do ser humano?\u00bb<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma quest\u00e3o antropol\u00f3gico-sociol\u00f3gica e n\u00e3o meramente pol\u00edtica. E \u00e9 precisamente a\u00ed que reside o fulcro da mudan\u00e7a: o ponto de partida n\u00e3o \u00e9 a injusti\u00e7a como problema social, mas a incompletude como problema epistemol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Uma antropologia que exclui estruturalmente o feminino n\u00e3o descreve erroneamente metade da humanidade, descreve erroneamente o ser humano. E na consequ\u00eancia tamb\u00e9m o homem.<\/p>\n<p><strong>Uma reflex\u00e3o final<\/strong><\/p>\n<p>A tarefa essencial e mais profundas da Antropoginecologia<\/p>\n<p>Talvez a provoca\u00e7\u00e3o mais profunda da sua abordagem reside no facto de ela libertar ambos os sexos: o homem, preso numa antropologia puramente funcional, perde algo t\u00e3o essencial como a mulher, que \u00e9 exclu\u00edda dela. Uma antropologia completa n\u00e3o seria um ganho para as mulheres \u00e0 custa dos homens, seria um ganho de humanidade para todos.<\/p>\n<p>O modelo crist\u00e3o da Trindade, numa sua leitura filos\u00f3fica a explorar e n\u00e3o meramente teol\u00f3gica, oferece, na verdade, uma gram\u00e1tica ontol\u00f3gica que se estende muito para al\u00e9m do contexto religioso. Sobre o assunto encontram-se artigos meus em <a href=\"http:\/\/antonio-justo.eu\">http:\/\/antonio-justo.eu<\/a> de caracter mais generalizado para o grande p\u00fablico relativos \u00e0 matriz masculina vigente e \u00e0 parcialidade de uma antropologia que exclui estruturalmente o feminino n\u00e3o descreve o ser humano na sua totalidade, que \u00e9 constitu\u00eddo por feminilidade e masculinidade. Assim, a sociologia adota uma descri\u00e7\u00e3o errada do ser humano. Este tema trata-lo ei de futuro de maneira mais cient\u00edfica dado esta forma de express\u00e3o possibilitar uma an\u00e1lise e abordagem mais espec\u00edfica. (Parte I)<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nTe\u00f3logo e Pedagogo Social<\/p>\n<p>\u00a9\u00a0 Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma proposta que visa superar a vis\u00e3o antropol\u00f3gica unilateral, integrando o feminino n\u00e3o como ap\u00eandice, mas como pilar estrutural da defini\u00e7\u00e3o do ser humano Antropoginecologia \u2013 base etimol\u00f3gica da defini\u00e7\u00e3o O termo \u00e9 composto por: &#8211; Anthropos (\u1f04\u03bd\u03b8\u03c1\u03c9\u03c0\u03bf\u03c2), o ser humano, considerado na sua totalidade, n\u00e3o como categoria biol\u00f3gica, mas como ser pensante, sens\u00edvel e &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10844\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">ANTROPOGINECOLOGIA: A ANTROPOLOGIA INTEGRAL PARA O S\u00c9CULO XXI<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,15,14,4,5,6,7,8,16],"tags":[],"class_list":["post-10844","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-escola","category-migracao","category-politica","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10844","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10844"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10844\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10848,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10844\/revisions\/10848"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10844"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10844"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10844"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}