{"id":10838,"date":"2026-03-12T17:06:14","date_gmt":"2026-03-12T16:06:14","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10838"},"modified":"2026-03-12T23:15:31","modified_gmt":"2026-03-12T22:15:31","slug":"os-lusiadas-e-o-espelho-partido-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10838","title":{"rendered":"OS LUS\u00cdADAS E O ESPELHO PARTIDO DO MUNDO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Do Adamastor, o gigante de pedra e medo, ao tempo de Belzebu contra Satan\u00e1s, onde j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 deuses, s\u00f3 abismos a fitarem-se\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Em 12 de mar\u00e7o, sopram quatrocentos e cinquenta velas sobre a primeira edi\u00e7\u00e3o de Os Lus\u00edadas. Em 1572, quando Cam\u00f5es ofereceu ao prelo o seu canto imortal, Portugal e Espanha desenhavam o mapa do mundo entre si, como dois gigantes a repartir um manto que julgavam infinito. A l\u00edngua portuguesa, nesse parto de versos, deixava de gatinhar nas trovas medievais para se erguer no esplendor renascentista que \u00e9 um monumento de palavras que que a partir de entao fala aos ventos.<\/p>\n<p>Mas que mundo \u00e9 este que agora habita o mesmo poema?<\/p>\n<p>Olhamos para a Ucr\u00e2nia e para o M\u00e9dio Oriente e j\u00e1 n\u00e3o vemos o confronto \u00e9pico entre portugueses e deuses, entre mortais e for\u00e7as tel\u00faricas que povoavam a imagina\u00e7\u00e3o de Cam\u00f5es. O que vemos \u00e9 uma guerra do Diabo contra o Diabo, dois abismos a fitarem-se mutuamente. O Ocidente e o Oriente j\u00e1 n\u00e3o se defrontam em campo aberto, com bandeiras desfraldadas e c\u00f3digos de honra. Agora, os poderosos disputam n\u00e3o apenas territ\u00f3rios, a geografia caduca de fronteiras, mas algo mais sinistro. Hoje os poderosos disputam tamb\u00e9m o tempo e as mentes dos humanos. Querem roubar o futuro aos povos e a lucidez \u00e0s consci\u00eancias.<\/p>\n<p>E na Europa, jardim supostamente iluminado, o confronto multiplica-se em espelhos partidos. Os opiniosos dividem-se em trincheiras verbais, uns a abra\u00e7ar um dem\u00f3nio, outros a invocar o seu contr\u00e1rio, como se a escolha poss\u00edvel fosse apenas entre dois lados da mesma moeda gasta. O debate p\u00fablico tornou-se uma c\u00e2mara de ecos onde j\u00e1 n\u00e3o se ouve a voz de Adamastor, esse gigante que ainda hoje espreita no Cabo das Tormentas, guardi\u00e3o de um medo mais antigo que todas as ideologias.<\/p>\n<p>Talvez por isso Os Lus\u00edadas, apesar de inimizado por alguns, resistam. N\u00e3o porque nos ensinem a navegar porque os mares de hoje s\u00e3o outros, mais turvos, mais trai\u00e7oeiros. Mas porque nos recordam que a l\u00edngua pode ser nau, que a palavra pode ser b\u00fassola, que o verso pode ser ancora num tempo \u00e0 deriva.<\/p>\n<p>E enquanto houver quem leia Cam\u00f5es, haver\u00e1 quem lembre que os monstros n\u00e3o est\u00e3o apenas nos mapas antigos, nem os deuses apenas no Olimpo. Est\u00e3o tamb\u00e9m no sil\u00eancio que escolhemos perante a barb\u00e1rie (seja ela isl\u00e2mica, NATO ou BRICS), na indiferen\u00e7a que vestimos como armadura, na rendi\u00e7\u00e3o de pensarmos que todos os diabos s\u00e3o iguais.<\/p>\n<p>450 anos depois, a epopeia continua. Mas agora o poema somos n\u00f3s, escrevendo-o a cada escolha, a cada palavra que ainda ousa dizer n\u00e3o ao abismo e que ouse colocar-se do lado dos que pretendem uma cultura da paz e n\u00e3o continuar com a cultura da guerra, oficialmente cuidada e proclamada.<\/p>\n<p>Passou-se do confronto com as for\u00e7as tel\u00faricas do Adamastor \u00e0 guerra do Diabo contra o Diabo porque hoje os monstros j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o s\u00f3 nos mapas, mas sobretudo nas mentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do Adamastor, o gigante de pedra e medo, ao tempo de Belzebu contra Satan\u00e1s, onde j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 deuses, s\u00f3 abismos a fitarem-se\u00a0 Em 12 de mar\u00e7o, sopram quatrocentos e cinquenta velas sobre a primeira edi\u00e7\u00e3o de Os Lus\u00edadas. 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