{"id":10834,"date":"2026-03-11T17:21:45","date_gmt":"2026-03-11T16:21:45","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10834"},"modified":"2026-03-11T17:54:36","modified_gmt":"2026-03-11T16:54:36","slug":"os-naufragados-da-festa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10834","title":{"rendered":"OS NAUFRAGADOS DA FESTA"},"content":{"rendered":"<p>Houve festa de cravo e madrugada,<br \/>\nestandartes rasgando o azul da idade,<br \/>\ndisseram que o vento novo era a liberdade<br \/>\ne a hist\u00f3ria, enfim, estava inaugurada.<\/p>\n<p>Mas em docas cegas, longe da alvorada,<br \/>\noutro barco dobrava a enseada torta,<br \/>\nn\u00e3o trazia ouro, trazia uma porta<br \/>\nfechada sobre o sol, e uma despedida.<\/p>\n<p>Na mem\u00f3ria, n\u00e3o vinham mapas, s\u00f3 a ferida:<br \/>\nfotografias a apodrecer no sal de outros c\u00e9us,<br \/>\no sotaque de Luanda enterrado entre os dentes e os adeuses<br \/>\ncomo moeda posta sob a l\u00edngua dos que partem para n\u00e3o voltar.<\/p>\n<p>A p\u00e1tria n\u00e3o \u00e9 terra, \u00e9 cicatriz mal fechada,<br \/>\nn\u00f3 de carne e sil\u00eancio que a chuva de Lisboa reabre,<br \/>\ncosidos \u00e0s pressas por m\u00e3os que n\u00e3o sabiam<br \/>\nque estavam a coser um sujeito ao vazio.<\/p>\n<p>E o ex\u00edlio, ningu\u00e9m o disse pelo nome.<br \/>\nRetornados trouxemos as m\u00e3os e deix\u00e1mos a sombra.<br \/>\nE foi a sombra que ficou do outro lado do mar<br \/>\na fazer os gestos que j\u00e1 n\u00e3o sabemos fazer.<\/p>\n<p>Os da festa apontavam estrelas com dedos de ideologia,<br \/>\ncantavam: o futuro \u00e9 um clar\u00e3o sem sombra!<br \/>\nEnquanto Moscovo e Washington, na sua liturgia,<br \/>\ntra\u00e7avam continentes a giz sobre a mesa fria,<br \/>\ntra\u00e7avam continentes a giz sobre a mesa fria,<\/p>\n<p>Os da festa apontavam estrelas com dedos de ideologia,<br \/>\ncantavam: o futuro \u00e9 um clar\u00e3o sem sombra!<br \/>\nEnquanto Moscovo e Washington, na sua liturgia,<br \/>\ntra\u00e7avam continentes a giz sobre a mesa fria,<br \/>\ntra\u00e7avam continentes a giz sobre a mesa fria,<br \/>\ncomo p\u00e3o e distribuem guerra e fome.<\/p>\n<p>N\u00f3s \u00e9ramos o estilha\u00e7o que sobrou do banquete,<br \/>\no espelho devolvido \u00e0 sala depois da festa:<br \/>\nnele, a face que n\u00e3o querem ver,<br \/>\na descoloniza\u00e7\u00e3o a sangrar no reverso da conquista,<br \/>\no imp\u00e9rio dissolvido como sal na mar\u00e9,<br \/>\na madrugada devorando o que restava de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Chamaram-nos sombras,<br \/>\no estorvo na paisagem que queriam limpa,<br \/>\na testemunha inc\u00f3moda da pressa com que se apagou<br \/>\ntudo o que havia, mal ou bem plantado,<br \/>\nnas m\u00e3os de outros, noutra margem,<br \/>\nnoutra imagem turva ou l\u00edmpida, mas alheia.<\/p>\n<p>\u00c9ramos \u00cdcaro depois da queda,<br \/>\nnem o sol nos pertencia, nem o mar nos queria.<br \/>\nRetornados, palavra de gelo na boca quente de Abril.<\/p>\n<p>E o Fado, esse n\u00e3o fez a revolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nApenas sangrou na guitarra como velho profeta,<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 revolta, \u00e9 m\u00e1goa que atravessa o segredo,<br \/>\nrio subterr\u00e2neo que nunca seca, nunca grita,<br \/>\napenas corre fundo, fundo, at\u00e9 ao mar.<\/p>\n<p>Portugal por que lhes cortas o cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Pergunta sem resposta, pedra atirada ao po\u00e7o,<br \/>\nvoz que o eco devolve mais funda e mais sozinha.<\/p>\n<p>Somos os n\u00e1ufragos da festa que n\u00e3o nos convidou,<br \/>\nfilhos do imp\u00e9rio que o imp\u00e9rio renegou,<br \/>\ne carregamos, como S\u00edsifo carrega a pedra,<br \/>\na mem\u00f3ria de uma terra que o mar n\u00e3o apagou.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a9 Pegadas do Tempo<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nota:<\/strong><\/p>\n<p>As ideias que fluem nesta poesia vivi-as tamb\u00e9m na altura do PREC \u00a0ao observar \u00a0que come\u00e7avam a chegar os \u201cRetornados\u201d a Portugal cerca de 500 a 700 mil cidad\u00e3os portugueses vindos das ex-col\u00f3nias africanas 1974 e 1976, no per\u00edodo do PREC, em consequ\u00eancia de uma descoloniza\u00e7\u00e3o atabalhoada porque marcada pela ideologia. O fim do imp\u00e9rio em 1975 provoca dores de identidade nos que est\u00e3o e nos que chegam (de Angola, Mo\u00e7ambique e Guin\u00e9).<\/p>\n<p>Os retornados foram a mem\u00f3ria que o regime queria esquecer; eram o rosto inc\u00f3modo de um imp\u00e9rio que a ideologia apressada dissolveu sem olhar a quem ficava pelo caminho. Assim tanto os retornados tal como os cidad\u00e3os residentes sofreram um embate de diferentes mentalidades e ide\u00e1rios, o que deixava quest\u00f5es importantes \u00e0 identidade e \u00e0 mem\u00f3ria coletiva nacionais.<\/p>\n<p>As narrativas sobre o colonialismo portugu\u00eas diferir\u00e3o segundo a perspetiva de uma esquerda leviana e apressada e a perspetiva conservadora lenta. A verdadeira vis\u00e3o certamente se ter\u00e1 de colocar criticamente entre as duas tentativas de narrativa.<\/p>\n<p>De notar, apesar de tudo o m\u00e9rito e o esfor\u00e7o de um pa\u00eds pequeno com 10 milhos de habitantes para receber tanto retornado. A amargura para muito portugu\u00eas era a de verificar que os Africanos deixavam de sofrer sob o colonialismo portugu\u00eas para passarem a sofrer sob o colonialismo sovi\u00e9tico e estadunidense. Uma ideologia que dividia o pa\u00eds no sentido da geopol\u00edtica servia as grandes pot\u00eancias contra os interesses das pequenas na\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>\u00a9\u00a0 Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Houve festa de cravo e madrugada, estandartes rasgando o azul da idade, disseram que o vento novo era a liberdade e a hist\u00f3ria, enfim, estava inaugurada. Mas em docas cegas, longe da alvorada, outro barco dobrava a enseada torta, n\u00e3o trazia ouro, trazia uma porta fechada sobre o sol, e uma despedida. 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