{"id":10828,"date":"2026-03-08T18:17:20","date_gmt":"2026-03-08T17:17:20","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10828"},"modified":"2026-03-08T21:55:10","modified_gmt":"2026-03-08T20:55:10","slug":"a-necessaria-transicao-da-matriz-social-masculina-para-uma-matriz-masculino-feminina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10828","title":{"rendered":"A Necess\u00e1ria Transi\u00e7\u00e3o da Matriz Social Masculina para uma Matriz Masculino-Feminina"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Para Al\u00e9m da Flor de Jardim e do Punho agressivo<\/strong><\/p>\n<p><em>Uma reflex\u00e3o anal\u00edtica sobre o Dia Internacional da Mulher e o paradoxo da luta feminina num mundo estruturalmente masculino<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Colonialismo Mental da Matriz Masculina<\/strong><\/p>\n<p>Entre a flor simb\u00f3lica oferecida \u00e0 mulher e o punho cerrado que expressa a l\u00f3gica da for\u00e7a, desenha-se uma das contradi\u00e7\u00f5es mais profundas da sociedade contempor\u00e2nea. Apesar das conquistas alcan\u00e7adas na igualdade de direitos, continuamos a viver dentro de uma estrutura social marcada por uma matriz predominantemente masculina. A verdadeira emancipa\u00e7\u00e3o feminina n\u00e3o poder\u00e1 limitar-se \u00e0 integra\u00e7\u00e3o das mulheres nesse sistema.\u00a0 Uma verdadeira evolu\u00e7\u00e3o social exige uma transforma\u00e7\u00e3o mais profunda que significaria a passagem para uma matriz social capaz de integrar, em equil\u00edbrio, as qualidades do feminino e do masculino. Neste sentido urge uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre o \u201ccolonialismo mental\u201d da matriz masculina e a pergunta se estaremos verdadeiramente a honrar o que a mulher \u00e9 e representa, ou limitamo-nos a prestar vassalagem a uma data que a pr\u00f3pria estrutura social dominante transformou em formalismo inocente?<\/p>\n<p>A quest\u00e3o que proponho \u00e9 mais profunda e, para muitos, desconfort\u00e1vel: a sociedade contempor\u00e2nea encontra-se enredada num paradoxo fundamental. Enquanto se proclama a igualdade de g\u00e9nero e se celebram conquistas no campo dos direitos das mulheres, a estrutura profunda que organiza o pensamento, o poder e a economia permanece fundamentalmente masculina na sua ess\u00eancia. Este &#8220;colonialismo mental&#8221;, como o designei em reflex\u00f5es anteriores publicadas em jornais e no blog \u201cPegadas do Tempo\u201d, n\u00e3o poupa homens nem mulheres, condicionando o desenvolvimento humano e social a padr\u00f5es determinados por uma l\u00f3gica de afirma\u00e7\u00e3o, competi\u00e7\u00e3o e dom\u00ednio.<\/p>\n<p>O presente artigo prop\u00f5e-se analisar criticamente esta matriz antropol\u00f3gica e sociopol\u00edtica, argumentando que a verdadeira emancipa\u00e7\u00e3o feminina e, por extens\u00e3o, a verdadeira evolu\u00e7\u00e3o humana, n\u00e3o passar\u00e1 pela integra\u00e7\u00e3o das mulheres nas estruturas existentes nos termos masculinos, mas sim pela transforma\u00e7\u00e3o radical dessas mesmas estruturas rumo a um equil\u00edbrio din\u00e2mico entre os princ\u00edpios da feminilidade e da masculinidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>1. A Matriz Masculina \u00e9 uma Arquitetura Invis\u00edvel da Desigualdade<\/strong><\/p>\n<p><strong>1.1. As Ra\u00edzes Evolutivas e Hist\u00f3ricas<\/strong><\/p>\n<p>Quando analisamos a organiza\u00e7\u00e3o social contempor\u00e2nea, dificilmente escapamos \u00e0 constata\u00e7\u00e3o de que ela assenta sobre aquilo a que podemos chamar uma &#8220;matriz masculina&#8221;. Esta matriz n\u00e3o \u00e9 um compl\u00f4 ou uma conspira\u00e7\u00e3o deliberada de homens contra mulheres, mas antes o produto de uma longa evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que remonta aos prim\u00f3rdios da humanidade.<\/p>\n<p>Nos prim\u00f3rdios, a divis\u00e3o de tarefas entre ca\u00e7a e recolha estabeleceu padr\u00f5es de especializa\u00e7\u00e3o cognitiva e social. O homem ca\u00e7ador desenvolveu capacidades de vis\u00e3o estrat\u00e9gica, pensamento abstrato, capacidade de risco calculado e a\u00e7\u00e3o decisiva, caracter\u00edsticas que associamos ao princ\u00edpio masculino. A mulher recolectora especializou-se na aten\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo e ao concreto, na gest\u00e3o do espa\u00e7o dom\u00e9stico, na nutri\u00e7\u00e3o e no cuidado, caracter\u00edsticas do princ\u00edpio feminino.<\/p>\n<p>Esta diferencia\u00e7\u00e3o inicial, produto de necessidades adaptativas, n\u00e3o era hier\u00e1rquica, mas complementar. Duas leis evolutivas operavam em equil\u00edbrio: a lei da afirma\u00e7\u00e3o seletiva (competi\u00e7\u00e3o, dom\u00ednio) e a lei da colabora\u00e7\u00e3o (coopera\u00e7\u00e3o, inclus\u00e3o, interdepend\u00eancia). Ambas eram necess\u00e1rias \u00e0 sobreviv\u00eancia do grupo.<\/p>\n<p>O per\u00edodo neol\u00edtico, com o culto da deusa-m\u00e3e, testemunhou talvez o \u00faltimo momento hist\u00f3rico de equil\u00edbrio real entre os princ\u00edpios feminino e masculino nas estruturas simb\u00f3licas e de poder. Foi com o desenvolvimento da metalurgia, da guerra organizada e das primeiras estruturas estatais complexas que se iniciou a progressiva masculiniza\u00e7\u00e3o das estruturas de poder.<\/p>\n<p><strong>1.2. A Economia como Motor da Masculiniza\u00e7\u00e3o Social<\/strong><\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Industrial marcou um ponto de viragem crucial. A transi\u00e7\u00e3o dos modelos agr\u00edcola e artesanal para a produ\u00e7\u00e3o industrial em larga escala exigia m\u00e3o-de-obra, e as mulheres constitu\u00edam uma reserva estrat\u00e9gica. Contudo, para serem integradas no mundo industrial, tiveram de se adaptar \u00e0 l\u00f3gica masculina da produ\u00e7\u00e3o que se resumem em\u00a0 competi\u00e7\u00e3o, efici\u00eancia, hierarquia r\u00edgida, separa\u00e7\u00e3o entre trabalho e vida.<\/p>\n<p>A p\u00edlula anticoncepcional, significativamente criada para as mulheres, n\u00e3o para os homens, simboliza esta instrumentaliza\u00e7\u00e3o: permitia \u00e0s mulheres entrarem no mercado de trabalho nos termos masculinos, controlando a reprodu\u00e7\u00e3o para n\u00e3o interromper a produ\u00e7\u00e3o. A maternidade, princ\u00edpio feminino por excel\u00eancia, tornava-se um &#8220;problema&#8221; a gerir sob o signo da masculinidade.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, enquanto as estruturas se masculinizavam, o marketing descobria na sensibilidade feminina um fil\u00e3o a explorar. As mulheres, mais orientadas para a dimens\u00e3o relacional e para o consumo, tornaram-se alvos privilegiados da ind\u00fastria. Mas esta &#8220;valoriza\u00e7\u00e3o&#8221; da feminilidade era, na verdade, mais uma forma da sua instrumentaliza\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o do princ\u00edpio masculino: o lucro, a expans\u00e3o, o crescimento pelo crescimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>2. O Paradoxo da Luta feminina \u00e9 combater o Masculino com Armas masculinas<\/strong><\/p>\n<p><strong>2.1. A Falsa Dial\u00e9tica da Luta de G\u00e9neros<\/strong><\/p>\n<p>Eis o cerne da quest\u00e3o que tenho vindo a desenvolver nos meus artigos para o BOM DIA Luxemburgo, ContraCultura, na Revista Triplov e em muitos outros media: a pr\u00f3pria luta feminina pelo equil\u00edbrio entre feminilidade e masculinidade \u00e9, contraditoriamente, conduzida geralmente por princ\u00edpios masculinos, sem que a ordem social seja transformada e a feminilidade seja tratada com equidade.<\/p>\n<p>O antigo princ\u00edpio pol\u00edtico e militar &#8220;divide para reinar&#8221; (divide et impera) encontra na quest\u00e3o do g\u00e9nero uma aplica\u00e7\u00e3o particularmente insidiosa. Tal como na luta entre ricos e pobres, a dial\u00e9tica entre homens e mulheres \u00e9 frequentemente enquadrada em termos de conflito, competi\u00e7\u00e3o e conquista de poder, numa palavra, em termos masculinos de car\u00e1cter meramente sociol\u00f3gico .<\/p>\n<p>Grande parte do ativismo feminista contempor\u00e2neo, embora animado por leg\u00edtimas reivindica\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a, adota estrat\u00e9gias de luta de car\u00e1cter extremamente masculino: afirma\u00e7\u00e3o agressiva, confronta\u00e7\u00e3o, conquista de territ\u00f3rios de poder. Esta contradi\u00e7\u00e3o performativa de lutar pela valoriza\u00e7\u00e3o da feminilidade com armas masculinas, revela at\u00e9 que ponto a matriz masculina colonizou at\u00e9 os movimentos que pretensamente a contestam. (Talvez aqui se trate tamb\u00e9m de contrariar a ideia de que contra a for\u00e7a n\u00e3o h\u00e1 resist\u00eancia com energias da pr\u00f3pria for\u00e7a).<\/p>\n<p><strong>2.2. A Naturaliza\u00e7\u00e3o do Paradigma Militar<\/strong><\/p>\n<p>A naturalidade com que se discute hoje a introdu\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio tamb\u00e9m para mulheres constitui um sintoma revelador. O modelo militar, hierarquia r\u00edgida, obedi\u00eancia, viol\u00eancia organizada, sacrif\u00edcio individual ao coletivo abstrato, representa a quintess\u00eancia do princ\u00edpio masculino. Que a &#8220;igualdade de g\u00e9nero&#8221; se afirme atrav\u00e9s da integra\u00e7\u00e3o das mulheres neste modelo, em vez de questionar o pr\u00f3prio modelo, demonstra o grau de internaliza\u00e7\u00e3o da matriz masculina.<\/p>\n<p>Observamos hoje mulheres em cargos de lideran\u00e7a que tendem frequentemente a ser mais agressivas, mais &#8220;masculinas&#8221; na sua gest\u00e3o do que muitos homens. Este fen\u00f3meno n\u00e3o \u00e9 acidental: numa estrutura masculina, as mulheres sentem necessidade de &#8220;provar&#8221; o seu valor adotando e exacerbando os c\u00f3digos masculinos. \u00c9 uma forma de compensa\u00e7\u00e3o que, tragicamente, perpetua o sistema que as limita.<\/p>\n<p>A verdadeira igualdade n\u00e3o vir\u00e1 de mulheres que se tornam &#8220;homens honor\u00e1rios&#8221;, mas da transforma\u00e7\u00e3o das estruturas para que possam acolher genuinamente o princ\u00edpio feminino.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>3. O Machismo Estrutural como Problema Inconsciente e Coletivo<\/strong><\/p>\n<p><strong>3.1. Para Al\u00e9m da Inten\u00e7\u00e3o Individual<\/strong><\/p>\n<p>Um dos equ\u00edvocos mais persistentes no debate sobre a igualdade de g\u00e9nero \u00e9 a personaliza\u00e7\u00e3o do problema. Tendemos a identificar o machismo com comportamentos individuais grosseiros, com a figura do &#8220;macho&#8221; arcaico e ostensivamente discriminador. Esta abordagem, al\u00e9m de redutora, \u00e9 profundamente enganadora.<\/p>\n<p>Para evitar esta estrat\u00e9gia do machismo sist\u00e9mico se desculpar no machismo individual o O machismo intr\u00ednseco \u00e0 nossa matriz social deve ser decomposto e encarado como um problema inconsciente e coletivo. N\u00e3o se trata apenas de m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es individuais, mas de estruturas de pensamento, sistemas de valor e modelos organizacionais que, independentemente da vontade dos atores, perpetuam a domin\u00e2ncia do princ\u00edpio masculino que impede tanto o desenvolvimento integral do homem como da mulher.<\/p>\n<p>As mulheres que ascendem a posi\u00e7\u00f5es de poder e adotam comportamentos tipicamente masculinos n\u00e3o o fazem por trai\u00e7\u00e3o \u00e0 sua natureza, mas porque o sistema as obriga a isso. Os homens que gostariam de desenvolver a sua dimens\u00e3o feminina (emocionalidade, cuidado, expressividade) frequentemente veem-se constrangidos por expectativas sociais que os aprisionam. Homens e mulheres s\u00e3o, assim, igualmente v\u00edtimas desta matriz que a todos coloniza.<\/p>\n<p><strong>3.2. A Mutila\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea cria Homens efeminados e Mulheres masculinizadas<\/strong><\/p>\n<p>Observamos hoje homens aparentemente mais &#8220;efeminados&#8221;, o que \u00e9 frequentemente interpretado como sinal de feminiza\u00e7\u00e3o da sociedade. Esta leitura \u00e9 duplamente equivocada. Primeiro, porque confunde efemina\u00e7\u00e3o (caricatura da feminilidade) com feminilidade genu\u00edna (princ\u00edpio de integra\u00e7\u00e3o, cuidado, rela\u00e7\u00e3o). Segundo, porque estes homens n\u00e3o s\u00e3o agentes de uma mudan\u00e7a estrutural, mas sintomas e v\u00edtimas do \u2018zeitgeist\u2019, manifesta\u00e7\u00f5es de uma crise de identidade masculina que n\u00e3o altera a domin\u00e2ncia da matriz masculina nas estruturas de poder.<\/p>\n<p>Paralelamente, observamos mulheres que se masculinizam para sobreviver em ambientes profissionais hostis. Este duplo movimento, homens que perdem a sua masculinidade aut\u00eantica sem verdadeiramente ganharem feminilidade, mulheres que sacrificam a sua feminilidade sem verdadeiramente ganharem poder \u00e9 o tr\u00e1gico resultado de uma sociedade que, proclamando a igualdade, aprofunda a confus\u00e3o identit\u00e1ria e fomenta doen\u00e7as sociais pr\u00f3prias.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>4. A Mulher para Al\u00e9m da Apar\u00eancia: As Qualidades Femininas como Valor Estruturante<\/strong><\/p>\n<p><strong>4.1. A Redu\u00e7\u00e3o Est\u00e9tica da Mulher<\/strong><\/p>\n<p>Numa altura em que os homens levantam os punhos e mostram os m\u00fasculos em gestos guerreiros, at\u00e9 a feminilidade tende a ser definida em termos m\u00e1sculos de guerra. A mulher n\u00e3o pode ser encarada apenas como beleza admir\u00e1vel ou como jarro de enfeite ou de mera inspira\u00e7\u00e3o, porque as suas qualidades v\u00e3o muito al\u00e9m da apar\u00eancia f\u00edsica.<\/p>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o da mulher \u00e0 sua dimens\u00e3o est\u00e9tica \u00e9 uma das formas mais sutis e eficazes de a desqualificar como agente social pleno. Quando a mulher \u00e9 celebrada apenas pela sua beleza, pelo seu poder de inspirar artistas ou pelo seu papel decorativo, est\u00e1 a ser-lhe negada a participa\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o ativa do mundo.<\/p>\n<p><strong>4.2. A Intelig\u00eancia Emocional como &#8220;Superpoder&#8221; Feminino<\/strong><\/p>\n<p>Estudos contempor\u00e2neos confirmam o que a sabedoria ancestral j\u00e1 intu\u00eda: o verdadeiro &#8220;superpoder&#8221; feminino \u00e9 o coeficiente de intelig\u00eancia emocional, que tem como pilares a autoconsci\u00eancia, a autorregula\u00e7\u00e3o e a autodire\u00e7\u00e3o. Apesar de homens e mulheres terem igualmente potencial emocional, as mulheres demonstram maior empatia quando em posi\u00e7\u00f5es de gest\u00e3o e apoiam mais o bem-estar dos colaboradores.<\/p>\n<p>Esta intelig\u00eancia emocional n\u00e3o \u00e9 um &#8220;defeito&#8221; a corrigir para ter sucesso num mundo masculino, mas uma compet\u00eancia superior que o mundo necessita urgentemente. A capacidade de reconhecer, compreender e gerir as pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es e as dos outros, \u00e9 uma compet\u00eancia estrat\u00e9gica para enfrentar os desafios complexos do nosso tempo.<\/p>\n<p><strong>4.3. Para Al\u00e9m da Funcionalidade <\/strong><\/p>\n<p>A mulher n\u00e3o \u00e9 apenas funcionalidade, n\u00e3o \u00e9 apenas &#8220;recursos humanos&#8221; ou &#8220;capital&#8221; a ser otimizado. A vis\u00e3o puramente economicista da participa\u00e7\u00e3o feminina na sociedade, de quantas mulheres nos conselhos de administra\u00e7\u00e3o, quantas em cargos de lideran\u00e7a, qual o seu contributo para o PIB, embora importante, segue o risco de reproduzir a l\u00f3gica masculina da quantifica\u00e7\u00e3o e da efici\u00eancia.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 em causa n\u00e3o \u00e9 apenas a presen\u00e7a f\u00edsica de mulheres em determinados espa\u00e7os, mas a transforma\u00e7\u00e3o qualitativa desses espa\u00e7os pela presen\u00e7a feminina genu\u00edna. N\u00e3o se trata de &#8220;gerir melhor&#8221; o existente, mas de criar um novo paradigma de gest\u00e3o, de rela\u00e7\u00e3o e de organiza\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>5. A Necess\u00e1ria Transi\u00e7\u00e3o para uma Matriz Masculino-Feminina\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>5.1. O Reconhecimento da Bival\u00eancia de Cada Pessoa<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro passo para\u00a0 mudan\u00e7a estrutural \u00e9 reconhecer que cada pessoa, independentemente do sexo biol\u00f3gico, \u00e9 portadora de caracter\u00edsticas masculinas e femininas. A masculinidade (afirma\u00e7\u00e3o, an\u00e1lise, abstra\u00e7\u00e3o, competi\u00e7\u00e3o) e a feminilidade (integra\u00e7\u00e3o, s\u00edntese, materialidade, colabora\u00e7\u00e3o) n\u00e3o s\u00e3o propriedades exclusivas de homens e mulheres, mas dimens\u00f5es da psique humana (Animus e Anima) e princ\u00edpios organizadores da sociedade.<\/p>\n<p>Esta perspetiva, que tenho vindo a desenvolver em diferentes artigos e diversos meios, permite superar a vis\u00e3o essencialista que prende as pessoas a pap\u00e9is predeterminados e abre caminho para uma compreens\u00e3o mais rica e complexa da identidade humana.<\/p>\n<p><strong>5.2. A Crise da Vis\u00e3o Masculina do Mundo<\/strong><\/p>\n<p>O modelo masculino dominante, focado na afirma\u00e7\u00e3o imediata e na conquista de objetivos a curto prazo, mostra-se crescentemente inadequado face aos desafios contempor\u00e2neos e ao desenvolvimento integral humano. As crises ecol\u00f3gica, clim\u00e1tica e de sustentabilidade exigem precisamente as qualidades do princ\u00edpio feminino: cuidado com o longo prazo, aten\u00e7\u00e3o aos efeitos sobre o todo, responsabilidade relacional, prud\u00eancia e repensar o princ\u00edpio progressista.<\/p>\n<p>A incapacidade das nossas estruturas pol\u00edticas e econ\u00f3micas de responderem adequadamente a estes desafios n\u00e3o \u00e9 acidental, \u00e9 estrutural e como tal produto da domin\u00e2ncia da matriz masculina. A transi\u00e7\u00e3o para uma matriz masculino-feminina n\u00e3o \u00e9, portanto, apenas uma quest\u00e3o de justi\u00e7a para com as mulheres, mas uma condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia para a humanidade.<\/p>\n<p><strong>5.3. Da Cultura da Guerra \u00e0 Cultura da Paz<\/strong><\/p>\n<p>A consequ\u00eancia mais profunda e promissora desta transi\u00e7\u00e3o seria a substitui\u00e7\u00e3o de uma cultura da guerra por uma cultura da paz. A matriz masculina, na sua express\u00e3o desequilibrada, tende para a resolu\u00e7\u00e3o de conflitos pela for\u00e7a, para a afirma\u00e7\u00e3o pela domina\u00e7\u00e3o, para a expans\u00e3o pela conquista. A matriz feminina, pelo contr\u00e1rio, tende para a negocia\u00e7\u00e3o, para a inclus\u00e3o, para a resolu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica de tens\u00f5es, numa l\u00f3gica de afirma\u00e7\u00e3o e adaptacao.<\/p>\n<p>A Europa enfrenta hoje, de novo, o fantasma da guerra. Assistimos a um preocupante rearmamento e a um discurso belicista que se pretende apresentar como &#8220;bom senso \u201c. Este regresso a uma cultura de guerra \u00e9 a express\u00e3o m\u00e1xima do desequil\u00edbrio da matriz masculina. Se as qualidades femininas de negocia\u00e7\u00e3o, prud\u00eancia e cuidado tivessem peso equivalente nas decis\u00f5es geopol\u00edticas, o mundo seria seguramente diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>6.Propostas para uma Nova Abordagem<\/strong><\/p>\n<p><strong>6.1. A Desconstru\u00e7\u00e3o da Matriz como Tarefa Coletiva<\/strong><\/p>\n<p>Se o problema \u00e9 estrutural e inconsciente, a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser apenas individual. A desconstru\u00e7\u00e3o do machismo estrutural exige um esfor\u00e7o coletivo de tomada de consci\u00eancia e de transforma\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es. N\u00e3o basta &#8220;empoderar&#8221; mulheres nos termos existentes; \u00e9 preciso transformar os termos em que o poder \u00e9 exercido.<\/p>\n<p>Esta desconstru\u00e7\u00e3o passa pela educa\u00e7\u00e3o, pela socializa\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es, pela revis\u00e3o dos modelos de lideran\u00e7a, pela reavalia\u00e7\u00e3o do que consideramos &#8220;sucesso&#8221; e &#8220;realiza\u00e7\u00e3o&#8221;. Passa, sobretudo, por questionar a naturalidade com que aceitamos que o mundo funcione segundo princ\u00edpios de competi\u00e7\u00e3o, hierarquia e domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>6.2. Valoriza\u00e7\u00e3o do Feminino sem Essencialismos<\/strong><\/p>\n<p>Importa aqui um cuidado: valorizar o princ\u00edpio feminino n\u00e3o significa cair em essencialismos que aprisionam as mulheres num destino biol\u00f3gico. O que est\u00e1 em causa n\u00e3o \u00e9 uma suposta &#8220;natureza feminina&#8221; imut\u00e1vel, mas um conjunto de qualidades e perspetivas que foram historicamente associadas \u00e0s mulheres e que o desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o relegou para segundo plano.<\/p>\n<p>A intelig\u00eancia emocional, a capacidade de cuidado, a orienta\u00e7\u00e3o para a rela\u00e7\u00e3o e para a comunidade, a vis\u00e3o de longo prazo, a prefer\u00eancia pela negocia\u00e7\u00e3o sobre o confronto, s\u00e3o qualidades que o mundo necessita, independentemente de quem as exer\u00e7a. A sua valoriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma &#8220;concess\u00e3o&#8221; \u00e0s mulheres, mas uma necessidade civilizacional.<\/p>\n<p>6.3. O Papel dos Homens nesta Transi\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de uma matriz masculino-feminina n\u00e3o \u00e9 tarefa exclusiva das mulheres. Os homens t\u00eam um papel crucial a desempenhar, tanto na desconstru\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria socializa\u00e7\u00e3o masculina como na abertura a dimens\u00f5es da sua personalidade que a cultura dominante os levou a reprimir.<\/p>\n<p>Homens que choram, que cuidam, que exprimem as suas emo\u00e7\u00f5es, que recusam a competi\u00e7\u00e3o como \u00fanico modo de rela\u00e7\u00e3o, que valorizam a qualidade de vida sobre a acumula\u00e7\u00e3o de poder,\u00a0 estes homens n\u00e3o s\u00e3o &#8220;efeminados&#8221;, s\u00e3o humanos completos a reconquistar a totalidade da sua humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>7. O Verdadeiro Significado do Dia da Mulher<\/strong><\/p>\n<p>O melhor caminho para celebrar o Dia Internacional da Mulher seria introduzir na matriz masculina que todos seguimos caracter\u00edsticas mais femininas, no intuito de construir uma matriz social equilibrada entre as qualidades em torno dos princ\u00edpios da feminilidade e da masculinidade. Uma verdadeira abordagem no sentido da mulher implica a necessidade de superar a matriz masculina na sociedade.<\/p>\n<p>Sem combater a matriz masculina que homens e mulheres seguem, o Dia da Mulher torna-se apenas uma formalidade,\u00a0 um dia de flores e discursos que n\u00e3o altera a estrutura profunda da desigualdade. Apesar de tudo, &#8220;vale a pena lutar&#8221; por uma sociedade mais justa e inclusiva, mas numa perspetiva e estrat\u00e9gia de car\u00e1cter feminino, n\u00e3o seguindo a estrat\u00e9gia masculina de confronto e domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A luta pela igualdade requer uma desconstru\u00e7\u00e3o do machismo estrutural e a valoriza\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia emocional feminina. A verdadeira evolu\u00e7\u00e3o social depende de uma mudan\u00e7a na mentalidade coletiva. N\u00e3o se trata de &#8220;dar lugar \u00e0s mulheres&#8221; num mundo constru\u00eddo por homens, mas de construir, juntos, um mundo novo onde masculino e feminino possam finalmente dan\u00e7ar em equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>Talvez ent\u00e3o, quando homens e mulheres se libertarem da matriz que a ambos aprisiona, possamos verdadeiramente celebrar n\u00e3o apenas um dia, mas uma nova forma de estar no mundo, isto \u00e9,\u00a0 uma forma onde a paz n\u00e3o seja a exce\u00e7\u00e3o, mas a regra; onde a competi\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja o \u00fanico motor, mas um entre muitos; onde o cuidado n\u00e3o seja desvalorizado, mas reconhecido como a mais alta forma de intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 essa a reflex\u00e3o que deixo, n\u00e3o apenas neste Dia da Mulher, mas para todos os dias em que ousarmos imaginar um mundo diferente.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>\u00a9 Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>Nota: Desenvolvi este artigo a partir de reflex\u00f5es que expus em m\u00faltiplos ensaios e publica\u00e7\u00f5es ao longo dos anos, procurando sintetizar e aprofundar uma perspetiva cr\u00edtica sobre a matriz social dominante e o lugar da mulher na contemporaneidade. A luta da mulher pela sua integra\u00e7\u00e3o no sistema patriarcal tem tido efeitos a n\u00edvel meramente funcional, mas uma transforma\u00e7\u00e3o substancial da matriz masculina ter\u00e1 de partir de outros pressupostos que n\u00e3o seja apenas os da integra\u00e7\u00e3o, prespectiva esta demasiadamente masculina que nos pauta e a cria\u00e7\u00e3o de uma matriz masculina-feminina n\u00e3o se pode alcan\u00e7ar apenas a n\u00edvel de sintomas; trata-se de uma vis\u00e3o integral de homem e mulher e de passar da estrat\u00e9gia da funcionalidade para a relacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Al\u00e9m da Flor de Jardim e do Punho agressivo Uma reflex\u00e3o anal\u00edtica sobre o Dia Internacional da Mulher e o paradoxo da luta feminina num mundo estruturalmente masculino O Colonialismo Mental da Matriz Masculina Entre a flor simb\u00f3lica oferecida \u00e0 mulher e o punho cerrado que expressa a l\u00f3gica da for\u00e7a, desenha-se uma das &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10828\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">A Necess\u00e1ria Transi\u00e7\u00e3o da Matriz Social Masculina para uma Matriz Masculino-Feminina<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,15,14,4,5,6,7,8,16],"tags":[],"class_list":["post-10828","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-escola","category-migracao","category-politica","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10828","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10828"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10828\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10831,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10828\/revisions\/10831"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10828"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10828"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10828"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}