{"id":10817,"date":"2026-03-01T22:22:44","date_gmt":"2026-03-01T21:22:44","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10817"},"modified":"2026-03-01T22:22:44","modified_gmt":"2026-03-01T21:22:44","slug":"reflexao-quaresmal-e-o-clima-interior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10817","title":{"rendered":"REFLEX\u00c3O QUARESMAL E O CLIMA INTERIOR"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Entre a tempestade do mundo e a paz que vamos aprendendo a cultivar<\/strong><\/p>\n<p><strong>H\u00e1 dias em que o vento sopra de tal modo que parece atravessar as paredes. N\u00e3o tanto o vento meteorol\u00f3gico, mas sobretudo o vento das not\u00edcias, das discuss\u00f5es ideol\u00f3gicas, dos meandros do poder e das urg\u00eancias artificiais. Ainda antes do caf\u00e9 abro o telem\u00f3vel e sinto o seu zunir constante, como se o mundo estivesse sempre a bater-me \u00e0 porta e a querer desabar.<\/strong><\/p>\n<p>Durante tempos pensei que era apenas impress\u00e3o minha e que tinha talvez uma sensibilidade social excessiva! Com o tempo, por\u00e9m, comecei a perceber que muitos \u00e0 minha volta partilhavam do mesmo cansa\u00e7o invis\u00edvel que se torna impertinente e por vezes at\u00e9 atormentador. A grande luminosidade tecnol\u00f3gica que nos acompanha exteriormente \u00e9 acompanhada\u00a0 \u00a0de uma crescente escurid\u00e3o interior. <strong>Quanto mais clareza intelectual criamos sobre os sistemas<\/strong> <strong>digitais, econ\u00f3micos e pol\u00edticos, mais descemos \u00e0 cave da nossa pr\u00f3pria inquieta\u00e7\u00e3o existencial.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tudo isto me faz lembrar uma tarde junto ao mar na praia da Costa Nova. As ondas avan\u00e7avam com for\u00e7a<\/strong> <strong>e retiravam a areia sob os meus p\u00e9s. Por instantes perdi o equil\u00edbrio e como rea\u00e7\u00e3o fechei os olhos. A sensa\u00e7\u00e3o era simples e, ao mesmo tempo, reveladora porque quando o ch\u00e3o se move, n\u00e3o \u00e9 o mar que precisa de estabilidade, quem precisa dela sou eu.<\/strong><\/p>\n<p>Essa imagem tem-me acompanhado na observa\u00e7\u00e3o de mim mesmo e do mundo. O mundo tornou-se severo, tanto no clima exterior como no interior das pessoas. As redes sociais e os meios de comunica\u00e7\u00e3o, em geral, amplificam indigna\u00e7\u00f5es, os debates pol\u00edticos endurecem e as palavras perdem a sua inoc\u00eancia e subtileza. O di\u00e1logo foi substitu\u00eddo por trincheiras emocionais. E n\u00f3s, no meio desse vendaval, tentamos permanecer com os p\u00e9s bem assentes na terra para n\u00e3o cair, mas as ondas n\u00e3o nos deixam.<\/p>\n<p><strong>Com o tempo percebi que come\u00e7ava a reagir a cada not\u00edcia que achava relevante como se fosse uma convocat\u00f3ria pessoal. Mas o mais fatal \u00e9 que uma guerra distante se tornava ansiedade pr\u00f3xima e uma decis\u00e3o pol\u00edtica se transformava em revolta \u00edntima. Sentia-me parte de uma engrenagem gigantesca e, ao mesmo tempo, impotente.<\/strong> Para fugir ao sentimento desta impot\u00eancia ent\u00e3o procurava ruminar as not\u00edcias atrav\u00e9s de reflex\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Entretanto veio-me \u00e0 ideia a imagem do mito de S\u00edsifo que condenado pelos deuses<\/strong> <strong>a empurrar uma enorme pedra montanha acima, quando chegava ao topo, a pedra rolava de volta, e ele tinha de come\u00e7ar novamente. Empurramos montanha acima diariamente a pedra da produtividade, do desempenho e da valida\u00e7\u00e3o social, apenas para a ver rolar novamente na manh\u00e3 seguinte. A repeti\u00e7\u00e3o exaustiva passa a substituir o sentido deixando a impress\u00e3o que tudo se reduz a atrito como se a fric\u00e7\u00e3o fosse o sustento da vida. N\u00e3o ser\u00e1 essa a met\u00e1fora perfeita da nossa \u00e9poca? Trabalhamos, opinamos, partilhamos, reagimos e, na manh\u00e3 seguinte, tudo recome\u00e7a, mas tudo parece ficar cada vez mais na mesma.<\/strong><\/p>\n<p>Mas a hist\u00f3ria de S\u00edsifo tamb\u00e9m pode ser lida de outra forma: \u00e9 poss\u00edvel que a dignidade n\u00e3o esteja no resultado, mas na forma como seguramos a pedra.<\/p>\n<p><strong>Num tempo em que o peso dos dias se faz sentir com especial intensidade, entre as exig\u00eancias do trabalho, as inquieta\u00e7\u00f5es que v\u00eam do mundo e as perguntas sem resposta que acompanham o sil\u00eancio de cada um, h\u00e1 que encontrar conforto num espa\u00e7o espiritual ou nalgum recanto do esp\u00edrito, como referia o f\u00edsico Max Planck, ao falar que cada um precisa de ter um ponto firme, de uma posse que n\u00e3o nos pode ser tirada, isto \u00e9, uma atitude pura e a boa vontade. \u00c0 primeira vista, pode parecer quase ing\u00e9nuo. Como pode a boa vontade fazer frente \u00e0 aspereza do real? Como pode resistir \u00e0 viol\u00eancia, \u00e0 atitude maldosa, \u00e0 pressa, ao ru\u00eddo do mundo? N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas a for\u00e7a da boa vontade estar\u00e1 no facto de n\u00e3o competir, de n\u00e3o se impor, mas de simplesmente manter-se na consci\u00eancia de que n\u00e3o se trata de concorrer, mas de resistir.<\/strong><\/p>\n<p>A intelig\u00eancia emocional, hoje t\u00e3o citada em manuais de lideran\u00e7a, revelou-se para mim algo muito mais \u00edntimo, resumido na capacidade de n\u00e3o permitir que o ru\u00eddo exterior colonize o sil\u00eancio interior, o centro da mesmidade. Tudo isto \u00e9 processo onde se pode aprender a \u00a0distinguir entre aquilo que faz parte de mim e me pertence e aquilo que me rodeia\u00a0 ou que apenas atravessa o meu ecr\u00e3 ou se mostra nos jornais.<\/p>\n<p>A tarefa n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, at\u00e9 porque o homem n\u00e3o \u00e9 de pau e, por vezes, a circunst\u00e2ncias tornam-se no cadinho da vida. Trata-se ent\u00e3o de dar um pa\u00e7o de cada vez! Desligar notifica\u00e7\u00f5es, caminhar sem auscultadores, escutar algu\u00e9m sem preparar resposta. Importante \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o direta de olhos nos olhos, de voz sem filtro, porque tem um poder reparador que nenhum algoritmo consegue refutar.<\/p>\n<p><strong>Observo tamb\u00e9m que muitas ideologias prometem seguran\u00e7a identit\u00e1ria, mas cobram um pre\u00e7o elevado que se manifesta na rigidez do cora\u00e7\u00e3o.<\/strong> Quando nos agarramos a certezas absolutas, fechamos as janelas da compreens\u00e3o. E sem compreens\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 paz poss\u00edvel, no m\u00e1ximo, apenas vit\u00f3ria tempor\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Vivemos uma \u00e9poca em que a democracia, para alguns, j\u00e1 s\u00f3 soa a nostalgia, pois o poder parece, al\u00e9m de cruel, distante e as decis\u00f5es globais ultrapassam a nossa influ\u00eancia direta. Para mantermos a sa\u00fade ps\u00edquica somos cada vez mais condicionados a vivermos com humor e a virar-nos para o espa\u00e7o interior que \u00e9 o territ\u00f3rio onde continuamos soberanos.<\/strong><\/p>\n<p>Isto n\u00e3o significa fuga espiritual, nem de ingenuidade pol\u00edtica, mas assumir responsabilidade. Se permitirmos que a ang\u00fastia e o ressentimento se instalem em n\u00f3s como morada permanente, tornamo-nos replicadores da mesma dureza que criticamos.<\/p>\n<p><strong>O nosso tempo exige cidad\u00e3os experientes na adversidade, n\u00e3o endurecidos, mas amadurecidos; pessoas capazes de reconhecer a pr\u00f3pria fragilidade sem a transformar em agressividade, para chegar a compreender que a verdadeira coragem, muitas vezes, consiste em permanecer humano quando o ambiente incentiva o contr\u00e1rio.<\/strong><\/p>\n<p>Volto frequentemente \u00e0quela imagem da praia. As ondas continuar\u00e3o a avan\u00e7ar e a recuar na consci\u00eancia que o movimento \u00e9 a base da exist\u00eancia. Mas aprendi que posso abrir os olhos no meio da instabilidade e procurar o meu centro. <strong>Esse centro n\u00e3o elimina a tempestade; apenas impede que eu me torne parte dela.<\/strong><\/p>\n<p>A grande tarefa da nossa gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 conquistar territ\u00f3rios nem vencer debates, mas preservar a alma num tempo de excessos. Num s\u00e9culo de luzes artificiais intensas, o desafio maior \u00e9 reacender a luz humana, de maneira discreta, mas persistente.<\/p>\n<p><strong>S\u00f3 quem encontra paz dentro de si consegue atravessar a tempestade sem perder a alma e pode contribuir para uma cultura de paz fora de si.<\/strong><\/p>\n<p>E essa \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o silenciosa que come\u00e7a sempre no \u00edntimo de cada um de n\u00f3s e a\u00ed procurar conciliar reflex\u00e3o cr\u00edtica, experi\u00eancia pessoal e promo\u00e7\u00e3o de uma cultura de paz fundada na dignidade humana e na consci\u00eancia interior.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre a tempestade do mundo e a paz que vamos aprendendo a cultivar H\u00e1 dias em que o vento sopra de tal modo que parece atravessar as paredes. 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