{"id":10812,"date":"2026-02-27T23:38:22","date_gmt":"2026-02-27T22:38:22","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10812"},"modified":"2026-03-01T18:06:47","modified_gmt":"2026-03-01T17:06:47","slug":"o-nascimento-da-consciencia-ocidental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10812","title":{"rendered":"O NASCIMENTO DA CONSCI\u00caNCIA OCIDENTAL"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Ad\u00e3o e Eva e os dois caminhos culturais do Ocidente e do Oriente<\/strong><\/p>\n<p>Quando se l\u00ea a narra\u00e7\u00e3o do Livro do G\u00e9nesis, podemos entend\u00ea-lo n\u00e3o apenas como narrativa religiosa, mas tamb\u00e9m como s\u00edmbolo do alvorecer da consci\u00eancia humana.<strong> Na narra\u00e7\u00e3o de Ad\u00e3o e Eva expressa-se o nascimento da consci\u00eancia do Ocidente marcada pela palavra, pela rela\u00e7\u00e3o e pela historicidade.<\/strong><\/p>\n<p>Eva representa o despertar da interioridade na humanidade. Enquanto o esp\u00edrito de Ad\u00e3o ainda se encontra imerso na natureza, numa unidade indiferenciada com o mundo animal, <strong>Eva desperta para a distin\u00e7\u00e3o entre interior e exterior. Ao reconhecer a pr\u00f3pria sombra, percebe que existe um \u201cdentro\u201d e um \u201cfora\u201d. Esse momento \u00e9 decisivo e d\u00e1 in\u00edcio ao nascimento da autoconsci\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p>A \u00e1rvore do conhecimento n\u00e3o \u00e9 apenas objeto de transgress\u00e3o moral, \u00e9 s\u00edmbolo de orienta\u00e7\u00e3o porque d\u00e1 dire\u00e7\u00e3o e proporciona desenvolvimento. Eva n\u00e3o consegue atingir toda a ci\u00eancia da \u00e1rvore da sabedoria porque apenas prova um fruto que reparte com Ad\u00e3o; deste modo, d\u00e1 o salto da vida inconsciente animal para a humana, inaugurando a diferencia\u00e7\u00e3o, sem, contudo, conseguir alcan\u00e7ar a totalidade. A fragmenta\u00e7\u00e3o torna-se assim destino da natureza humana, surgindo ent\u00e3o a experi\u00eancia da separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O ponto culminante para o desenvolvimento da cultura ocidental tem origem no chamamento de Deus a Ad\u00e3o (humanidade) e equaciona-se nestas suas tr\u00eas palavras: \u201cAd\u00e3o, onde est\u00e1s?\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>Este chamamento inaugura algo essencial na determina\u00e7\u00e3o da cultura ocidental e consiste na palavra (Logos) que interpela, numa pergunta que pressup\u00f5e resposta. Deus n\u00e3o acusa, apenas pergunta.<\/strong> A pergunta convida \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o interior, pois antes de come\u00e7ar a a\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso situar-se. <strong>Este gesto, no meu entender, funda o movimento t\u00edpico do Ocidente que se desenvolve numa din\u00e2mica de pergunta e resposta, de tentativa e erro.<\/strong> De facto, antes de tudo est\u00e1 a palavra a preceder os acontecimentos, seguida da reflex\u00e3o que antecede a a\u00e7\u00e3o e depois de se estar bem posicionado e com os \u201cp\u00e9s\u201d firmes trata-se ent\u00e3o de dar resposta no seguimento do chamamento.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 precisamente aqui que nasce a cultura do eu diante do tu, da rela\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica, da responsabilidade pessoal no contexto de uma terceira realidade que \u00e9 o n\u00f3s; o n\u00f3s \u00e9 como que o intervalo experimentado, em Deus presente, que \u00e9 a outra dimens\u00e3o do ser.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Linearidade, Espiral e o Contributo crist\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>Assim, o Ocidente desenvolve-se como cultura da hist\u00f3ria, do tempo linear (1), da dire\u00e7\u00e3o (sentido, do alfa para o \u00f3mega: princ\u00edpio, meio e fim).<\/strong> Como se v\u00ea j\u00e1 na hist\u00f3ria do povo de Israel, que a B\u00edblia narra como peregrina\u00e7\u00e3o com in\u00edcio, queda, reden\u00e7\u00e3o e consuma\u00e7\u00e3o. <strong>Com o cristianismo, a linearidade desenvolve uma outra perspetiva que encontra express\u00e3o na formula\u00e7\u00e3o trinit\u00e1ria, onde essa linearidade ganha uma din\u00e2mica relacional, diria, dimens\u00e3o em espiral que ultrapassa o dualismo<\/strong> <strong>e o hiato entre iman\u00eancia e transcend\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p>A doutrina da Trindade, articulada nos primeiros s\u00e9culos e consolidada em conc\u00edlios como o de Conc\u00edlio de Niceia, introduz uma estrutura relacional no pr\u00f3prio conceito de Deus e expressa-se na unidade que \u00e9 comunh\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Logo, o tempo ocidental deixa de ser apenas lineal para se tornar linha em espiral e porque h\u00e1 dire\u00e7\u00e3o, d\u00e1 lugar \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o (como \u00e9 espec\u00edfico da cultura asi\u00e1tica), mas nele cada regresso ocorre em n\u00edvel mais profundo. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Na via ocidental a pessoa torna-se o centro da cultura, n\u00e3o como indiv\u00edduo isolado (gota no oceano), mas como ser constitu\u00eddo na rela\u00e7\u00e3o assumindo responsabilidade (\u00f4ntica). A linguagem torna-se instrumento de media\u00e7\u00e3o.<\/strong> Pensar \u00e9 separar para depois unir, \u00e9 dividir para integrar (ao contr\u00e1rio da pr\u00e1tica pol\u00edtica geral que se expressa numa cultura da rivalidade).<\/p>\n<p>Eva, ao inventar a linguagem, funda a dist\u00e2ncia entre sujeito e objeto. Essa dist\u00e2ncia gera ci\u00eancia, filosofia, direito, pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m gera ang\u00fastia, fragmenta\u00e7\u00e3o e conflito.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A vis\u00e3o oriental expresa-se como\u00a0 iman\u00eancia, sil\u00eancio e ciclo<\/strong><\/p>\n<p><strong>Em contraste, muitas tradi\u00e7\u00f5es orientais, como o Budismo, especialmente na sua express\u00e3o Zen, n\u00e3o colocam a \u00eanfase na interpela\u00e7\u00e3o verbal nem na transcend\u00eancia pessoal (porque permanece na iman\u00eancia, existe intrinsecamente dentro do ser ou objeto,)<\/strong><\/p>\n<p><strong>O ideal zen \u00e9 frequentemente descrito como cora\u00e7\u00e3o-espelho. Isto \u00e9, reflete tudo, n\u00e3o ret\u00e9m nada e n\u00e3o se apropria <\/strong>(tamb\u00e9m porque n\u00e3o \u00e9 pessoal).<\/p>\n<p><strong>Nele o vazio n\u00e3o \u00e9 car\u00eancia, mas liberdade. A aus\u00eancia n\u00e3o \u00e9 perda, mas leveza. Enquanto no Ocidente a pergunta original \u00e9 \u201cOnde est\u00e1s?\u201d no Oriente a pergunta original \u00e9 \u201cQuem \u00e9 aquele que pergunta?\u201d. <\/strong><strong>Duas perguntas que determinam mundivis\u00f5es diferentes.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Poder\u00edamos resumir a diferen\u00e7a dos dois caminhos culturais em cinco palavras-chaves. Os conceitos<\/strong> <strong>definidores do Ocidente s\u00e3o: Palavra<\/strong> <strong>(ou logos), Chamamento (individualizado), Hist\u00f3ria Linear<\/strong> <strong>(com in\u00edcio, meio e fim), Pessoa relacional<\/strong> <strong>(individual), Transcend\u00eancia<\/strong> (<strong>de um Deus). As palavras correspondentes definidoras do Oriente, pela ordem apresentada s\u00e3o:<\/strong><strong> S<\/strong><strong>il\u00eancio<\/strong> <strong>(ou Consci\u00eancia), Harmonia<\/strong> <strong>(ou Dharma), Ciclo<\/strong> <strong>(ou Ritmo), Interconex\u00e3o (ou Coletividade) despersonaliza\u00e7\u00e3o), Iman\u00eancia<\/strong> <strong>(ou vazio)<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>\u00a0No Oriente, a linguagem \u00e9 vista como dist\u00e2ncia excessiva do real. Falar \u00e9 j\u00e1 separar-se do acontecimento. E isto porque nesta cultura o c\u00e9u n\u00e3o fala<\/strong>; nela <strong>o c\u00e9u \u00e9, pura e simplesmente.<\/strong> A busca n\u00e3o \u00e9 pela origem metaf\u00edsica, mas pela liberta\u00e7\u00e3o do apego. (A liberta\u00e7\u00e3o definitiva do sofrimento -Nirvana &#8211; reconhece a natureza da realidade como vacuidade\/interdepend\u00eancia)<\/p>\n<p>Agarrar-se \u00e9 sofrer. Escapar ao apego \u00e9 libertar-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O conflito entre caminhos<\/strong><\/p>\n<p><strong>A pergunta mais profunda n\u00e3o \u00e9 hist\u00f3rica nem filos\u00f3fica, mas sim existencial e resume-se nesta:\u00a0 Porque \u00e9 que povos e pessoas, em vez de reconhecerem o seu caminho e aceitarem o dos outros, falam mal do caminho alheio?<\/strong><\/p>\n<p><strong>A resposta tem certamente a ver com a inseguran\u00e7a identit\u00e1ria (donde venho, onde estou, quem sou e para onde vou).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Quem n\u00e3o compreende e n\u00e3o reconhece o pr\u00f3prio caminho sente o outro como amea\u00e7a<\/strong>. A opini\u00e3o (a mundivis\u00e3o, ideologia), quando reivindica o todo, transforma-se em viol\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>O medo gera escravid\u00e3o e o escravo inconsciente torna-se numa extens\u00e3o do senhor e, deste modo, torna sustent\u00e1vel uma cultura da rivalidade como na cultura de Caim e Abel, cultura esta adversa \u00e0 cultura de paz iniciada pelo novo Ad\u00e3o.<\/strong> Sim, porque, quando n\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logo, resta a luta.<\/p>\n<p><strong>O di\u00e1logo aut\u00eantico n\u00e3o \u00e9 fus\u00e3o, nem \u00e9 dissolu\u00e7\u00e3o no outro. \u00c9 atitude madura de permanecer na transi\u00e7\u00e3o, sem perder identidade.<\/strong> Ent\u00e3o torna-se natural que entre dois seres conscientes exista sempre um espa\u00e7o: um espa\u00e7o \u00e9 tens\u00e3o, mas que \u00e9 tamb\u00e9m possibilidade de reconhecimento. <strong>Neste caso, embora na diversidade, tanto a teologia da trindade do ocidente como a vis\u00e3o oriental t\u00eam aspetos muito comuns. A rela\u00e7\u00e3o da f\u00f3rmula trinit\u00e1ria seria o caminho mais adequado para se construir uma cultura da paz e um futuro em que a complementaridade poderia fazer parte da consci\u00eancia social dos povos. Neste sentido o Ocidente ter\u00e1 de recuperar o caminho m\u00edstico, como j\u00e1 avisava Karl Rhaner.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Duas m\u00edsticas com dois riscos<\/strong><\/p>\n<p><strong>Se observarmos as mundivis\u00f5es da perspetiva da \u00e1guia, tanto o caminho ocidental como o oriental incluem grandeza e perigo. No caminho ocidental o risco situa-se no excesso de racionaliza\u00e7\u00e3o, na fragmenta\u00e7\u00e3o (divide et impera), na domina\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e na perda do sil\u00eancio <\/strong>(que \u00e9 o lugar onde a alma respira para se reencontar).<strong> Por sua vez, o risco oriental situa-se na dissolu\u00e7\u00e3o da pessoa, na indiferen\u00e7a hist\u00f3rica e na fuga do sofrimento sem transforma\u00e7\u00e3o do mundo. <\/strong>Por\u00e9m, h\u00e1 que entender, que falo de alcan\u00e7ar o \u201cvazio\u201d na doutrina budista cl\u00e1ssica, o sofrimento (dukkha) n\u00e3o \u00e9 negado nem evitado, mas enfrentado e transformado, pois, o Dharma \u00e9 entendido como caminho de liberta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o como fuga. Um fen\u00f3meno semelhante ocorre no cristianismo ocidental, onde se tenta superar o dualismo ocidental atrav\u00e9s do caminho m\u00edstico.<\/p>\n<p><strong>Resumindo poder-se-ia dizer que o Ocidente ilumina como vela na noite e o Oriente se dissolve como gota no oceano.<\/strong><\/p>\n<p>Na realidade, ambos s\u00e3o verdadeiros, mas complementares. No di\u00e1logo das mundivis\u00f5es e culturas a s\u00edntese fulcral a tentar seria entre a Palavra do Ocidente que se expressa como chamamento, rela\u00e7\u00e3o, hist\u00f3ria e o Sil\u00eancio do Oriente que se expressa como presen\u00e7a, iman\u00eancia, ciclo. <strong>A vis\u00e3o de Teilhard de Chardin seria aqui um caminho a ser aprofundado.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Uma Poss\u00edvel S\u00edntese interior entre a Palavra do Ocidente \u00a0e o Sil\u00eancio do Oriente<\/strong><\/p>\n<p><strong>Talvez o futuro para o Oriente e para o Ocidente n\u00e3o seja escolher entre palavra ou sil\u00eancio, entre atividade ou convento, mas aprender o ritmo entre ambos.<\/strong> Neste sentido seria optar por uma atitude de complementaridade de um sil\u00eancio que escuta, da palavra que chama, de uma a\u00e7\u00e3o que nasce da reflex\u00e3o e da contempla\u00e7\u00e3o que n\u00e3o abandona o mundo, mas se encontra em processo de transcend\u00eancia (<strong>Em termos ocidentais poderia isto tamb\u00e9m significar transformar os conventos de ordem ativa em pra\u00e7a p\u00fablica<\/strong>).<\/p>\n<p><strong>A pergunta \u201cAd\u00e3o, onde est\u00e1s?\u201d pode ser escutada tamb\u00e9m no sil\u00eancio Zen. E o vazio Zen pode ser compreendido como purifica\u00e7\u00e3o do apego que impede o di\u00e1logo verdadeiro.<\/strong><\/p>\n<p>Assim, como se pode verificar, no chamamento a Ad\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 culpa, h\u00e1 perspetiva. E tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 condena\u00e7\u00e3o, h\u00e1 consci\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>Cada pessoa, conforme a sua constitui\u00e7\u00e3o, pode inclinar-se mais para a via da palavra ou para a via do sil\u00eancio, mas na consci\u00eancia que toda a natureza embora repetindo-se segue um chamamento impl\u00edcito que lhe proporciona desenvolvimento. A maturidade talvez consista em reconhecer que o pr\u00f3prio caminho n\u00e3o esgota o real; que o outro n\u00e3o \u00e9 amea\u00e7a, mas espelho e que a diferen\u00e7a \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00e3o, mas em que cada pessoa est\u00e1 chamada a ser um microcosmo de toda a realidade (para crist\u00e3os o melhor exemplo ou prot\u00f3tipo \u00e9 Jesus Cristo onde se encontram reunidos encarna\u00e7\u00e3o e Ressurrei\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p><strong>Entre eu e tu permanece sempre uma dist\u00e2ncia que n\u00e3o deve ser abolida e \u00e9 nela que nasce a liberdade e aquilo a que poder\u00edamos designar de dignidade humana, do ser pessoa, aquele espa\u00e7o-intervalo onde se alberga o mist\u00e9rio, o divino.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A t\u00edtulo de clarifica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Esta exposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 para ser lida como descri\u00e7\u00e3o interna do Budismo enquanto tradi\u00e7\u00e3o, mas como caracteriza\u00e7\u00e3o tipol\u00f3gica de um \u201crisco\u201d poss\u00edvel de certas leituras espiritualistas que na Europa se acentuam apontando para a dissolu\u00e7\u00e3o da pessoa hist\u00f3rica e a desvaloriza\u00e7\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o do mundo. Nesse sentido, trata-se menos de um ju\u00edzo sobre o Budismo concreto (Theravada ou Tibetano) mas mais de apresentar uma tens\u00e3o estrutural entre interioridade libertadora e responsabilidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p><strong>Em termos hist\u00f3rico-filos\u00f3ficos queria salientar que em linhas gerais o Ocidente seguiu uma vis\u00e3o linear do tempo (hist\u00f3ria como processo orientado), forte afirma\u00e7\u00e3o da pessoa como sujeito irrepet\u00edvel e centralidade da transforma\u00e7\u00e3o do mundo. A verdade tende a assumir forma relacional, hist\u00f3rica e \u00e9tica. A linha geral seguida pela \u00c1sia (em tra\u00e7o tipol\u00f3gico) assenta na vis\u00e3o c\u00edclica ou n\u00e3o-linear do tempo, com \u00eanfase na integra\u00e7\u00e3o no todo e na liberta\u00e7\u00e3o interior como eixo central. Aqui a verdade tende a assumir forma experiencial, contemplativa e ontol\u00f3gica.<\/strong><\/p>\n<p>Assim, o Ocidente privilegiou a hist\u00f3ria e a rela\u00e7\u00e3o e a \u00c1sia privilegiou o ser e a liberta\u00e7\u00e3o interior. No meu artigo trata-se sobretudo de expressar esquemas interpretativos amplos, \u00fateis para pensar tend\u00eancias hist\u00f3ricas, n\u00e3o descri\u00e7\u00f5es exaustivas das tradi\u00e7\u00f5es concretas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Chamamento coletivo<\/strong><\/p>\n<p><strong>O mito de Ad\u00e3o e Eva, lido desta forma simb\u00f3lica, n\u00e3o \u00e9 apenas narrativa religiosa, \u00e9 descri\u00e7\u00e3o do nascimento da autoconsci\u00eancia, da linguagem, da responsabilidade e da hist\u00f3ria.<\/strong> <strong>Por seu lado a tradi\u00e7\u00e3o oriental lembra-nos que antes da palavra h\u00e1 respira\u00e7\u00e3o, antes da identidade h\u00e1 presen\u00e7a (como poderemos tamb\u00e9m intuir no Ocidente a partir dos acontecimentos entre o calv\u00e1rio e a Ressurrei\u00e7\u00e3o,<\/strong> o momento do sil\u00eancio e do sepulcro vazio em termos religiosos, a experi\u00eancia da sexta-feira santa).<\/p>\n<p>Digno de considera\u00e7\u00e3o \u00e9 verificar que o verdadeiro caminho n\u00e3o ser\u00e1 nem a pura linearidade nem o puro ciclo, mas uma espiral consciente onde sil\u00eancio e palavra se iluminam mutuamente. E aqui a pergunta permanece viva, n\u00e3o como acusa\u00e7\u00e3o, mas como orienta\u00e7\u00e3o, na tentativa de resposta ao \u201cOnde est\u00e1s\u201d?<\/p>\n<p><strong>Se a pergunta primordial dirigida a Ad\u00e3o foi \u201cOnde est\u00e1s?\u201d, ent\u00e3o ela tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser reduzida \u00e0 intimidade do indiv\u00edduo. Tamb\u00e9m as civiliza\u00e7\u00f5es s\u00e3o chamadas a situar-se<\/strong>. A Uni\u00e3o Europeia, enquanto herdeira de uma tradi\u00e7\u00e3o fundada na consci\u00eancia, na palavra e na responsabilidade hist\u00f3rica, n\u00e3o est\u00e1 dispensada dessa interpela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Quando uma cultura que nasceu do exerc\u00edcio reflexivo da interioridade deixa de escutar a pr\u00f3pria voz e passa a orientar-se predominantemente por l\u00f3gicas de confronto, de estrat\u00e9gia e de poder, algo se desloca nas bases que a sustentam.<\/strong> N\u00e3o se trata de negar a necessidade de defesa ou de decis\u00e3o pol\u00edtica; trata-se de perguntar se essas decis\u00f5es brotam de uma autoconsci\u00eancia amadurecida ou de uma adapta\u00e7\u00e3o acr\u00edtica ao ru\u00eddo exterior.<\/p>\n<p>A voz que pergunta \u201cOnde est\u00e1s?\u201d n\u00e3o \u00e9 confessional; \u00e9 estrutural. \u00c9 a exig\u00eancia de coer\u00eancia entre identidade e a\u00e7\u00e3o. <strong>Uma cultura que separa a sua ret\u00f3rica humanista da sua pr\u00e1tica hist\u00f3rica assume o risco de viver numa duplicidade<\/strong>: proclama valores universais enquanto age segundo imperativos circunstanciais. Essa ambival\u00eancia \u00e9 sinal de uma consci\u00eancia fragmentada.<\/p>\n<p>Quando o indiv\u00edduo \u00e9 chamado \u00e0 responsabilidade, mas a comunidade pol\u00edtica age como se estivesse dispensada de exame interior, instala-se uma forma coletiva de inconsci\u00eancia. <strong>E a inconsci\u00eancia, quando organizada, torna-se perigosa.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O verdadeiro desafio europeu n\u00e3o ser\u00e1 afirmar-se no terreno do confronto, mas reencontrar o seu centro.<\/strong> N\u00e3o um centro religioso no sentido estrito, mas um centro integral onde palavra, mem\u00f3ria, responsabilidade e a\u00e7\u00e3o voltem a coincidir.<\/p>\n<p><strong>De facto, uma cultura que n\u00e3o sabe responder onde est\u00e1 acaba por ser conduzida por for\u00e7as que n\u00e3o sabe ou n\u00e3o se atreve a nomear.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Ocidente e Oriente simbolizados numa \u00c1rvore e num Espelho<\/strong><\/p>\n<p>Num convento beneditino onde al\u00e9m de retiros espirituais crist\u00e3os se faziam medita\u00e7\u00f5es Zen e exerc\u00edcio de Yoga, o superior do convento era convidado a fazer o encerramento dos cursos e costumava contar a seguinte par\u00e1bola:\u00a0 Conta-se que, no princ\u00edpio, havia uma \u00e1rvore no meio de uma clareira e, diante dela, um espelho apoiado numa pedra.<\/p>\n<p>A \u00e1rvore crescia em dire\u00e7\u00e3o ao c\u00e9u, ramo ap\u00f3s ramo, como quem procura uma resposta. Cada folha era uma pergunta e cada fruto, uma tentativa de compreender.<\/p>\n<p>O espelho n\u00e3o procurava nada. N\u00e3o subia nem descia, apenas permanecia. Quando o vento passava, refletia o vento e quando a noite chegava, apenas refletia a noite. Nada guardava nada nele e nada retinha.<\/p>\n<p>Um dia, um viajante entre culturas chegou \u00e0 clareira. Olhou para a \u00e1rvore e sentiu o impulso de subir, de ver mais longe, de distinguir e de dar nome ao que a sua vista atingia. Depois olhou para o espelho e sentiu o convite a parar, a esvaziar-se, a estar simplesmente presente.<\/p>\n<p>Ficou hesitante, sem saber se escolher a \u00e1rvore a que pretendia subir ou o espelho.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o percebeu algo: a \u00e1rvore s\u00f3 podia crescer porque a terra era silenciosa e o espelho s\u00f3 podia refletir porque havia luz.<\/p>\n<p>O viajante compreendeu, ent\u00e3o, que a sua peregrina\u00e7\u00e3o n\u00e3o se delimitava na escolha entre a \u00e1rvore e o espelho, mas na lenta aprendizagem do momento pr\u00f3prio para subir e para permanecer. E, no entanto, sabia-se a caminho, movido por um chamamento pessoal que n\u00e3o era apenas seu, que ecoava no \u00e2mago do seu ser e, ao mesmo tempo, em toda a natureza. Nesse apelo primordial, tantas vezes se confundia com o reino vegetal, pois lhe parecia que tamb\u00e9m ele, na sua mudez vertical, cumpria um destino no sentido do sol, seguindo a \u00f3rbita desse eco luminoso, semelhante ao eco espiritual que o peregrino sentia na sua alma.<\/p>\n<p>Descansado, ao partir, levou consigo uma certeza silenciosa: h\u00e1 momentos em que a vida nos chama pelo nome e h\u00e1 momentos em que ela apenas nos pede que estejamos.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Te\u00f3logo e Pedagogo Social<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo \u00a9<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(1) Na Concep\u00e7\u00e3o Ocidental ( Linear-Espiral, ascendente) o tempo \u00e9 um recurso finito e um vetor que avan\u00e7a irreversivelmente do passado (origem) em dire\u00e7\u00e3o a um futuro (t\u00e9los\/fim). \u00c9 frequentemente associado a uma flecha ou espiral (progresso), ele implica evolu\u00e7\u00e3o, inova\u00e7\u00e3o e uma hist\u00f3ria que n\u00e3o se repete, e se expressa na simbologia crist\u00e3 com o Alfa e o Omega na esperan\u00e7a de salva\u00e7\u00e3o\u00a0 depois de um ju\u00edzo final segundo as tradi\u00e7\u00f5es judaico-crist\u00e3s.<\/p>\n<p>Na Concep\u00e7\u00e3o Oriental (C\u00edclica, repetitiva) o tempo \u00e9 um palco de eterno retorno, regido por ciclos c\u00f3smicos de cria\u00e7\u00e3o, destrui\u00e7\u00e3o e renascimento (ex: Samsara hindu\u00edsta\/budista, Roda do Dharma). N\u00e3o h\u00e1 um fim absoluto, mas sim revolu\u00e7\u00f5es constantes, onde a hist\u00f3ria \u00e9 padronizada e a salva\u00e7\u00e3o reside em transcender a roda do tempo, n\u00e3o em aceler\u00e1-la.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ad\u00e3o e Eva e os dois caminhos culturais do Ocidente e do Oriente Quando se l\u00ea a narra\u00e7\u00e3o do Livro do G\u00e9nesis, podemos entend\u00ea-lo n\u00e3o apenas como narrativa religiosa, mas tamb\u00e9m como s\u00edmbolo do alvorecer da consci\u00eancia humana. 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