{"id":10804,"date":"2026-02-23T22:10:49","date_gmt":"2026-02-23T21:10:49","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10804"},"modified":"2026-02-24T11:01:09","modified_gmt":"2026-02-24T10:01:09","slug":"o-custo-de-ser-familia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10804","title":{"rendered":"O CUSTO DE SER FAM\u00cdLIA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Na Alemanha ter Filhos est\u00e1 a tornar-se um Luxo<\/strong><\/p>\n<p>A decis\u00e3o de ter filhos \u00e9 profundamente pessoal, mas \u00e9 tamb\u00e9m influenciada por fatores estruturais, econ\u00f3micos e ideol\u00f3gicos. Na Alemanha, um pa\u00eds conhecido pelo seu forte sistema de apoio social, observa-se um crescente sentimento de inseguran\u00e7a financeira que est\u00e1 a deixar as fam\u00edlias em compasso de espera. <strong>De acordo com uma pesquisa do instituto Insa, a maioria dos alem\u00e3es acredita que formar uma fam\u00edlia se tornou um luxo inacess\u00edvel, levantando quest\u00f5es urgentes sobre o futuro do pa\u00eds e as prioridades do Estado.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Segundo a Perce\u00e7\u00e3o da nova Gera\u00e7\u00e3o &#8220;N\u00e3o d\u00e1 para ter Filhos&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Os n\u00fameros da pesquisa s\u00e3o um sinal de alerta claro. <strong>Para 55% dos inquiridos pelo Insa, a resposta \u00e9 taxativa: j\u00e1 n\u00e3o se pode ter filhos devido aos custos envolvidos. Apenas 34% discordam desta afirma\u00e7\u00e3o, enquanto 11% se mostram indecisos.<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m de uma mentalidade hedonista transmitida socialmente, o principal motor deste pessimismo \u00e9 o aumento generalizado do custo de vida. <strong>Para 81% dos que veem a fam\u00edlia como impratic\u00e1vel, a culpa estaria na escalada de pre\u00e7os em \u00e1reas essenciais como habita\u00e7\u00e3o, alimenta\u00e7\u00e3o e energia. Este sentimento atinge o seu pico na faixa et\u00e1ria mais propensa a planear uma fam\u00edlia. Segundo o chefe da Insa, na faixa et\u00e1ria entre os 30 e os 49 anos, 60% dos inquiridos consideram que ter filhos \u00e9 financeiramente invi\u00e1vel.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Um dos fatores ideol\u00f3gicos expressa-se certamente na discuss\u00e3o em torno do aborto. Uma iniciativa civil, constitu\u00edda por organiza\u00e7\u00f5es progressistas n\u00e3o governamentais e financiada com dinheiro p\u00fablico, tem pressionado a Uni\u00e3o Europeia para a cria\u00e7\u00e3o de um fundo europeu destinado ao aborto. Esse fundo financiaria o acesso ao aborto por cidad\u00e3s europeias noutros pa\u00edses-membros, o que, na pr\u00e1tica, poderia contornar as diferentes legisla\u00e7\u00f5es nacionais em mat\u00e9ria de prazos e de aconselhamento obrigat\u00f3rio.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Quanto Custa sustentar uma Crian\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>Esta perce\u00e7\u00e3o de &#8220;carestia&#8221; n\u00e3o \u00e9 infundada e encontra eco nas estat\u00edsticas. <strong>Segundo dados do Departamento Federal de Estat\u00edstica (Destatis), citados por v\u00e1rias an\u00e1lises, o custo m\u00e9dio para criar um filho na Alemanha at\u00e9 aos 18 anos ronda os 164.808 euros. Este valor traduz-se numa despesa mensal m\u00e9dia de cerca de 763 euros, que varia consoante a idade, ou seja, 679 euros para crian\u00e7as dos 0 aos 6 anos, 786 euros para dos 6 aos 12 e 953 euros para adolescentes at\u00e9 aos 18.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c9 importante notar que este c\u00e1lculo inclui n\u00e3o s\u00f3 gastos diretos (roupa, comida, brinquedos), mas tamb\u00e9m os custos indiretos significativos, como a necessidade de uma habita\u00e7\u00e3o maior ou o aumento do consumo de energia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Perante estes n\u00fameros, o Estado alem\u00e3o disponibiliza um conjunto de apoios. O mais conhecido \u00e9 o Kindergeld (abono de fam\u00edlia), que em 2026 sofreu um ligeiro aumento, fixando-se nos 259 euros mensais por crian\u00e7a. Paralelamente (1), existe a dedu\u00e7\u00e3o fiscal por filhos (Kinderfreibetrag), que em 2026 \u00e9 de 6.828 euros anuais por crian\u00e7a, um mecanismo que tende a beneficiar mais as fam\u00edlias com rendimentos mais elevados.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Apesar destes apoios, o sentimento de des\u00e2nimo persiste. A discrep\u00e2ncia entre o custo real (679 euros para um beb\u00e9) e o valor do abono (259 euros) \u00e9 evidente, mesmo considerando que o Estado tamb\u00e9m subsidia fortemente outras \u00e1reas, como o custo das creches (Kita), que na Alemanha \u00e9 um dos mais baixos da Europa, representando apenas 1% do rendimento familiar para fam\u00edlias com dois filhos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Paradoxo do Investimento e o Fantasma do Envelhecimento<\/strong><\/p>\n<p><strong>A Alemanha n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds que poupe nas fam\u00edlias. Dados do Instituto Alem\u00e3o de Economia (DIW) mostram que o pa\u00eds gasta mais de 1.600 euros por habitante em benef\u00edcios familiares, um valor que \u00e9 quase o dobro da m\u00e9dia da Uni\u00e3o Europeia.<\/strong> Ent\u00e3o, porque persiste a sensa\u00e7\u00e3o de que &#8220;n\u00e3o d\u00e1&#8221;?<\/p>\n<p>A resposta pode estar na converg\u00eancia de v\u00e1rias crises como, a infla\u00e7\u00e3o p\u00f3s-pandemia, a crise energ\u00e9tica e o aumento das rendas, que corroem o poder de compra e tornam o planeamento familiar um exerc\u00edcio de alto risco. <strong>A confian\u00e7a no futuro est\u00e1 em baixo, e a perce\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que o apoio estatal, embora existenta, n\u00e3o acompanha o ritmo galopante das despesas.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Este cen\u00e1rio \u00e9 particularmente preocupante num pa\u00eds que enfrenta um acelerado envelhecimento populacional. Tradicionalmente, a imigra\u00e7\u00e3o tem sido usada como um instrumento para mitigar este desequil\u00edbrio demogr\u00e1fico.<\/strong> No entanto, como os dados da pesquisa Insa sugerem, confiar apenas na imigra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma estrat\u00e9gica m\u00edope se o ambiente para as fam\u00edlias nativas e imigrantes n\u00e3o for atraente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Menos Armas, mais Apoio \u00e0 Vida e menos Propaga\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 neste contexto que surge a proposta de uma mudan\u00e7a de paradigma. <strong>Se o futuro da sociedade depende das novas gera\u00e7\u00f5es, o investimento nelas e na pr\u00f3pria cultura deveria ser prioridade absoluta.<\/strong> Tal implica, para muitos, uma redefini\u00e7\u00e3o das prioridades or\u00e7amentais do Estado, nomeadamente o redireccionamento de fundos massivos, como os que s\u00e3o atualmente canalizados para o setor militar e de armamento, para pol\u00edticas de apoio \u00e0 fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Entre as medidas concretas necessitadas de investiga\u00e7\u00e3o que poderiam inverter a atual tend\u00eancia de des\u00e2nimo, destaca-se a cria\u00e7\u00e3o de um sal\u00e1rio mensal digno para as m\u00e3es (ou pais) durante os primeiros quatro anos de vida da crian\u00e7a, idade determinante para a configura\u00e7\u00e3o da personalidade da crian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao seu equil\u00edbrio futuro. Uma medida desta natureza reconheceria, por um lado o trabalho invis\u00edvel e essencial do cuidado na primeira inf\u00e2ncia,\u00a0 por outro compensaria a perda de rendimento num per\u00edodo cr\u00edtico, onde as despesas com o beb\u00e9 s\u00e3o altas e, frequentemente, um dos progenitores reduz o seu hor\u00e1rio de trabalho ou abandona o emprego e valorizaria a fam\u00edlia no seu contributo fundamental para a sociedade, e n\u00e3o como um &#8220;problema&#8221; ou um &#8220;custo&#8221; individual.<\/p>\n<p>A Alemanha tem demonstrado, atrav\u00e9s do seu investimento em creches e abonos, que entende a import\u00e2ncia de apoiar as fam\u00edlias<strong>. No entanto, a perce\u00e7\u00e3o p\u00fablica, cristalizada na pesquisa da Insa, mostra que o atual pacote de medidas j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 suficiente, tendo muito embora em conta que o problema n\u00e3o \u00e9 apenas de natureza econ\u00f3mica mas sobretudo de crise cultural.<\/strong><\/p>\n<p>O desafio para os governos n\u00e3o \u00e9 apenas ajustar valores, mas sim criar uma nova arquitetura de suporte que ofere\u00e7a seguran\u00e7a e estabilidade genu\u00ednas aos jovens casais. Se a preocupa\u00e7\u00e3o com o futuro \u00e9 real, ele come\u00e7a a ser constru\u00eddo hoje, n\u00e3o em campos de batalha, mas no ber\u00e7o e na estabilidade financeira de quem ousa, ou gostaria de ousar, ser pai ou m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Um Estado que n\u00e3o garante um espa\u00e7o livre e de liberdade para as crian\u00e7as est\u00e1, na pr\u00e1tica, a sufocar o seu pr\u00f3prio futuro e assume uma fun\u00e7\u00e3o redutora. Quando a crian\u00e7a \u00e9 vista apenas como um fardo financeiro, o Estado falha a sua miss\u00e3o essencial. Ao n\u00e3o reconhecer as crian\u00e7as como uma fonte de enriquecimento humano e social, acaba por criar um d\u00e9fice bem mais caro a n\u00edvel \u00a0econ\u00f3mico, demogr\u00e1fico e, acima de tudo, humano. A tend\u00eancia social para uma vida previs\u00edvel, organizada e tranquila entra em choque com a natureza da inf\u00e2ncia. As crian\u00e7as s\u00e3o criativas, espont\u00e2neas e surpreendentes, n\u00e3o se enquadrando nesse modelo r\u00edgido. As crian\u00e7as trazem de volta proximidade, alegria, autenticidade e a capacidade de criar espa\u00e7os vibrantes de humanidade, valores estes que a rotina adulta organizada perdeu.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>(1) Na Alemanha, n\u00e3o se acumulam o Kindergeld e o Kinderfreibetrag como dois benef\u00edcios independentes.<br \/>\nOs pais recebem normalmente o Kindergeld todos os meses. Depois, quando fazem a declara\u00e7\u00e3o de imposto, a autoridade fiscal (Finanzamt) faz automaticamente uma \u201cG\u00fcnstigerpr\u00fcfung\u201d (verifica\u00e7\u00e3o do que \u00e9 mais vantajoso). Aplica-se apenas a op\u00e7\u00e3o que for mais vantajosa.<br \/>\nIsto \u00e9, nos rendimentos mais baixos geralmente compensa mais o Kindergeld e nos rendimentos mais altos geralmente compensa mais o Kinderfreibetrag. N\u00e3o \u00e9 preciso escolher porque o sistema das finan\u00e7as decide automaticamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Alemanha ter Filhos est\u00e1 a tornar-se um Luxo A decis\u00e3o de ter filhos \u00e9 profundamente pessoal, mas \u00e9 tamb\u00e9m influenciada por fatores estruturais, econ\u00f3micos e ideol\u00f3gicos. 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