{"id":10800,"date":"2026-02-20T14:20:43","date_gmt":"2026-02-20T13:20:43","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10800"},"modified":"2026-02-20T14:20:43","modified_gmt":"2026-02-20T13:20:43","slug":"espectador-de-sombras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10800","title":{"rendered":"ESPECTADOR DE SOMBRAS"},"content":{"rendered":"<p>O Professor Amadeu desligou a televis\u00e3o com um suspiro que mais parecia o ar a escapar de um pneu velho. No \u00e9cran, a imagem de um agente da ICE, com cara de bulldog, arrastava uma mulher que chorava por um filho que ficara para tr\u00e1s, num cen\u00e1rio de chuva e n\u00e9on. Era uma imagem violenta, comovente e demasiado real. Foi por isso que o Professor, um homem que passara a vida a ler entrelinhas, sentiu a picadela da d\u00favida. Aquela chuva batia num \u00e2ngulo demasiado perfeito nos rostos e o desespero tinha uma coreografia estudada.<\/p>\n<p>No dia seguinte, a not\u00edcia do esc\u00e2ndalo rebentou como uma pequena bomba nos jornais s\u00e9rios. O heute journal alem\u00e3o admitia, sob press\u00e3o pol\u00edtica, ter exibido imagens geradas por intelig\u00eancia artificial. Um l\u00edder regional, um tal de Rena Palatino, exigia &#8220;m\u00e1xima transpar\u00eancia&#8221;, como quem pede a um m\u00e1gico que revele o truque depois de o espet\u00e1culo acabar. Amadeu sorriu com amargura. A ponta do icebergue, pensara ele. O monstro verdadeiro navegava nas \u00e1guas escuras por baixo.<\/p>\n<p>Na tert\u00falia semanal da livraria &#8220;A Central&#8221;, o assunto pegou fogo. A D. Em\u00edlia, uma reformada da educa\u00e7\u00e3o que devorava romances hist\u00f3ricos como se fossem p\u00e3o quente, estava indignada.<\/p>\n<p>\u201cMas como \u00e9 poss\u00edvel? A ZDF \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica! Pagamos para que nos mintam com bonecos de computador? E depois falam da China, da R\u00fassia&#8230; A hipocrisia \u00e9 o motor do mundo!\u201d<\/p>\n<p>Joaquim, um designer gr\u00e1fico de olhar cansado que vivia de campanhas publicit\u00e1rias, encolheu os ombros.<\/p>\n<p>\u201cHipocrisia, D. Em\u00edlia? \u00c9 neg\u00f3cio e isso \u00e9 a pol\u00edtica. \u00c9 a vers\u00e3o deles, a mais \u00fatil. A senhora ainda acredita no Pai Natal da objetividade? A imagem j\u00e1 n\u00e3o prova nada. Prova o que se quer que prove. N\u00f3s vendemos sonhos em p\u00edlulas e eles vendem medos em pixels. Tudo sai da mesma f\u00e1brica.\u201d<\/p>\n<p>Amadeu ouvia, absorto. Lembrou-se do seu aluno mais brilhante, um mi\u00fado de \u00f3culos fundo de garrafa chamado Tom\u00e1s, que um dia lhe dissera: &#8220;Professor, a realidade est\u00e1 sobrelotada. Por isso a maioria prefere viver nos sub\u00farbios da imagina\u00e7\u00e3o dos outros.&#8221; Tom\u00e1s tinha raz\u00e3o. Estavam todos a ser realojados \u00e0 for\u00e7a nesses sub\u00farbios.<\/p>\n<p>Foi nessa noite que Amadeu sonhou com o Icebergue. N\u00e3o um icebergue de gelo, mas um enorme bloco de dados transl\u00facidos, a flutuar num mar de tinta preta. No cimo, a ponta luzidia mostrava as imagens falsas da ZDF, o esc\u00e2ndalo moment\u00e2neo. Mas por baixo da linha de \u00e1gua, a massa gigantesca, pulsante e fria, era feita de narrativas sobrepostas: a condena\u00e7\u00e3o europeia do colonialismo enquanto as marcas de roupa exploravam o suor asi\u00e1tico; os discursos de diversidade enquanto se erguiam muros invis\u00edveis dentro das pr\u00f3prias cidades; o elogio da liberdade de express\u00e3o enquanto se cancelavam vozes desconformes. E no n\u00facleo duro do icebergue, uma m\u00e1quina a cuspir ideias pr\u00e9-fabricadas, o imperialismo mental que era uma confe\u00e7\u00e3o em s\u00e9rie do pensamento que justificava a concentra\u00e7\u00e3o das energias nas f\u00e1bricas de guerra. Ao acordar Amadeu ficou com a sensa\u00e7\u00e3o de ter visto o motor do mundo.<\/p>\n<p>Os dias seguintes confirmaram-lhe a vis\u00e3o. Viu as mesmas t\u00e9cnicas, mais suaves, mais insidiosas, a funcionar na cobertura dos conflitos. Nos relatos sobre os extremismos, fosse ele de esquerda ou direita, a m\u00e3o invis\u00edvel do politicamente correto, o vento das for\u00e7as gerentes, soprava sempre para o mesmo lado, ajustando a vela da narrativa para que o barco n\u00e3o virasse. A verdade factual, essa mercadoria inc\u00f3moda e pesada, era atirada ao mar para aligeirar a carga. Sim, at\u00e9 porque a navega\u00e7\u00e3o na sociedade \u00e9 por vezes como navegar em mar alto!<\/p>\n<p>Amadeu pensou que a sociedade, se estava a tornar num enorme ecr\u00e3 de televis\u00e3o e o que n\u00e3o passava no ecr\u00e3, n\u00e3o existia. As pessoas, cada vez mais, criavam a sua pr\u00f3pria imagem da realidade a partir dos fragmentos que o ecr\u00e3 lhes atirava, ignorando ou distorcendo o que n\u00e3o encaixava. A tenta\u00e7\u00e3o individual tornara-se dogma coletivo. O relativismo, esse parasita, tinha ro\u00eddo as colunas culturais, os alicerces da identidade. J\u00e1 n\u00e3o se pertencia a um lugar, a uma hist\u00f3ria; pertencia-se a uma <em>narrativa<\/em>. A Europa, julgando-se o umbigo do mundo, o farol da raz\u00e3o, descobria-se agora apenas mais uma f\u00e1brica de mitos, competindo com todas as outras. J\u00e1 n\u00e3o conquistava terras, conquistava c\u00e9rebros com os seus produtos supervisionados: a democracia de fachada, os direitos humanos seletivos e a moral de cartilha.<\/p>\n<p>Uma tarde, ao passear pelos jardins da Funda\u00e7\u00e3o, viu um grupo de jovens. Falavam alto, com a convic\u00e7\u00e3o dos que sabem. Falavam de pol\u00edtica, de justi\u00e7a. Amadeu aproximou-se, atra\u00eddo pela energia. Um deles, de cabelo rapado e olhos vivos, gesticulava:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o, tu n\u00e3o est\u00e1s a ver! O que interessa n\u00e3o \u00e9 se aquilo aconteceu, \u00e9 o que aquilo significa. As imagens da IA podem ser falsas, mas a mensagem \u00e9 verdadeira! A brutalidade existe, e a imagem serve para a denunciar! O real \u00e9 um detalhe, o importante \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Amadeu sentiu um frio a subir-lhe na espinha. O mundo estava virado do avesso. A mentira t\u00e9cnica justificava-se pela verdade moral que se lhe queria atribuir. O fim santificava os meios, e os meios eram agora de uma plasticidade infinita. A moral e as atitudes vinham depois, sim, como a D. Em\u00edlia dissera. Vinham depois da imagem, depois da como\u00e7\u00e3o, depois do voto. A vontade humana, servida pela m\u00e1quina, criava realidades mais perfeitas, mais eficazes, mais diger\u00edveis do que a pr\u00f3pria realidade, que \u00e9 sempre confusa, contradit\u00f3ria, aborrecida.<\/p>\n<p>Naquela noite, fechado no seu escrit\u00f3rio forrado de livros em que cada um deles era uma tentativa, talvez falhada, de agarrar um peda\u00e7o do real, o Professor Amadeu sentiu o peso de uma guerra. N\u00e3o uma guerra de ex\u00e9rcitos, mas uma guerra total dos elementos e das estruturas, dos cidad\u00e3os e das institui\u00e7\u00f5es. Uma guerra entre o que se v\u00ea e o que \u00e9, entre a vontade de moldar o mundo \u00e0 nossa imagem e a imagina\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para o compreender. Faltava o realismo, a consci\u00eancia da nossa pequenez e do nosso lugar no espanto da exist\u00eancia. Faltava a humilde procura de sentido, essa viagem que n\u00e3o se faz com programas fabricados.<\/p>\n<p>Olhou para a televis\u00e3o desligada. O \u00e9cran negro devolvia-lhe o seu pr\u00f3prio reflexo, um velho cansado, um espectador de sombras. Mas no fundo daquelas pupilas, espreitava ainda uma chama teimosa: a certeza de que, mesmo que todos os espelhos estejam partidos, a busca por um reflexo inteiro \u00e9 a \u00fanica coisa que nos impede de sermos, n\u00f3s tamb\u00e9m, fantoches de sil\u00edcio e tinta.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Professor Amadeu desligou a televis\u00e3o com um suspiro que mais parecia o ar a escapar de um pneu velho. 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