{"id":10791,"date":"2026-02-19T20:49:26","date_gmt":"2026-02-19T19:49:26","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10791"},"modified":"2026-02-19T22:26:05","modified_gmt":"2026-02-19T21:26:05","slug":"num-mundo-onde-a-vontade-fabrica-e-a-imaginacao-governa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10791","title":{"rendered":"NUM MUNDO ONDE A VONTADE FABRICA E A IMAGINA\u00c7\u00c3O GOVERNA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Entre a simula\u00e7\u00e3o da realidade e a eros\u00e3o da verdade<\/strong><\/p>\n<p>Recentemente, o programa televisivo p\u00fablico ZDF-heute journal alem\u00e3o, custeado pelos cidad\u00e3os, exibiu v\u00eddeos gerados por intelig\u00eancia artificial, retratando opera\u00e7\u00f5es brutais da ag\u00eancia ICE nos Estados Unidos contra migrantes. O detalhe mais inquietante n\u00e3o foi a exist\u00eancia dessas imagens, mas o facto de terem sido transmitidas sem serem identificadas como artificiais, como se a pr\u00f3pria ilus\u00e3o pudesse vestir a m\u00e1scara do acontecimento.<\/p>\n<p>O presidente regional da Ren\u00e2nia-Palatinado exigiu \u201cm\u00e1xima transpar\u00eancia\u201d. Mas este epis\u00f3dio n\u00e3o \u00e9 um acidente isolado, porque usado tanto nos media tradicionais como nas redes sociais. \u00c9 antes de tudo um sintoma, uma rachadura vis\u00edvel na estrutura do nosso tempo que mostra apenas a ponta vis\u00edvel de um icebergue muito mais vasto e que atravessa a Europa considerada s\u00e9ria.<\/p>\n<p>Havia um tempo em que as imagens apenas mostravam, hoje, por\u00e9m as imagens muitas vezes j\u00e1 n\u00e3o mostram mas substituem e encobrem.<\/p>\n<p>O mundo moderno entrou num territ\u00f3rio estranho, onde o real se dissolve lentamente na espuma de uma fantasia tecnicamente produzida. Vivemos entre dois p\u00f3los, ou seja, o da realidade vivida e o da realidade criada, como quem caminha sobre uma ponte suspensa entre a experi\u00eancia e a inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A simula\u00e7\u00e3o como novo mundo<\/strong><br \/>\nO que foi mostrado n\u00e3o foi o que aconteceu. Foi uma simula\u00e7\u00e3o. Uma fantasia gerada por uma m\u00e1quina ao servi\u00e7o de interesses movidos pela vontade humana.<\/p>\n<p>A t\u00e9cnica, que deveria ser instrumento, torna-se demiurgo: cria realidades paralelas, molda emo\u00e7\u00f5es, orienta indigna\u00e7\u00f5es. J\u00e1 n\u00e3o se trata de informar, mas de fabricar percep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A imagem deixa de ser janela e torna-se espelho deformante. E o espectador, sem o saber, come\u00e7a a habitar um mundo de sombras cuidadosamente desenhadas.<\/p>\n<p><strong>O p\u00f3s-factual e a moral tardia<\/strong><br \/>\nCheg\u00e1mos ao tempo em que a pergunta decisiva j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 se \u00e9 verdade, mas se serve.<\/p>\n<p>Num mundo p\u00f3s-factual, a moral surge depois da utilidade. O que conta \u00e9 que a hist\u00f3ria transmitida seja \u201cadequada\u201d, que se ajuste ao clima ideol\u00f3gico e aos interesses dominantes, econ\u00f3micos, pol\u00edticos ou institucionais.\u00a0 O verdadeiro e o falso perdem peso porque a mensagem se torna mais importante do que a realidade. A moral vem depois. A realidade torna-se secund\u00e1ria diante da mensagem. E o ser humano, privado do ch\u00e3o firme dos factos, flutua num relativismo onde tudo pode ser ajustado, recortado, encenado no sentido de servir a narrativa, o interesse e a vontade institucional.<\/p>\n<p>Critica-se a manipula\u00e7\u00e3o em regimes distantes, mas tolera-se uma manipula\u00e7\u00e3o subtil em casa, normalizando-se assim uma forma de fabrica\u00e7\u00e3o da realidade em democracias medi\u00e1ticas que se apresentam com um rosto civilizado e uma linguagem correcta.<\/p>\n<p><strong>A tenta\u00e7\u00e3o universal de distorcer o real<\/strong><br \/>\n\u00c9 certo que cada indiv\u00edduo carrega dentro de si a tenta\u00e7\u00e3o de construir um mundo \u00e0 medida das suas convic\u00e7\u00f5es. O que n\u00e3o se encaixa \u00e9 ignorado e o que incomoda \u00e9 distorcido.<\/p>\n<p>Quando essa tenta\u00e7\u00e3o se instala nos meios que deveriam servir a verdade p\u00fablica, o perigo torna-se estrutural.<\/p>\n<p>As esta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, os grandes canais da informa\u00e7\u00e3o, parecem por vezes ajustar as velas ao vento das for\u00e7as gerentes, para que o barco da narrativa n\u00e3o vire. A verdade factual, inc\u00f3moda, \u00e9 lan\u00e7ada ao mar para aligeirar a viagem e assim ajustar o relato ao \u201cpoliticamente correto\u201d dominante evitando assim o peso inc\u00f3modo da verdade factual.<\/p>\n<p><strong>A destrui\u00e7\u00e3o da confian\u00e7a e o vazio interior<\/strong><br \/>\nAssim se destr\u00f3i lentamente a confian\u00e7a e com ela, destr\u00f3i-se a comunidade.<\/p>\n<p>Quando j\u00e1 nada \u00e9 seguro, quando tudo pode ser simula\u00e7\u00e3o, a pessoa perde orienta\u00e7\u00e3o. E uma sociedade sem verdade partilhada torna-se um conjunto de ilhas desconfiadas, presas entre rebeldia e desespero.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, enquanto se afirma o globalismo econ\u00f3mico, dissolve-se a identidade cultural, desfazem-se colunas antigas, desintegram-se estruturas interiores transmissoras da identidade necess\u00e1ria. O ser humano fica suspenso num mundo sem ra\u00edzes, sem realismo, sem consci\u00eancia da sua pr\u00f3pria limita\u00e7\u00e3o e a consequ\u00eancia \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o de guerra difusa entre cidad\u00e3os e institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>O que n\u00e3o aparece no ecr\u00e3 n\u00e3o existe<br \/>\n<\/strong>A nova metaf\u00edsica do nosso tempo \u00e9 simples e brutal e resume-se nisto: o que n\u00e3o passa no ecr\u00e3, nem no enquadramento medi\u00e1tico, n\u00e3o existe e o que passa no ecr\u00e3, existe, mesmo que nunca tenha acontecido.<\/p>\n<p>A realidade torna-se aquilo que \u00e9 exibido e o invis\u00edvel desaparece, \u00e9 lan\u00e7ado ao mar como se nunca tivesse sido para que a narrativa criada navegue sem turbul\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Entre lucidez e abismo<\/strong><br \/>\nA tarefa do cidad\u00e3o moderno n\u00e3o \u00e9 cair na revolta cega, nem no desespero est\u00e9ril. A sua tarefa \u00e9 outra, muito mais dif\u00edcil. Para tal \u00e9 preciso empregar o crivo mais fino da intelig\u00eancia, distinguir entre realidade vivida e realidade criada e reconhecer que realidade vivida e realidade criada coexistem e que a liberdade interior depende dessa distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pelo que se observa depois das guerras mundiais e em especial depois da queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o mundo futuro poder\u00e1 n\u00e3o ser dominado por quem controla as armas, mas por quem controla as imagens.<\/p>\n<p>Quando a imagina\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica substitui a verdade, resta ao homem a coragem silenciosa de mesmo assim procurar o real.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre a simula\u00e7\u00e3o da realidade e a eros\u00e3o da verdade Recentemente, o programa televisivo p\u00fablico ZDF-heute journal alem\u00e3o, custeado pelos cidad\u00e3os, exibiu v\u00eddeos gerados por intelig\u00eancia artificial, retratando opera\u00e7\u00f5es brutais da ag\u00eancia ICE nos Estados Unidos contra migrantes. O detalhe mais inquietante n\u00e3o foi a exist\u00eancia dessas imagens, mas o facto de terem sido transmitidas &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10791\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">NUM MUNDO ONDE A VONTADE FABRICA E A IMAGINA\u00c7\u00c3O GOVERNA<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[15,14,4,7,16],"tags":[],"class_list":["post-10791","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-politica","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10791","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10791"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10791\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10797,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10791\/revisions\/10797"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10791"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10791"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10791"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}