{"id":10787,"date":"2026-02-18T20:35:35","date_gmt":"2026-02-18T19:35:35","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10787"},"modified":"2026-02-18T20:35:35","modified_gmt":"2026-02-18T19:35:35","slug":"o-tempo-de-desintoxicacao-de-corpo-mente-e-alma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10787","title":{"rendered":"O TEMPO DE DESINTOXICA\u00c7\u00c3O DE CORPO-MENTE E ALMA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>A caminho de n\u00f3s mesmos<\/strong><\/p>\n<p>Somos feitos da mistura de c\u00e9u e terra. Caminhamos sobre o solo inst\u00e1vel do tempo e do espa\u00e7o, levando connosco aquilo que fomos e aquilo que ainda n\u00e3o somos, na saudade de algo j\u00e1 experimentado.<\/p>\n<p>Chamamos futuro \u00e0 dire\u00e7\u00e3o que nos atrai. Mas o futuro n\u00e3o existe sen\u00e3o como perspetiva. O tempo \u00e9 um fio invis\u00edvel que n\u00e3o corre fora da vida. O tempo \u00e9 uma propriedade do existir, e s\u00f3 se manifesta onde h\u00e1 corpo, rela\u00e7\u00e3o, presen\u00e7a. O tempo acontece no espa\u00e7o da experi\u00eancia.<\/p>\n<p>A Quaresma surge, assim, como um tempo de d\u00e1diva. Um tempo oferecido. Um intervalo sagrado no calend\u00e1rio da pressa, n\u00e3o como coisa a gerir, mas como d\u00e1diva a habitar.<\/p>\n<p>Vivemos entre o amanhecer e o p\u00f4r do sol. Entre o nascer e o declinar da luz. E, ao longo desse ciclo quotidiano, acendemos pequenas claridades no caminho, n\u00e3o para brilhar, mas para ver melhor o caminho. A verdadeira grandeza raramente faz ru\u00eddo porque \u00e9 discreta e orienta por dentro.<\/p>\n<p>No entanto, o mundo em que vivemos parece dominado pelo estrondo. Em p\u00fablico, o tom \u00e9 de combate permanente. As palavras tornaram-se armas, e a autodefesa verbal ocupa o lugar do di\u00e1logo. A comunica\u00e7\u00e3o social move-se muitas vezes ao ritmo da cat\u00e1strofe e da indigna\u00e7\u00e3o, como um cora\u00e7\u00e3o acelerado que j\u00e1 n\u00e3o sabe repousar; faz lembrar ondas r\u00edtmicas que se repetem e nos arrastam..<\/p>\n<p>Certamente por isso ser\u00e1 urgente reaprender o sil\u00eancio. Talvez seja tempo de um desarmamento verbal consciente a n\u00edvel individual e p\u00fablico. Doutro modo muitos fecham-se porque por haver coisas que ultrapassam o seu racioc\u00ednio e experi\u00eancia e j\u00e1 terem demasiados quebra-cabe\u00e7as t\u00eam de se fechar para n\u00e3o sofrer, cientes de que o que n\u00e3o se sabe n\u00e3o existe. A abstin\u00eancia de not\u00edcias e de Telejornal durante um certo tempo certamente daria oportunidade a ter sensa\u00e7\u00f5es salutares.<\/p>\n<p>Durante quarenta dias, poder\u00edamos exercitar um jejum da agressividade, da opini\u00e3o imediata, da rea\u00e7\u00e3o instintiva. Um jejum da linguagem inflamada, n\u00e3o como fuga do mundo, mas como resist\u00eancia \u00e0 barb\u00e1rie pr\u00f3xima e distante, na pol\u00edtica como nas rela\u00e7\u00f5es quotidianas.<\/p>\n<p><strong>A necessidade humana de fazer pausa<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 tantos caminhos para a abstin\u00eancia como s\u00e3o os das pessoas. Desde sempre, as culturas e as religi\u00f5es inscreveram no calend\u00e1rio pausas obrigat\u00f3rias. Interrup\u00e7\u00f5es no fluxo da vida produtiva (o conhecido sabat). Esses tempos de ren\u00fancia n\u00e3o empobrecem, pelo contr\u00e1rio, abrem a mente e ajudam-nos a reaprender o essencial e atingirmos a autoconsci\u00eancia.<\/p>\n<p>O ser humano precisa de rituais e festas para se aventurar, para sair de si e regressar transformado. Sem esses marcos, a vida torna-se um movimento repetitivo, como algu\u00e9m que tenta nadar sozinho numa piscina vazia fazendo um esfor\u00e7o sem horizonte. O Carnaval, paradoxalmente, tamb\u00e9m anuncia isso: depois do excesso, nasce a necessidade de recolhimento.<\/p>\n<p>Os crist\u00e3os conhecem quarenta dias de jejum. Os mu\u00e7ulmanos vivem quatro semanas de Ramad\u00e3o. Outros seguem apenas o ritmo imposto pelo calend\u00e1rio civil e muitos outros criam as suas pr\u00f3prias pausas: jejuns pessoais, sil\u00eancios escolhidos, retiradas breves do excesso para auto-desintoxica\u00e7\u00e3o .<\/p>\n<p>Para uns, trata-se de bem-estar f\u00edsico e para outros, do cuidado integral, corpo, mente e alma no seguimento da velha f\u00f3rmula de Junius Juvenal que no s\u00e9culo I d.C.\u00a0 recomendava \u201cmente s\u00e3 em corpo s\u00e3o\u201d, um aviso sempre atual, pois n\u00e3o h\u00e1 nada mais importante do que ter uma mente equilibrada e um corpo saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem abdique de \u00e1lcool ou de caf\u00e9 e h\u00e1 quem abdique do ru\u00eddo, e crie um tempo de sil\u00eancio no seu dia.<\/p>\n<p>De facto, a vida n\u00e3o se reduz \u00e0 sucess\u00e3o de tend\u00eancias, est\u00edmulos e not\u00edcias de \u00faltima hora. Viver exige pr\u00e1tica. Exige tamb\u00e9m espa\u00e7o para errar, para experimentar ideias improv\u00e1veis, para finalmente reconhecermos que ainda temos muito a aprender com a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p><strong>O corpo tamb\u00e9m precisa de rejeitar<\/strong><\/p>\n<p>O corpo n\u00e3o est\u00e1 apenas cansado, encontra-se por vezes saturado porque demasiadamente ocupado na digest\u00e3o do consumo di\u00e1rio.<\/p>\n<p>Saturado de consumo, de est\u00edmulos, de digest\u00f5es cont\u00ednuas, n\u00e3o s\u00f3 alimentares, mas emocionais e simb\u00f3licas. Tamb\u00e9m o corpo precisa de rejei\u00e7\u00e3o, de limpeza, de intervalo.<\/p>\n<p>Jejuar \u00e9 permitir que algo saia, \u00e9 criar espa\u00e7o. Trata-se de uma desintoxica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 apenas f\u00edsica, mas existencial. Um gesto de disciplina e autocontrolo que n\u00e3o visa a perfei\u00e7\u00e3o, mas o reequil\u00edbrio.<\/p>\n<p>Na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, a Quaresma \u00e9 sobretudo um tempo de autorreflex\u00e3o. O ritual, quando vivido conscientemente, transforma-se em pr\u00e1tica interior. E aquilo que parecia apenas repeti\u00e7\u00e3o torna-se caminho.<\/p>\n<p>Antes da P\u00e1scoa, experimenta-se o quotidiano de outra forma. A aten\u00e7\u00e3o torna-se mais fina. O olhar mais sens\u00edvel. A consci\u00eancia social mais desperta.<\/p>\n<p>As comunidades religiosas recordam-nos que a rudeza n\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel, nem na linguagem, nem na pol\u00edtica, nem nas rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>Quem se atreve a descer ao interior, a mergulhar no seu interior e a confrontar o pr\u00f3prio comportamento, experimenta o Todo, o que chamamos Deus, sentido ou mist\u00e9rio. E dessa experi\u00eancia nasce algo que se expressa e transmite em abertura, bondade, aten\u00e7\u00e3o plena, compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a deixa ent\u00e3o de ser abstrata e entra na vida de forma a sentirmo-nos reaalizados.<\/p>\n<p><strong>Entre o limite e a liberdade<\/strong><\/p>\n<p>Durante este tempo, vive-se entre a inten\u00e7\u00e3o e a abstin\u00eancia. E \u00e9 precisamente o limite que torna tudo mais concreto.<\/p>\n<p>Caminhar pelo Jardim do Gets\u00e9mani \u00e9 aprender a olhar o fracasso sem desespero e a reconhecer a vulnerabilidade como parte da condi\u00e7\u00e3o humana, pois tamb\u00e9m a derrota faz parte da travessia humana. Na realidade h\u00e1 que aceitar que nem toda a fidelidade \u00e9 triunfante.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o pode viver-se com mais consci\u00eancia e aprender-se a lidar melhor consigo pr\u00f3prio e com os outros.<\/p>\n<p>O jejum revela-se, assim, uma pr\u00e1tica de responsabilidade por si e pelo mundo. \u00c9 uma verdadeira pedagogia da liberdade.<\/p>\n<p>O que inspira profundamente no cristianismo \u00e9 o reconhecimento da soberania do indiv\u00edduo, n\u00e3o isolado, mas em tens\u00e3o criadora com a comunidade. A f\u00e9 n\u00e3o anula a singularidade; pelo contr\u00e1rio apenas a chama \u00e0 maturidade.<\/p>\n<p>Jejuar \u00e9, por isso, um gesto pessoal e comunit\u00e1rio. Um tempo de reflex\u00e3o partilhada. Um espa\u00e7o onde o \u201ceu\u201d e o \u201ctu\u201d n\u00e3o se fecham sobre si mesmos, mas se abrem a uma terceira realidade que se expressa naquilo que liga, cria horizonte e d\u00e1 sentido \u00e0 vida em comum.<\/p>\n<p><strong>Um tempo para regressar<\/strong><\/p>\n<p>A Quaresma, no fundo, n\u00e3o \u00e9 fuga nem moralismo, mas sim um tempo para regressar a si mesmo, ao todo integral, pois \u00e9 tempo de regresso ao essencial, ao corpo que sente, \u00e0 mente que pensa e \u00e0 alma que escuta.<\/p>\n<p>Durante ela desintoxica-se o corpo, desanuvia-se a mente e purifica-se a alma, para caminhar, mais levemente, na senda de n\u00f3s mesmos e do n\u00f3s, possivelmente na sombra de Deus.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A caminho de n\u00f3s mesmos Somos feitos da mistura de c\u00e9u e terra. 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