{"id":10774,"date":"2026-02-14T21:02:29","date_gmt":"2026-02-14T20:02:29","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10774"},"modified":"2026-02-14T21:02:29","modified_gmt":"2026-02-14T20:02:29","slug":"conto-da-cabra-cega-e-do-arco-iris-no-dia-dos-namorados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10774","title":{"rendered":"CONTO DA CABRA-CEGA E DO ARCO-\u00cdRIS NO DIA DOS NAMORADOS"},"content":{"rendered":"<p>No dia em que o calend\u00e1rio se enfeita com cora\u00e7\u00f5es de papel e as montras das ourivesarias parecem altares pag\u00e3os, Valentim acordou com a sensa\u00e7\u00e3o de que lhe haviam trocado a alma durante a noite. N\u00e3o era qualquer alma, era a dele, aquela que trazia desde mi\u00fado, com ferrugem nos cantos e uma rachadela por onde \u00e0s vezes entrava o vento. Mas naquela manh\u00e3 de 14 de fevereiro (dia dos namorados), a coisa l\u00e1 dentro parecia outra! Sentia-se mais leve, mais arejada, como se tivesse mudado de casa sem dar cavaco.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 o amor que paira no ar\u201d, suspirou a vizinha do terceiro, varrendo as folhas secas para cima do tapete de entrada. \u201cCheira a primavera antecipada, cheira a beijo na boca, cheira a prenda com la\u00e7o.\u201d<\/p>\n<p>Valentim, que n\u00e3o era tolo nem cego, mas apenas um homem com o cora\u00e7\u00e3o ao p\u00e9 da boca, meteu a m\u00e3o ao peito e sentiu que o \u00f3rg\u00e3o batia descompassado, como um tambor em dia de festa na aldeia. E pensou: &#8220;O amor \u00e9 mesmo um ser sem lar. Anda a\u00ed, de mochila \u00e0s costas, \u00e0 procura de um s\u00edtio onde pendurar o chap\u00e9u.&#8221;<\/p>\n<p>E foi assim que decidiu sair para a rua, na condi\u00e7\u00e3o de candidato a anfitri\u00e3o.<\/p>\n<p>A Pra\u00e7a da Ribeira, naquele dia, parecia um jogo de cabra-cega em ponto grande. Pelas esquinas, pares andavam \u00e0s tontas, de olhos vendados pela ilus\u00e3o, bra\u00e7os esticados \u00e0 procura da metade que lhes faltava. Uns esbarravam em postes, outros em paix\u00f5es antigas, e a maioria agarrava-se a quem lhes passava ao lado, convencidos de que aquele era o peda\u00e7o de alma que andavam a reclamar desde sempre.<\/p>\n<p>Valentim parou no largo da feira e viu: um rapaz magro, com ar de quem acabou de sair de um poema do Pessoa, andava \u00e0s voltas atr\u00e1s de uma mi\u00fada de tran\u00e7as. Ela esquivava-se, ele lan\u00e7ava-se, e aquela coreografia de aproxima\u00e7\u00e3o e fuga era coisa t\u00e3o bonita de se ver! (Aquela cena fazia-o lembrar uma tarde de festa na aldeia &#8211; S. Pedro em V\u00e1rzea &#8211; de outros tempos onde a rapaziada em bando atr\u00e1s das mo\u00e7as, tamb\u00e9m elas em magote, dando voltas \u00e0 capela com risos que eram setas e olhares que eram redes. Elas escarneciam deles, sim senhor, mas era s\u00f3 para afugentar a pr\u00f3pria timidez, que a vergonha, quando aperta, disfar\u00e7a-se de remoque. E no fundo, bem no fundo daquele alarido todo, o que elas faziam era lan\u00e7ar o desejo, mas um desejo de ponta de p\u00e9, camuflado em sorrisos, para n\u00e3o assustar o sonho e para que ele, o rapaz, tivesse ainda de merecer a aproxima\u00e7\u00e3o. Era o jogo antigo, o de sempre, na ca\u00e7a que se faz de presa, e a presa que se faz de ca\u00e7a, numa dan\u00e7a em que ningu\u00e9m queria cair, mas todos queriam ser apanhados). Chamam-lhe flirt, que \u00e9 uma palavra importada com menos espinhas do que &#8220;namoro&#8221;. \u00c9 uma dan\u00e7a que dura o tempo de um arco-\u00edris pois nasce da sombra, mostra as cores todas e amea\u00e7a desaparecer mal a chuva pare.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 a procura\u201d, murmurou Valentim, que tinha queda para filosofias de feira. \u201cAndamos todos de m\u00e3o estendida, \u00e0 procura do arco-\u00edris. Uns encontram a panela de ouro, outros encontram um caldeir\u00e3o vazio.\u201d<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Valentim, como ser que tamb\u00e9m anda \u00e0 procura, lembrou-se do velho imperador romano, aquele tipo de toga e coroa de louros, que um dia se fartou de ver tanto amor \u00e0 solta e mandou prender um tal Valentim (seu hom\u00f3nimo, coitado) s\u00f3 porque ele teimava em casar os jovens \u00e0s escondidas. O amor sempre foi coisa subversiva e sempre andou \u00e0 margem da lei, a fazer das suas.<\/p>\n<p>Ao fim da tarde, quando o sol j\u00e1 se despedia e a noite ensaiava os primeiros passos, Valentim encontrou-a. Estava sentada num banco de jardim, a ler um livro com a capa virada para cima, como quem n\u00e3o quer nada. Era morena, tinha um sorriso de cantos duvidosos e olhos que pareciam dois far\u00f3is na neblina a marcar presen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cPosso?\u201d perguntou ele, apontando para o banco.<\/p>\n<p>Ela encolheu os ombros, que \u00e9 como quem diz &#8220;se quiser, mas n\u00e3o se admire se eu n\u00e3o falar&#8221;.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio comprido, daqueles que ou se cortam \u00e0 faca ou se transformam em conversa. Valentim, que era homem de iniciativa, atirou:<\/p>\n<p>\u201cSabia que beijar faz bem \u00e0 sa\u00fade? \u00c9 rem\u00e9dio para o corpo e para a alma. Um beijo mobiliza trinta m\u00fasculos da cara, acelera a circula\u00e7\u00e3o, e ainda manda um recado ao sistema imunit\u00e1rio a dizer que est\u00e1 tudo em ordem.\u201d<\/p>\n<p>Ela ergueu uma sobrancelha, desconfiada.<\/p>\n<p>\u201cE o senhor \u00e9 m\u00e9dico?\u201d<\/p>\n<p>\u201cSou jardineiro do esp\u00edrito\u201d respondeu ele, sem pestanejar. \u201cTrato da terra para que ela d\u00ea flores. E acredito que a lealdade \u00e0 terra e o respeito pelas suas energias s\u00e3o o princ\u00edpio de tudo. At\u00e9 para se ter um vislumbre do c\u00e9u, \u00e9 preciso ter os p\u00e9s assentes no ch\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Ela riu-se. \u00c9 verdade que foi um riso pequeno, mas chegou para iluminar a paisagem.<\/p>\n<p>\u201cO senhor \u00e9 doido e convencido!\u201d<\/p>\n<p>\u201cSou. Doido por amor. Esta \u00e9 a \u00fanica loucura que vale a pena.\u201d<\/p>\n<p>E foi assim que a conversa pegou. Falaram de tudo e de nada. Do imperador romano, da B\u00edblia (que diz que o amor n\u00e3o \u00e9 roupa que se vista e se despe ao sabor da moda), da falta que o beijo faz nos casamentos antigos, quando a rotina se senta no sof\u00e1 e j\u00e1 ningu\u00e9m se lembra de alongar os l\u00e1bios.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma pena\u201d, suspirou ela. \u201cO amor devia ser como o arco-\u00edris, devia mostrar todas as cores, sem vergonha.\u201d<\/p>\n<p>\u201cMas \u00e9\u201d, respondeu Valentim. \u201cO amor tem muitas tonalidades. Umas s\u00e3o mais escuras, outras mais claras, mas todas elas fazem parte do mesmo feixe de luz. Amar \u00e9 isso mesmo! \u00c9 ser arte ferida, \u00e9 ser espelho partido que mesmo assim reflecte calor.<\/p>\n<p>Quando deram por ela, a noite tinha ca\u00eddo de vez. E a noite, no amor, \u00e9 sempre trai\u00e7oeira. Porque h\u00e1 quem pense que o amor \u00e9 um dia soalheiro sem fim, e n\u00e3o conta com o breu que vem depois. H\u00e1 quem espere que o arco-\u00edris fique para sempre no c\u00e9u, e n\u00e3o percebe que ele precisa da chuva para existir.<\/p>\n<p>Naquela noite, Valentim aprendeu a li\u00e7\u00e3o. Porque ela, a morena dos olhos de farol, levantou-se de repente, fechou o livro e disse:<\/p>\n<p>\u201cTenho de ir. O meu marido espera-me para o jantar.\u201d<\/p>\n<p>E desapareceu no nevoeiro, como se nunca tivesse existido.<\/p>\n<p>Valentim ficou ali, no banco, a olhar para o s\u00edtio vazio e pensou: &#8220;O amor \u00e9 mesmo um jogo da cabra-cega. Umas vezes encontramos a parte que nos falta, outras vezes encontramos a parte que falta aos outros. E o pior \u00e9 que a vendagem nunca nos deixa ver a diferen\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>Mas depois lembrou-se do beijo. Porque, sim, tinham-se beijado. Ali mesmo, no banco do jardim, ao cair da noite. Foi um beijo breve, sem grandes sofistica\u00e7\u00f5es, mas que mobilizou o corpo inteiro e at\u00e9 a alma, que na altura j\u00e1 tinha voltado \u00e0 sua casa de origem, mas o deixara impreparado para aterrar&#8230;<\/p>\n<p>Depois Valentim sorriu. Porque o beijo, mesmo quando \u00e9 de despedida, vale sempre a pena. \u00c9 comunica\u00e7\u00e3o, \u00e9 apre\u00e7o, \u00e9 a prova de que, por um instante, fomos menos s\u00f3s.<\/p>\n<p>No dia seguinte, o calend\u00e1rio j\u00e1 n\u00e3o tinha cora\u00e7\u00f5es de papel. As montras voltaram ao normal. Mas Valentim, esse, trazia no peito o mesmo fogo na certeza de que o amor, apesar de imperfeito, atrai. Sabia e sentia que o amor, mesmo sem ter casa, anda por a\u00ed, de mochila \u00e0s costas, \u00e0 procura de quem lhe abra a porta.<\/p>\n<p>Mesmo que seja s\u00f3 para um caf\u00e9!<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia em que o calend\u00e1rio se enfeita com cora\u00e7\u00f5es de papel e as montras das ourivesarias parecem altares pag\u00e3os, Valentim acordou com a sensa\u00e7\u00e3o de que lhe haviam trocado a alma durante a noite. 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