{"id":10766,"date":"2026-02-11T00:00:27","date_gmt":"2026-02-10T23:00:27","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10766"},"modified":"2026-02-16T21:31:51","modified_gmt":"2026-02-16T20:31:51","slug":"em-cada-onze-segundos-ha-uma-mutilacao-genital-feminina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10766","title":{"rendered":"EM CADA ONZE SEGUNDOS H\u00c1 UMA MUTILA\u00c7\u00c3O GENITAL FEMININA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Mart\u00edrio silencioso e a Urg\u00eancia de ver e actuar<\/strong><\/p>\n<p>Um rel\u00f3gio humano marca, a cada onze segundos, uma mutila\u00e7\u00e3o genital feminina no mundo. Este n\u00e3o \u00e9 um dado estat\u00edstico distante mas sim o ritmo de um sofrimento profundo que tece sil\u00eancios em pleno s\u00e9culo XXI. Quanta mulher destru\u00edda e quantos traumas como marcas da vida. Imagine-se a barbaridade que os outros animais na qualidade de irracionais \u00a0n\u00e3o fazem? Enquanto Estados se concentram em indicadores econ\u00f3micos e conflitos geopol\u00edticos, uma viola\u00e7\u00e3o \u00edntima e brutal contra milh\u00f5es de mulheres e meninas persiste, muitas vezes \u00e0 sombra de tradi\u00e7\u00f5es ou da indiferen\u00e7a. Quando chegar\u00e1 o dia em que o Homem e a pol\u00edtica se concentrem em curar as feridas humanas?<\/p>\n<p>Em sociedades de matriz predominantemente masculina, os problemas existenciais das mulheres s\u00e3o frequentemente relegados para as franjas da discuss\u00e3o p\u00fablica. A mutila\u00e7\u00e3o genital feminina (MGF) \u00e9 talvez o exemplo mais cristalino desta cegueira seletiva. \u00c9 imperativo que este tema saia da zona do tabu e entre na esfera da a\u00e7\u00e3o coletiva e da consci\u00eancia emocional. Tabus silenciados endurecem as vidas.<\/p>\n<p><strong>A Anatomia de um Sofrimento oculto<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O que significa, na realidade, este mart\u00edrio? Na Som\u00e1lia, as mulheres nascidas h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas s\u00e3o, em regra, mutiladas. A pr\u00e1tica continua hoje. Na Guin\u00e9, persiste o &#8220;fanado&#8221;, um ritual de inicia\u00e7\u00e3o que viriliza a viol\u00eancia muito embora praticada por mulheres. <strong>As meninas, muitas vezes antes dos cinco anos, t\u00eam os seus \u00f3rg\u00e3os genitais externos amputados, sem amnestesia, em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias. A escala da viol\u00eancia varia: do corte do cl\u00edtoris \u00e0 extra\u00e7\u00e3o total dos \u00f3rg\u00e3os e \u00e0 subsequente costura da abertura vaginal (infibula\u00e7\u00e3o), um procedimento com consequ\u00eancias devastadoras para toda a vida.<\/strong><\/p>\n<p>Este crime n\u00e3o conhece fronteiras. Na Alemanha, onde me encontro de momento e escrevo este artigo relatos documentados por Steffi Burmester, da M\u00e4dchenhaus Kassel, revelam um drama transnacional: fam\u00edlias que viajam de f\u00e9rias para a Som\u00e1lia, Eritreia ou Djibuti e regressam com as suas filhas mutiladas. <strong>Em 2022, estimava-se que 15.000 meninas na Alemanha estavam sob amea\u00e7a iminente de sofrer esta viol\u00eancia<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Ver a Pessoa para al\u00e9m do N\u00famero<\/strong><\/p>\n<p>Isto deveria falar tamb\u00e9m \u00e0 nossa intelig\u00eancia emocional coletiva que significaria a capacidade de transcender a fria estat\u00edstica e conectar-nos com a realidade humana que ela representa. N\u00e3o se trata apenas de &#8220;15.000 casos&#8221;; trata-se de 15.000 inf\u00e2ncias roubadas, 15.000 futuros marcados por dor cr\u00f3nica, infe\u00e7\u00f5es, traumas psicol\u00f3gicos profundos e complica\u00e7\u00f5es em partos.<br \/>\nUm pouco de humanismo \u00a0exige que ou\u00e7amos os detalhes que os n\u00fameros silenciam, como testemunhou Ibrahim Ishaq Hussein em Kassel: <strong>em fam\u00edlia, \u00a0os rapazes crescem a normalizar o sofrimento das mulheres, pois acham normal que m\u00e3es, irm\u00e3s e av\u00f3s demorem tempos intermin\u00e1veis na casa de banho e vivam com dores constantes.<\/strong> Exige que reconhe\u00e7amos o controlo social exercido atrav\u00e9s de chamadas telef\u00f3nicas de familiares, onde av\u00f3s e tias perguntam, veladamente, pela &#8220;visita&#8221; da crian\u00e7a, um eufemismo para a mutila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Entre a Tradi\u00e7\u00e3o e a Lei \u00e9 necess\u00e1rio o Caminho para a Prote\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A aceita\u00e7\u00e3o da MGF como &#8220;tradi\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 um muro dif\u00edcil de derrubar, sustentado por gera\u00e7\u00f5es de lavagem cerebral. Contudo, o respeito cultural n\u00e3o pode ser uma capa para a barb\u00e1rie. A educa\u00e7\u00e3o sexual e a informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o armas fundamentais. Se uma menina de cinco anos com mutila\u00e7\u00e3o genital chegar a um hospital, o sil\u00eancio dos profissionais n\u00e3o pode ser uma op\u00e7\u00e3o.<br \/>\nFelizmente, h\u00e1 luz na escurid\u00e3o<strong>. Em Kassel, centros como a M\u00e4dchenhaus e o departamento de sa\u00fade da cidade trabalham h\u00e1 anos contra este ritual, oferecendo prote\u00e7\u00e3o e aconselhamento especializado. A lei alem\u00e3 deu um passo crucial: desde 2013, o \u00a7226a do C\u00f3digo Penal pune a mutila\u00e7\u00e3o genital feminina com, no m\u00ednimo, um ano de pris\u00e3o, classificando-a juridicamente como agress\u00e3o f\u00edsica grave.<\/strong> \u00c9 um reconhecimento de que o corpo das meninas n\u00e3o \u00e9 propriedade cultural, mas um inviol\u00e1vel direito humano.<br \/>\n<strong><br \/>\nO Desafio para Portugal e para a Europa \u00e9 n\u00e3o fechar os Olhos<\/strong><\/p>\n<p>A pergunta que se imp\u00f5e \u00e9: <strong>As autoridades portuguesas, e europeias em geral, estar\u00e3o preparadas para lidar com esta quest\u00e3o? Fazer vista grossa \u00e9 cumplicidade. Fechar os olhos na Europa \u00e9 fomentar a barb\u00e1rie dentro das nossas fronteiras, sob o falso pretexto do relativismo cultural<\/strong>.<\/p>\n<p>Proteger os mais fracos, as crian\u00e7as, \u00a0\u00e9 um imperativo civilizacional universal que exige:<br \/>\n&#8211; Legisla\u00e7\u00e3o clara e aplicada, seguindo o exemplo alem\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Forma\u00e7\u00e3o especializada para profissionais de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e servi\u00e7os sociais para identificar e agir perante riscos.<br \/>\n&#8211; Apoio e prote\u00e7\u00e3o \u00e0s meninas em risco e \u00e0s suas fam\u00edlias, atrav\u00e9s de centros de aconselhamento e casas-abrigo.<br \/>\n&#8211; Campanhas de sensibiliza\u00e7\u00e3o dentro das comunidades, promovendo uma nova &#8220;tradi\u00e7\u00e3o&#8221;: a da integridade corporal e do respeito pelos direitos das meninas.<\/p>\n<p>De onze em onze segundos, o rel\u00f3gio avan\u00e7a. Mas a cada segundo que passa, temos a escolha de sermos c\u00famplices do sil\u00eancio ou agentes de mudan\u00e7a. Mover a intelig\u00eancia emocional j\u00e1 n\u00e3o significa sentir apenas indigna\u00e7\u00e3o perante oque aqui se escreve, mas permitir que essa indigna\u00e7\u00e3o se transforme em voz, em press\u00e3o social, em apoio a quem luta no terreno.<\/p>\n<p>O mart\u00edrio pode ser silencioso, mas a nossa recusa em aceit\u00e1-lo n\u00e3o deve ser. <strong>Urge que este tema saia da sombra e entre na luz da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, do debate p\u00fablico e da prote\u00e7\u00e3o humana.<\/strong> A verdadeira tradi\u00e7\u00e3o que devemos honrar \u00e9 a da compaix\u00e3o e da defesa intransigente dos indefesos. O tempo de fechar os olhos acabou.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Mart\u00edrio silencioso e a Urg\u00eancia de ver e actuar Um rel\u00f3gio humano marca, a cada onze segundos, uma mutila\u00e7\u00e3o genital feminina no mundo. Este n\u00e3o \u00e9 um dado estat\u00edstico distante mas sim o ritmo de um sofrimento profundo que tece sil\u00eancios em pleno s\u00e9culo XXI. 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