{"id":10743,"date":"2026-02-05T23:33:51","date_gmt":"2026-02-05T22:33:51","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10743"},"modified":"2026-02-05T23:33:51","modified_gmt":"2026-02-05T22:33:51","slug":"fotografia-da-ferida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10743","title":{"rendered":"FOTOGRAFIA DA FERIDA"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 um n\u00famero que me ocupa:<br \/>\nDois milh\u00f5es de carentes em terra lusa<br \/>\na viver sob o fio da navalha.<br \/>\nIsto n\u00e3o \u00e9 estat\u00edstica, \u00e9 um grito de aus\u00eancias,<br \/>\numa planta de barracas na alma da cidade.<br \/>\nSinto, em ondas sucessivas,<br \/>\no grande mar da pobreza invadir-me o esp\u00edrito,<br \/>\nsalgar de impot\u00eancia cada respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dizem que existe um peso de ouro<br \/>\nque tra\u00e7a a fronteira final<br \/>\nentre a pessoa e a coisa (1).<br \/>\nAqu\u00e9m dele, o mundo desaba em objecto.<br \/>\nE h\u00e1 um outro peso, menor (2),<br \/>\nque se renova com cada lua:<br \/>\n\u00e9 a medida mensal do humano,<br \/>\no limiar abaixo do qual<br \/>\na vida perde o seu nome<br \/>\ne s\u00f3 a sombra gatinha.<\/p>\n<p>Eu leio os relat\u00f3rios frios,<br \/>\nos gr\u00e1ficos que sobem como paredes de sepultura,<br \/>\ne em mim cresce um verme,<br \/>\num verme existencial que r\u00f3i o alicerce<br \/>\nda f\u00e9 na democracia.<\/p>\n<p>Pergunto ao vento, que a todos toca por igual:<br \/>\nComo esperar brandura de uma balan\u00e7a<br \/>\nOnde um prato, leve como uma pena (3),<br \/>\nPesa mais que o suspiro de milh\u00f5es?<br \/>\nOnde m\u00e3os t\u00e3o poucas seguram a espiga inteira,<br \/>\nonde o trabalho j\u00e1 n\u00e3o liberta,<br \/>\nmas condena \u00e0 mis\u00e9ria disfar\u00e7ada?<\/p>\n<p>Vejo a pol\u00edtica, esquerda e direita (4),<br \/>\na discutir a margem do rio<br \/>\nenquanto milh\u00f5es de seres humanos<br \/>\nse afogam no centro da corrente.<\/p>\n<p>Sinto a solid\u00e3o da crian\u00e7a, na barraca dos n\u00fameros,<br \/>\na reforma que n\u00e3o chega ao fim do m\u00eas,<br \/>\na mulher em que a dor coletiva mais toca.<br \/>\nE pergunto, na minha cela de homem confort\u00e1vel e atormentado:<br \/>\nSomos, de facto, lobos uns dos outros?<br \/>\nFomos n\u00f3s que desenh\u00e1mos esta linha,<br \/>\nesta grande fronteira que divide os povos em dois:<br \/>\nos que t\u00eam, e os que s\u00e3o o ter\u00e7o ausente da pr\u00f3pria vida?<\/p>\n<p>H\u00e1 uma in\u00e9rcia nos sistemas, um peso morto,<br \/>\nque faz da compaix\u00e3o um discurso vazio<br \/>\nda miseric\u00f3rdia um luxo te\u00f3rico<br \/>\ne do bem-comum um neg\u00f3cio pol\u00edtico.<br \/>\nE eu, aqui, com as ondas deste mar dentro de mim,<br \/>\nn\u00e3o consigo mais distinguir<br \/>\na minha tristeza da tristeza do mundo.<\/p>\n<p>Que fazer com este fogo que n\u00e3o aquece,<br \/>\ncom esta consci\u00eancia que n\u00e3o levanta paredes,<br \/>\nmas as derruba sobre o pr\u00f3prio peito?<br \/>\nEscrevo ent\u00e3o e grito em versos a n\u00e1usea geral.<br \/>\nFa\u00e7o da poesia a trincheira fr\u00e1gil<br \/>\nonde planto a pergunta que n\u00e3o cala:<\/p>\n<p>Quando declararemos, juntos,<br \/>\na \u00fanica guerra santa digna do nome,<br \/>\nn\u00e3o contra um povo, n\u00e3o por uma vis\u00e3o de mundo,<br \/>\nmas contra a fria, persistente, intoler\u00e1vel<br \/>\nnormaliza\u00e7\u00e3o da falta?<\/p>\n<p>Talvez o verme que me corr\u00f3i<br \/>\nseja a semente de algo que ainda n\u00e3o nasceu.<br \/>\nTalvez a dor que partilho neste papel<br \/>\nseja com a tua uma pedra de uma ponte.<br \/>\nUma ponte feita n\u00e3o de cimento, mas de olhares,<br \/>\nn\u00e3o de decretos, mas de bra\u00e7os por fim arrega\u00e7ados.<\/p>\n<p>Se estas palavras te tocam,<br \/>\n\u00e9 porque a ferida \u00e9 uma s\u00f3.<br \/>\nE a cura, se \u00e9 que h\u00e1 cura,<br \/>\ncome\u00e7a no reconhecimento<br \/>\nsilencioso e devastador<br \/>\nde que nenhum de n\u00f3s \u00e9 livre<br \/>\nenquanto um de n\u00f3s viver<br \/>\nna sombra da injusti\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo \u00a9:<\/p>\n<p>(1) As despesas m\u00e9dias familiares em Portugal rondam os 2.900, mas milh\u00f5es sobrevivem com entre 1.200 e 2.000 euros, dependendo do lugar do pa\u00eds onde calhou nascer.\u00a0 O limite para se poder viver seriam 1.378\u20ac<\/p>\n<p>(2) Cerca de 1,76 milh\u00f5es de pessoas vivem com menos de 632\u20ac por m\u00eas.<\/p>\n<p>(3) A n\u00edvel mundial a trag\u00e9dia ainda \u00e9 pior! Cerca de 1,6% da popula\u00e7\u00e3o mundial possui quase 48% da riqueza global, enquanto mais de 40% da popula\u00e7\u00e3o det\u00e9m apenas 0,6%. Os 10% mais ricos possuem cerca de 76-85% da riqueza. A maior parte da humanidade (quase 70%) possui menos de 8.400 a 8.500 euros (10 000 d\u00f3lares americanos). Os 10% mais ricos possuem cerca de 76% da riqueza total. A maior parte da popula\u00e7\u00e3o mundial (quase 70%) possui menos de 8.400 euros.<\/p>\n<p>(4) O risco de pobreza ou exclus\u00e3o social em Portugal atingiu 19,7% em 2024, abrangendo cerca de 2,1 milh\u00f5es de pessoas com destaque para a pobreza infantil e idosos, al\u00e9m de 49,3% dos adultos pobres estarem empregados pelo que o trabalho n\u00e3o garante rendimento digno.<br \/>\nPobreza Infantil ainda se herda: 40% das crian\u00e7as pobres vivem em agregados com rendimentos extremamente baixos (inferiores a 422\u20ac\/m\u00eas), concentrando-se nas grandes \u00e1reas metropolitanas. Pobreza Monet\u00e1ria: Cerca de 1,76 milh\u00f5es de pessoas vivem com menos de 632\u20ac por m\u00eas.<br \/>\nAs mulheres s\u00e3o as mais afectadas, isto \u00e9,56% em situa\u00e7\u00e3o de pobreza s\u00e3o mulheres.<br \/>\nO sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional em Portugal em 2026, \u00e9 920\u20ac brutos mensais ou seja 818,80\u20ac depois de\u00a0 11% de desconto para a Seguran\u00e7a Social .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um n\u00famero que me ocupa: Dois milh\u00f5es de carentes em terra lusa a viver sob o fio da navalha. Isto n\u00e3o \u00e9 estat\u00edstica, \u00e9 um grito de aus\u00eancias, uma planta de barracas na alma da cidade. Sinto, em ondas sucessivas, o grande mar da pobreza invadir-me o esp\u00edrito, salgar de impot\u00eancia cada respira\u00e7\u00e3o. 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