{"id":10725,"date":"2026-02-03T16:41:21","date_gmt":"2026-02-03T15:41:21","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10725"},"modified":"2026-02-03T22:21:55","modified_gmt":"2026-02-03T21:21:55","slug":"a-nuvem-e-o-altifalante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10725","title":{"rendered":"A NUVEM E O ALTIFALANTE"},"content":{"rendered":"<pre><em>Enquanto os do Olimpo (1) se alimentam da claridade que fabricam, os da N\u00e9voa navegam na bruma que lhes deixam e ambos, sem o saber, s\u00e3o reflexo um do outro: o poder feito mito, o povo feito abstra\u00e7\u00e3o, numa dan\u00e7a onde o alto e o baixo s\u00e3o dois movimentos do mesmo rio parado.<\/em><\/pre>\n<p>No alto do Olimpo moderno, n\u00e3o h\u00e1 partidos. H\u00e1 o Poder, que \u00e9 uno, coerente, invis\u00edvel como o ar e pesado como o granizo. Os que l\u00e1 vivem, acima das nuvens, compartilham um sol constante. A sua miss\u00e3o \u00e9 ordenar a massa informe que vagueia sob a tempestade.<\/p>\n<p>L\u00e1 em baixo, a Nuvem \u00e9 permanente. Chuva e desola\u00e7\u00e3o s\u00e3o o clima da exist\u00eancia entre altas e baixas press\u00f5es. Os cidad\u00e3os da n\u00e9voa alimentam-se das palavras que caem dos altifalantes; de palavras filtradas, processadas, transformadas em p\u00e3o papoila para a indecis\u00e3o. Dizem-lhes que os ventos t\u00f3xicos s\u00e3o necess\u00e1rios, que sem eles, o caos devoraria tudo. E eles acreditam, porque o medo \u00e9 o condimento de todas as suas refei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Dois p\u00e9s gigantes, um chamado Conservador e o outro Progressista avan\u00e7am inabal\u00e1veis o caminho da Hist\u00f3ria; os dois caminham sobre a nuvem, alternando passos. Quando um trope\u00e7a, a voz do Olimpo explica: \u201cO sistema \u00e9 complexo\u201d. E segue, pisando um pouco mais forte.<\/p>\n<p>Um dia, um homem da n\u00e9voa, de nome O Ouvinte, cansou-se de mastigar palavreado. Olhou para as institui\u00e7\u00f5es corro\u00eddas, para a pol\u00edtica sem alma, macha e abusadora, e perguntou em voz baixa: \u201cE se o bem n\u00e3o estiver em nenhum dos p\u00e9s que nos esmaga?\u201d<\/p>\n<p>A pergunta circulou como um sopro raro. Algu\u00e9m lembrou as palavras de um pensador chamado Bento: \u201cA pol\u00edtica \u00e9 a arte do poss\u00edvel. O crit\u00e9rio n\u00e3o \u00e9 a opini\u00e3o, mas a consci\u00eancia\u201d. Um outro citou Seabra: \u201cAqui n\u00e3o h\u00e1 verdades finais, s\u00f3 consensos. E consenso pressup\u00f5e compromisso com o advers\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>Compreenderam ent\u00e3o: a pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 religi\u00e3o. N\u00e3o se faz catequese. \u00c9 um bem menor, um instrumento (em que os advers\u00e1rios espelham o pr\u00f3prio mal no outro, afirmando o bem partido). Aceit\u00e1-la como tal era o primeiro passo para a renovar. N\u00e3o se tratava de derrubar o Olimpo, miss\u00e3o imposs\u00edvel, mas de parar de olhar para ele como fonte de salva\u00e7\u00e3o. O bem devia ser o objetivo do Estado e do povo, mas n\u00e3o propriedade de quem fala do alto.<\/p>\n<p>A nuvem n\u00e3o se dissipou, mas dentro dela, come\u00e7aram a surgir pequenas frestas de claridade. N\u00e3o era o sol dos deuses, era uma luz pr\u00f3pria, feita de consci\u00eancia cr\u00edtica que vinha da soberania da pessoa. E nessa luz, mesmo fraca, vislumbraram uma democracia que n\u00e3o fosse apenas dois p\u00e9s a caminhar, mas muitas m\u00e3os a construir.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>\u00a9 \u00a0Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>(1) O Monte Olimpo, o pico mais alto da Gr\u00e9cia, era na mitologia o lar sagrado dos doze deuses ol\u00edmpicos, liderados por J\u00fapiter . O seu cume, envolto em nuvens, simbolizava o centro divino do poder e do governo do universo, um \u201clugar onde reina a felicidade\u201d que influenciava profundamente o cotidiano e a espiritualidade dos gregos.<br \/>\nAo longo da hist\u00f3ria, \u00e9 poss\u00edvel observar que pequenas elites, em diversas sociedades e institui\u00e7\u00f5es, procuraram criar o seu pr\u00f3prio \u201cOlimpo\u201d, um pante\u00e3o simb\u00f3lico de poder e distin\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo entanto, para al\u00e9m das alegorias que constru\u00edmos, importa reconhecer que tanto na natureza como na sociedade a realidade \u00e9 feita de montes e vales.<br \/>\nMais do que ilustrar a matriz intr\u00ednseca da sociedade, esta imagem alerta-nos para a estrutura estratificada da vida coletiva e convida a uma vigil\u00e2ncia cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o aos pretensos &#8220;deuses&#8221; que habitam as modernas capitais &#8220;ol\u00edmpicas&#8221;, de Washington a Pequim, de Bruxelas a Moscovo e cuja influ\u00eancia ecoa e se espalha pelo planeta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto os do Olimpo (1) se alimentam da claridade que fabricam, os da N\u00e9voa navegam na bruma que lhes deixam e ambos, sem o saber, s\u00e3o reflexo um do outro: o poder feito mito, o povo feito abstra\u00e7\u00e3o, numa dan\u00e7a onde o alto e o baixo s\u00e3o dois movimentos do mesmo rio parado. 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