{"id":10709,"date":"2026-02-01T22:38:42","date_gmt":"2026-02-01T21:38:42","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10709"},"modified":"2026-02-01T23:32:03","modified_gmt":"2026-02-01T22:32:03","slug":"uma-fabula-para-o-nosso-tempo-baseada-no-enigma-de-tebas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10709","title":{"rendered":"F\u00c1BULA PARA O NOSSO TEMPO BASEADA NO ENIGMA DE TEBAS"},"content":{"rendered":"<p>Na Europa, uma nova Esfinge (1) ergue-se sobre as cidades. N\u00e3o tem corpo de le\u00e3o nem rosto de mulher, mas sim ecr\u00e3s de plasma, programas e algoritmos silenciosos. Habita n\u00e3o num penedo isolado, mas nas redes que conectam todas as casas e fazem delas salas de instru\u00e7\u00e3o e de espet\u00e1culo. O seu enigma n\u00e3o \u00e9 pronunciado em voz alta, mas sugerido em milhares de imagens, not\u00edcias, postagens e an\u00e1lises que inundam os dias.<\/p>\n<p>Esta Esfinge moderna pergunta: &#8220;Que criatura caminha sobre quatro apoios na inf\u00e2ncia, dois na idade adulta, e tr\u00eas na velhice, mas em todas as idades aceita as sombras como luz?&#8221;<\/p>\n<p>A multid\u00e3o, formatada para a urg\u00eancia, nem percebe que lhe \u00e9 colocada uma quest\u00e3o. E assim \u00e9 devorada diariamente, n\u00e3o por um monstro mitol\u00f3gico, mas por uma resigna\u00e7\u00e3o silenciosa que destr\u00f3i a capacidade de distinguir facto de opini\u00e3o, an\u00e1lise de propaganda, consenso de partidarismo.<\/p>\n<p>Os \u00c9dipos modernos chegam cheios de confian\u00e7a. Um jovem programador cria uma aplica\u00e7\u00e3o que promete &#8220;descodificar a narrativa medi\u00e1tica&#8221;. Um acad\u00e9mico publica um tratado sobre &#8220;a desconstru\u00e7\u00e3o do discurso hegem\u00f3nico&#8221;. Um ativista organiza f\u00f3runs de &#8220;verifica\u00e7\u00e3o de factos&#8221;. Cada um acredita ter desvendado o enigma, afirmando: &#8220;A criatura \u00e9 o Cidad\u00e3o Contempor\u00e2neo! Pois ele consome informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o para compreender, mas para confirmar; n\u00e3o para refletir, mas para pertencer!&#8221;<\/p>\n<p>Mas aqui a f\u00e1bula diverge do mito antigo. Estas Esfinges n\u00e3o se atiram dos penhascos. Aplaudem. Incorporam as &#8220;solu\u00e7\u00f5es&#8221; nos seus algoritmos (2). O programador vende a sua aplica\u00e7\u00e3o a um conglomerado medi\u00e1tico. O acad\u00e9mico \u00e9 contratado como comentador. O ativista recebe likes suficientes para se sentir vitorioso. E a maldi\u00e7\u00e3o persiste, mais sofisticada, adaptando-se a cada tentativa de a destruir.<\/p>\n<p>Jocasta, a rainha vi\u00fava, n\u00e3o \u00e9 uma pessoa, mas uma Nostalgia perigosa, a mem\u00f3ria coletiva editada, que faz chorar por um passado que nunca existiu como lembramos ou faz acreditar num futuro que idealizamos. E muitos, pensando libertar o povo, acabam por casar com esta Nostalgia ou alegria, sem perceber o parentesco ideol\u00f3gico que os une.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(1) O EN\u00cdGMA DE TEBAS: Em Tebas vivia a Esfinge, que era um monstro alado com corpo de le\u00e3o e rosto de mulher, devorava quem n\u00e3o resolvesse o seu quebra-cabe\u00e7as: &#8220;Que criatura anda sobre quatro patas pela manh\u00e3, duas ao meio-dia e tr\u00eas \u00e0 noite?&#8221; Toda a cidade vivia aterrorizada porque quem falhasse era engolido. Um dia chega a Tebas \u00c9dipo e conseguiu desvendar o enigma dizendo que essa criatura \u00e9 o &#8220;Homem&#8221;, que engatinha na inf\u00e2ncia, anda sobre dois p\u00e9s na vida adulta e usa bengala (tr\u00eas p\u00e9s) na velhice. A Esfinge ent\u00e3o despenhou-se de um penedo e \u00c9dipo, libertador da maldi\u00e7\u00e3o da cidade, recebeu o trono e a m\u00e3o da rainha Jocasta, vi\u00fava do falecido rei Laio, casando-se sem saber com a pr\u00f3pria m\u00e3e. A vit\u00f3ria de \u00c9dipo sobre a Esfinge representa o triunfo da intelig\u00eancia humana, isto \u00e9, do conhecimento, sobre a for\u00e7a bruta da burla e do preconceito e do que nos levam a acreditar.<\/p>\n<p>(2) Os algoritmos detetam hoje o que investigadores como Byung-Chul Han descrevem: uma sociedade j\u00e1 n\u00e3o disciplinada por proibi\u00e7\u00f5es externas, mas por um imperativo de transpar\u00eancia e positividade que esgota. A Esfinge atual n\u00e3o amea\u00e7a com viol\u00eancia, mas com exclus\u00e3o social, com a invisibilidade algor\u00edtmica.<br \/>\nAs Intelig\u00eancias Artificiais de processamento lingu\u00edstico identificam nos discursos p\u00fablicos europeus um aumento de 73% em polariza\u00e7\u00f5es bin\u00e1rias, o pensar s\u00f3 a preto e branco, desde 2010, segundo estudos do MIT Media Lab. As redes neuronais na l\u00f3gica do limiar (semelhantes aos neur\u00f3nios do c\u00e9rebro humano criam conex\u00f5es que movimentam camadas ocultas) mapeiam como certos termos (&#8220;liberdade&#8221;, &#8220;seguran\u00e7a&#8221;, \u201cpopulismo\u201d, &#8220;tradi\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;progresso&#8221;) s\u00e3o semanticamente usurpados por campos opostos, tornando o di\u00e1logo quase imposs\u00edvel.<br \/>\nA cada enigma correspondem m\u00faltiplas narrativas poss\u00edveis, n\u00e3o uma, mas mil respostas. Urge evitar que o cidad\u00e3o perca a capacidade cr\u00edtica; precisa-se empenho na capacidade de imaginar, recombinar, reconciliar, encontrar caminhos n\u00e3o previstos pelos dados que se apresentam. A capacidade critica e criativa do indiv\u00edduo s\u00e3o aquelas que mais contribuem para o desenvolvimento da sociedade!<br \/>\n<strong>O verdadeiro enigma<\/strong><strong> ser\u00e1: Como construir pontes quando o discurso p\u00fablico e os algoritmos nos mostram apenas abismos?<\/strong><br \/>\nTal como \u00c9dipo, estamos condenados a responder, mas ao contr\u00e1rio dele, sabemos que cada resposta gera novas perguntas. A liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 num trono conquistado, mas na coragem de permanecer na interroga\u00e7\u00e3o, na toler\u00e2ncia pela resposta do outro, mesmo e especialmente, quando discorda da nossa.<br \/>\nA maldi\u00e7\u00e3o de Tebas moderna s\u00f3 ser\u00e1 quebrada quando entendermos que o monstro n\u00e3o est\u00e1 no penedo, mas na nossa resigna\u00e7\u00e3o em aceitar enigmas e afirma\u00e7\u00f5es como verdades finais. E que \u00e0s vezes, a sabedoria come\u00e7a n\u00e3o com uma resposta inteligente, mas com uma pergunta humilde: &#8220;E se eu estiver errado?&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Europa, uma nova Esfinge (1) ergue-se sobre as cidades. N\u00e3o tem corpo de le\u00e3o nem rosto de mulher, mas sim ecr\u00e3s de plasma, programas e algoritmos silenciosos. Habita n\u00e3o num penedo isolado, mas nas redes que conectam todas as casas e fazem delas salas de instru\u00e7\u00e3o e de espet\u00e1culo. 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