{"id":10691,"date":"2026-01-29T16:38:59","date_gmt":"2026-01-29T15:38:59","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10691"},"modified":"2026-01-29T17:01:59","modified_gmt":"2026-01-29T16:01:59","slug":"guerra-do-estado-contra-o-proprio-povo-no-irao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10691","title":{"rendered":"GUERRA DO ESTADO CONTRA O PR\u00d3PRIO POVO NO IR\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Leitura antropol\u00f3gica sobre o Isl\u00e3o, a revolta silenciada, a viol\u00eancia sacralizada e o abandono internacional<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>N\u00e3o \u00e9 uma crise, \u00e9 um sistema cruel sem miseric\u00f3rdia<\/strong><\/p>\n<p>Nenhum pa\u00eds \u00e9 totalmente livre. Mas o Ir\u00e3o destaca-se como um dos regimes mais fechados, mais cru\u00e9is e mais imperme\u00e1veis \u00e0 compaix\u00e3o humana. O que ali se passa n\u00e3o \u00e9 um \u201cexcesso\u201d do poder, nem uma \u201cderiva autorit\u00e1ria\u201d: <strong>\u00e9 a consequ\u00eancia l\u00f3gica de um sistema teocr\u00e1tico implac\u00e1vel levado \u00e0 letra e \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias; <\/strong>em vez de governar, comanda, vigia, pune e sacrifica<\/p>\n<p>A Rep\u00fablica Isl\u00e2mica do Ir\u00e3o n\u00e3o governa apesar do Isl\u00e3o, governa <strong>por causa dele<\/strong>. E \u00e9 precisamente essa verdade que muitos analistas, diplomatas e pol\u00edticos no Ocidente.. evitam enfrentar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Os Ayatollahs e a<\/strong> <strong>l\u00f3gica interna da teocracia isl\u00e2mica<\/strong><\/p>\n<p><strong>Os ayatollahs (\u201csinais de Deus\u201d), n\u00e3o s\u00e3o apenas l\u00edderes religiosos. S\u00e3o detentores de uma autoridade pol\u00edtico-religiosa que se apresenta como transcendente<\/strong>, o que a torna, por defini\u00e7\u00e3o, incontest\u00e1vel. Na antropologia do poder isl\u00e2mico, esta \u00e9 uma das formas mais eficazes de domina\u00e7\u00e3o. Nele obedecer deixa de ser uma escolha pol\u00edtica e passa a ser um dever sagrado.<\/p>\n<p>O L\u00edder Supremo, Ali Khamenei, \u00e9 hoje internacionalmente condenado pela repress\u00e3o brutal das manifesta\u00e7\u00f5es e pelo esmagamento sistem\u00e1tico de qualquer dissid\u00eancia. <strong>Mas o regime n\u00e3o v\u00ea nisso um problema. Pelo contr\u00e1rio, a repress\u00e3o \u00e9 interpretada como fidelidade \u00e0 miss\u00e3o divina.<\/strong> <strong>O indiv\u00edduo n\u00e3o existe s\u00f3 vale a Ummah.<\/strong><\/p>\n<p>No Isl\u00e3o pol\u00edtico xiita, tal como institucionalizado no Ir\u00e3o, o conflito n\u00e3o \u00e9 um acidente, \u00e9 um m\u00e9todo de governo.<\/p>\n<p><strong>Do ponto de vista antropol\u00f3gico, uma das caracter\u00edsticas centrais do Isl\u00e3o \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo como sujeito moral aut\u00f3nomo.<\/strong> A Constitui\u00e7\u00e3o iraniana, por ser isl\u00e2mica, n\u00e3o pode ser democr\u00e1tica no sentido moderno do termo. A soberania n\u00e3o pertence ao povo, mas a Deus e \u00e9 administrada pelos seus int\u00e9rpretes.<\/p>\n<p><strong>O Isl\u00e3o n\u00e3o reconhece o \u201cpovo\u201d como conjunto de cidad\u00e3os, mas apenas a <em>Ummah<\/em>, a comunidade dos fi\u00e9is.<\/strong> Fora dela, n\u00e3o h\u00e1 dignidade plena intr\u00ednseca. Dentro dela, a dignidade \u00e9 condicional: depende da obedi\u00eancia. O Isl\u00e3o de Maom\u00e9 reconhece o sistema e a religi\u00e3o, mas n\u00e3o o povo enquanto conjunto de indiv\u00edduos livres.<\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o permite justificar a viol\u00eancia, a tortura, a execu\u00e7\u00e3o e a humilha\u00e7\u00e3o p\u00fablica como atos leg\u00edtimos, at\u00e9 sagrados. \u00c9 a ades\u00e3o religiosa que confere estatuto moral ao indiv\u00edduo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Viol\u00eancia como virtude moral<\/strong><\/p>\n<p><strong>Quando a dignidade humana n\u00e3o \u00e9 intr\u00ednseca ao ser humano, a viol\u00eancia torna-se moralmente administr\u00e1vel. Tortura, pris\u00e3o arbitr\u00e1ria, execu\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e persegui\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o vistas como crimes, mas como instrumentos leg\u00edtimos de purifica\u00e7\u00e3o social.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O sistema isl\u00e2mico necessita de um inimigo para existir. Antropologicamente, trata-se de uma estrutura dualista: o mundo divide-se entre o territ\u00f3rio do Isl\u00e3o e o territ\u00f3rio do inimigo. Esta l\u00f3gica cria um estado de guerra permanente, externa e interna.<\/strong><\/p>\n<p>Hoje, no Ir\u00e3o, essa guerra \u00e9 travada contra o pr\u00f3prio povo. Mas, na narrativa do regime, os manifestantes n\u00e3o s\u00e3o cidad\u00e3os, \u00a0s\u00e3o \u201cterroristas\u201d, agentes de Israel ou dos Estados Unidos, encarna\u00e7\u00f5es do \u201creino do diabo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O culto do sacrif\u00edcio e a banaliza\u00e7\u00e3o da morte<\/strong><\/p>\n<p><strong>Os representantes do regime n\u00e3o governam para a prosperidade ou felicidade do povo. Governam para manter a pureza do sistema. E, nesse quadro, o sacrif\u00edcio \u00e9 sempre uma vit\u00f3ria<\/strong> (Os\u00a0pobres &#8220;m\u00e1rtires&#8221; que lutam pelo sistema t\u00eam o consolo de saber 70 virgens \u00e0 sua espera!).<\/p>\n<p>Mesmo que o regime perca politicamente, aos seus pr\u00f3prios olhos ele ganha espiritualmente, porque \u201ccumpriu a vontade divina\u201d. A morte de jovens manifestantes \u00e9 envolvida numa ret\u00f3rica escatol\u00f3gica: o mart\u00edrio \u00e9 compensado no al\u00e9m e justifica todo o sacrif\u00edcio em favor do sistema.<\/p>\n<p>Esta l\u00f3gica, religiosa permite justificar o inaceit\u00e1vel. A vida terrena \u00e9 relativizada; o sofrimento torna-se um meio.<\/p>\n<p><strong>No fundo, o regime opera segundo um princ\u00edpio brutalmente simples: O que \u00e9 lei \u00e9 poder. O que \u00e9 poder \u00e9 v\u00e1lido.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Esquece-se, por\u00e9m, uma verdade hist\u00f3rica fundamental que o mundo nunca avan\u00e7ou gra\u00e7as aos sistemas, mas gra\u00e7as aos seus cr\u00edticos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O terror quotidiano \u00e9 um facto<\/strong><\/p>\n<p><strong>A viol\u00eancia estatal das noites de 8 e 9 de janeiro deixou feridas profundas na popula\u00e7\u00e3o iraniana. A organiza\u00e7\u00e3o de direitos humanos HRANA fala em pelo menos 5.700 mortos confirmados entre os manifestantes. Outras fontes apontam para 20.000 ou mais v\u00edtimas.\u00e3 <\/strong><\/p>\n<p><strong>Feridos s\u00e3o retirados de hospitais e levados diretamente para pris\u00f5es. As execu\u00e7\u00f5es continuam. O Ir\u00e3o tem cerca de 90 milh\u00f5es de habitantes, todos ref\u00e9ns de um sistema que os v\u00ea como descart\u00e1veis.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O sil\u00eancio c\u00famplice do Ocidente<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Ocidente n\u00e3o estava preparado para esta revolta. E muitos iranianos sentem-se hoje tra\u00eddos.<\/strong> Esperavam apoio, press\u00e3o real, consequ\u00eancias pol\u00edticas. Em troca receberam comunicados e hesita\u00e7\u00f5es. (Na realidade o ocidente vive de contradi\u00e7\u00f5es na medida em que j\u00e1 fora c\u00famplice ao apoiar a revolu\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica no Ir\u00e3o).<\/p>\n<p><strong>Na Europa, uma parte significativa da esquerda continua a relativizar o regime iraniano por este se apresentar como anticapitalista e antiamericano. Trata-se de uma leitura ideol\u00f3gica que<\/strong> <strong>sacrifica pessoas reais em nome de abstra\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas e de cumplicidades por semelhan\u00e7a dos sistemas na concep\u00e7\u00e3o do ser humano<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Quando o conflito n\u00e3o \u00e9 \u201csistema contra sistema\u201d, mas sistema contra povo, o povo n\u00e3o entra nas contas diplom\u00e1ticas.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Interven\u00e7\u00e3o externa como solu\u00e7\u00e3o ou mera ilus\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>A possibilidade de uma interven\u00e7\u00e3o militar dos EUA paira no ar. A frota americana aproxima-se. Israel teme uma escalada regional devastadora. Donald Trump receia que uma guerra prolongada poderia destruir o equil\u00edbrio j\u00e1 fr\u00e1gil do M\u00e9dio Oriente e ele \u00e9 mais um apologista de Deal e de interven\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas!<\/p>\n<p><strong>Mas uma verdade permanece desconfort\u00e1vel: invocar o direito internacional, neste contexto, serve muitas vezes para proteger regimes e abandonar popula\u00e7\u00f5es<\/strong>.<\/p>\n<p>O Isl\u00e3o pol\u00edtico n\u00e3o \u00e9 apenas um governo, \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o enraizada na identidade dos seus fi\u00e9is. <strong>Como se viu no Afeganist\u00e3o, o poder militar pode derrubar estruturas, mas n\u00e3o elimina mentalidades. E, ainda assim, a ina\u00e7\u00e3o tem um custo humano imediato.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O filho exilado do X\u00e1 da P\u00e9rsia, Reza Pahlavi, \u00e9 desacreditado por setores da esquerda, apesar de representar parte dos iranianos no pa\u00eds e grande parte dos oito milh\u00f5es de iranianos na di\u00e1spora, sendo para muitos um s\u00edmbolo de esperan\u00e7a alternativa.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Um padr\u00e3o que se repete no mundo isl\u00e2mico<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Ir\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o, \u00e9 um dado sist\u00e9mico embora muitas vezes n\u00e3o declarado. Em v\u00e1rios pa\u00edses isl\u00e2micos observa-se a expuls\u00e3o progressiva de outras culturas e religi\u00f5es da esfera p\u00fablica. A convers\u00e3o da Hagia Sophia em mesquita, e a discrimina\u00e7\u00e3o legal dos n\u00e3o mu\u00e7ulmanos, na Turquia, \u00e9 um s\u00edmbolo claro dessa tend\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p>Judeus, crist\u00e3os e n\u00e3o crentes s\u00e3o empurrados para a invisibilidade. O \u00f3dio e a exclus\u00e3o est\u00e3o inscritos em textos e constitui\u00e7\u00f5es. <strong>Reduzir isto a \u201ccasos isolados\u201d \u00e9<\/strong> <strong>uma forma de nega\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em voga nos governantes europeus e no jornalismo que os assiste<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Um julgamento hist\u00f3rico em curso<\/strong><\/p>\n<p>No Ir\u00e3o, os pre\u00e7os disparam, o \u00f3dio do regime intensifica-se e a repress\u00e3o endurece. Tudo \u00e9 contra o povo. Muitos esperam ajuda externa. Se ela n\u00e3o vier agora, <strong>isso ficar\u00e1 inscrito na hist\u00f3ria<\/strong>, n\u00e3o como neutralidade, mas como cinismo e abandono.<\/p>\n<p><strong>A quest\u00e3o final n\u00e3o \u00e9 apenas se a Rep\u00fablica Isl\u00e2mica cair\u00e1.<br \/>\n\u00c9 se o mundo ter\u00e1 coragem de reconhecer que h\u00e1 sistemas incompat\u00edveis com a dignidade humana e que enfrent\u00e1-los exige mais do que palavras cautelosas.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O grito do Ir\u00e3o \u00e9 um teste decisivo \u00e0 nossa consci\u00eancia coletiva! <\/strong>A ina\u00e7\u00e3o internacional perante a repress\u00e3o brutal n\u00e3o ser\u00e1 um mero erro pol\u00edtico, mas uma falha moral. A quest\u00e3o final \u00e9 se o mundo continuar\u00e1 a assistir em sil\u00eancio enquanto um sistema sacrifica o seu povo em nome de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leitura antropol\u00f3gica sobre o Isl\u00e3o, a revolta silenciada, a viol\u00eancia sacralizada e o abandono internacional N\u00e3o \u00e9 uma crise, \u00e9 um sistema cruel sem miseric\u00f3rdia Nenhum pa\u00eds \u00e9 totalmente livre. Mas o Ir\u00e3o destaca-se como um dos regimes mais fechados, mais cru\u00e9is e mais imperme\u00e1veis \u00e0 compaix\u00e3o humana. 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