{"id":10652,"date":"2026-01-22T22:44:49","date_gmt":"2026-01-22T21:44:49","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10652"},"modified":"2026-01-24T13:44:48","modified_gmt":"2026-01-24T12:44:48","slug":"a-linha-invisivel-do-degelo-da-gronelandia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10652","title":{"rendered":"A LINHA INVIS\u00cdVEL DO DEGELO DA GRONEL\u00c2NDIA"},"content":{"rendered":"<pre>O degelo n\u00e3o \u00e9 uma trag\u00e9dia; \u00e9 uma oportunidade geopol\u00edtica. Enquanto o \u00c1rtico se liquefaz, solidificam-se novos imp\u00e9rios. A corrida n\u00e3o \u00e9 pelo que se perde, mas pelo que est\u00e1 a ser revelado. Neste conto procuro apresentar a Gronel\u00e2ndia no rescaldo do tratado de Tordesilhas e da reorganiza\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica!<\/pre>\n<p>Naquele ver\u00e3o paradoxal, a Gronel\u00e2ndia era um lugar fora do tempo. O gelo j\u00e1 n\u00e3o se impunha como amea\u00e7a, mas como uma retic\u00eancia vasta e branca, uma grande p\u00e1gina g\u00e9lida onde a Hist\u00f3ria, cansada de se repetir, suspirava por ser reescrita.<\/p>\n<p>N\u00e3o eram marcianos que ali se reuniam, mas os \u00faltimos pretendentes a senhores de um mundo em derretimento. Estavam ali por fadiga. A fadiga das velhas fronteiras, dos mapas caducos, do sil\u00eancio que j\u00e1 n\u00e3o conseguia conter o uivo dos c\u00e3es de tren\u00f3 nem o crepitar profundo das calotas glaciares a desfazerem-se. Algo antigo, tra\u00e7ado a tinta num tratado esquecido, definhava sob o sol \u00e1rtico implac\u00e1vel.<\/p>\n<p>E no rescaldo silencioso de Tordesilhas, tudo estava outra vez em aberto.<\/p>\n<p>Reuniram-se ali n\u00e3o por acaso, mas por fadiga.<\/p>\n<p>Donald Trump chegara primeiro, como quem entra numa sala desconhecida tentando parecer dono dela. O vento \u00e1rtico embaciava-lhe a ret\u00f3rica habitual. Ali, onde n\u00e3o havia plateia nem bolsas a reagir em tempo real, o excesso de palavras tornava-se in\u00fatil. Pela primeira vez em d\u00e9cadas, moderou a voz e ouviu mais do que falou.<\/p>\n<p>Putin veio depois, silencioso como um \u00edcone antigo retirado de uma igreja semiabandonada. N\u00e3o trazia mapas, mas mem\u00f3ria viva. A R\u00fassia, pensava ele, sempre fora mais um corpo do que um conceito pol\u00edtico e os corpos, quando feridos, lembram-se durante s\u00e9culos e as cicatrizes n\u00e3o mentem.<\/p>\n<p>Xi Jinping chegou com passos medidos, quase rituais. Para ele, a Gronel\u00e2ndia era menos um territ\u00f3rio do que um ponto de equil\u00edbrio c\u00f3smico: o vazio f\u00e9rtil onde o Tao se revela. Sabia que todo o imp\u00e9rio que ignora a harmonia entre C\u00e9u, Terra e Homem acaba por se devorar a si mesmo, lentamente, mas sem falhar.<\/p>\n<p>Ursula von der Leyen apareceu por \u00faltimo, envolta num casaco de pele sint\u00e9tica demasiado leve para aquele sil\u00eancio primordial. Representava uma Europa exausta, saturada de normas, \u00a0carente de alma mas na procura de norte. A Uni\u00e3o que ela encarnava sabia regular tudo, exceto o sentido.<\/p>\n<p>Mas o mais inesperado n\u00e3o veio de avi\u00f5es nem de agendas diplom\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Veio de cima. Veio do ar.<\/p>\n<p>No terceiro dia, quando o sol n\u00e3o se punha nem se erguia, apenas persistia, suspenso como uma d\u00favida, uma perturba\u00e7\u00e3o subtil rasgou o c\u00e9u. N\u00e3o era ovni, nem fen\u00f3meno meteorol\u00f3gico catalog\u00e1vel. Os esquim\u00f3s que observavam o encontro \u00e0 dist\u00e2ncia, em respeito e sil\u00eancio, chamaram-lhe &#8220;potestades do ar&#8221;: algo que sopra depois da tempestade, quando o mundo j\u00e1 devia estar calmo, mas ainda n\u00e3o aprendeu a s\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Daquela vibra\u00e7\u00e3o emergiu uma figura que n\u00e3o caminhava, mas que se lembrava do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Era <strong>Nuno \u00c1lvares Pereira<\/strong>. N\u00e3o o general de batalhas esquecidas, mas o homem transfigurado pela consci\u00eancia de que defender n\u00e3o \u00e9 conquistar, \u00e9 guardar o que permite ao outro existir. N\u00e3o empunhava espada. Trazia apenas um sil\u00eancio espesso, quase lit\u00fargico, que caiu sobre todos como neve que nunca derrete.<\/p>\n<p>E sem mover os l\u00e1bios, disse:<\/p>\n<p>&#8220;As fronteiras n\u00e3o s\u00e3o linhas. S\u00e3o responsabilidades.&#8221;<\/p>\n<p>Trump franziu o sobrolho. Putin inclinou ligeiramente a cabe\u00e7a. Xi fechou os olhos. Ursula sentiu, pela primeira vez em anos, vergonha sem humilha\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o surgiu <strong>Vasco da Gama<\/strong>, n\u00e3o como her\u00f3i de epopeia, mas como navegador que aprendera, tarde demais, que os mares n\u00e3o pertencem a quem os atravessa. Trazia consigo a sombra do Tratado de Tordesilhas, aquela r\u00e9gua metaf\u00edsica com que a Europa, em nome da cristandade e do ouro, dividira o mundo como quem corta p\u00e3o sem perguntar se algu\u00e9m tinha fome. Foi ent\u00e3o que Vasco da Gama confessou:<\/p>\n<p>\u201cDividimos o mundo segundo o esp\u00edrito do nosso tempo. Mas esquecemo-nos de perguntar ao tempo se ele queria ser dividido.\u201d<\/p>\n<p>A Gronel\u00e2ndia, esse territ\u00f3rio que ningu\u00e9m verdadeiramente desejara at\u00e9 ao degelo do s\u00e9culo XXI, tornava-se agora espelho. Ali estavam reunidas as pot\u00eancias do mundo em processo de se tornar multipolar, n\u00e3o para negociar mercados, mas para enfrentar uma pergunta antiga e sempre adiada:<\/p>\n<p><strong>Para que serve o poder quando j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 sentido?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nuno \u00c1lvares<\/strong> avan\u00e7ou um passo sem o gelo ceder e disse.<\/p>\n<p>\u201cA Europa perdeu-se quando confundiu universalismo com superioridade. E perdeu-se outra vez quando chamou \u201cvalores\u201d \u00e0quilo que eram apenas interesses protegidos por armas. Em vez de repensar os seus ideais expressos j\u00e1 em Carlos Magno, como n\u00f3s faz\u00edamos, quer transformar o caminho tortuoso do colonialismo econ\u00f3mico em colonialismo mental\u201d.<\/p>\n<p><strong>Ursula<\/strong>, de olhar c\u00ednico, tentou responder com dados, tratados, estat\u00edsticas. Mas nenhuma tabela resiste ao olhar de quem atravessou a Hist\u00f3ria sem a violar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o <strong>Nuno \u00c1lvares<\/strong> levantou a m\u00e3o e recordou:<\/p>\n<p>\u201cA R\u00fassia n\u00e3o \u00e9 inimiga natural da Europa. \u00c9 a sua irm\u00e3 g\u00e9mea, separada no nascimento, mas portadora da mesma dor religiosa e metaf\u00edsica: a procura de identidade entre o Oriente e o Ocidente.\u201d<\/p>\n<p><strong>Putin<\/strong> respirou fundo, como se no erguer do seu peito toda a R\u00fassia respirasse. N\u00e3o era absolvi\u00e7\u00e3o o que ouvia, mas reconhecimento, algo mais raro.<\/p>\n<p><strong>Xi <\/strong>falou ent\u00e3o, com voz baixa:<\/p>\n<p>\u201cQuando a Europa destruiu as pontes com o mundo, acreditou estar a defender valores. Na verdade, estava a defender o medo de deixar de ser centro.\u201d<\/p>\n<p><strong>Trump<\/strong>, inquieto, murmurou algo sobre neg\u00f3cios. Mas at\u00e9 ele percebia: ali n\u00e3o se tratava de ganhar, mas de entrar em compromissos com a velha Europa porque o beneficia riam.<\/p>\n<p>A Gronel\u00e2ndia revelou-se ent\u00e3o n\u00e3o como territ\u00f3rio estrat\u00e9gico, mas como apelo e chamamento ao compromisso, \u00e0 honra e \u00e0 justi\u00e7a. Gronel\u00e2ndia sentia-se como o lugar onde a humanidade podia decidir se continuaria a repetir Tordesilhas, agora em nome da seguran\u00e7a, da democracia e do crescimento, ou se ousaria algo mais dif\u00edcil: uma cultura da paz como interesse racional e humano perto do modelo do cristianismo cat\u00f3lico.<\/p>\n<p><strong>Nuno \u00c1lvares<\/strong>, com um tom que n\u00e3o impunha nem cedia, mas antes acolhia, disse apenas:<\/p>\n<p>\u201cA paz n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia de conflito. \u00c9 a coragem de transformar o julgar em compreender.\u201d<\/p>\n<p>As palavras n\u00e3o pediam resposta. Ca\u00edram como se fossem palavras de boa-noite, n\u00e3o no sentido da despedida, mas no da suspens\u00e3o. Soaram mais como convite ao sil\u00eancio do que como argumento para r\u00e9plica. E, estranhamente, todos o compreenderam.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve debate. N\u00e3o houve contra-argumentos. Houve apenas um assentimento interior, quase involunt\u00e1rio.<\/p>\n<p>Retiraram-se ent\u00e3o, cada um para o seu espa\u00e7o de descanso, como quem aceita que h\u00e1 noites que pensam por n\u00f3s. O gelo exterior refletia um gelo mais subtil, interior, que come\u00e7ava a derreter-se. Nenhum deles dormiu profundamente. Todos ficaram com a mesma inquieta\u00e7\u00e3o, com a pulga atr\u00e1s da orelha de que algo tinha de mudar. N\u00e3o nos mapas, nem tanto nos tratados, mas na consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Na Gronel\u00e2ndia, a noite n\u00e3o escurece porque o sol n\u00e3o dorme.<br \/>\nA luz persiste como uma pergunta sem resposta, obrigando a alma a fechar os olhos para poder ver.<\/p>\n<p><strong>Trump<\/strong><\/p>\n<p>Donald Trump permaneceu acordado mais tempo do que gostaria de admitir. O sil\u00eancio incomodava-o. N\u00e3o havia aplausos, nem ecr\u00e3s, nem bolsas a reagir. Apenas o som distante do gelo a estalar, como contratos antigos a quebrar-se sem renegocia\u00e7\u00e3o poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Pensou nos soldados europeus que tinham sido discretamente enviados dias antes, com a miss\u00e3o pouco gloriosa de \u201cladrarem um pouco\u201d, sinalizar presen\u00e7a, mostrar dentes. Sorriu de lado ao recordar a informa\u00e7\u00e3o recebida horas antes de que tinham ladrado uma \u00fanica vez e ao ouvir o eco da pr\u00f3pria insignific\u00e2ncia, enfiaram o rabo entre as pernas e regressaram de imediato a casa.<\/p>\n<p>Murmurou sorrindo para si:<\/p>\n<p>\u201cMuito latido, pouca a\u00e7\u00e3o; muita hipocrisia, moeda corrente na Uni\u00e3o Europeia\u201d<\/p>\n<p>Mas o sorriso morreu r\u00e1pido. Pela primeira vez, sentiu algo pr\u00f3ximo do desconforto moral: e se o mundo j\u00e1 n\u00e3o respondesse nem a dentes nem a d\u00f3lares?<\/p>\n<p>N\u00e3o gostava de filosofia, mas aquela frase de Nuno \u00c1lvares insistia como slogan imposs\u00edvel de vender:<\/p>\n<p>\u201ctransformar o julgar em compreender.\u201d<\/p>\n<p>E pensou:<\/p>\n<p>\u201cCompreender n\u00e3o rende.\u201d<br \/>\nMas no fundo da noite algo respondeu: \u201cjulgar sem compreender j\u00e1 n\u00e3o rende nada, pois at\u00e9 os europeus se est\u00e3o a votar agora para Putin e tudo por minha obra, talvez tamb\u00e9m eu tenha que mudar e dar-lhe a m\u00e3o para que fiquem do meu lado a comer do mesmo ch\u00e3o\u201d<\/p>\n<p><strong>Putin<\/strong><\/p>\n<p>Putin dormiu pouco, como sempre. Acordou antes do rel\u00f3gio, como quem foi treinado para vigiar at\u00e9 os pr\u00f3prios sonhos. Olhou para o teto branco e lembrou-se da R\u00fassia como se lembra de uma m\u00e3e severa que se ama sem ilus\u00f5es.<\/p>\n<p>A Gronel\u00e2ndia parecia-lhe estranhamente familiar, n\u00e3o pela paisagem, mas pelo sentimento de margem. A R\u00fassia sempre fora margem e centro ao mesmo tempo, ponte e muro, de ser Europa ferida e \u00c1sia incompreendida.<\/p>\n<p>Pensou nas palavras de Nuno \u00c1lvares quando disse que defender n\u00e3o \u00e9 expandir.<\/p>\n<p>\u201cFoi isso que esquecemos\u201d, reconheceu sem o formular em voz alta.<br \/>\nDefender a identidade n\u00e3o exige negar a do outro. Mas o mundo s\u00f3 aprendera a linguagem da for\u00e7a e a R\u00fassia, cercada, falara essa l\u00edngua melhor do que ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Naquela noite, por\u00e9m, algo o inquietava: e se a verdadeira derrota n\u00e3o fosse territorial, mas moral? Se ela n\u00e3o fosse fraqueza, mas perda de sentido.<\/p>\n<p><strong>Xi Jinping<\/strong><\/p>\n<p>Xi Jinping meditava sentado, im\u00f3vel, enquanto o sol obl\u00edquo atravessava a janela. Para ele, a noite era apenas uma mudan\u00e7a de ritmo, n\u00e3o de ess\u00eancia.<\/p>\n<p>Pensava na harmonia, n\u00e3o como ideal rom\u00e2ntico, mas como condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia. Todo o sistema que perde o equil\u00edbrio interno tenta compensar com controle externo. Era uma lei antiga, anterior ao marxismo, anterior ao confucionismo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>A Gronel\u00e2ndia surgia-lhe como s\u00edmbolo perfeito do excesso ocidental! S\u00f3 agora interessava, quando come\u00e7ava a derreter. S\u00f3 agora era estrat\u00e9gica, porque j\u00e1 estava ferida.<\/p>\n<p>Ouviu passos no corredor. Trump e Putin trocaram uma frase curta, quase c\u00famplice, sobre os soldados europeus j\u00e1 regressados. Um riso seco, breve, atravessou o sil\u00eancio. Xi n\u00e3o riu. Apenas pensou:<\/p>\n<p>\u201cDe facto, quando o poder se torna teatro, perde a autoridade; esta Europa parece s\u00f3 merecer compaix\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>E nesse ponto, sentiu como que um calafrio que corria por todo o seu corpo; sentia algo raro: uma poss\u00edvel converg\u00eancia. E se a Europa recuperasse o bom senso e seguisse um natural desejo que seria de unir a vontade pol\u00edtica \u00e0 natural uni\u00e3o geogr\u00e1fica?<\/p>\n<p><strong>\u00darsula<\/strong><\/p>\n<p>\u00darsula von der Leyen dormiu mal e sonhou intensamente.<\/p>\n<p>No sonho, encontrava-se numa igreja sem paredes. O altar era o mundo. E diante dela estava Hans K\u00fcng, n\u00e3o como te\u00f3logo famoso, mas como homem cansado de ser ignorado.<br \/>\nCom suavidade implac\u00e1vel come\u00e7ou por dizer:<\/p>\n<p>\u201cConfundiram valores com instrumentos. A \u00e9tica n\u00e3o \u00e9 propriedade de nenhum bloco. \u00c9 condi\u00e7\u00e3o de humanidade.\u201d<\/p>\n<p>Ursula tentou responder com tratados, com regulamentos, com cl\u00e1usulas. Mas cada palavra transformava-se em papel molhado antes de chegar aos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>E K\u00fcng continuou:<\/p>\n<p>\u201cA Igreja errou quando quis governar. Mas a pol\u00edtica erra quando rejeita qualquer inst\u00e2ncia moral que n\u00e3o a controle.\u201d<\/p>\n<p>Ela sentiu algo pr\u00f3ximo do medo e perguntou com suor no rosto:<\/p>\n<p>\u201cE n\u00f3s? A Europa?\u201d<\/p>\n<p>K\u00fcng olhou-a longamente.<\/p>\n<p>\u201cA Europa ser\u00e1 irrelevante se continuar a falar de dignidade humana enquanto a subcontrata.\u201d<\/p>\n<p>Antes de desaparecer, deixou-lhe uma \u00faltima frase, quase um cochicho:<\/p>\n<p>\u201cSem uma \u00e9tica mundial, a vossa ordem ser\u00e1 apenas uma t\u00e9cnica de domina\u00e7\u00e3o educada.\u201d<\/p>\n<p>\u00darsula acordou sobressaltada. Pela primeira vez em muitos anos, n\u00e3o pensou em comunica\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica. Pensou em consci\u00eancia e ela pesava!<\/p>\n<p>Quando a manh\u00e3 chegou, clara, quase irreal sob a luz cont\u00ednua do Norte, foram-se reunindo novamente na sala de encontro. Na atmosfera respirava-se algo que era diferente. N\u00e3o sabiam ainda o qu\u00ea. Mas a noite tinha feito o seu trabalho. J\u00e1 n\u00e3o estavam apenas exaustos. Estavam dispon\u00edveis. E assim, sem o saberem plenamente, tinham atravessado o limiar invis\u00edvel; passaram do jogo do poder para a pergunta \u00e9tica.<\/p>\n<p>A Gronel\u00e2ndia prosseguia silenciosa, mas o gelo continuava a estalar.<\/p>\n<p>Afinal, agora, j\u00e1 n\u00e3o era apenas o clima que mudava.<\/p>\n<p>Longe do barulho das declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, das c\u00e2maras e das narrativas pr\u00e9-fabricadas, tinham finalmente come\u00e7ado a reconhecer aquilo que at\u00e9 ent\u00e3o apenas intu\u00edram: a verdadeira crise europeia e mundial, n\u00e3o era econ\u00f3mica nem militar. Era mais funda, mais perigosa porque invis\u00edvel.<\/p>\n<p>A crise europeia era antropol\u00f3gica, era humana.<\/p>\n<p>Um sistema que perdera o humano j\u00e1 n\u00e3o sabia reconhecer-se a si mesmo. Um mundo que falava obsessivamente de valores j\u00e1 n\u00e3o sabia dizer porqu\u00ea. Um poder que se legitimava por normas perdera a capacidade de escutar consci\u00eancias.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que a Gronel\u00e2ndia come\u00e7ou a revelar-se.<\/p>\n<p>N\u00e3o era neutra, apenas parecia s\u00ea-lo aos olhos de quem ainda acreditava que a geografia \u00e9 muda. Mas ali, onde o gelo milenar come\u00e7ava a ceder, emergia uma verdade antiga, esquecida desde que o mundo se tornara demasiado r\u00e1pido para escutar os seus pr\u00f3prios ritmos: quando os p\u00f3los se movem, tamb\u00e9m os valores se deslocam.<\/p>\n<p>Naquela noite suspensa, tinham compreendido algo desconfort\u00e1vel: n\u00e3o estavam ali reunidos por voca\u00e7\u00e3o, por vis\u00e3o ou por grandeza hist\u00f3rica. Estavam ali por esgotamento.<\/p>\n<p>O modelo bipolar morrera de rigidez e o multipolar estava a nascer sem alma.<\/p>\n<p>E entre um e outro, a humanidade oscilava perigosamente entre dois extremos igualmente est\u00e9reis: o cinismo estrat\u00e9gico, que tudo relativiza em nome do interesse e o moralismo instrumental, que tudo julga sem jamais se julgar a si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Com o passar das horas as m\u00e1scaras iam caindo. J\u00e1 n\u00e3o mostravam apenas dossiers, mas uma aten\u00e7\u00e3o diferente, como se algo os tivesse deslocado interiormente durante a passada e memor\u00e1vel noite.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Europeia ali presente no corpo de Ursula von der Leyen, trazendo consigo o seu paradoxo mais \u00edntimo come\u00e7ava a compreender que proclamava valores universais enquanto os aplicava seletivamente; falava de direitos humanos e ao mesmo tempo terceirizava a viol\u00eancia; condenava imp\u00e9rios passados enquanto ensaiava, com linguagem t\u00e9cnica, medidas e apar\u00eancia benevolente, um imperialismo normativo sem transcend\u00eancia.<\/p>\n<p>A Gronel\u00e2ndia tornava-se, assim, mais do que um territ\u00f3rio estrat\u00e9gico ou um ponto no tabuleiro global. Tornava-se um confession\u00e1rio da Hist\u00f3ria, n\u00e3o para absolver, mas para revelar.<\/p>\n<p>E era a partir desse ponto, desse sil\u00eancio amadurecido durante a noite, que algo novo podia come\u00e7ar. N\u00e3o era ainda a pol\u00edtica, nem os acordos. Era a pergunta \u00e9tica sem a qual nenhum mundo pode reorganizar-se.<\/p>\n<p><strong>O retorno dos mortos portadores de sabedoria e n\u00e3o de poder<\/strong><\/p>\n<p>Quando <strong>Nuno \u00c1lvares Pereira<\/strong> se manifestou, n\u00e3o como fantasma, mas como consci\u00eancia hist\u00f3rica activa, o mundo moderno revelou o seu embara\u00e7o: j\u00e1 n\u00e3o sabia reconhecer autoridade que n\u00e3o fosse poder.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o levantando a voz disse:<\/p>\n<p>\u201cVenci batalhas para n\u00e3o precisar de vencer consci\u00eancias. E retirei-me do mundo quando percebi que a espada come\u00e7a a corromper mesmo o justo.\u201d<\/p>\n<p>Nuno \u00c1lvares n\u00e3o representava Portugal, nem a Cristandade, nem a Europa. Representava algo mais raro: o limite \u00e9tico do poder leg\u00edtimo.<\/p>\n<p>Ao seu lado, <strong>Vasco da Gama<\/strong> assumia outra fun\u00e7\u00e3o: n\u00e3o a de navegador glorificado, mas a de portador da culpa civilizacional, que de voz embargada disse:<\/p>\n<p>\u201cLev\u00e1vamos Deus nos l\u00e1bios e a posse nas cartas n\u00e1uticas. E confundimos universalidade com autoriza\u00e7\u00e3o divina para dividir o mundo.\u201d<\/p>\n<p>O Tratado de Tordesilhas surgia ent\u00e3o como modelo fundador do erro moderno: a cren\u00e7a de que o mundo pode ser organizado e repartido sem consultar os povos, as consci\u00eancias, os tempos interiores.<\/p>\n<p><strong>A Weltethik como Mem\u00f3ria do Futuro<br \/>\n<\/strong>Foi ent\u00e3o que o discurso se deslocou, n\u00e3o para a geopol\u00edtica, mas para a \u00e9tica mundial, tal como Hans K\u00fcng a sonhara: n\u00e3o uma moral uniforme, n\u00e3o uma religi\u00e3o global, mas um ch\u00e3o \u00e9tico m\u00ednimo sem o qual nenhuma civiliza\u00e7\u00e3o sobrevive.<\/p>\n<p><strong>Xi Jinping<\/strong> reconheceu isso de imediato:<\/p>\n<p>\u201cNa China chamamos-lhe harmonia. No fundo, \u00e9 o reconhecimento de que nenhum sistema pode absolutizar-se sem se destruir.\u201d<\/p>\n<p><strong>Putin<\/strong> acrescentou:<\/p>\n<p>&#8220;A R\u00fassia perdeu-se quando tentou ser imp\u00e9rio e foi humilhada quando tentou ser apenas Estado. O que nos falta \u00e9 reconhecimento moral, n\u00e3o submiss\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Trump<\/strong>, um pouco agastado, mas intuitivo, interrompeu:<\/p>\n<p>\u201cOs neg\u00f3cios s\u00f3 funcionam quando existe confian\u00e7a. E a confian\u00e7a \u00e9 moral, n\u00e3o contratual.\u201d<\/p>\n<p>Ursula permaneceu em sil\u00eancio. Porque ali se dizia aquilo que Bruxelas evitara dizer durante d\u00e9cadas: sem um horizonte \u00e9tico comum, a pol\u00edtica degenera em tecnocracia coerciva.<\/p>\n<p>A Weltethik n\u00e3o exigia que todos acreditassem no mesmo Deus, mas exigia algo mais dif\u00edcil:<br \/>\nque todos reconhecessem a soberania moral da pessoa humana, como advoga o cristianismo. Pois a soberania moral n\u00e3o vem do Estado, nem do mercado, nem da ideologia, mas sim da pessoa.<\/p>\n<p><strong>A Igreja purificada e o Poder que n\u00e3o Governa<br \/>\n<\/strong>Foi ent\u00e3o introduzido o tema mais delicado: o papel do cristianismo e da Igreja num mundo p\u00f3s-hegem\u00f3nico.<\/p>\n<p><strong>Nuno \u00c1lvares<\/strong> foi claro:<\/p>\n<p>\u201cA Igreja trai-se sempre que deseja governar. Mas trai o mundo quando abdica de corrigir moralmente o poder secular.\u201d<\/p>\n<p>Nisto Nuno \u00c1lvares Pereira apresentou a distin\u00e7\u00e3o essencial, tantas vezes esquecida: O poder espiritual n\u00e3o governa, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se cala porque tem de actuar como consci\u00eancia cr\u00edtica, n\u00e3o como bra\u00e7o do Estado nem ele pode funcionar como seu rival.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, na sua melhor express\u00e3o, sempre soube inculturar-se ao assumir l\u00ednguas, s\u00edmbolos, culturas, bi\u00f3topos humanos diversos, sem anular a consci\u00eancia individual. De facto, foi assim na patr\u00edstica, na escol\u00e1stica e foi assim nas miss\u00f5es quando n\u00e3o se confundiram com coloniza\u00e7\u00e3o. E concretizando Vasco da Gama com voz quebrada, disse:<\/p>\n<p>\u201cA catolicidade n\u00e3o \u00e9 expans\u00e3o territorial, \u00e9 hospitalidade ontol\u00f3gica.\u201d<\/p>\n<p>A Igreja purificada n\u00e3o pede privil\u00e9gios pol\u00edticos.<br \/>\nPede apenas liberdade para lembrar ao poder que ele n\u00e3o \u00e9 absoluto.<\/p>\n<p>Sem esse corretor moral, o poder secular cai inevitavelmente no cinismo, na viol\u00eancia instrumental e no caos legitimado.<\/p>\n<p><strong>Europa, R\u00fassia e a ferida G\u00e9mea<br \/>\nNuno \u00c1lvares<\/strong> constata que a rela\u00e7\u00e3o Europa-R\u00fassia se tornou o eixo simb\u00f3lico do encontro e advertiu:<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00eas s\u00e3o irm\u00e3os separados pela mesma ferida. Ambos perderam a alma quando tentaram ser centros exclusivos.\u201d<\/p>\n<p>De facto, a Europa perdera-se no legalismo sem transcend\u00eancia e a R\u00fassia, no messianismo ferido que oscila entre v\u00edtima e imp\u00e9rio.<br \/>\nReconcilia\u00e7\u00e3o n\u00e3o significava submiss\u00e3o nem ingenuidade, mas reconhecimento m\u00fatuo de identidade cultural e dignidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Quando tudo parecia resolvido ou pelo menos adiado Putin, Trump e \u00darsula gesticulavam dizendo palavras que n\u00e3o se entendiam devido ao uivar dos c\u00e3es.<\/p>\n<p>Vasco da Gama desviou o olhar para o mar congelado como quem reconhece um amigo desfigurado. Nuno \u00c1lvares Pereira, de p\u00e9 ao seu lado, contemplava a cena com a paci\u00eancia de quem j\u00e1 atravessou batalhas piores que a espada.<\/p>\n<p><strong>Vasco da Gama<\/strong>, sem amargura e em tom de constata\u00e7\u00e3o disse:<\/p>\n<p>&#8220;Isto n\u00e3o \u00e9 a Europa que deix\u00e1mos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Nuno <\/strong>Respondeu:<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o. \u201cIsto \u00e9 Bruxelas. E Bruxelas, no seu estado atual, n\u00e3o simboliza a Europa, simboliza o seu cansa\u00e7o.\u201d<\/p>\n<p><strong>Vasco<\/strong> franziu a testa.<\/p>\n<p>\u201cCansa\u00e7o?\u201d<\/p>\n<p><strong>Nuno<\/strong> corrigiu:<\/p>\n<p>\u201cExaust\u00e3o. Uma Europa saturada de normas, formul\u00e1rios, san\u00e7\u00f5es, mas curiosamente carente de alma, de sentido, at\u00e9 de geografia. Quando a pol\u00edtica perde o v\u00ednculo ao territ\u00f3rio vivido, \u00e0 mem\u00f3ria cultural, ao corpo humano concreto, passa a governar abstra\u00e7\u00f5es. E as abstra\u00e7\u00f5es, quando armadas, tornam-se cru\u00e9is.\u201d<\/p>\n<p><strong>Vasco<\/strong> apontou para o horizonte, onde os lobos \u00e1rticos observavam de longe.<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 eles parecem perceber melhor o tempo do que os homens do poder.\u201d<\/p>\n<p><strong>Nuno<\/strong> concordou com pondera\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cTalvez o seu latir n\u00e3o seja contra inimigos, mas contra o vazio de sentido. Os c\u00e3es \u00a0esquim\u00f3s, menos ideol\u00f3gicos e mais atentos aos sinais do vento, intuem o que muitos estrategas ignoram: que as alian\u00e7as baseadas apenas no medo acabam sempre por implodir. Ali est\u00e1 a NATO, hipertrofiada, a ranger por dentro, \u00e0 espera de uma raz\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o encontra.\u201d<\/p>\n<p><strong>Vasco<\/strong> ent\u00e3o questionou:<\/p>\n<p>\u201cE a Europa? Fragmentada por dentro, a n\u00edvel social, cultural, espiritual e isolada por fora, por arrog\u00e2ncia normativa. Nem sequer se pensa como continente euroasi\u00e1tico antes de se pensar como sistema.\u201d<\/p>\n<p><strong>Nuno<\/strong> de rosto triste anuiu dizendo:<\/p>\n<p>\u201cExatamente. Abandonou a lei da natureza e a lei da ordem, n\u00e3o no sentido conservador, mas no sentido antropol\u00f3gico, para se fixar quase exclusivamente no poder e na ideologia. E quando o poder deixa de ser corrigido por uma inst\u00e2ncia moral reconhecida, o homem torna-se lobo do homem. Como se Hobbes tivesse vencido Agostinho\u2026 por desist\u00eancia deste \u00faltimo.\u201d<\/p>\n<p><strong>Vasco<\/strong> cruzou os bra\u00e7os, pensativo:<\/p>\n<p>\u201cConheci homens que atravessaram oceanos sem b\u00fassola, guiados apenas pela estrela e pela f\u00e9. Aqui, vejo sistemas que t\u00eam mil b\u00fassolas e nenhuma estrela.\u201d<\/p>\n<p><strong>Nuno<\/strong> sorriu com ar triste:<\/p>\n<p>\u201cTalvez a nova era exija menos organiza\u00e7\u00f5es de guerra e mais organiza\u00e7\u00f5es de paz. N\u00e3o ing\u00e9nuas, mas eticamente estruturadas. E aqui, sem ret\u00f3rica, a \u00e9tica mundial, a Weltethik, n\u00e3o surge como luxo acad\u00e9mico, mas como infraestrutura m\u00ednima de sobreviv\u00eancia civilizacional.\u201d<\/p>\n<p><strong>Vasco <\/strong>da Gama insistiu:<\/p>\n<p>\u201cE que fazer para isso?\u201d<\/p>\n<p><strong>Nuno<\/strong> com seriedade:<\/p>\n<p>\u201cPara isso, Bruxelas teria de fazer algo que ainda lhe custa mais do que reformar tratados: deixar de desestabilizar o cristianismo.\u201d<\/p>\n<p><strong>Vasco <\/strong>ergueu uma sobrancelha.<\/p>\n<p>\u201cRestaur\u00e1-lo como poder?\u201d<\/p>\n<p><strong>Nuno<\/strong> responde com firmeza e autoridade de quem de cima acompanha em pormenor o que se passa na Europa:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o! Nem instrumentaliz\u00e1-lo. Mas reconhec\u00ea-lo como a matriz moral que historicamente permitiu \u00e0 Europa pensar o Homem para al\u00e9m da tribo, da etnia, do imp\u00e9rio. Bruxelas continua a tribalizar a Europa, fazendo-a regredir ao velho modelo que ela j\u00e1 tinha superado com a integra\u00e7\u00e3o dos b\u00e1rbaros. Sem essa reconcilia\u00e7\u00e3o com as suas pr\u00f3prias fontes espirituais, criticamente assumidas e n\u00e3o dogmatizadas, a Europa continuar\u00e1 a falar de valores como quem fala de um idioma que j\u00e1 n\u00e3o habita. A Europa ao tornar-se anglo-sax\u00f3nica negligenciou a latina.\u201d<\/p>\n<p><strong>Vasco<\/strong> olhou para o c\u00e9u, onde o sol teimava em n\u00e3o se p\u00f4r.<\/p>\n<p>\u201cE se n\u00e3o aprenderem?\u201d<\/p>\n<p><strong>Nuno<\/strong> respirou fundo:<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o, quando at\u00e9 os lobos do Norte compreendem melhor o tempo do que os homens do poder, restar\u00e1 \u00e0 Europa uma \u00faltima escolha: continuar a administrar o mundo\u2026 ou reaprender a compreend\u00ea-lo.\u201d<\/p>\n<p>Ficaram em sil\u00eancio. N\u00e3o o sil\u00eancio do desespero, mas o sil\u00eancio de quem semeia e sabe que n\u00e3o ver\u00e1 a colheita.<\/p>\n<p>A Gronel\u00e2ndia, paradoxalmente, tornava-se o lugar onde o Norte gelado deixava de ser periferia e passava a ser patamar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Chamamento Final<br \/>\n<\/strong>No \u00faltimo dia, quando a \u201cpotestade do ar\u201d regressou, mais suave, quase impercet\u00edvel, <strong>Nuno \u00c1lvares Pereira <\/strong>deixou a sua \u00faltima palavra:<\/p>\n<p>\u201cO mundo n\u00e3o precisa de novos tratados. Precisa de homens e mulheres formados de maneira humanista e enciclop\u00e9dica, capazes de unir ci\u00eancia, hist\u00f3ria, \u00e9tica e compaix\u00e3o. Quem compreende profundamente, julga menos. E quem julga menos, governa melhor.\u201d<\/p>\n<p>A reuni\u00e3o terminou sem aplausos, sem bandeiras e sem comunicados.<\/p>\n<p>Mas algo tinha sido semeado, n\u00e3o por extraterrestres, mas por homens s\u00e1bios e de boa vontade.<\/p>\n<p>Ao longe, os c\u00e3es deixaram de uivar.<\/p>\n<p>Como se tivessem ouvido.<\/p>\n<p><strong>Ep\u00edlogo<br \/>\n<\/strong>Se esta fic\u00e7\u00e3o tem uma miss\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 convencer, mas despertar.<\/p>\n<p>Despertar para a ideia de que a paz \u00e9 interesse existencial racional, de que a \u00e9tica \u00e9 a infraestrutura invis\u00edvel da pol\u00edtica e que a humanidade s\u00f3 sobreviver\u00e1 se aceitar princ\u00edpios morais universais vividos localmente. Pois n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica sem convers\u00e3o \u00e9tica; n\u00e3o h\u00e1 globaliza\u00e7\u00e3o justa sem consci\u00eancia pessoal e n\u00e3o h\u00e1 pol\u00edtica dur\u00e1vel sem transcend\u00eancia moral. A origem e o fim do homem \u00e9 espiritual.<\/p>\n<p>E como desejo prov\u00e1vel, s\u00f3 prov\u00e1vel \u00e9 que a Gronel\u00e2ndia n\u00e3o seja um lugar no mapa,<br \/>\nmas um estado interior onde o gelo do poder come\u00e7a finalmente a derreter.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p><strong>Te\u00f3logo e Pedagogo Social<\/strong><\/p>\n<p>\u00a9\u00a0 Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>(1) Talvez a Gronel\u00e2ndia se torne n\u00e3o s\u00f3 a nova Tordesilhas, mas sobretudo motivo de reflex\u00e3o para Washington, Pequim, Moscovo e Bruxelas para que se entendam nas diferentes polos geogr\u00e1ficos e construam pontes entre si e com as outras pot\u00eancias emergentes. O mundo precisa de paz e\u00a0 humanismo. De n\u00e3o esquecer \u00a0que tamb\u00e9m os inu\u00edtes t\u00eam sofrido sob o dom\u00ednio da Noruega e talvez a sua independ\u00eancia dentro da EU correspondesse mais a um passo no jogo geopol\u00edtico em que nos encontramos, nas v\u00e9speras de uma nova ordem global multipolar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O degelo n\u00e3o \u00e9 uma trag\u00e9dia; \u00e9 uma oportunidade geopol\u00edtica. Enquanto o \u00c1rtico se liquefaz, solidificam-se novos imp\u00e9rios. A corrida n\u00e3o \u00e9 pelo que se perde, mas pelo que est\u00e1 a ser revelado. Neste conto procuro apresentar a Gronel\u00e2ndia no rescaldo do tratado de Tordesilhas e da reorganiza\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica! Naquele ver\u00e3o paradoxal, a Gronel\u00e2ndia era &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10652\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">A LINHA INVIS\u00cdVEL DO DEGELO DA GRONEL\u00c2NDIA<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,15,14,4,5,6,7,8,16],"tags":[],"class_list":["post-10652","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-escola","category-migracao","category-politica","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10652","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10652"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10652\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10657,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10652\/revisions\/10657"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10652"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10652"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10652"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}