{"id":10637,"date":"2026-01-18T10:58:53","date_gmt":"2026-01-18T09:58:53","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10637"},"modified":"2026-01-18T11:08:56","modified_gmt":"2026-01-18T10:08:56","slug":"nuno-alvares-pereira-o-santo-condestavel-atraves-de-rilke-e-bonhoeffer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10637","title":{"rendered":"RAINER RILKE \u00c0 LUZ DE NUNO \u00c1LVARES PEREIRA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Indiv\u00edduo na Sociedade e a Sociedade no Indiv\u00edduo: Ningu\u00e9m se pensa sozinho<\/strong><\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre o indiv\u00edduo e a sociedade \u00e9 marcada por uma tens\u00e3o constitutiva, isto \u00e9, o ser humano \u00e9 simultaneamente sujeito singular e realidade relacional (sujeito social).<strong> N\u00e3o existe um \u201ceu\u201d puro fora do \u201cn\u00f3s\u201d, nem um \u201cn\u00f3s\u201d abstrato que dispense a interioridade pessoal. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Para tornar vis\u00edvel esta tens\u00e3o e a sua fecundidade, recorro a duas figuras paradigm\u00e1ticas do s\u00e9culo XX e uma do s\u00e9culo XIV: Rainer Maria Rilke, poeta da interioridade e do devir existencial, Dietrich Bonhoeffer, te\u00f3logo da responsabilidade comunit\u00e1ria e da a\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e Nuno \u00c1lvares Pereira, estratega militar portugu\u00eas (1) que pode figurar como configura\u00e7\u00e3o exemplar e integradora dos dois. <\/strong><\/p>\n<p>Ambos recusam solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis. Ambos pensam o humano como processo. Mas situam-se em polos diferentes dessa mesma tens\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Rilke e a primazia da interioridade vivida<\/strong><\/p>\n<p><strong>Rilke escreve: \u00abN\u00e3o procures agora as respostas que n\u00e3o te podem ser dadas, porque n\u00e3o as podes viver. Trata-se de viver tudo. Vive agora as perguntas. Talvez ent\u00e3o, sem te aperceberes, um dia vivas gradualmente a resposta.\u00bb<\/strong><\/p>\n<p><strong>E ainda: \u00abNunca se deve desesperar quando se perde algo, uma pessoa, uma alegria, uma felicidade; tudo volta ainda mais maravilhoso.\u00bb<\/strong><\/p>\n<p><strong>Estas palavras condensam o n\u00facleo do pensamento rilkeano expresso na vida como processo de matura\u00e7\u00e3o interior, em que o sentido n\u00e3o \u00e9 imposto de fora, mas emerge da experi\u00eancia vivida.<\/strong> A verdade n\u00e3o \u00e9 um objeto a possuir, mas um acontecimento a atravessar. Esta atitude exige paci\u00eancia, abertura \u00e0 incerteza e confian\u00e7a na pot\u00eancia transformadora do tempo vivido.<\/p>\n<p><strong>Rilke insere-se na tradi\u00e7\u00e3o existencialista e na filosofia da vida, onde a autenticidade da experi\u00eancia interior se torna crit\u00e9rio supremo. \u201cViver as perguntas\u201d significa aceitar que o sentido n\u00e3o se revela de modo abstrato ou imediato, mas se encarna lentamente na biografia.<\/strong> A promessa de um \u201cretorno mais maravilhoso\u201d n\u00e3o \u00e9 um mecanismo de compensa\u00e7\u00e3o moral, mas a afirma\u00e7\u00e3o de que a perda pode transfigurar-se em profundidade.<\/p>\n<p>Enquanto \u00e9tica pessoal, esta atitude \u00e9 de grande valor porque protege contra o desespero imediato; resiste \u00e0 compuls\u00e3o de respostas r\u00e1pidas e oferece um ant\u00eddoto contra o ativismo ansioso e superficial.<\/p>\n<p>No entanto, esta \u00e9tica pessoal n\u00e3o \u00e9 suficiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A sociedade que habita o indiv\u00edduo limita a interioridade isolada<\/strong><\/p>\n<p><strong>Uma cr\u00edtica leg\u00edtima ao pensamento de Rilke \u00e9 a sua radical subjetividade. O foco quase exclusivo na interioridade corre o risco de obscurecer uma dimens\u00e3o fundamental da exist\u00eancia: a sociedade vive no indiv\u00edduo e ao mesmo tempo o indiv\u00edduo vive na sociedade.<\/strong><\/p>\n<p><strong>As nossas perguntas n\u00e3o nascem num vazio.<\/strong> Elas s\u00e3o moldadas por estruturas econ\u00f3micas e pol\u00edticas, pela linguagem e sistemas simb\u00f3licos, pelas rela\u00e7\u00f5es de poder, por traumas coletivos, por mem\u00f3rias hist\u00f3ricas e tradi\u00e7\u00f5es culturais e pela saudade do espiritual.<\/p>\n<p><strong>A pergunta decisiva que Rilke n\u00e3o formula \u00e9: quem pode, de facto, \u201cviver as perguntas\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>Para um sujeito em situa\u00e7\u00e3o de precariedade extrema, viol\u00eancia estrutural ou trauma social, a confian\u00e7a num \u201cretorno mais glorioso\u201d pode soar n\u00e3o a sabedoria, mas a cinismo involunt\u00e1rio. <strong>H\u00e1 sofrimentos que n\u00e3o se resolvem apenas por trabalho interior, porque n\u00e3o s\u00e3o apenas interiores.<\/strong><\/p>\n<p>Aqui surge uma lacuna que tamb\u00e9m se fez sentir historicamente na teologia crist\u00e3, sobretudo quando esta privilegiou excessivamente a antropologia moral em detrimento da sociologia e da pol\u00edtica. Ao focar-se no indiv\u00edduo abstrato, descuidou o homo politicus, o ser humano enquanto n\u00f3 de redes informacionais, culturais e institucionais.<\/p>\n<p>O ser humano n\u00e3o \u00e9 apenas esp\u00edrito e consci\u00eancia, ele \u00e9 tamb\u00e9m informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, informa\u00e7\u00e3o cultural e informa\u00e7\u00e3o processual. Forma-se em ecossistemas simb\u00f3licos, narrativos e tecnol\u00f3gicos. A sua opini\u00e3o, identidade e a\u00e7\u00e3o emergem de processos coletivos, hoje amplificados por sistemas algor\u00edtmicos e medi\u00e1ticos, um aspeto que a intelig\u00eancia artificial torna particularmente vis\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Sem institui\u00e7\u00f5es, sem mem\u00f3ria coletiva e sem tradi\u00e7\u00e3o, o ser humano n\u00e3o se torna mais livre: regressa a um estado de imediatismo instintivo, vivendo num presente sem profundidade temporal. Rilke rejeitou dogmas e institui\u00e7\u00f5es, com raz\u00e3o em certos contextos, mas sem alguma forma de institucionaliza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, n\u00e3o h\u00e1 cultura, nem futuro, nem responsabilidade hist\u00f3rica.<\/strong><\/p>\n<p>Assim, as palavras de Rilke n\u00e3o s\u00e3o falsas, mas s\u00e3o incompletas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Bonhoeffer: da interioridade \u00e0 responsabilidade hist\u00f3rica<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 aqui que o pensamento de Dietrich Bonhoeffer se torna decisivo. Ele escreve: \u00abA gl\u00f3ria final n\u00e3o \u00e9 que o mundo seja julgado e condenado, mas que Cristo, atrav\u00e9s da sua cruz, que \u00e9 tamb\u00e9m a cruz da comunidade, perdoe o mundo e fa\u00e7a a paz.\u00bb<\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista, esta afirma\u00e7\u00e3o pode parecer resignada. Mas essa leitura dissolve-se quando se considera o contexto existencial de Bonhoeffer.<\/p>\n<p><strong>Ele n\u00e3o escreveu a partir de uma torre de marfim espiritual,<\/strong> nem a partir do esp\u00edrito do tempo, mas do interior da resist\u00eancia ativa ao regime nazi, pagando com a pr\u00f3pria vida. A sua teologia nasce no limite, onde pensar e agir coincidem.<\/p>\n<p>A \u201ccruz da comunidade\u201d n\u00e3o \u00e9 s\u00edmbolo de passividade, mas de solidariedade ativa. A comunidade crist\u00e3 n\u00e3o existe para julgar o mundo a partir de uma suposta superioridade moral, mas para assumir o peso do mundo, criando espa\u00e7o real para reconcilia\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a e paz.<\/p>\n<p><strong>Paz como a\u00e7\u00e3o criadora, n\u00e3o como capitula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Para Bonhoeffer, \u201cpromover a paz\u201d (eir\u0113nopoiein) \u00e9 uma tarefa profundamente ativa. N\u00e3o significa evitar conflitos, mas romper o ciclo da viol\u00eancia, da vingan\u00e7a e da humilha\u00e7\u00e3o moral. O pacificador n\u00e3o \u00e9 neutro: ele paga o pre\u00e7o da reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A sua cr\u00edtica \u00e0 \u201cgra\u00e7a barata\u201d \u00e9 aqui central. <strong>Uma espiritualidade que se refugia no interior ou se limita a julgamentos piedosos \u00e9 uma trai\u00e7\u00e3o ao real e \u00e0 pr\u00f3pria filosofia e m\u00edstica crist\u00e3.<\/strong> A gra\u00e7a \u00e9 cara porque exige responsabilidade hist\u00f3rica, interven\u00e7\u00e3o concreta e risco pessoal.<\/p>\n<p><strong>A aparente ren\u00fancia ao ju\u00edzo condenat\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 fraqueza pol\u00edtica, mas uma estrat\u00e9gia \u00e9tica radical em que o objetivo n\u00e3o \u00e9 destruir o advers\u00e1rio, mas restaurar a comunidade, o \u201cshalom\u201d, mesmo quando isso exige decis\u00f5es duras<\/strong><strong>,<\/strong> como a pr\u00f3pria participa\u00e7\u00e3o de Bonhoeffer na resist\u00eancia conspirativa contra Hitler.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Rilke e Bonhoeffer s\u00e3o duas faces de um mesmo processo humano<\/strong><\/p>\n<p>Rilke e Bonhoeffer n\u00e3o se op\u00f5em; complementam-se.<\/p>\n<p>Rilke recorda-nos que sem interioridade n\u00e3o h\u00e1 autenticidade, apenas adapta\u00e7\u00e3o funcional.<\/p>\n<p>Bonhoeffer lembra-nos que sem responsabilidade social a interioridade degenera em narcisismo espiritual.<\/p>\n<p><strong>Rilke trabalha o tempo interior da matura\u00e7\u00e3o e Bonhoeffer assume o tempo hist\u00f3rico da decis\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ambos rejeitam respostas f\u00e1ceis e confiam em processos transformadores. Mas em Bonhoeffer esses processos s\u00e3o explicitamente orientados para a mudan\u00e7a social, para a justi\u00e7a encarnada, para a paz constru\u00edda, algo que contrasta fortemente com a pol\u00edtica contempor\u00e2nea, dominada pela l\u00f3gica da polariza\u00e7\u00e3o, da humilha\u00e7\u00e3o do advers\u00e1rio e da vit\u00f3ria simb\u00f3lica.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Rilke \u00e0 luz de Nuno \u00c1lvares Pereira como interioridade encarnada<\/strong><\/p>\n<p><strong>Para que o pensamento de Rilke n\u00e3o permane\u00e7a suspenso numa interioridade sem corpo hist\u00f3rico, \u00e9 fecundo coloc\u00e1-lo em di\u00e1logo com uma espiritualidade que soube viver as perguntas no meio do conflito real. Aqui, a figura de S\u00e3o Nuno de Santa Maria (Nuno \u00c1lvares Pereira) revela-se exemplar.<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o Nuno viveu numa sociedade marcada por oposi\u00e7\u00f5es extremas: guerra e paz, fidelidade nacional e universalidade crist\u00e3, poder militar e despojamento espiritual. Foi estratega, condest\u00e1vel, combatente decisivo na consolida\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia portuguesa e, no entanto, o seu maior combate n\u00e3o se deu no campo de batalha exterior, mas no interior de si mesmo. <strong>A sua vida mostra que a verdadeira tens\u00e3o formadora n\u00e3o \u00e9 apenas entre o eu e a sociedade, mas entre o eu e o pr\u00f3prio ego.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Se Rilke nos convida a \u201cviver as perguntas\u201d, S\u00e3o Nuno mostra como faz\u00ea-lo quando a vida n\u00e3o permite retirada, quando a decis\u00e3o \u00e9 urgente e o sofrimento coletivo \u00e9 real. Ele n\u00e3o fugiu do mundo para se tornar santo; tornou-se santo atravessando o mundo, transfigurando por dentro aquilo que por fora parecia apenas viol\u00eancia, ambi\u00e7\u00e3o ou identidade nacional.<br \/>\n<\/strong>O seu nacionalismo n\u00e3o se absolutizou: purificou-se.<br \/>\nA coragem militar n\u00e3o se cristalizou em orgulho: transformou-se em f\u00e9.<br \/>\nA lealdade ao rei e \u00e0 p\u00e1tria n\u00e3o degenerou em exclus\u00e3o: amadureceu em caridade universal.<\/p>\n<p><strong>Neste sentido, o \u201cSanto Condest\u00e1vel\u201d realiza aquilo que em Rilke permanece sobretudo como potencial: a integra\u00e7\u00e3o entre trabalho interior e responsabilidade hist\u00f3rica.<\/strong> A sua espiritualidade n\u00e3o \u00e9 uma nega\u00e7\u00e3o da identidade, mas uma metamorfose dela. Ele n\u00e3o destr\u00f3i o \u201ceu\u201d; em vez disso, converte-o. <strong>O ego\u00edsmo, a indiferen\u00e7a e a autossufici\u00eancia, inimigos silenciosos mais perigosos do que qualquer ex\u00e9rcito, s\u00e3o combatidos diariamente, at\u00e9 que neles flores\u00e7a uma humanidade mais ampla e reconciliada. Isto \u00e9 o que n\u00e3o se encontra nos pol\u00edticos hodiernos e por isso a falta de humanismo, de coer\u00eancia e de l\u00f3gica pol\u00edtica. <\/strong><\/p>\n<p>Diferentemente de uma espiritualidade puramente intimista, S\u00e3o Nuno mostra que o crescimento interior n\u00e3o afasta do mundo, mas aprofunda a forma de estar nele. <strong>A sua passagem da espada ao h\u00e1bito carmelita n\u00e3o foi uma fuga tardia, mas a consuma\u00e7\u00e3o l\u00f3gica de um caminho interior j\u00e1 vivido em plena a\u00e7\u00e3o.<\/strong> <strong>Ele prova que a santidade n\u00e3o \u00e9 incompat\u00edvel com a pol\u00edtica, nem a f\u00e9 com a lucidez hist\u00f3rica, desde que o centro da luta seja deslocado do inimigo exterior para a convers\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Com Nuno \u00c1lvares Pereira, Rilke ganha realismo caminh\u00e1vel porque a \u201cvida das perguntas\u201d deixa de ser apenas uma \u00e9tica da paci\u00eancia interior e torna-se uma pedagogia da transforma\u00e7\u00e3o do desejo, onde o sentido n\u00e3o \u00e9 apenas esperado, mas incarnado em gestos, escolhas e ren\u00fancias concretas. <strong>S\u00e3o Nuno \u00e9, assim, a resposta viva \u00e0 cr\u00edtica sociol\u00f3gica feita a Rilke: ele mostra que \u00e9 poss\u00edvel viver as perguntas sem ignorar o sofrimento coletivo, e crescer interiormente sem abandonar a responsabilidade pelo destino comum.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Com Nuo \u00c1lvares Pereira compreende-se que a tens\u00e3o entre o eu e o n\u00f3s, entre o privado e o p\u00fablico, entre o sagrado e o profano, n\u00e3o \u00e9 um problema a eliminar, mas \u00e9 o lugar onde o Homem se forma, porque a identidade nasce da tens\u00e3o, n\u00e3o da fuga.<\/strong> (Da ipseidade, identidade pr\u00f3pria e simultaneamente do reconhecimento de que a sociedade habita em n\u00f3s).<\/p>\n<p><strong>O desafio contempor\u00e2neo n\u00e3o \u00e9 escolher entre interioridade ou a\u00e7\u00e3o, mas integr\u00e1-las (Nuno torna-se exemplo de identidade, tens\u00e3o e encarna\u00e7\u00e3o).<\/strong><\/p>\n<p>Viver as perguntas, sim, mas tamb\u00e9m assumir a responsabilidade pelas respostas que se tornam poss\u00edveis no mundo comum.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p><strong>Nota explicativa<\/strong><\/p>\n<p>A presente reflex\u00e3o insere-se num di\u00e1logo entre duas coordenadas do pensamento moderno que ao serem integradas na pessoa humana e na sociedade de que \u00e9 exemplo Nuno \u00c1lvares Pereira contribuem para uma sociedade com futuro qualitativo: a po\u00e9tica da interioridade e da singularidade existencial de Rainer Maria Rilke e a teologia da responsabilidade concreta e do compromisso social de Dietrich Bonhoeffer. Estas perspetivas, aparentemente antit\u00e9ticas, uma voltada para a profundidade do eu e a outra para a exig\u00eancia do outro, s\u00e3o convocadas aqui como lentes para reler a figura hist\u00f3rica e paradigm\u00e1tica de Nuno \u00c1lvares Pereira.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o por este di\u00e1logo justifica-se pela convic\u00e7\u00e3o de que a grandeza humana plena reside precisamente na capacidade de integrar estes dois polos. Rilke, cantor da \u201csolid\u00e3o essencial\u201d e da necessidade de \u201cguardar-se no pr\u00f3prio \u00edntimo\u201d, representa a imperativa jornada de autenticidade individual, o cultivo de uma interioridade forte e consciente para que j\u00e1 os m\u00edsticos sempre apontavam com base num substrato espiritual. Bonhoeffer, m\u00e1rtir da resist\u00eancia ao totalitarismo, advoga uma \u201cgra\u00e7a custosa\u201d que se materializa em a\u00e7\u00e3o no mundo, numa \u201cresponsabilidade para com a hist\u00f3ria\u201d que exige empenho, decis\u00e3o e risco em prol da comunidade.<\/p>\n<p>Nuno \u00c1lvares Pereira emerge, nesta triangula\u00e7\u00e3o, como a figura hist\u00f3rica portuguesa que corporiza de forma quase arquet\u00edpica a s\u00edntese destas duas dimens\u00f5es. A sua trajet\u00f3ria revela, primeiro, uma interioridade rilkeana de gran\u00edtico prop\u00f3sito e convic\u00e7\u00e3o \u00edntima: a sua f\u00e9, o seu sentido de destino, a sua resolu\u00e7\u00e3o inquebrant\u00e1vel perante a d\u00favida alheia nas v\u00e9speras de Aljubarrota falam de um homem que escutou os ventos que v\u00eam do Alto e se fortaleceu numa certeza interior. Contudo, essa for\u00e7a interior n\u00e3o se recolheu num misticismo passivo. Pelo contr\u00e1rio, projetou-se numa a\u00e7\u00e3o bonhoefferiana de decis\u00e3o extrema e responsabilidade social e pol\u00edtica. Assumiu o peso da hist\u00f3ria no momento cr\u00edtico, colocou o seu g\u00e9nio militar e a sua autoridade moral ao servi\u00e7o de uma causa coletiva, a independ\u00eancia e a coes\u00e3o do reino, aceitando o custo e o sangue dessa responsabilidade.<\/p>\n<p>Deste modo, o Condest\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 apenas o her\u00f3i militar ou o santo religioso da narrativa tradicional. Ele torna-se o emblema da integra\u00e7\u00e3o entre a fortaleza da alma (Rilke) e a aud\u00e1cia de garra (Bonhoeffer). A sua vida posterior, de ren\u00fancia aos t\u00edtulos e entrega aos pobres no Convento do Carmo, consuma este percurso: a interioridade levou-o ao desapego, e o sentido de responsabilidade redirecionou-se para o servi\u00e7o humilde.<\/p>\n<p>O empenho que guia esta e outras minhas reflex\u00f5es \u00e9, precisamente, levar o leitor a pensar por si pr\u00f3prio, mas fazendo-o a partir de um cruzamento de saberes, uma vis\u00e3o enciclop\u00e9dica que confronta filosofia, teologia, hist\u00f3ria e literatura. Acredita-se que \u00e9 neste territ\u00f3rio de di\u00e1logo transdisciplinar que o pensamento se liberta de caminhos \u00fanicos e descobre as conex\u00f5es profundas que tecem a experi\u00eancia humana, encontrando em figuras como Nuno \u00c1lvares Pereira um exemplo perene e desafiador para o nosso tempo.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/p>\n<p>(1) Nuno \u00c1lvares Pereira (1360-1431) consolidou a independ\u00eancia de Portugal, como her\u00f3i da Batalha de Aljubarrota (1385). Assumiu o comando do ex\u00e9rcito portugu\u00eas e infligiu duras derrotas aos espanh\u00f3is em Atoleiros e Aljubarrota, assegurando assim a independ\u00eancia do pa\u00eds e a coroa para D. Jo\u00e3o I.<\/p>\n<p>L\u00edder durante a crise, tornou-se mais tarde m\u00edstico e servo dos pobres. \u00c9 considerado um s\u00edmbolo de bravura, honra e profunda piedade, sendo uma das figuras mais not\u00e1veis \u200b\u200bda hist\u00f3ria portuguesa.<\/p>\n<p>Nuno \u00c1lvares Pereira foi beatificado em 1918 e canonizado pelo Papa Bento XVI em 2009, o que sublinha a sua import\u00e2ncia enquanto her\u00f3i nacional e santo (\u201cSanto Condest\u00e1vel\u201d).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Indiv\u00edduo na Sociedade e a Sociedade no Indiv\u00edduo: Ningu\u00e9m se pensa sozinho A rela\u00e7\u00e3o entre o indiv\u00edduo e a sociedade \u00e9 marcada por uma tens\u00e3o constitutiva, isto \u00e9, o ser humano \u00e9 simultaneamente sujeito singular e realidade relacional (sujeito social). N\u00e3o existe um \u201ceu\u201d puro fora do \u201cn\u00f3s\u201d, nem um \u201cn\u00f3s\u201d abstrato que dispense &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10637\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">RAINER RILKE \u00c0 LUZ DE NUNO \u00c1LVARES PEREIRA<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,15,14,4,5,6,7,8,16],"tags":[],"class_list":["post-10637","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-escola","category-migracao","category-politica","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10637","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10637"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10637\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10639,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10637\/revisions\/10639"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10637"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10637"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10637"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}