{"id":10610,"date":"2026-01-10T23:36:56","date_gmt":"2026-01-10T22:36:56","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10610"},"modified":"2026-01-10T23:37:31","modified_gmt":"2026-01-10T22:37:31","slug":"salazarismo-entre-ideologia-e-geopolitica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10610","title":{"rendered":"SALAZARISMO ENTRE IDEOLOGIA E GEOPOL\u00cdTICA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Da Substitui\u00e7\u00e3o de soberanias em favor dos contraentes geopol\u00edticos USA e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica<\/strong><\/p>\n<p>A discuss\u00e3o sobre a natureza do salazarismo continua, ainda hoje, fortemente condicionada por categorias ideol\u00f3gicas forjadas no contexto da Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, da Guerra Fria. <strong>O debate p\u00fablico e historiogr\u00e1fico tende a enquadrar o regime de Salazar quase exclusivamente numa oposi\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria entre \u201cfascismo\u201d e \u201cdemocracia\u201d,<\/strong> uma grelha de leitura que foi eficaz como instrumento de combate pol\u00edtico no imediato p\u00f3s-1945, mas que se revela manifestamente facciosa para uma compreens\u00e3o hist\u00f3rica mais ampla e rigorosa.<\/p>\n<p>Essa dicotomia simplifica excessivamente a realidade. <strong>Ao reduzir o salazarismo a uma etiqueta ideol\u00f3gica, perde-se a possibilidade de o analisar na sua totalidade hist\u00f3rica, isto \u00e9, na articula\u00e7\u00e3o entre tr\u00eas dimens\u00f5es fundamentais: <\/strong>a sua estrutura interna de poder e governa\u00e7\u00e3o; as condicionantes externas, nomeadamente a posi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica de Portugal no sistema internacional e a l\u00f3gica geopol\u00edtica global, marcada pela competi\u00e7\u00e3o entre grandes pot\u00eancias Socialismo e capitalismo) e pelos interesses imperiais em transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O discurso pol\u00edtico do p\u00f3s-25 de Abril tornou-se m\u00edope limitando-se a transpor acriticamente a luta da Guerra Fria para o plano de discuss\u00e3o pol\u00edtica interna.<\/p>\n<p><strong>O efeito mais duradouro e, em certo sentido, mais tr\u00e1gico para a sociedade portuguesa foi o facto de a rivalidade entre o imperialismo americano e o imperialismo sovi\u00e9tico ter sido internalizada no discurso pol\u00edtico nacional ap\u00f3s o 25 de Abril de 1974.<\/strong> Em vez de promover uma reflex\u00e3o aut\u00f3noma sobre o passado e o futuro do pa\u00eds, essa clivagem externa passou a estruturar grande parte das disc\u00f3rdias entre os partidos portugueses.<\/p>\n<p>No contexto revolucion\u00e1rio, acabou por prevalecer, no plano simb\u00f3lico e cultural, uma leitura fortemente marcada pela vis\u00e3o socialista pr\u00f3-sovi\u00e9tica, que se imp\u00f4s como matriz interpretativa dominante da Hist\u00f3ria portuguesa recente. O salazarismo tem sido lido quase exclusivamente atrav\u00e9s do prisma antifascista, herdado da propaganda e da linguagem pol\u00edtica da Guerra Fria, enquanto outras dimens\u00f5es, nomeadamente a geopol\u00edtica e a quest\u00e3o imperial, foram marginalizadas ou tratadas como n\u00e3o existentes. <strong>Assim Portugal foi condicionado nas \u00faltimas cinco d\u00e9cadas a uma cultura pol\u00edtica ideol\u00f3gica enviesada e intolerante com a consequente perda de uma via pr\u00f3pria e de maturidade na an\u00e1lise pol\u00edtica. <\/strong><\/p>\n<p>Esse enquadramento teve consequ\u00eancias profundas. Ao inv\u00e9s de fomentar uma cultura pol\u00edtica orientada para a paz, a autonomia cr\u00edtica e o pluralismo hist\u00f3rico, contribuiu para condicionar o imagin\u00e1rio coletivo a novos imperialismos, agora de natureza ideol\u00f3gica<strong>. O povo portugu\u00eas libertou-se de um regime autorit\u00e1rio, mas n\u00e3o se libertou das l\u00f3gicas ideol\u00f3gicas imperiais que continuaram a moldar o discurso pol\u00edtico, apenas sob novas cores conotadas agora por um autoritarismo moralista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A met\u00e1fora do cravo \u00e9 elucidativa: ao identificar a liberdade exclusivamente com o cravo vermelho (s\u00edmbolo de ideais revolucion\u00e1rios), n\u00e3o reconheceu a riqueza multicolor da liberdade, feita de diversidade de interpreta\u00e7\u00f5es, de mem\u00f3ria cr\u00edtica e de caminhos alternativos que n\u00e3o se esgotam numa \u00fanica narrativa vencedora<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>O texto de Rui Ramos (1) que me motivou a fazer esta an\u00e1lise, tem o m\u00e9rito de desmontar a redu\u00e7\u00e3o simplista do Estado Novo a um \u201cfascismo portugu\u00eas\u201d,<\/strong> distinguindo com rigor acad\u00e9mico o autoritarismo conservador do regime de Salazar das experi\u00eancias totalit\u00e1rias de mobiliza\u00e7\u00e3o de massas caracter\u00edsticas dos fascismos da \u00e9poca (Alemanha e It\u00e1lia). <strong>No entanto, essa leitura permanece essencialmente interna ao espa\u00e7o ideol\u00f3gico europeu, deixando em segundo plano um factor decisivo: a quest\u00e3o imperial e a posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica de Portugal num mundo em recomposi\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Imp\u00e9rio como Chave de Leitura Central<\/strong><\/p>\n<p><strong>Para Salazar, o imp\u00e9rio n\u00e3o foi um adorno ideol\u00f3gico nem um res\u00edduo do passado, mas o fundamento material da soberania portuguesa. Num contexto em que as grandes pot\u00eancias emergentes, Estados Unidos e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, estruturavam a ordem mundial em torno de esferas de influ\u00eancia, Portugal surgia como uma anomalia: um pequeno pa\u00eds europeu com uma presen\u00e7a territorial transcontinental, estrategicamente localizada em \u00c1frica, no Atl\u00e2ntico e no \u00cdndico, o que impedia por si uma distribui\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio na pol\u00edtica de confronta\u00e7\u00e3o entre os dois polos geopol\u00edticos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A resist\u00eancia de Salazar \u00e0 descoloniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser compreendida apenas como conservadorismo ou cegueira ideol\u00f3gica, como apregoam ideologias partid\u00e1rias.<\/strong> <strong>Ela inscreve-se numa percep\u00e7\u00e3o, discut\u00edvel (vista da perspectiva geopol\u00edtica de hoje talvez prof\u00e9tica), mas coerente, de que o fim do imp\u00e9rio portugu\u00eas n\u00e3o conduziria \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o real dos povos coloniais, mas antes \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o de uma soberania fraca por depend\u00eancias fortes, fossem elas sovi\u00e9ticas ou norte-americanas.<\/strong> A experi\u00eancia posterior de v\u00e1rios Estados africanos durante a Guerra Fria, rapidamente integrados em l\u00f3gicas de guerra por procura\u00e7\u00e3o e neocolonialismo econ\u00f3mico, n\u00e3o torna essa perce\u00e7\u00e3o totalmente infundada.<\/p>\n<p><strong>Neste sentido, o salazarismo revela-se menos como um regime ideol\u00f3gico fechado e mais como uma estrat\u00e9gia defensiva de sobreviv\u00eancia estatal, ancorada numa leitura profundamente desconfiada da ordem internacional emergente. Por isso embora Portugal tenha feito parte dos pa\u00edses fundadores da NATO, Salazar n\u00e3o se sentia bem com os parceiros porque como estadista sabia os interesses que os movia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Autoritarismo como Instrumento, n\u00e3o como Fim<\/strong><\/p>\n<p>O historiador Rui Ramos sublinha corretamente que o Estado Novo rejeitou a mobiliza\u00e7\u00e3o totalit\u00e1ria e preservou esferas aut\u00f3nomas da sociedade. Mas importa acrescentar que essa escolha n\u00e3o foi apenas cultural ou moral: foi tamb\u00e9m funcional. Um regime mobilizador de massas teria inevitavelmente produzido din\u00e2micas internas dif\u00edceis de controlar e press\u00f5es externas acrescidas, sobretudo num pa\u00eds estruturalmente fr\u00e1gil.<\/p>\n<p><strong>O autoritarismo salazarista foi, assim, minimalista e defensivo, orientado para a conten\u00e7\u00e3o da instabilidade social, da politiza\u00e7\u00e3o excessiva, da inger\u00eancia externa (Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e USA) mais do que para a transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da sociedade. N\u00e3o procurou criar um \u201chomem novo\u201d, nem um Estado total, mas antes congelar a hist\u00f3ria num ponto considerado seguro.<\/strong><\/p>\n<p>Tal op\u00e7\u00e3o n\u00e3o absolve o regime da repress\u00e3o, da censura ou da exclus\u00e3o pol\u00edtica; mas ajuda a compreender por que raz\u00e3o ele n\u00e3o se enquadra nas categorias cl\u00e1ssicas do fascismo europeu.<\/p>\n<p><strong>A Neutralidade Estrat\u00e9gica e o Jogo duplo das Pot\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>A alian\u00e7a hist\u00f3rica com a Gr\u00e3-Bretanha, a neutralidade na Segunda Guerra Mundial e a posterior integra\u00e7\u00e3o na NATO ilustram a plasticidade estrat\u00e9gica do regime. <strong>Salazar cooperou com os Aliados sem se submeter politicamente a eles, acolheu refugiados sem abrir o sistema, cedeu bases nos A\u00e7ores sem abdicar do imp\u00e9rio. A mesma intelig\u00eancia pol\u00edtica faz falta em Bruxelas nos dias de hoje. Hoje, na EU, temos administradores pol\u00edticos e aplicadores de diretrizes e agendas globais a que falta legitima\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, mas n\u00e3o temos estadistas nem personalidades relevantes (mas disto falar\u00e3o os nossos vindouros)!<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s 1945, as mesmas pot\u00eancias que haviam tolerado e em certos momentos valorizado, a estabilidade autorit\u00e1ria portuguesa passaram a pressionar a descoloniza\u00e7\u00e3o. <strong>Esta viragem n\u00e3o foi motivada por um s\u00fabito despertar moral, mas por uma reconfigura\u00e7\u00e3o de interesses imperiais, agora exercidos sob formas econ\u00f3micas, militares e culturais mais sofisticadas.<\/strong><\/p>\n<p>A den\u00fancia do \u201ccolonialismo portugu\u00eas\u201d por pa\u00edses que mantiveram, ou mant\u00eam, estruturas coloniais diretas ou indiretas \u00e9 uma dessas contradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. <strong>Conv\u00e9m tamb\u00e9m notar que a Noruega possuidora da col\u00f3nia \u00a0Gronel\u00e2ndia foi na altura contra Portugal e o discurso actual em torno da Gronel\u00e2ndia mostra como o exemplo permanece v\u00e1lido na medida em que o discurso anticolonial foi frequentemente seletivo e instrumental.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Para uma leitura n\u00e3o manique\u00edsta da Hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p><strong>O erro mais persistente nas discuss\u00f5es contempor\u00e2neas sobre o salazarismo n\u00e3o \u00e9 a cr\u00edtica moral ao regime, leg\u00edtima e necess\u00e1ria (como o seria tamb\u00e9m ao de hoje), mas a confus\u00e3o entre julgamento \u00e9tico e compreens\u00e3o hist\u00f3rica.<\/strong> Relativizar n\u00e3o \u00e9 absolver; contextualizar n\u00e3o \u00e9 justificar.<\/p>\n<p><strong>A Hist\u00f3ria mostra-nos que o s\u00e9culo XX n\u00e3o foi determinado pela vit\u00f3ria da democracia liberal sobre regimes \u201cmalignos\u201d, mas por uma competi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua entre imp\u00e9rios, em que ideologias funcionaram como linguagem legitimadora de interesses estrat\u00e9gicos mais profundos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nesse quadro, o salazarismo aparece menos como uma aberra\u00e7\u00e3o fascista e mais como uma tentativa conservadora, autorit\u00e1ria e defensiva de resistir \u00e0 absor\u00e7\u00e3o imperial num mundo bipolar. Que essa tentativa tenha falhado, moral, pol\u00edtica e historicamente, devido aos blocos imperialistas geopol\u00edticos, n\u00e3o invalida a necessidade de a compreender para al\u00e9m das categorias herdadas do combate ideol\u00f3gico.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Talvez o verdadeiro desafio historiogr\u00e1fico do nosso tempo seja este: libertar a an\u00e1lise do passado das polariza\u00e7\u00f5es do presente e dos interesses ideol\u00f3gicos de esquerda e direita<\/strong>, reconhecendo que o poder imperial, sob m\u00faltiplas formas e bandeiras, continua a ser o principal motor da Hist\u00f3ria, ontem como hoje. Ignorar isto \u00e9 falsificar a pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. <strong>A leitura categorial do autoritarismo estatal conservador tem sido feita e interpretada em favor do autoritarismo moral socialista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Te\u00f3logo e Pedagogo social<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(1) Texto do historiador Rui Ramos, no Observador. Janeiro de 2023:<\/p>\n<p>\u201cDepois da pergunta sobre a dura\u00e7\u00e3o do regime, a segunda quest\u00e3o mais frequente sobre o salazarismo diz respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com duas ditaduras europeias que foram suas contempor\u00e2neas na d\u00e9cada de 1930: a fascista de Benito Mussolini na It\u00e1lia e a nacional-socialista de Adolf Hitler na Alemanha.<\/p>\n<p>Essas ditaduras foram derrotadas e destru\u00eddas na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) por uma alian\u00e7a entre as democracias ocidentais e a ditadura comunista russa. Desde cedo, que a oposi\u00e7\u00e3o de esquerda em Portugal acusou o Estado Novo de ser um regime \u201cfascista\u201d. N\u00e3o resultava de uma tentativa de descrever o regime, mas de uma vontade de o comprometer. Os oposicionistas esperaram assim, nos anos a seguir a 1945, identificar os salazaristas com uma causa desacreditada pela derrota e pela revela\u00e7\u00e3o das suas atrocidades, e sujeit\u00e1-los \u00e0 desaprova\u00e7\u00e3o dos vencedores da guerra.<\/p>\n<p>Foi o salazarismo simplesmente o \u201cfascismo portugu\u00eas\u201d? A quest\u00e3o \u00e9 complicada por v\u00e1rias raz\u00f5es. Primeiro, pelo h\u00e1bito comunista de usar \u201cfascismo\u201d para definir indiscriminadamente qualquer regime ou movimento pol\u00edtico n\u00e3o-comunista, incluindo, por exemplo, a social-democracia alem\u00e3. Segundo, pelo sentido fortemente pejorativo que o termo adquiriu, de modo que qualquer fun\u00e7\u00e3o descritiva est\u00e1 perdida numa fun\u00e7\u00e3o meramente acusat\u00f3ria e ofensiva. Por isso, h\u00e1 quem prefira formas menos carregadas, como, por exemplo, \u201cautoritarismo\u201d, para falar do salazarismo.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma outra raz\u00e3o para a dificuldade de definir o salazarismo. Salazar esteve quarenta anos no governo. Para durar, num s\u00e9culo de grandes sobressaltos e desloca\u00e7\u00f5es s\u00fabitas e num pa\u00eds em mudan\u00e7a, teve de fazer e dizer coisas diferentes em diferentes momentos. Nunca se esfor\u00e7ou, ali\u00e1s, por arranjar grandes justifica\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas para tudo o que fez. Por exemplo, perante o proteccionismo alfandeg\u00e1rio a que foi obrigado na d\u00e9cada de 1930, observou: \u201ceu nunca julguei ter de recorrer a medidas como certas que tenho adoptado ultimamente e que reconhe\u00e7o sem valor econ\u00f3mico e quase disparatadas\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso sempre arriscado usar uma cita\u00e7\u00e3o de Salazar para o marcar politicamente: muito provavelmente, ser\u00e1 poss\u00edvel encontrar outra num sentido contr\u00e1rio. No entanto, Salazar referiu-se frequentemente a uma \u201cdoutrina\u201d, que definiria o Estado Novo. Vale a pena tentar examinar essa \u201cdoutrina\u201d, sem cair no erro de tentar sistematiz\u00e1-la numa filosofia, em mais um \u201cismo\u201d, como o liberalismo ou o socialismo. O objectivo deve ser outro: perceber o seu papel no regime, e, por esse meio, o significado pol\u00edtico do salazarismo, que n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que a descri\u00e7\u00e3o da sua maneira de funcionar.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1930, num mundo desestabilizado pela Grande Depress\u00e3o e por pot\u00eancias como a Alemanha nazi, a It\u00e1lia fascista, a R\u00fassia comunista ou um Jap\u00e3o militarizado e expansionista, muita gente acreditou que o mundo do liberalismo do s\u00e9culo XIX, com os seus parlamentos e elei\u00e7\u00f5es disputadas por v\u00e1rios partidos pol\u00edticos, acabara de vez. Em 1940-1941, nas suas li\u00e7\u00f5es na Faculdade de Direito de Lisboa, Marcello Caetano identificou o Estado Novo como o fim do liberalismo: \u201cembora ainda vigorem muitas leis e persistam muitas institui\u00e7\u00f5es do sistema individualista, est\u00e1-se em pleno per\u00edodo de reforma no sentido da elabora\u00e7\u00e3o de um direito social e autorit\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>O futuro era o autoritarismo, para uns com aspecto fascista, para outros com aspecto comunista. Ao longo dessa d\u00e9cada, Salazar deixou o Estado Novo lembrar o regime fascista italiano, com mil\u00edcias, sauda\u00e7\u00f5es romanas e uma ret\u00f3rica \u201crevolucion\u00e1ria\u201d. \u201cLiberalismo\u201d e \u201cdemocracia\u201d eram quase sempre referidas como coisas passadas.<\/p>\n<p>Mas mesmo nesta \u00e9poca, Salazar teve o cuidado de contrastar a \u201cdoutrina\u201d do regime, n\u00e3o apenas com o liberalismo, mas com o totalitarismo. Em 1932, explicou a Ant\u00f3nio Ferro: \u201ca nossa ditadura aproxima-se, evidentemente, da ditadura fascista no refor\u00e7o da autoridade, na guerra declarada a certos princ\u00edpios da democracia, no seu car\u00e1cter acentuadamente nacionalista, nas suas preocupa\u00e7\u00f5es de ordem social\u201d.<\/p>\n<p>Mas, por outro lado, \u201cafasta-se nos seus processos de renova\u00e7\u00e3o. A ditadura fascista tende para um cesarismo pag\u00e3o, para um estado novo que n\u00e3o conhece limita\u00e7\u00f5es de ordem jur\u00eddica ou moral, que marcha para o seu fim sem encontrar embara\u00e7os nem obst\u00e1culos\u201d. O Estado Novo n\u00e3o seria assim: \u201cA viol\u00eancia, processo directo e constante da ditadura fascista, n\u00e3o \u00e9 aplic\u00e1vel, por exemplo, ao nosso meio, n\u00e3o se adapta \u00e0 brandura dos nossos costumes\u201d. Repetidamente, apresentou-se como algu\u00e9m que \u201cproclama e aceita que o Estado \u00e9 limitado pela moral e pelo direito\u201d. Os limites do poder pol\u00edtico, segundo Salazar, estavam na revela\u00e7\u00e3o divina (o catolicismo), na natureza humana (descrita pela hist\u00f3ria e pelas ci\u00eancias sociais) e num modo de actuar ordenado, legalista (segundo a tradi\u00e7\u00e3o jur\u00eddica do Estado de Direito). O poder pol\u00edtico teria de respeitar esses limites, sob pena de ser ao mesmo tempo eticamente reprov\u00e1vel e politicamente ineficaz.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, foi Salazar quem destruiu o principal movimento de tipo fascista em Portugal, o Nacional-Sindicalismo liderado por Francisco Rol\u00e3o Preto em 1932-1934. A expans\u00e3o do Nacional-Sindicalismo prova que havia espa\u00e7o para um fascismo em Portugal. Em privado, Salazar tratou a din\u00e2mica fascista de que saiu a Legi\u00e3o Portuguesa, em 1936, como um efeito do \u201csnobismo da \u00e9poca\u201d: \u201ccopia-se bastante, pensa-se menos\u201d. Certamente, porque o projecto nacional-sindicalista de dominar o espa\u00e7o p\u00fablico era um desafio ao seu poder e porque a Legi\u00e3o Portuguesa, que Salazar submeteu ao ex\u00e9rcito, podia desequilibrar o regime.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m porque o salazarismo rejeitava aquilo que era fundamental no fascismo \u2013 e que n\u00e3o era apenas a ditadura, mas um movimento pol\u00edtico que visava, como escreveu Hannah Arendt, eliminar a esfera privada (\u201cdiluir totalmente o privado no p\u00fablico\u201d) e reduzir o Estado a uma simples \u201cfachada externa\u201d, destinada apenas a \u201crepresentar o pa\u00eds no mundo n\u00e3o-totalit\u00e1rio\u201d. Como notou Robert Paxton o que distingue os autoritarismos nacionalistas dos fascismos: os primeiros assentam sobretudo em \u201ccorpos interm\u00e9dios\u201d como igrejas, not\u00e1veis, associa\u00e7\u00f5es, a administra\u00e7\u00e3o, as for\u00e7as armadas para controlar, e portanto aceitam esferas de regula\u00e7\u00e3o aut\u00f3noma, e os segundos num movimento pol\u00edtico de mobiliza\u00e7\u00e3o que domina a esfera p\u00fablica e elimina outras esferas aut\u00f3nomas ou privadas. O seu controle no primeiro \u00e9 de desmobiliza\u00e7\u00e3o e conformismo, o segundo \u00e9 de mobiliza\u00e7\u00e3o e ades\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso, os historiadores fora de Portugal nunca tiveram dificuldade em reconhecer que nos anos 1930 o \u201cconservadorismo autorit\u00e1rio\u201d de Salazar, segundo Ian Kershaw, \u201coferecia o mais acentuado contraste\u201d com as ditaduras totalit\u00e1rias europeias. Como seria de esperar, nunca no Estado Novo o \u201ctu\u201d da camaradagem fascista substituiu o \u201cV. Exa.\u201d, nem a sauda\u00e7\u00e3o romana, ocasionalmente usada na Legi\u00e3o Portuguesa e na Mocidade Portuguesa, o aperto de m\u00e3o. Tratava-se de viver \u201chabitualmente\u201d, e n\u00e3o \u201cperigosamente\u201d, como queria Mussolini.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida que faz sentido estudar o salazarismo em rela\u00e7\u00e3o ao fascismo dos anos 1920 e 1930. Mas n\u00e3o faz sentido reduzi-lo a isso. O fascismo n\u00e3o foi a \u00fanica f\u00f3rmula de autoritarismo, nem sequer a mais bem sucedida (nenhum movimento fascista tomou o poder fora de It\u00e1lia e da Alemanha). O mesmo se poder\u00e1 dizer do comunismo, que n\u00e3o se instalou em mais nenhum pa\u00eds fora da R\u00fassia at\u00e9 1945. A cultura pol\u00edtica ocidental das d\u00e9cadas de 1920 e de 1930, quando Salazar afirmou o seu poder, tinha outras fontes de autoritarismo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a I Guerra Mundial, nos anos 1920 e 1930, a pol\u00edtica dos pa\u00edses industrializados foi invadida pelo culto dos \u201cchefes\u201d, prot\u00f3tipos da \u201clideran\u00e7a\u201d e da \u201cefic\u00e1cia\u201d. Isso aconteceu nas ditaduras de tipo fascista ou comunista, mas tamb\u00e9m nas democracias liberais, onde o presidente norte-americano Roosevelt e depois o primeiro-ministro brit\u00e2nico Churchill se tornaram vias para estruturar a vida p\u00fablica em fun\u00e7\u00e3o de um l\u00edder a quem era reconhecida uma autoridade especial, para al\u00e9m da que lhe vinha por via legal. A origem deste culto esteve no impacto da guerra e na influ\u00eancia crescente da empresa industrial e de servi\u00e7os como modelo de organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O \u201cchefe\u201d foi uma forma de salvaguardar a autoridade e a hierarquia, atrav\u00e9s de novas formas e t\u00e9cnicas de comando, numa \u00e9poca de igualitarismo, em que desaparecera a aristocracia tradicional. Na liturgia do Estado Novo, Salazar era tratado como o \u201cchefe\u201d.<\/p>\n<p>Mas era um \u201cchefe\u201d que os seus admiradores contrastavam ostensivamente com chefes como Mussolini: de um lado, estava um Salazar reservado, polido e professoral; do outro lado, um Mussolini exuberante, plebeu e militar.<\/p>\n<p>Mais importante do que isso, na \u00e9poca, foi o facto de o Portugal de Salazar se ter mantido um \u201caliado fiel\u201d da maior democracia liberal europeia, a Gr\u00e3-Bretanha. Durante a II Guerra Mundial, Salazar n\u00e3o perdeu a cabe\u00e7a, como teria sido f\u00e1cil (aconteceu ao seu embaixador em Londres, Armindo Monteiro), e aproveitou o facto de os beligerantes terem acabado por deixar a pen\u00ednsula fora da guerra para servir ambos os lados, com lucro, ao mesmo tempo que acolhia cerca de meio milh\u00e3o de refugiados.<\/p>\n<p>Em 1939, no come\u00e7o da guerra, a imprensa do regime aproveitou para estranhar as \u201canexa\u00e7\u00f5es imperialistas\u201d e a \u201cm\u00edstica racista\u201d da Alemanha de Hitler. Em 1943, quando a guerra virou, Salazar concedeu bases aos Aliados nos A\u00e7ores. Em 1945, com a vit\u00f3ria das democracias ocidentais, aliadas \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Salazar enalteceu o aux\u00edlio que prestara \u00e0 causa anglo-americana, reviu leis, fez logo novas elei\u00e7\u00f5es, e come\u00e7ou a falar de \u201cdemocracia\u201d, embora \u201corg\u00e2nica\u201d.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o denunciou as \u201creformas demag\u00f3gicas\u201d com que Salazar se preparava para convencer as Na\u00e7\u00f5es Unidas de que \u201cem Portugal n\u00e3o h\u00e1 fascismo\u201d. A imprensa comunista clandestina passou a tratar todos os ministros como \u201cfascista nazi\u201d. Mas em Outubro de 1945, na reuni\u00e3o do Centro Almirante Reis, os oposicionistas reconheceram, a prop\u00f3sito da lei eleitoral de 23 de Setembro, que \u201ca altera\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios que encerra \u00e9 profunda\u201d: ainda n\u00e3o era a democracia, mas o regime, que at\u00e9 a\u00ed se dissera \u201canti-liberal e anti-democr\u00e1tico\u201d, estava a ceder \u00e0s \u201cideias democr\u00e1ticas\u201d.<\/p>\n<p>Durante alguns anos, entre 1945 e 1947, o Estado Novo at\u00e9 se esfor\u00e7ou por criar \u201cmuita dist\u00e2ncia\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura do general Franco em Espanha, ao mesmo tempo que, significativamente, o regime espanhol se procurava modelar segundo o portugu\u00eas \u2013 o que significou reduzir os elementos mais fascistas. Em Junho de 1946, no Brasil, o embaixador Pedro Theot\u00f3nio Pereira podia garantir \u00e0 imprensa que Portugal tinha um regime \u201canti-totalit\u00e1rio\u201d, era at\u00e9 uma \u201cdemocracia\u201d, onde os cidad\u00e3os podiam ter opini\u00f5es diferentes, onde havia imprensa da oposi\u00e7\u00e3o, e embora n\u00e3o houvesse partidos pol\u00edticos, por uma quest\u00e3o de estabilidade, n\u00e3o era verdade que estivessem proibidos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, por\u00e9m, escrevia a Salazar a dar o exemplo do Brasil como a fal\u00eancia da democracia, com o governo e os partidos divididos, e incapazes por isso de resistir ao comunismo. De facto, Salazar nunca pensou recorrer \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em p\u00e9 de igualdade com os seus advers\u00e1rios. Nem ele, quando prometia \u201celei\u00e7\u00f5es livres\u201d, nem as oposi\u00e7\u00f5es, quando as exigiam, estavam de boa f\u00e9. Na realidade, era pela for\u00e7a que Salazar esperava manter-se no poder, e era pela for\u00e7a que as oposi\u00e7\u00f5es planeavam tir\u00e1-lo de l\u00e1. Como explicou em Fevereiro de 1946, a exig\u00eancia de liberdade pela oposi\u00e7\u00e3o de esquerda parecia-lhe um truque de guerra: \u201csabemos bem que a exigem para vencer e a dispensam para governar\u201d.<\/p>\n<p>Provavelmente, Salazar n\u00e3o acreditava nem na vontade da oposi\u00e7\u00e3o para respeitar a legalidade, nem na capacidade dos salazaristas para predominarem sem coer\u00e7\u00e3o. Por isso, para Salazar se manter no poder, mais decisivas do que as elei\u00e7\u00f5es, foram as derrotas das conspira\u00e7\u00f5es militares conhecidas por golpe da Mealhada (1946) e Abrilada (1947). A ditadura evitou assim um golpe militar como o que derrubou Get\u00falio Vargas no Brasil em 1945, para instituir uma democracia limitada e conservadora e sob tutela militar. Em Espanha, Franco aguentou, o que poupou Salazar \u00e0 press\u00e3o de uma vizinhan\u00e7a democr\u00e1tica.\u201d<\/p>\n<p>Rui Ramos \u00e9 historiador, professor universit\u00e1rio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da Substitui\u00e7\u00e3o de soberanias em favor dos contraentes geopol\u00edticos USA e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica A discuss\u00e3o sobre a natureza do salazarismo continua, ainda hoje, fortemente condicionada por categorias ideol\u00f3gicas forjadas no contexto da Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, da Guerra Fria. O debate p\u00fablico e historiogr\u00e1fico tende a enquadrar o regime de Salazar quase exclusivamente numa &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10610\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">SALAZARISMO ENTRE IDEOLOGIA E GEOPOL\u00cdTICA<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[15,14,4,7,16],"tags":[],"class_list":["post-10610","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-politica","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10610","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10610"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10610\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10611,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10610\/revisions\/10611"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10610"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10610"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10610"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}