{"id":10607,"date":"2026-01-10T22:09:51","date_gmt":"2026-01-10T21:09:51","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10607"},"modified":"2026-01-10T22:09:51","modified_gmt":"2026-01-10T21:09:51","slug":"a-europa-entre-o-esquecimento-do-ser-e-a-sacralizacao-da-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10607","title":{"rendered":"A EUROPA ENTRE O ESQUECIMENTO DO SER E A SACRALIZA\u00c7\u00c3O DA GUERRA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Institucionaliza\u00e7\u00e3o de um poder sem rosto<\/strong><\/p>\n<p><strong>Vivemos um tempo que n\u00e3o \u00e9 apenas de mudan\u00e7a hist\u00f3rica, mas de muta\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica.<\/strong> Aquilo a que se chama \u201cnova era\u201d ou \u201cnova ordem\u201d n\u00e3o se anuncia apenas por rearranjos geopol\u00edticos, mas por uma transforma\u00e7\u00e3o radical da forma como o homem se compreende a si pr\u00f3prio, ao poder, \u00e0 t\u00e9cnica e \u00e0 guerra. <strong>Como diria Martin Heidegger, n\u00e3o estamos perante uma simples crise pol\u00edtica, mas perante o \u201cesquecimento do Ser\u201d, em que tudo passa a valer apenas enquanto recurso dispon\u00edvel, incluindo o homem, os povos e a pr\u00f3pria paz.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A Uni\u00e3o Europeia apresenta-se como um projeto moral, herdeiro do humanismo crist\u00e3o e da raz\u00e3o iluminista, mas tornou-se, na pr\u00e1tica, um espa\u00e7o dominado pelo que Romano Guardini j\u00e1 pressentia como o advento de um \u201cpoder sem rosto\u201d, tecnicamente eficiente e espiritualmente vazio. O discurso oficial invoca valores universais, direitos e progresso; contudo, nos bastidores decis\u00f3rios, o crit\u00e9rio \u00faltimo \u00e9 econ\u00f3mico-financeiro e estrat\u00e9gico. A linguagem \u00e9tica funciona como v\u00e9u, n\u00e3o como fundamento e o povo \u00e9 tratado de forma c\u00ednica.<\/strong><\/p>\n<p>Esta dissocia\u00e7\u00e3o entre palavra e realidade constitui uma das formas mais sofisticadas de niilismo contempor\u00e2neo.<strong> Joseph Ratzinger, um dos maiores intelectuais europeu contempor\u00e2neo, alertou: \u00a0quando a raz\u00e3o se separa da verdade e se reduz a racionalidade instrumental, ela deixa de libertar e passa a dominar. O bem torna-se aquilo que \u00e9 funcional; o mal, aquilo que resiste. Assim, a guerra pode ser progressivamente encenada como meio leg\u00edtimo, necess\u00e1rio e at\u00e9 \u201chumanit\u00e1rio\u201d, desde que integrada numa narrativa moralmente aceit\u00e1vel.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eric Voegelin descreveu este processo como a \u201cimanentiza\u00e7\u00e3o do eschaton\u201d, isto \u00e9, a tentativa de realizar, por meios pol\u00edticos e t\u00e9cnicos, uma reden\u00e7\u00e3o que pertence \u00e0 ordem espiritual. Quando a pol\u00edtica assume fun\u00e7\u00f5es salv\u00edficas, ela exige inimigos absolutos e conflitos permanentes. A guerra deixa ent\u00e3o de ser uma trag\u00e9dia a evitar e passa a ser apresentada como instrumento pedag\u00f3gico da Hist\u00f3ria, como mecanismo de purifica\u00e7\u00e3o ou de avan\u00e7o civilizacional.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c9 neste contexto que devemos compreender a crescente normaliza\u00e7\u00e3o do discurso b\u00e9lico no espa\u00e7o europeu<\/strong>. <strong>A guerra n\u00e3o \u00e9 apenas preparada nos arsenais, mas sobretudo nas consci\u00eancias. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o, os centros de produ\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica, os discursos institucionais e at\u00e9 certas aplica\u00e7\u00f5es da intelig\u00eancia artificial contribuem para moldar uma perce\u00e7\u00e3o da realidade em que o conflito aparece como inevit\u00e1vel, ou pior, como desej\u00e1vel. A t\u00e9cnica, que deveria servir o homem, passa a formatar o seu horizonte moral.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m a intelig\u00eancia artificial, enquanto espelho ampliado da racionalidade dominante, est\u00e1 naturalmente dependente dos bastidores ideol\u00f3gicos: ela reproduz padr\u00f5es, narrativas e prioridades inscritas nos sistemas de poder que a alimentam. <\/strong>N\u00e3o cria o mal, mas acelera e torna mais eficaz aquilo que j\u00e1 est\u00e1 decidido a montante. O perigo n\u00e3o est\u00e1 na m\u00e1quina, mas na vis\u00e3o do homem que a orienta, um homem reduzido a consumidor, produtor ou dano colateral.<\/p>\n<p><strong>Paralelamente, assiste-se \u00e0 eros\u00e3o deliberada da cultura humanista europeia. N\u00e3o se trata de abertura ao outro, mas de desintegra\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio. Tradi\u00e7\u00f5es espirituais, religiosas e culturais s\u00e3o relativizadas ou instrumentalizadas conforme conveni\u00eancias geopol\u00edticas. Religi\u00f5es deixam de ser compreendidas como caminhos espirituais e passam a ser tratadas como for\u00e7as pol\u00edticas ou demogr\u00e1ficas, pe\u00e7as num tabuleiro de poder global. O problema n\u00e3o \u00e9 a f\u00e9, mas a sua captura pela l\u00f3gica imperial, seja ela religiosa, tecnocr\u00e1tica ou financeira.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A Europa, ao renegar as suas ra\u00edzes espirituais em nome de uma neutralidade imposs\u00edvel, torna-se incapaz de verdadeiro di\u00e1logo e vulner\u00e1vel a todas as formas de coloniza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/strong> <strong>Sem uma metaf\u00edsica do limite, resta apenas a expans\u00e3o indefinida do poder. Sem transcend\u00eancia, tudo se torna negoci\u00e1vel, inclusive a vida humana, por isso fomentam a agressividade e a incompreens\u00e3o relativamente ao cristianismo e defendem o Isl\u00e3o para n\u00e3o terem um espelho metaf\u00edsico que os reflita nem quem esteja do lado do povo e expresse a sua voz.<\/strong><\/p>\n<p>Talvez por isso a verdadeira resist\u00eancia, hoje, j\u00e1 n\u00e3o possa ser militar nem ideol\u00f3gica. Essas linguagens pertencem ao mesmo horizonte que pretendemos questionar. A resist\u00eancia ter\u00e1 de ser cultural, \u00e9tica e espiritual, uma recusa silenciosa mas firme de aceitar a mentira como norma e a guerra como destino. Resistir ser\u00e1 preservar a mem\u00f3ria, a consci\u00eancia e a pergunta pelo sentido, num mundo que prefere respostas r\u00e1pidas e funcionais.<\/p>\n<p><strong>Como advertia Romano Guardini, o futuro n\u00e3o pertence aos sistemas mais poderosos, mas aos homens interiormente livres. E, como lembrava Joseph Ratzinger, uma Europa que perde a sua alma perde inevitavelmente tamb\u00e9m a capacidade de gerar paz.<\/strong> Se ainda existir uma sa\u00edda para este tempo sombrio, ela n\u00e3o nascer\u00e1 dos centros de poder nem das engenharias institucionais, mas da fidelidade \u00e0 verdade do ser humano, esse mist\u00e9rio irredut\u00edvel que nenhuma t\u00e9cnica, nenhuma ideologia e nenhuma guerra conseguem esgotar.<\/p>\n<p><strong>Essa fidelidade exige um despertar da consci\u00eancia coletiva, a redescoberta de que o homem n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 nem abandonado \u00e0 l\u00f3gica da for\u00e7a, mas permanece situado numa ordem mais alta de sentido. Dito de outro modo: s\u00f3 um povo que reconhece que Deus caminha com ele pode resistir \u00e0 absolutiza\u00e7\u00e3o do poder terreno. Recordo, a este prop\u00f3sito, a voz do meu pai ao repetir o antigo ad\u00e1gio \u201ca voz do povo \u00e9 a voz de Deus\u201d. Mas importa acrescentar: essa identifica\u00e7\u00e3o s\u00f3 permanece verdadeira enquanto a voz do povo n\u00e3o se deixa capturar, manipular ou substituir pelas narrativas de um poder que, precisamente por isso, se arroga cada vez mais uma pretens\u00e3o de omnipresen\u00e7a e omnipot\u00eancia. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Te\u00f3logo e Pedagogo social<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Institucionaliza\u00e7\u00e3o de um poder sem rosto Vivemos um tempo que n\u00e3o \u00e9 apenas de mudan\u00e7a hist\u00f3rica, mas de muta\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica. 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