{"id":10605,"date":"2026-01-10T21:02:46","date_gmt":"2026-01-10T20:02:46","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10605"},"modified":"2026-01-10T22:25:43","modified_gmt":"2026-01-10T21:25:43","slug":"tribalizacao-contemporanea-e-perda-da-identidade-pessoal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10605","title":{"rendered":"TRIBALIZA\u00c7\u00c3O CONTEMPOR\u00c2NEA E PERDA DA IDENTIDADE PESSOAL"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Ser\u00e1 poss\u00edvel uma matriz de orienta\u00e7\u00e3o onde algu\u00e9m poder\u00e1 falar ao ser humano na qualidade de humano sem o reduzir a fun\u00e7\u00e3o, massa ou rebanho?<\/strong><\/p>\n<p>Na continua\u00e7\u00e3o do que escrevi no artigo DA GEOPOL\u00cdTICA \u00c0 METAF\u00cdSICA DO PODER n\u00e3o estamos apenas perante uma regress\u00e3o hist\u00f3rica, mas perante uma muta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica regressiva.<\/p>\n<p><strong>A tribaliza\u00e7\u00e3o do nosso tempo n\u00e3o guarda a ess\u00eancia da tribo arcaica. \u00c9 fen\u00f4meno mais grave ainda, ao ponto de consci\u00eancias atentas e sens\u00edveis se sentirem como viajantes numa esta\u00e7\u00e3o cultural derradeira. Esta nova agrega\u00e7\u00e3o tribal carece de cosmologia integrada, n\u00e3o brota da observa\u00e7\u00e3o paciente do mundo natural, chegando, em seu desvio, a neg\u00e1-lo, como atesta a sua marcante aus\u00eancia de feminilidade. E, sobretudo, \u00e9 est\u00e9ril: n\u00e3o gera a seiva profunda da sabedoria <\/strong><strong>simb\u00f3lica, <\/strong>como em teologias, filosofias e literaturas passadas; deste modo reduz a pessoa ao n\u00edvel do ovino de rosto virado para a relva.<\/p>\n<p><strong>A sociedade tribal que estamos a forjar n\u00e3o \u00e9 feita de cl\u00e3s org\u00e2nicos, mas de arquip\u00e9lagos funcionais, artificiais, regidos por algoritmos frios. Tome-se como exemplo certas express\u00f5es do fen\u00f3meno woke: erguem uma identidade que \u00e9 pura superf\u00edcie, sem interioridade colectiva aut\u00eantica. \u00c9 uma milit\u00e2ncia sem comunh\u00e3o, uma bandeira sem transcend\u00eancia, uma tribo de c\u00f3digo reducionista, n\u00e3o de sangue, terra ou mito.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Os indiv\u00edduos ganham visibilidade em grupos, mas perdem a sua ipseidade (1) e isto \u00e9 decisivo. Sem singularidade e ess\u00eancia individual pr\u00f3pria n\u00e3o h\u00e1 responsabilidade, n\u00e3o h\u00e1 consci\u00eancia moral e n\u00e3o h\u00e1 liberdade verdadeira.<\/strong><\/p>\n<p>Historicamente, a antropologia crist\u00e3 foi o ant\u00eddoto, afirmando cada pessoa como irrepet\u00edvel e portadora do divino, anterior a qualquer grupo. <strong>E quando este eixo se perde, regressamos n\u00e3o \u00e0 tribo natural, mas \u00e0 horda administrada.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Modernidades m\u00faltiplas de pluralidade sem fundamento<\/strong><\/p>\n<p><strong>A ideia de \u201cmodernidades m\u00faltiplas ou de interculturalismos\u201d poderia ser fecunda se assentasse numa verdade comum (Logos), isto \u00e9, numa refer\u00eancia \u00e0 natureza, e \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o, numa \u00e9tica do real e numa conce\u00e7\u00e3o do humano como medida (\u00e0 imagem do prot\u00f3tipo Jesus Cristo). <\/strong><\/p>\n<p><strong>Em vez disto observamos pluralidade sem verdade, diversidade sem crit\u00e9rio e diferen\u00e7a sem orienta\u00e7\u00e3o.<\/strong> Nesta perspectiva j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 liga\u00e7\u00e3o \u00e0s leis da natureza nem \u00e0 observa\u00e7\u00e3o do real.<br \/>\nA cultura deixa de ser cultivo e passa a ser constru\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Neste quadro, o cientista Samuel P. Huntington em \u201cO choque de civiliza\u00e7\u00f5es\u201d apenas descreveu fric\u00e7\u00f5es de superf\u00edcie. <strong>O verdadeiro \u201cchoque\u201d n\u00e3o \u00e9 entre civiliza\u00e7\u00f5es, mas entre vis\u00f5es do humano como ser-com-sentido versus \u00a0entidade mold\u00e1vel<\/strong> (concep\u00e7\u00e3o esta observ\u00e1vel nas narrativas dos media na EU em que n\u00e3o interessa apresentar factos mas enquadr\u00e1-los numa interpreta\u00e7\u00e3o funcional p\u00f3s f\u00e1tica destinada a moldar consci\u00eancias em fun\u00e7\u00e3o do regime-sistema coisa que j\u00e1 se observa h\u00e1 mais tempo em estados socialistas).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O papel do poder expressa-se em decompor para governar<\/strong><\/p>\n<p>A decomposi\u00e7\u00e3o em via especialmente na civiliza\u00e7\u00e3o ocidental n\u00e3o \u00e9 ing\u00e9nua ao ser mais agressiva no ocidente onde a consci\u00eancia da dignidade humana e dos direitos humanos nasceu; a decomposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 acidental; ela \u00e9 estrutural e intencional porque o poder contempor\u00e2neo n\u00e3o quer indiv\u00edduos conscientes, n\u00e3o quer comunidades enraizadas (por isso vem-lhe a jeito a infiltra\u00e7\u00e3o de guetos mu\u00e7ulmanos) nem quer transcend\u00eancia operativa na civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. <strong>O poder contempor\u00e2neo fomenta fragmenta\u00e7\u00e3o, grupos reativos e espiritualidades neutralizadas, pervertendo o espiritual como pedagogia de submiss\u00e3o em vez de liberta\u00e7\u00e3o. <\/strong>(veja-se o cultivo de pr\u00e1ticas budistas, que bem doseadas poderiam servir para o bem-estar dos corpos mas n\u00e3o como alternativas).<\/p>\n<p><strong>Aqui entra a pervers\u00e3o do espiritual como pedagogia de submiss\u00e3o: n\u00e3o para libertar, mas para pacificar.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A quest\u00e3o decisiva: a Igreja cat\u00f3lica percebeu o tempo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c9 uma quest\u00e3o s\u00e9ria, mas justa: parece que o catolicismo n\u00e3o est\u00e1 a compreender o momento hist\u00f3rico que realmente est\u00e1 a acontecer, ao tratar a crise apenas como uma quest\u00e3o social.<\/strong> <strong>Historicamente, a Igreja foi a primeira institui\u00e7\u00e3o verdadeiramente global; foi a primeira a afirmar a dignidade universal da pessoa e foi a primeira a colocar limites \u00e9ticos ao poder.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Hoje a Igreja cat\u00f3lica vive uma tens\u00e3o interna profunda que se poderia explicar com o seu \u00a0desvio excessivamente pedag\u00f3gico (oportuno para a \u00e9poca de civilizar os povos b\u00e1rbaros na europa) mas \u00a0com a neglig\u00eancia da miss\u00e3o m\u00edstica e ontol\u00f3gica<\/strong> (explic\u00e1vel para a altura em que com a coroa\u00e7\u00e3o do imperador Carlos Magno se tratava de colocar os fundamentos para a forma\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o \u00a0europeia, come\u00e7ada na era medieval).<\/p>\n<p>De facto, nessa era pedag\u00f3gica a Igreja empenhou-se sobretudo na sua miss\u00e3o pedag\u00f3gica estabelecendo-se como educadora moral, mediadora social e como agente humanit\u00e1rio. Tudo isso foi leg\u00edtimo e oportuno no passado da hist\u00f3ria europeia, mas tornou-se insuficiente.<\/p>\n<p><strong>A sua miss\u00e3o mais profunda n\u00e3o \u00e9 ensinar comportamentos, mas defender a estrutura do ser humano enquanto lugar de integra\u00e7\u00e3o do divino (naturalmente sem perder de vista os bi\u00f3topos culturais em que est\u00e1 inserida).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Quando a Igreja abdica de falar do ser e se limita ao agir, n\u00e3o responde aos sinais dos tempos que sopram especialmente na Europa e apontam para uma espiritualidade de caracter mais m\u00edstica. O ponto chave da miss\u00e3o hodierna ser\u00e1 complementar o ser com o estar.<\/strong><\/p>\n<p>O mundo atual absolutiza o estar centrando-se no contexto e na situa\u00e7\u00e3o; absolutiza o ter com posse e acesso \u00e0 riqueza e redu-lo a performance no mero funcionar.<br \/>\nA miss\u00e3o pr\u00f3pria do cristianismo n\u00e3o \u00e9 negar isso, mas integr\u00e1-lo no ser. Porque para o cristianismo o humano n\u00e3o \u00e9 meio para a economia, n\u00e3o \u00e9 meio para a ideologia nem meio para a estabilidade do sistema.<\/p>\n<p><strong>O ser humano \u00e9 fim em si em estado processual. N\u00e3o \u00e9 um fim fechado, mas um ser em caminho, aberto \u00e0 diviniza\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nIsto \u00e9 radicalmente incompat\u00edvel com qualquer forma de poder totalizante.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Pode o catolicismo oferecer uma matriz globalizante alternativa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sim, em pot\u00eancia tem tudo o que \u00e9 preciso desde que n\u00e3o seja teocr\u00e1tica como \u00e9 o caso do isl\u00e3o, mas que acentue a rala\u00e7\u00e3o humano-divina como se encontra expressa no prot\u00f3tipo Jesus Cristo. N\u00e3o deve ser moralista nem disciplinadora<\/strong>. <strong>A nova era exige dela que acentue mais o aspecto antropol\u00f3gico e ontol\u00f3gico na perspectiva espiritual.<\/strong><\/p>\n<p>O catolicismo poderia oferecer uma matriz globalizante n\u00e3o opressiva baseada em: Centralidade da pessoa (n\u00e3o do grupo ou fun\u00e7\u00e3o), (acentuando a rela\u00e7\u00e3o eu-tu-n\u00f3s, f\u00f3rmula trinit\u00e1ria na perspetiva inter-relacional e n\u00e3o funcional); consci\u00eancia como soberania, dado a verdadeira soberania n\u00e3o ser territorial, mas interior; uma transcend\u00eancia n\u00e3o instrumentalizada porque o espiritual n\u00e3o serve para governar, mas para libertar; pressup\u00f5e comunh\u00e3o sem dissolu\u00e7\u00e3o da individualidade e que a Verdade surja como horizonte e experi\u00eancia, n\u00e3o como arma, sem contudo cair no relativismo e no dogmatismo.<\/p>\n<p>Uma tal matriz \u00e9 profundamente crist\u00e3, mas, tal como Jesus Cristo, n\u00e3o confessional no sentido estreito da palavra. Assim seria oferec\u00edvel \u00e0 humanidade sem submiss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O risco e a oportunidade<\/strong><\/p>\n<p>Aqui, atendendo \u00e0 estruturas sociais e tamb\u00e9m de pensamento seria de se meditar sobre a frase de Paulo quando constata \u201cOh felix culpa\u201d &#8230; que implicaria uma abordagem teol\u00f3gica al\u00e9m de antropol\u00f3gica e sociol\u00f3gica.<\/p>\n<p>O risco \u00e9 claro porque a Igreja poderia tornar-se irrelevante ou c\u00famplice por omiss\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A oportunidade da Igreja neste tempo hist\u00f3rico \u00e9 ser a \u00faltima garante da consci\u00eancia humana num mundo funcionalizado.<\/strong> N\u00e3o como poder concorrente, mas como inst\u00e2ncia de sentido que o poder secular deveria sustentar e implementar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O que aqui proponho \u00e9 mais uma reflex\u00e3o que implica n\u00e3o o regresso ao passado nem t\u00e3o-pouco uma restaura\u00e7\u00e3o. <strong>Tratar-se-ia de uma transfigura\u00e7\u00e3o do papel do catolicismo, menos gestor de moral, menos pedagogo social, mais guardi\u00e3o do humano como lugar do divino num confronto entre antropologia crist\u00e3 e antropologia tecnopol\u00edtica.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\n<\/strong>Te\u00f3logo e Pedagogo social<strong><br \/>\n<\/strong>\u00a9 Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>(1) Ipseidade refere-se \u00e0 qualidade do que \u00e9 &#8220;ele mesmo&#8221; ou &#8220;em si mesmo&#8221;, a singularidade e identidade pr\u00f3pria de um ser, a sua caracter\u00edstica \u00fanica que o diferencia dos outros e a consci\u00eancia dessa individualidade ao longo do tempo. \u00c9 a percep\u00e7\u00e3o de continuidade e pertencimento de si mesmo, fundamental para o senso de identidade pessoal, sendo um conceito central na fenomenologia, explorado por fil\u00f3sofos como Paul Ricoeur e Martin Heidegger. Este conceito baseia-se na vis\u00e3o crist\u00e3 do ser humano ao mesmo tempo como corpo e alma, como mat\u00e9ria e divino (filho). Da\u00ed o conceito de pessoa com o ser soberano a n\u00edvel de consci\u00eancia e de agente social e institucional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser\u00e1 poss\u00edvel uma matriz de orienta\u00e7\u00e3o onde algu\u00e9m poder\u00e1 falar ao ser humano na qualidade de humano sem o reduzir a fun\u00e7\u00e3o, massa ou rebanho? Na continua\u00e7\u00e3o do que escrevi no artigo DA GEOPOL\u00cdTICA \u00c0 METAF\u00cdSICA DO PODER n\u00e3o estamos apenas perante uma regress\u00e3o hist\u00f3rica, mas perante uma muta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica regressiva. 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