{"id":10591,"date":"2026-01-07T21:06:06","date_gmt":"2026-01-07T20:06:06","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10591"},"modified":"2026-01-09T11:49:43","modified_gmt":"2026-01-09T10:49:43","slug":"o-jardim-dos-dois-olhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10591","title":{"rendered":"O JARDIM DOS DOIS OLHOS"},"content":{"rendered":"<p>Havia, nos arredores de uma cidade antiga, um jardim murado que poucos conheciam por inteiro. Chamavam-lhe O Jardim dos Dois Olhos, porque dizia-se que quem entrasse por um port\u00e3o via uma coisa, e quem entrasse pelo outro via outra completamente diferente, embora fosse o mesmo jardim.<\/p>\n<p>Nesse jardim viviam dois guardi\u00f5es.<\/p>\n<p>Ela chamava-se L\u00edria. Ele chamava-se Aureliano.<\/p>\n<p>L\u00edria tinha o dom da imagem. Via o mundo como uma tape\u00e7aria viva, feita de hist\u00f3rias, rostos, gestos, inten\u00e7\u00f5es ocultas. Para ela, nada era apenas o que parecia ser. Cada acontecimento vinha carregado de sentidos, mem\u00f3rias e feridas antigas. Quando algo se partia no presente, sentia ecoar quebras muito antigas, como se o tempo n\u00e3o fosse uma linha, mas um c\u00edrculo sens\u00edvel.<\/p>\n<p>Desde cedo aprendera que o amor podia ser belo e cruel ao mesmo tempo. Crescera num ambiente onde era vista mais como ornamento do que como pessoa, e por isso desenvolvera um olhar atento, quase vigilante: precisava de perceber rapidamente quando o afeto estava a ser retirado. Isso tornara-a profunda, criativa, mas tamb\u00e9m vulner\u00e1vel. Quando se sentia contrariada, n\u00e3o discutia apenas um facto, defendia a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Aureliano, por sua vez, tinha o dom da estrutura. Via o jardim como um sistema vivo que precisava de equil\u00edbrio para n\u00e3o se destruir. Observava padr\u00f5es, consequ\u00eancias, encadeamentos. Onde L\u00edria via dramas singulares, ele via leis gerais. Onde ela sentia, ele pensava. N\u00e3o por frieza, mas por necessidade de ordem interior. Sabia, talvez sem o saber, que se mergulhasse demasiado no turbilh\u00e3o emocional, se perderia.<\/p>\n<p>Ambos eram bons guardi\u00f5es. Ambos amavam o jardim. E ambos acreditavam, sinceramente, que estavam a proteg\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Mas havia um problema: cada um acreditava que o outro via mal.<\/p>\n<p>Quando L\u00edria falava, falava com a alma descoberta. Esperava que Aureliano entrasse na hist\u00f3ria com ela, que sentisse o peso do que estava em jogo, mesmo quando parecia pequeno. Por\u00e9m, Aureliano, ao ouvi-la, imediatamente procurava evitar danos futuros, guerras invis\u00edveis, desastres em cadeia. Respondia com conselhos, estrat\u00e9gias, media\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o L\u00edria sentia-se invis\u00edvel.<\/p>\n<p>E Aureliano sentia-se acusado de algo que n\u00e3o pretendia.<\/p>\n<p>Certo dia, surgiu no jardim um conflito entre visitantes: um casal que se separava queria dividir as obras de arte que ali haviam deixado como oferenda. L\u00edria trouxe a hist\u00f3ria a Aureliano carregada de inquieta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era apenas sobre quadros, era sobre justi\u00e7a, reconhecimento, mem\u00f3ria, generosidade ferida.<\/p>\n<p>Aureliano ouviu e respondeu como sempre fizera: falou de consequ\u00eancias, de evitar lados, de solu\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Nesse momento, o jardim tremeu.<\/p>\n<p>\u201cTu falas como se eu n\u00e3o soubesse sentir\u201d, disse L\u00edria.<\/p>\n<p>\u201cE tu falas como se eu n\u00e3o soubesse amar\u201d, respondeu Aureliano, cansado.<\/p>\n<p>Separaram-se nesse dia, cada um refugiando-se no seu lado do jardim. As plantas come\u00e7aram a definhar, n\u00e3o por falta de cuidado, mas por excesso de unilateralidade. As flores de L\u00edria cresciam exuberantes, mas fr\u00e1geis; as \u00e1rvores de Aureliano eram fortes, mas secas.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que apareceu um velho jardineiro, que ningu\u00e9m recordava ter visto entrar.<\/p>\n<p>Ele observou L\u00edria e Aureliano \u00a0longamente e disse apenas isto:<\/p>\n<p>\u201cCada um de v\u00f3s olha com um s\u00f3 olho.\u201d<\/p>\n<p>L\u00edria e Aureliano protestaram. Cada um acreditava ver melhor que o outro.<\/p>\n<p>O anci\u00e3o continuou voltando-se para L\u00edria:<\/p>\n<p>\u201cTu olhas com o olho do significado. Tudo para ti \u00e9 pessoal, porque foste ferida onde o mundo devia ter sido abrigo. Mas quando tudo \u00e9 pessoal, o outro deixa de ter espa\u00e7o para ser diferente.<\/p>\n<p>Depois, voltando-se para Aureliano, disse:<\/p>\n<p>\u201cE tu olhas com o olho da ordem. Tudo para ti precisa de coer\u00eancia, porque aprendeste que o caos d\u00f3i. Mas quando tudo \u00e9 geral, o outro deixa de ser visto na sua singularidade.\u201d<\/p>\n<p>Os dois ficaram at\u00f3nitos em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u201cO jardim s\u00f3 florescer\u00e1 quando aprenderem a olhar com os dois olhos\u201d, concluiu o anci\u00e3o. \u201cO olho que sente e o olho que compreende. O cora\u00e7\u00e3o que vive e a mente que prev\u00ea.\u201d<\/p>\n<p>E acrescentou, com um sorriso bondoso, antes de se ir embora:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tentem corrigir-se um ao outro. Tentem hospedar o olhar do outro dentro de v\u00f3s. Isso chama-se individua\u00e7\u00e3o num processo de rela\u00e7\u00e3o eu-tu-n\u00f3s.\u201d<\/p>\n<p>Desde esse dia, nada se tornou perfeito. Eles ainda discutiam. Ainda se feriam, como que em reflexos de automatismos. Mas algo mudara.<\/p>\n<p>Quando L\u00edria falava, Aureliano perguntava-se primeiro: \u201cO que \u00e9 que isto significa para ela?\u201d<\/p>\n<p>Quando Aureliano respondia, L\u00edria perguntava-se: \u201cO que \u00e9 que ele est\u00e1 a tentar proteger?\u201d<\/p>\n<p>O jardim n\u00e3o se tornou isento de conflitos. Tornou-se vivo!<\/p>\n<p>Mas os conflitos come\u00e7aram a mudar de forma, como nuvens que j\u00e1 n\u00e3o descarregam sempre tempestade.<\/p>\n<p>Ou foi por sugest\u00e3o silenciosa do velho jardineiro, ou talvez por cansa\u00e7o da repeti\u00e7\u00e3o, que L\u00edria e Aureliano decidiram caminhar para al\u00e9m do muro mais antigo do jardim, aquele que separava o cultivado do selvagem. Ali vivia um homem de poucas palavras e muitos sil\u00eancios. Diziam que ele n\u00e3o dava conselhos, ordenava sentimentos. Limitava-se a escutar os sonhos. N\u00e3o perguntava o que lhes acontecia, mas como lhes acontecia por dentro.<\/p>\n<p>O homem chamava-se Elias.<\/p>\n<p>Elias pedira-lhes que se sentassem frente a frente, n\u00e3o para se convencerem, mas para se verem refletidos um no outro. L\u00edria e Aureliano sentaram-se diante dele como duas margens de um mesmo rio. Depois de longos momentos Elias falou com voz calma, como quem nomeia algo antigo, parecendo recordar algo que ambos tinham esquecido:<\/p>\n<p>\u201cO que vos divide n\u00e3o \u00e9 a falta de amor, mas a unilateralidade da alma.\u201d<\/p>\n<p>L\u00edria sentiu-se inquieta. Aureliano franziu o sobrolho.<\/p>\n<p>Elias, voltando-se para Aureliano, disse:<\/p>\n<p>\u201cEm ti vive uma imagem feminina ferida, a tua anima. Ela anseia por sentido, por reconhecimento emocional e abrigo, mas foi empurrada para o sil\u00eancio em nome da raz\u00e3o e do controlo. Quando a tua mulher fala a partir da emo\u00e7\u00e3o, essa tua parte sente-se amea\u00e7ada e respondes com o pensamento, como defesa.<\/p>\n<p>Depois voltou-se para L\u00edria:<\/p>\n<p>\u201cE em ti vive uma imagem masculina exigente, que exige coer\u00eancia absoluta, o teu animus. Ele fala em verdades absolutas, em julgamentos, em hist\u00f3rias fechadas. Quando o teu marido tenta organizar ou relativizar o que sentes, esse animus interpreta isso como desvaloriza\u00e7\u00e3o, e transforma a dor em acusa\u00e7\u00e3o e quando sente d\u00favida transforma-se em juiz.\u201d<\/p>\n<p>L\u00edria e Aureliano entreolharam-se. Algo fazia sentido, embora doesse.<\/p>\n<p>\u201cAquilo que n\u00e3o reconhecemos em n\u00f3s,\u201d continuou Elias, \u201cvemo-lo no outro como defeito. Chamamos a isso proje\u00e7\u00e3o. E quanto maior for o trauma, mais intensa \u00e9 a proje\u00e7\u00e3o. Aquilo que cada um combate no outro, \u00e9 aquilo que ainda n\u00e3o aprendeu a hospedar em si. Por isso o encontro d\u00f3i. N\u00e3o porque falte amor, mas porque h\u00e1 passado a mais nos dois.\u201d<\/p>\n<p>L\u00edria sentiu um aperto antigo no peito e um n\u00f3 na garganta que parecia impedir o desejo de engolir.<\/p>\n<p>Aureliano baixou os olhos sentindo como que um calafrio que atravessada todo o seu corpo.<\/p>\n<p>\u201cOs vossos conflitos n\u00e3o come\u00e7am no presente\u201d, disse Elias. \u201cCome\u00e7am na sombra, essa parte de v\u00f3s que foi for\u00e7ada a adaptar-se cedo demais, na verdura da inf\u00e2ncia. Tu, L\u00edria, aprendeste que o amor podia retirar-se sem aviso. E tu, Aureliano, aprendeste que sentir demais podia desorganizar tudo.\u201d<\/p>\n<p>Fez uma pausa, como que a digerir toda uma vida de sentimentos e pensamentos\u00a0 em resson\u00e2ncia e acrescentou:<\/p>\n<p>\u201cPor isso, quando uma fala, o outro n\u00e3o ouve apenas o que est\u00e1 a ser dito. Ouve ecos antigos. E feridas n\u00e3o cicatrizadas exigem algo especial: n\u00e3o perfei\u00e7\u00e3o, mas m\u00e3os dadas.<\/p>\n<p>\u201cE o que fazemos quando d\u00f3i?\u201d perguntou L\u00edria, quase num suspiro.<\/p>\n<p>Elias sorriu com bondade:<\/p>\n<p>\u201cQuando d\u00f3i, n\u00e3o se corrige \u00a0nem se interpreta o outro. Sustenta-se a tens\u00e3o. Aprende-se a dizer: \u201cIsto \u00e9 meu, mas preciso de ti aqui.\u201d<\/p>\n<p>Aureliano respirou fundo e disse:<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o n\u00e3o se trata de mudar o outro no sentido de se fazer um caminho comum?\u201d<\/p>\n<p>Elias depois de respirar abdominalmente respondeu:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o! Trata-se de integrar em si aquilo que se exige do outro. Pensamento e sentimento. Feminino e masculino. Narrativa e estrutura. O casal \u00e9 apenas o campo onde essa integra\u00e7\u00e3o se torna vis\u00edvel. Um d\u00e1 alma \u00e0s coisas. O outro d\u00e1-lhes forma. Separados, empobrecem e juntos, assustam-se.<\/p>\n<p>Naquele dia, ao regressarem ao jardim, algo era diferente. N\u00e3o houve promessas, nem resolu\u00e7\u00f5es. Mas algo se deslocara impercetivelmente. Quando discutiam, nem sempre conseguiam evitar a queda. Mas \u00e0s vezes, apenas \u00e0s vezes, conseguiam olhar para o outro e reconhecer nele n\u00e3o um inimigo, mas um espelho imperfeito. Quando surgia uma discuss\u00e3o, perguntavam-se, embora, por vezes, tardiamente:<\/p>\n<p>\u201cIsto \u00e9 o presente ou \u00e9 a sombra?\u201d<\/p>\n<p>\u201cEstou a falar com o outro ou com a minha proje\u00e7\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>Nem sempre conseguiam parar a tempo. Mas, por vezes, conseguiam voltar atr\u00e1s. E isso bastava para que o jardim respirasse. Nele as flores tornaram-se menos exuberantes, mas mais dur\u00e1veis. As \u00e1rvores continuaram firmes, mas come\u00e7aram a dar sombra. De facto, a maturidade n\u00e3o consiste em vencer o outro, mas em n\u00e3o reduzir o outro \u00e0quilo que em n\u00f3s ainda d\u00f3i.<\/p>\n<p>L\u00edria e Aureliano aprenderam, lentamente, que amar e viver n\u00e3o \u00e9 eliminar o conflito, mas n\u00e3o deixar que o conflito destrua a possibilidade de ver o outro com benevol\u00eancia, como algu\u00e9m em transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E compreenderam que a verdadeira uni\u00e3o n\u00e3o acontece quando dois se fundem, mas quando dois indiv\u00edduos caminham lado a lado, conscientes das suas sombras, sem deixarem de dar as m\u00e3os.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\n<\/strong>Te\u00f3logo e Pedagogo social<br \/>\nPegadas do Tempo \u00a9<\/p>\n<p><strong>Nota do autor<\/strong><\/p>\n<p>Escrevi este conto n\u00e3o para falar de ti, de mim, de v\u00f3s,<br \/>\nmas para escutar melhor aquilo que em mim se repete<br \/>\nquando observo o mundo e descubro a minha ipseidade<br \/>\nna rela\u00e7\u00e3o do eu-tu que vive na atmosfera do n\u00f3s.<\/p>\n<p>A sombra que reconhe\u00e7o nos outros<br \/>\nbrota da mesma fonte que me atravessa.<br \/>\nQuando ela me inquieta fora,<br \/>\n\u00e9 porque j\u00e1 passou, ou ainda passa, dentro de mim.<\/p>\n<p>Aprendi com a vida e escrevendo,<br \/>\nque o orgulho nasce muitas vezes da recusa em ver<br \/>\nque partilhamos a mesma noite interior.<br \/>\nE que o \u00fanico rem\u00e9dio que n\u00e3o humilha<br \/>\n\u00e9 a humildade escolhida e bem cuidada,<br \/>\naquela que n\u00e3o nega a pr\u00f3pria luz,<br \/>\nmas aceita a sombra como parte do caminho.<\/p>\n<p>Se estas minhas palavras servirem para algo,<br \/>\nque seja apenas para lembrar<br \/>\nque ningu\u00e9m caminha inteiro sozinho<br \/>\ne que compreender o outro<br \/>\n\u00e9, talvez, uma das formas mais discretas<br \/>\nde nos reconciliarmos connosco.<\/p>\n<p>A porta cerrada pelo problema<br \/>\ntem a mesma face para os dois lados:<br \/>\na chave perdida \u00e9 \u00fanica,<br \/>\ne quem est\u00e1 dentro ou fora<br \/>\nbusca no mesmo escuro.<br \/>\nNuma mesma porta<br \/>\nduas solid\u00f5es se espelham<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m \u00e9 apenas v\u00edtima,<br \/>\nningu\u00e9m \u00e9 apenas causa<br \/>\nsomos coautores do caminho<br \/>\ne tamb\u00e9m da pris\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo\u00a9<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia, nos arredores de uma cidade antiga, um jardim murado que poucos conheciam por inteiro. 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