{"id":10585,"date":"2026-01-06T21:40:54","date_gmt":"2026-01-06T20:40:54","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10585"},"modified":"2026-01-09T23:38:43","modified_gmt":"2026-01-09T22:38:43","slug":"da-geopolitica-a-metafisica-do-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10585","title":{"rendered":"DA GEOPOL\u00cdTICA \u00c0 METAF\u00cdSICA DO PODER"},"content":{"rendered":"<p><strong>Na encruzilhada: o poder do mundo ou a ess\u00eancia do Homem?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O que se costuma chamar-se \u201cNova Ordem Mundial\u201d n\u00e3o \u00e9, em rigor, nova. \u00c9 uma muta\u00e7\u00e3o de forma, n\u00e3o de ess\u00eancia. <strong>O poder nunca deixou de se organizar em torno de tr\u00eas eixos: territ\u00f3rio, recursos e narrativa. O que muda \u00e9 o grau de abstra\u00e7\u00e3o com que esses eixos se apresentam. A grande disputa da nossa era \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio ser humano, n\u00e3o apenas o dom\u00ednio geopol\u00edtico.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Da soberania pol\u00edtica \u00e0 soberania geogr\u00e1fica<\/strong><\/p>\n<p>Estamos a assistir ao regresso do determinismo espacial, agora tecnocratizado. <strong>A soberania j\u00e1 n\u00e3o se funda na vontade dos povos (o que continua a constituir um mito moderno), mas na utilidade estrat\u00e9gica dos territ\u00f3rios.<\/strong> A geografia volta a ser destino, mas um destino gerido por algoritmos econ\u00f3micos, cadeias log\u00edsticas e zonas de influ\u00eancia militar.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica torna-se administra\u00e7\u00e3o de mapas e aplica\u00e7\u00e3o de agendas e diretrizes.<br \/>\nA democracia torna-se um discurso ornamental, uma forma formal de legitimar poder.<br \/>\nO direito internacional torna-se uma liturgia sem for\u00e7a sacramental.<br \/>\n<strong>Neste contexto, a soberania deixa de ser \u00e9tica ou cultural para ser apenas log\u00edstica.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O fim da era das na\u00e7\u00f5es: o humano como vari\u00e1vel secund\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p><strong>A passagem da \u201cera das na\u00e7\u00f5es\u201d para a \u201cera das pot\u00eancias geopol\u00edticas\u201d implica algo mais profundo que est\u00e1 a acarretar o colapso do sujeito pol\u00edtico moderno.<br \/>\n<\/strong>O cidad\u00e3o \u00e9 substitu\u00eddo pelo agente funcional passando a ser reduzido \u00e0s fun\u00e7\u00f5es de produtor, consumidor, desloc\u00e1vel e descart\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>O que verdadeiramente marca a nossa \u00e9poca com um car\u00e1cter fat\u00eddico \u00e9 o trabalho conjugado, t\u00e3o eficiente quanto insidioso, do capitalismo liberal e das ideologias progressistas na desconstru\u00e7\u00e3o do humano, da cultura e das institui\u00e7\u00f5es.. <\/strong>Juntou-se assim a ideologia pretendente a substituir a religi\u00e3o e a economia como sustent\u00e1culo das necessidades terrenas, num conluio desastroso que desestabiliza tudo e arrasta consigo como remoinho os fundamentos da velha ordem e do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p><strong>Assim, a na\u00e7\u00e3o, enquanto comunidade hist\u00f3rica de sentido \u00e9 declarada inconveniente; a cultura, enquanto mem\u00f3ria viva, \u00e9 considerada ru\u00eddo; a identidade, enquanto raiz, \u00e9 um obst\u00e1culo \u00e0 mobilidade do capital e do poder<\/strong> (por isso o primeiro obst\u00e1culo que pretendem destruir \u00e9 a religi\u00e3o crist\u00e3, primordialmente o catolicismo, institui\u00e7\u00e3o global paralela que teria possibilidade de defender o humanismo e a dignidade humana independentemente da sua funcionalidade) e a fam\u00edlia na qualidade de base primordial da sociedade e de toda a ordem (uma vez destru\u00edda a fam\u00edlia impede-se qualquer crescimento org\u00e2nico ficando uma supraestrutura secund\u00e1ria que ordena os elementos de forma mecanicista).<\/p>\n<p>O paradoxo central do nosso tempo tem a sua origem no facto de quanto mais se fala de direitos individuais, menos o indiv\u00edduo conta. <strong>A pessoa \u00e9 definida pela sua funcionalidade, pelo que poder\u00e1 ser \u00fatil e n\u00e3o pelo que \u00e9.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A Ucr\u00e2nia est\u00e1 a funcionar como arqu\u00e9tipo sacrificial<\/strong><\/p>\n<p>A Ucr\u00e2nia est\u00e1 a ser sacrificada n\u00e3o apenas como c\u00e1lculo geopol\u00edtico, mas como ritual arcaico do poder pelo que \u201cdeve ser sacrificada\u201d!<\/p>\n<p><strong>Se observamos a Hist\u00f3ria e o desenvolver do poder desde a ordem tribal \u00e0 ordem imperial constata-se que toda a grande ordem imperial nasce de um sacrif\u00edcio perif\u00e9rico.<\/strong><br \/>\nToda a estabilidade das pot\u00eancias centrais exige uma zona de sofrimento administrado.<\/p>\n<p>A Ucr\u00e2nia n\u00e3o \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o da realidade geopol\u00edtica que temos, mas mais um s\u00edmbolo da irrelev\u00e2ncia do direito, da hierarquia real entre vidas e da subordina\u00e7\u00e3o do humano \u00e0 \u00e1rea do poder funcional e imediato.<\/p>\n<p><strong>Aqui, a \u201cteologia\u201d pol\u00edtica torna-se clara: o deus da nova ordem \u00e9 a estabilidade do sistema, e os seus holocaustos s\u00e3o povos inteiros.<\/strong><\/p>\n<p><strong>ONG, gangues e a tribaliza\u00e7\u00e3o do mundo<\/strong><\/p>\n<p><strong>Estamos a entrar numa fase neotribal, mas sem transcend\u00eancia. <\/strong><\/p>\n<p><strong>As ONG transnacionais, financiadas por Estados e ideologias, funcionam como bra\u00e7os morais do poder, como instrumentos de press\u00e3o sem responsabilidade democr\u00e1tica e como substitutos da pol\u00edtica cl\u00e1ssica.<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e9 de prever que o conflito deixa de ser entre Estados soberanos e passa a ser entre redes, lobbies, causas fragmentadas. Tamb\u00e9m o indiv\u00edduo, desenraizado de fam\u00edlia e p\u00e1tria para ganhar rosto social ter\u00e1 de se organizar em grupos. E assim teremos a guerra civil global em vers\u00e3o suave.<\/p>\n<p><strong>Em \u00faltima an\u00e1lise a crise n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica, \u00e9 antropol\u00f3gica<\/strong><\/p>\n<p><strong>No fundo, o que se decide n\u00e3o \u00e9 quem domina o mundo, mas o que \u00e9 o ser humano. E o novo sistema quer reduzi-lo a mera fun\u00e7\u00e3o, s\u00f3 n\u00famero e flex\u00edvel.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A consequ\u00eancia \u00e9 que para o indiv\u00edduo a \u00fanica hip\u00f3tese de visibilidade passa pela forma\u00e7\u00e3o de grupos.<\/strong> E isto tem consequ\u00eancias desastrosas para o humano e para a humanidade. Pois, quando o indiv\u00edduo s\u00f3 existe como parte de um grupo, a consci\u00eancia dissolve-se.<br \/>\nE sem consci\u00eancia individual n\u00e3o h\u00e1 \u00e9tica; sem \u00e9tica, s\u00f3 resta t\u00e9cnica e sem t\u00e9cnica orientada por sentido, resta barb\u00e1rie eficiente.<\/p>\n<p><strong>Para al\u00e9m deste alerta resta a tarefa da consci\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p><strong>A Nova Ordem Mundial \u00e9 inevit\u00e1vel como estrutura, mas n\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel como destino espiritual.<br \/>\nA verdadeira resist\u00eancia j\u00e1 fora da nossa matriz m\u00e1scula n\u00e3o ser\u00e1 militar nem ideol\u00f3gica, mas cultural, \u00e9tica e espiritual.<\/strong><\/p>\n<p>Resta-nos a consola\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito e que a hist\u00f3ria mostra que os imp\u00e9rios caem, as pot\u00eancias mudam, mas a consci\u00eancia humana evolui aos solavancos, atrav\u00e9s de minorias l\u00facidas.<br \/>\nAntes que o humano definhe urge implementar uma cultura da paz que leve a uma nova matriz pol\u00edtico-social! Fortalecer a tradi\u00e7\u00e3o que cuida \u00a0\u00a0n\u00e3o de quem quer vencer, mas de quem quer despertar.<\/p>\n<p>A jeito de conclus\u00e3o<\/p>\n<p>Estamos numa encruzilhada, mas n\u00e3o apenas geopol\u00edtica. \u00c9 uma encruzilhada civilizacional e espiritual.<\/p>\n<p>Ou o mundo aceita a soberania da geografia acompanhada pela ditadura da economia e reduz o ser humano a mero meio ou reencontra a centralidade da pessoa, a pol\u00edticao como \u00e9tica aplicada e a consci\u00eancia humana como verdadeiro poder!<\/p>\n<p>A Nova Ordem Mundial n\u00e3o ser\u00e1 decidida apenas em Washington, Moscovo ou Pequim. Ser\u00e1 decidida na capacidade dos indiv\u00edduos pensarem para al\u00e9m do medo e da perten\u00e7a tribal.<\/p>\n<p><strong>A quest\u00e3o seguinte ser\u00e1 sobre quem ainda poder\u00e1 falar ao humano enquanto humano, sem o reduzir a fun\u00e7\u00e3o, massa ou rebanho.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\n<\/strong>Te\u00f3logo e Pedagogo social<strong><br \/>\n<\/strong>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na encruzilhada: o poder do mundo ou a ess\u00eancia do Homem? \u00a0 O que se costuma chamar-se \u201cNova Ordem Mundial\u201d n\u00e3o \u00e9, em rigor, nova. \u00c9 uma muta\u00e7\u00e3o de forma, n\u00e3o de ess\u00eancia. O poder nunca deixou de se organizar em torno de tr\u00eas eixos: territ\u00f3rio, recursos e narrativa. 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