{"id":10571,"date":"2025-12-31T21:01:04","date_gmt":"2025-12-31T20:01:04","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10571"},"modified":"2025-12-31T21:17:51","modified_gmt":"2025-12-31T20:17:51","slug":"no-cimo-do-monte-sao-silvestre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10571","title":{"rendered":"NO CIMO DO MONTE S\u00c3O SILVESTRE"},"content":{"rendered":"<p>Finalmente, ao entardecer, chegaram ao cume do monte S\u00e3o Silvestre. A subida fora \u00edngreme, e cada um trazia na mochila o peso de todo um ano que findara. Diante deles erguia-se a crista da montanha, um v\u00e9u de granito e n\u00e9voa que lhes ocultava o vale do porvir, o ano seguinte. N\u00e3o buscavam uma vista qualquer; buscavam a paisagem do amanh\u00e3.<\/p>\n<p>O primeiro a falar foi a Queixosa, esfregando os ombros doloridos. \u201cQue penar! Cada passo deste caminho foi uma pedra de des\u00e2nimo. A Europa l\u00e1 em baixo \u00e9 um sal\u00e3o de dan\u00e7a deserto, onde os pares giram, sim, mas em c\u00edrculos vazios, cada qual em torno do seu pr\u00f3prio umbigo. Carregamos uma espada de crise no peito, e falta-nos o f\u00f4lego para dan\u00e7ar.\u201d Desanimada, sentou-se numa pedra, vencida pelo pr\u00f3prio fardo.<\/p>\n<p>A seu lado, o Pessimista acendeu um cigarro, e a brasa tremulou na penumbra como um farol m\u00f3rbido. \u201cO que esperas ver do outro lado? Mais do mesmo, ou pior. O otimismo \u00e9 uma incur\u00e1vel doen\u00e7a da vista. O mundo tornou-se um espelho partido: cada fragmento reflete uma \u2018verdade\u2019 absoluta, barulhenta e morta. Possu\u00edmos todo o conhecimento, mas perdemos o tambor da reflex\u00e3o. O barulho das not\u00edcias e dos dan\u00e7arinos do poder abafa o sil\u00eancio da sabedoria. \u00c9 o fim da resson\u00e2ncia. A alma j\u00e1 morreu; o que v\u00eas \u00e9 o corpo a sofrer e a espantar-se.\u201d<\/p>\n<p>Uma risada clara cortou o ar, vinda da Otimista, que estendia os bra\u00e7os como se abra\u00e7asse o vento. \u201cMas olhem para tr\u00e1s! Subimos! Cada passo, por mais \u00ednfimo, foi uma boa a\u00e7\u00e3o contra a impot\u00eancia. A luz n\u00e3o se apagou; apenas mudou de lugar. Agora vem de dentro, da conex\u00e3o divina, como a das estrelas. N\u00e3o precisamos de projetores, nem de espectadores, a escurid\u00e3o l\u00e1 fora \u00e9 grande como num planeta morto dependente da luz alheia. Precisamos \u00e9 de acender a nossa pr\u00f3pria chama e dan\u00e7ar, n\u00e3o em c\u00edrculos ego\u00edstas, mas num grande concerto, onde o ritmo seja o pulsar de boas vontades!\u201d<\/p>\n<p>Um homem idoso, a quem todos chamavam o S\u00e1bio, ouvira em sil\u00eancio. Os seus olhos pareciam ver para l\u00e1 da n\u00e9voa. \u201cNos tr\u00eas manifesta-se a raz\u00e3o \u201c, come\u00e7ou, calmamente. \u201cA subida foi penosa para Queixosa. O vale que deix\u00e1mos est\u00e1 intoxicado de informa\u00e7\u00e3o vazia e de medo para o Pessimista. E s\u00f3 a energia do esp\u00edrito, essa dan\u00e7a interior, nos trouxe at\u00e9 aqui como disse o Optimista. O erro \u00e9 pensarmos que a paisagem que buscamos \u00e9 algo totalmente novo. Ela \u00e9 a mesma de sempre, apenas esquecida. Os pilares est\u00e3o nela: a colina da Raz\u00e3o, que vem da Gr\u00e9cia; o caminho da Lei e a estrutura que vem de Roma; e o rio da Espiritualidade, que vem do deserto e da Galileia que deu sentido, n\u00e3o como museu, mas como fonte viva. Desconectamo-nos da nossa pr\u00f3pria cultura. Recuper\u00e1-la n\u00e3o \u00e9 voltar atr\u00e1s; \u00e9 procurar a b\u00fassola.\u201d<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que se ergueu o Profeta. N\u00e3o falava com frequ\u00eancia, e as suas palavras carregavam um peso quieto. \u201cO imperador Constantino, em desespero por um imp\u00e9rio que amea\u00e7ava afundar-se, convocou um conc\u00edlio para salvar um imp\u00e9rio que j\u00e1 sangrava por dentro. N\u00f3s convocamo-nos a n\u00f3s mesmos, no encontro da nossa ipseidade. A m\u00e1quina da guerra n\u00e3o se desarma com gritos de guerra. A paz \u2018gratuita\u2019 constr\u00f3i-se com pequenos passos pessoais, tornando-nos estrelas que brilham com luz pr\u00f3pria. N\u00e3o esperemos pelos governantes, condicionados \u00e0 quantidade e ao ef\u00eamero. O desfasamento entre a montanha e a plan\u00edcie permanecer\u00e1.\u201d<\/p>\n<p>Fixou o v\u00e9u de n\u00e9voa. \u201cO outro lado do monte n\u00e3o nos ser\u00e1 revelado por um clar\u00e3o. A neblina dissipar-se-\u00e1 devagar, conforme n\u00f3s, um a um, come\u00e7armos a dan\u00e7ar a dan\u00e7a sensorial da vida, n\u00e3o para impedir a queda de um imp\u00e9rio, mas para celebrar a ascens\u00e3o de uma humanidade que se recorda de si mesma e n\u00e3o esquece a sua hist\u00f3ria. O otimismo n\u00e3o \u00e9 uma cren\u00e7a cega em solu\u00e7\u00f5es escondidas. \u00c9 a coragem de actuar, mesmo na escurid\u00e3o, confiando que a nossa luz interior \u00e9 farol e semente.\u201d<\/p>\n<p>O grupo ficou em sil\u00eancio. A noite ca\u00edra, e as primeiras estrelas, verdadeiras, furaram o manto do c\u00e9u. J\u00e1 n\u00e3o ansiavam por ver o vale escondido de imediato. Compreenderam que a paisagem do ano que se aproxima se desenharia com a qualidade dos seus pr\u00f3ximos passos na descida. A Queixosa enxugou uma l\u00e1grima, n\u00e3o de pena, mas de al\u00edvio. O Pessimista apagou o cigarro e contemplou as estrelas. A Optimista sorriu, sentindo o concerto a formar-se. O S\u00e1bio fez um gesto de concord\u00e2ncia. O Profeta indicou o caminho de volta, para baixo, para o mundo.<\/p>\n<p>Ao iniciarem a descida pelo flanco oculto do monte, o caminho revelou-se mais escuro e incerto do que a subida. Um sil\u00eancio pensativo pairava sobre o grupo, at\u00e9 que a Queixosa, trope\u00e7ando numa raiz, exclamou: &#8220;E agora? Tanta conversa l\u00e1 no cume, e o caminho \u00e9 s\u00f3 pedra e sombra!&#8221;<\/p>\n<p>O S\u00e1bio, caminhando \u00e0 frente com passo firme, sorriu e n\u00e3o se voltou, mas a sua voz ecoou suave como um rio subterr\u00e2neo:<\/p>\n<p>\u201cIsso lembra-me uma par\u00e1bola antiga de tr\u00eas viajantes a quem foi dada, a cada um, uma pequena semente de luz. O primeiro guardou-a num relic\u00e1rio, com medo de a perder. O segundo passou a vida a admir\u00e1-la, a louvar o seu potencial e a descrever a \u00e1rvore gloriosa que dela nasceria. O terceiro, sem cerim\u00f3nia, curvou-se e plantou-a na terra dura do caminho. Regou-a com o pouco que tinha: paci\u00eancia e a\u00e7\u00e3o di\u00e1ria.<\/p>\n<p>O Pessimista interrompeu, cinicamente: \u201cDeixem-me adivinhar. S\u00f3 a do terceiro cresceu.\u201d<\/p>\n<p>\u201cMais do que isso\u201d, continuou o S\u00e1bio. \u201cA do primeiro apodreceu na perfei\u00e7\u00e3o est\u00e1tica. A do segundo tornou-se um mito bonito, mas est\u00e9ril. A do terceiro, por se haver confiado \u00e0 terra crua, brotou. E quando a noite mais cerrada chegou, a pequena planta come\u00e7ou a emitir uma claridade pr\u00f3pria, n\u00e3o para se exibir, mas para iluminar o caminho para os que vinham atr\u00e1s.<\/p>\n<p>O Profeta, atento, completou, com a sua voz que parecia vir de longe:<\/p>\n<p>\u201cIte, missa est. A assembleia no cume terminou. A semente da reflex\u00e3o foi recebida. Agora, descemos. A descida \u00e9 o plantar. Cada passo firme neste tro\u00e7o dif\u00edcil \u00e9 regar. A boa a\u00e7\u00e3o, por mais pequena, \u00e9 o sol que a faz brotar. N\u00e3o levar\u00e3o a \u00e1rvore consigo; plantar\u00e3o, no caminhar, uma floresta de estrelas ao longo do caminho.\u201d<\/p>\n<p>A Optimista foi o primeiro a entender. Os seus olhos brilharam com uma luz que n\u00e3o era reflexo da lua. &#8220;A paisagem que busc\u00e1vamos&#8221;, disse ela, &#8220;n\u00e3o estava para l\u00e1 do monte. Est\u00e1 no sulco que abrimos ao descer. Na semente do esp\u00edrito dan\u00e7ante que decidirmos plantar hoje, agora, em cada momento.&#8221;<\/p>\n<p>O grupo seguiu em sil\u00eancio, mas um sil\u00eancio diferente. J\u00e1 n\u00e3o era de expectativa, mas de pacto. Cada um levava no bolso a sua semente \u00fanica: a mem\u00f3ria da cultura esquecida, a cr\u00edtica que n\u00e3o se resigna, a esperan\u00e7a que n\u00e3o desiste e a sabedoria que liga. E naquela descida para o vale do ano iniciante, come\u00e7aram todos, simplesmente, a plantar.<\/p>\n<p>A obra come\u00e7ara. N\u00e3o como um projeto grandioso, mas como uma s\u00e9rie de gestos pequenos e luminosos, sulcando a terra dura do tempo, \u00e0 espera do amanhecer. E enquanto houver almas desperta, a hist\u00f3ria ainda pode mudar de rumo.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Finalmente, ao entardecer, chegaram ao cume do monte S\u00e3o Silvestre. A subida fora \u00edngreme, e cada um trazia na mochila o peso de todo um ano que findara. Diante deles erguia-se a crista da montanha, um v\u00e9u de granito e n\u00e9voa que lhes ocultava o vale do porvir, o ano seguinte. 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