{"id":10552,"date":"2025-12-27T18:52:07","date_gmt":"2025-12-27T17:52:07","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10552"},"modified":"2025-12-27T18:52:07","modified_gmt":"2025-12-27T17:52:07","slug":"a-voz-que-nao-se-apaga-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10552","title":{"rendered":"A VOZ QUE N\u00c3O SE APAGA (1)"},"content":{"rendered":"<p>Lisboa, dezembro de 2024. No Parque das Na\u00e7\u00f5es, onde a Expo outrora prometeu um mundo sem fronteiras, ergue-se agora um cubo de vidro fumado. Dentro, cinco pessoas sentam-se \u00e0 volta de uma mesa redonda; n\u00e3o h\u00e1 cabeceira, mas o poder sabe sempre onde se sentar.<\/p>\n<p>No centro, um ecr\u00e3 projecta uma fotografia a preto e branco: homens de uniformes diferentes, chap\u00e9us de a\u00e7o postos de lado, trocam cigarros num terreno de ningu\u00e9m coberto de geada. O som de Stille Nacht, em alem\u00e3o e ingl\u00eas, preenche o espa\u00e7o, numa grava\u00e7\u00e3o mem\u00f3ria de 1914. A voz arranha-se na grava\u00e7\u00e3o antiga, mas ainda se ouve o imposs\u00edvel: inimigos a tornarem-se homens.<\/p>\n<p><strong>Catarina<\/strong> \u00e9 a primeira a falar. Tem sessenta e tal anos, cabelo grisalho preso num coque frouxo, m\u00e3os que j\u00e1 lavaram demasiadas feridas. Trabalha numa IPSS no Martim Moniz. A cruz que traz ao peito \u00e9 de madeira barata.<br \/>\n&#8220;Eles ouviram qualquer coisa naquela noite. Uma coisa que n\u00e3o estava nas ordens, que n\u00e3o vinha dos generais. Vinha de dentro, da gruta do cora\u00e7\u00e3o. Cantaram e lembraram-se de que, antes de serem soldados, eram homens, filhos, pais, irm\u00e3os.&#8221; Catarina faz uma pausa. &#8220;Hoje, o Natal \u00e9 o Continente a bombar m\u00fasicas em Dezembro. A paz \u00e9 um an\u00fancio da EDP. A voz do poder aprendeu a falar mais alto do que o cora\u00e7\u00e3o. E n\u00f3s? Continuamos a mandar os nossos mi\u00fados morrer longe de casa, agora em miss\u00f5es em defesa da guerra dos outros.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Tom\u00e1s Almeida<\/strong>, general reformado, agora \u00e9 consultor de seguran\u00e7a (que \u00e9 como quem diz: vende medo por medida), acende um cigarro eletr\u00f3nico. Sopra vapor para o ar, nem o fumo \u00e9 s\u00e9rio.<br \/>\n&#8220;Bonito, Catarina. Muito bonito, esta de sentimentos. Mas aqueles soldados podiam ter perdido a guerra naquela noite. A paz verdadeira n\u00e3o se canta, constr\u00f3i-se. Com for\u00e7a, com fronteiras, com quem est\u00e1 disposto a defend\u00ea-las.&#8221; Com decis\u00e3o, aponta o cigarro para o ecr\u00e3. &#8220;S\u00e3o os fortes que determinam os per\u00edodos de paz. Aquilo foi indisciplina. Hoje temos drones, vigil\u00e2ncia, psic\u00f3logos militares. Garantimos que os soldados n\u00e3o fraternizam com quem deve ser abatido.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Elias<\/strong> \u00e9 metal\u00fargico da Lisnave. Tem m\u00e3os grandes, n\u00f3s nos dedos, olhos pequenos, mas atentos. Representa o sindicato na comiss\u00e3o europeia dos trabalhadores do a\u00e7o.<br \/>\n&#8220;O senhor general v\u00ea indisciplina. Eu vejo outra coisa: homens que perceberam que estavam a ser enganados. A gan\u00e2ncia \u00e9 sempre a mesma; os ricos mandam, os pobres sangram. Ontem foi na Jugosl\u00e1via, no Afeganist\u00e3o, hoje \u00e9 na Ucr\u00e2nia, amanh\u00e3 \u00e9 em \u00c1frica, mas o patr\u00e3o \u00e9 o mesmo: o lucro. Os mesmos que hoje usam o PIB, suado pelo povo, para comprar morte, em vez de semear vida. E se peg\u00e1ssemos nesse dinheiro todo das armas e o met\u00eassemos em hospitais? Em escolas? Em sal\u00e1rios que dessem para viver?&#8221;<\/p>\n<p>Ao lado dele, <strong>Leonor<\/strong>, de trinta e poucos, jornalista livre que j\u00e1 n\u00e3o acredita em reda\u00e7\u00f5es, mexe no tablet. A cena de 1914 ganha vida, os soldados movem-se em c\u00e2mara lenta, partilham chocolate, sorriem.<br \/>\n&#8220;Sim, eles foram enganados. O \u00f3dio foi a ferramenta; disseram-lhes: &#8216;N\u00f3s somos os bons; eles, os maus&#8217;. A mesma narrativa corre hoje, General, nas suas narrativas estrat\u00e9gicas. E se, em vez de instrumentalizar o povo para a guerra, o instrumentaliz\u00e1ssemos para a paz? Em vez do servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio, houvesse um servi\u00e7o social obrigat\u00f3rio em que cada uma podia exercer o seu servi\u00e7o onde a necessidade o chamasse. Um ano a construir casas, a ensinar crian\u00e7as, a plantar \u00e1rvores. Um ano a conhecer o &#8216;inimigo&#8217; antes de o matar. Aprender a construir pontes, n\u00e3o trincheiras, a cuidar da terra e n\u00e3o arras\u00e1-la. A voz do povo, quando livre do veneno da propaganda, \u00e9 a voz de Deus. E Deus, naquele campo gelado, cantou, Noite feliz&#8230;\u201d<\/p>\n<p><strong>Tom\u00e1s <\/strong>riu-se, com um som seco.<br \/>\n\u201cDeus? A voz do povo \u00e9 vol\u00favel, emocional. Precisa de dire\u00e7\u00e3o. Sem divis\u00e3o, sem o \u201cn\u00f3s contra eles\u201d, n\u00e3o h\u00e1 coes\u00e3o nacional, n\u00e3o h\u00e1 identidade a defender. O diabo, como dizem, \u00e9 aquele que divide. Mas \u00e0s vezes, a divis\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para afirmar quem somos.\u201d<\/p>\n<p><strong>Catarina<\/strong> ergue-se e a sua sombra projetava-se sobre os soldados hologr\u00e1ficos.<br \/>\n\u201cN\u00e3o! O diabo \u00e9 exatamente aquele que divide para se afirmar! Deus une no canto, no reconhecimento do outro como irm\u00e3o. Aquele momento de 1914 foi uma brecha no projeto diab\u00f3lico da guerra. Os comandantes, sim, esses instrumentos do poder distante, apagaram-na. Proibiram a paz. Porque a paz verdadeira desarma os poderosos.\u201d<\/p>\n<p>A quinta pessoa n\u00e3o falou ainda. <strong>Rui<\/strong> \u00e9 historiador, apenas observa. De cabelo desgrenhado, \u00f3culos tortos, sil\u00eancio de arquivo, representa a mem\u00f3ria. Rui toca no tablet e o ecr\u00e3 muda.<br \/>\nAgora v\u00eaem-se telegramas: &#8220;Esta fraterniza\u00e7\u00e3o \u00e9 trai\u00e7\u00e3o.&#8221; &#8220;Qualquer oficial que permita contacto ser\u00e1 julgado.&#8221; E depois, imagens de 1915: a lama, os mortos, o g\u00e1s mostarda a devorar pulm\u00f5es.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m fala, um sil\u00eancio pesado cai sobre a sala!<\/p>\n<p><strong>Elias <\/strong>rompe o sil\u00eancio, com a voz rouca de tabaco e f\u00e1bricas:<br \/>\n&#8221; Alem\u00e3es, ingleses, franceses enterraram os mortos juntos, com as pr\u00f3prias m\u00e3os. Reconheceram-se ao aceitarem a humanidade comum que os motivava a agir assim. \u00c9 esse o caminho: Nivelar as trincheiras da Ucr\u00e2nia, da R\u00fassia, da Europa inteira, e sobre elas erguer torres de paz. F\u00e1bricas de esperan\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p><strong>Leonor<\/strong> inclina-se para a frente:<br \/>\n&#8220;Mas porqu\u00ea a guerra, afinal? O esp\u00edrito de 1914 n\u00e3o morreu. &#8220;A guerra destr\u00f3i a esperan\u00e7a antes mesmo de destruir os corpos. Mata o futuro antes de matar as crian\u00e7as.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Rui <\/strong>mexe de novo no tablet. Aparecem imagens de agora: manifesta\u00e7\u00f5es a favor da paz, volunt\u00e1rios de na\u00e7\u00f5es inimigas ajudando civis, jovens de ambos os lados de uma fronteira imagin\u00e1ria a plantar \u00e1rvores juntos. S\u00e3o fragmentos, pequenas tr\u00e9guas natal\u00edcias invis\u00edveis para os grandes notici\u00e1rios empenhados em justificar a cultura b\u00e9lica.<\/p>\n<p><strong>Catarina<\/strong> fecha os olhos e come\u00e7a a cantar, baixinho:<\/p>\n<p>&#8220;Noite feliz, noite de paz&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>A voz \u00e9 fr\u00e1gil, cansada, mas n\u00e3o quebra.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s olha para ela. Quer dizer qualquer coisa, mas n\u00e3o diz. Elias murmura a melodia. Leonor sorri, com os olhos marejados. E Rui, sempre calado, move os l\u00e1bios.<\/p>\n<p>O Historiador aumenta o volume do canto original de 1914. As duas can\u00e7\u00f5es, a do passado e a do presente, entrela\u00e7am-se, criando uma harmonia estranha e comovente. Por um instante, as divis\u00f5es ideol\u00f3gicas parecem trincheiras a serem aterradas.<\/p>\n<p>A reuni\u00e3o n\u00e3o chega a lado nenhum. As decis\u00f5es de guerra seguir\u00e3o o seu curso nos corredores do poder, enquanto o povo n\u00e3o conseguir ter Voz. As armas continuar\u00e3o a ser vendidas. As guerras ter\u00e3o financiamento. Os discursos inflamados justificando a guerra continuar\u00e3o a correr nos meios de comunica\u00e7\u00e3o e nas redes sociais como veneno doce.<\/p>\n<p>Mas naquela sala, durante tr\u00eas minutos e quarenta segundos, uma verdade ressuscitou: a paz n\u00e3o \u00e9 um tratado. \u00c9 um canto: Noite feliz, Adeste Fideles!<\/p>\n<p>\u00c9 um canto que nasce onde as ordens n\u00e3o chegam e que reconhece no rosto do inimigo o mesmo medo, a mesma saudade de casa, a mesma fome de sentido.<\/p>\n<p>O ecr\u00e3 apaga-se. A sala fica vazia.<\/p>\n<p>Mas l\u00e1 fora, no Martim Moniz, um grupo de jovens, portugueses, brasileiros, guineenses, angolanos, ucranianos, russos e iranianos, acende velas. Cantam \u201cNoite Feliz\u201d em quatro l\u00ednguas ao mesmo tempo. Era um \u201cNoite Feliz\u201d um pouco desafinado, imperfeito, mas sinal de uma imperfei\u00e7\u00e3o redentora. \u00c9 pouco, mas \u00e9 come\u00e7o.<\/p>\n<p>A paz \u00e9 o acto de resist\u00eancia atrav\u00e9s da voz humana que se recusa a calar. Resist\u00eancia pressup\u00f5e hombridade e prepara\u00e7\u00e3o para n\u00e3o se deixar arrastar pelo vento cicl\u00f3nico militarista que parece at\u00e9 arrancar e arrastar os \u201ccedros do L\u00edbano\u201d.<\/p>\n<p>Dedico este conto:<\/p>\n<p>Ao meu pa\u00eds, que j\u00e1 foi imp\u00e9rio e hoje mal \u00e9 casa.<br \/>\nAos que cantam quando mandam calar.<br \/>\nAo Natal que ainda pode vir.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nLisboa, Inverno de 2024<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo:<\/p>\n<p>(1) A Tr\u00e9gua de Natal de 1914 foi um epis\u00f3dio ver\u00eddico e espont\u00e2neo da Primeira Guerra Mundial, onde soldados inimigos (alem\u00e3es e brit\u00e2nicos\/aliados) cessaram hostilidades em partes da Frente Ocidental.<br \/>\nO evento come\u00e7ou na v\u00e9spera de Natal, quando soldados alem\u00e3es decoraram suas trincheiras com velas e cantaram &#8220;Stille Nacht&#8221;. Os aliados responderam cantando &#8220;Silent Night&#8221; em ingl\u00eas. Encorajados, ambos os lados sa\u00edram desarmados para a &#8220;terra de ningu\u00e9m&#8221;, onde confraternizaram, trocaram presentes (como cigarros e comida), enterraram seus mortos e at\u00e9 jogaram futebol improvisado.<br \/>\nApesar de ser um poderoso s\u00edmbolo de humanidade, a tr\u00e9gua foi isolada e \u00fanica daquele primeiro Natal de guerra, n\u00e3o se repetindo nos anos seguintes devido \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o dos altos comandos. Seu registro hist\u00f3rico \u00e9 s\u00f3lido, baseado em cartas, di\u00e1rios e relatos dos pr\u00f3prios soldados.<br \/>\nEm outubro de 2024, ap\u00f3s milhares de mortos, a guerra na Ucr\u00e2nia entrou numa nova fase e no que os analistas descrevem como o momento mais perigoso at\u00e9 agora. Esta preocupa\u00e7\u00e3o que angustia o meu esp\u00edrito e esp\u00edritos atentos motivou-me a fazer este conto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, dezembro de 2024. No Parque das Na\u00e7\u00f5es, onde a Expo outrora prometeu um mundo sem fronteiras, ergue-se agora um cubo de vidro fumado. Dentro, cinco pessoas sentam-se \u00e0 volta de uma mesa redonda; n\u00e3o h\u00e1 cabeceira, mas o poder sabe sempre onde se sentar. 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