{"id":10538,"date":"2025-12-22T22:02:20","date_gmt":"2025-12-22T21:02:20","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10538"},"modified":"2025-12-22T23:00:59","modified_gmt":"2025-12-22T22:00:59","slug":"o-povo-na-democracia-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10538","title":{"rendered":"O PALCO DO PODER ENTRE A COROA E OS VOTOS (1)"},"content":{"rendered":"<p>Mudou-se o nome da coroa,<br \/>\nn\u00e3o o brilho.<br \/>\nO rei aprendeu a chamar-se presidente<br \/>\ne desceu do trono<br \/>\napenas para subir ao ecr\u00e3.<\/p>\n<p>Disseram ao povo:<br \/>\nagora \u00e9s soberano.<\/p>\n<p>E entregaram-lhe uma urna,<br \/>\ncaixa sagrada<br \/>\nonde cada um deposita a sua voz<br \/>\npara nunca mais a reclamar.<\/p>\n<p>A soberania individual<br \/>\nentra dobrada em papel,<br \/>\nselada,<br \/>\narquivada<br \/>\nno sil\u00eancio solene do voto.<br \/>\nSai de l\u00e1 dissolvida,<br \/>\nan\u00f3nima<br \/>\nsem direito a recurso.<\/p>\n<p>O povo vota.<br \/>\nE ao votar, ausenta-se.<\/p>\n<p>Ergue a cabe\u00e7a como lhe ensinaram,<br \/>\nn\u00e3o para escolher o caminho,<br \/>\nmas para reconhecer a aura<br \/>\ncom nova gram\u00e1tica.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 sangue azul,<br \/>\nh\u00e1 protocolo e mandato.<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 corte,<br \/>\nh\u00e1 gabinete e plen\u00e1rio.<br \/>\nO gesto \u00e9 o mesmo:<br \/>\nm\u00e3o que promete,<br \/>\nvoz que absolve,<br \/>\nolhar que nunca responde.<\/p>\n<p>O eleito sobe<br \/>\ne com ele sobe a imunidade.<br \/>\nQuanto mais alto o cargo,<br \/>\nmais leve a culpa.<br \/>\nA responsabilidade cai,<br \/>\nn\u00e3o acompanha a ascens\u00e3o.<\/p>\n<p>O poder perdeu a coroa<br \/>\npara ganhar inviolabilidade.<br \/>\nE o povo ganhou um nome antigo<br \/>\nCidad\u00e3o<br \/>\npara continuar sem rosto.<\/p>\n<p>Chamam-lhe democracia<br \/>\ncomo quem muda a moldura<br \/>\ne mant\u00e9m o retrato.<br \/>\nH\u00e1 elei\u00e7\u00f5es como havia aclama\u00e7\u00f5es,<br \/>\nh\u00e1 discursos onde antes havia \u00e9ditos,<br \/>\nh\u00e1 f\u00e9 civil<br \/>\nonde antes havia f\u00e9 divina.<\/p>\n<p>Os anjos reciclam as asas,<br \/>\nos arcanjos mudam de fato,<br \/>\ne o povo continua ch\u00e3o<br \/>\nagora constitucional.<\/p>\n<p>Figura central do quadro,<br \/>\nmas apenas como prim\u00e1rio da pintura.<br \/>\nAutor do poder,<br \/>\nmas exclu\u00eddo da autoria dos seus actos.<\/p>\n<p>E assim, o cidad\u00e3o,<br \/>\ncom a cabe\u00e7a erguida por decreto<br \/>\ne a soberania arquivada por rito,<br \/>\naprendeu a arte mais moderna<br \/>\ne mais antiga:<\/p>\n<p>entregar-se inteiro<br \/>\nem nome da escolha<br \/>\ne assistir, liberto de si,<br \/>\n\u00e0 irresponsabilidade dos eleitos!<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>(1) Escrevi estes versos no crep\u00fasculo dourado de uma era politicamente an\u00e9mica, onde os nossos dign\u00edssimos governantes se contorcem como marionetas de um teatrinho particularmente reluzente. Oh, que esplendor, ver-se figurinos mais que eleitos! Talvez banhados por uma luz celestial ou qui\u00e7\u00e1 por um brilho menos divino, oriundo de certas bebidas modernas ou das lentes enviesadas das c\u00e2maras de televis\u00e3o. Quem saber\u00e1? A fronteira entre a inspira\u00e7\u00e3o sublime e a pura extravag\u00e2ncia \u00e9, afinal, t\u00e3o t\u00e9nue como a linha que separa o discurso pol\u00edtico do murm\u00fario n\u00e9scio.<\/p>\n<p>Mas eis o facto, cru e deliciosamente pat\u00e9tico: quando se re\u00fanem no sagrado palco de Bruxelas, erguendo as m\u00e3os em gestos coreografados, a Europa inteira mergulha num estado de sonambulismo colectivo. Que espet\u00e1culo! N\u00e3o s\u00e3o governantes, n\u00e3o, s\u00e3o figurinos de encomenda, manequins de gravata, arautos de um vazio ret\u00f3rico t\u00e3o amplo que nele cabem, confortavelmente, as esperan\u00e7as de um povo agora reduzido a plateia. E n\u00f3s, pobres mortais, aplaudimos ou bocejamos perante a mesma com\u00e9dia repetida, enquanto eles, l\u00e1 no alto, tecem os fios do nosso del\u00edrio comum.<\/p>\n<p>Que \u00e9poca sublime, ir\u00f3nica, e dolosa figura fazem os nossos figurinos \u00e0 frente das capitais!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mudou-se o nome da coroa, n\u00e3o o brilho. O rei aprendeu a chamar-se presidente e desceu do trono apenas para subir ao ecr\u00e3. Disseram ao povo: agora \u00e9s soberano. E entregaram-lhe uma urna, caixa sagrada onde cada um deposita a sua voz para nunca mais a reclamar. 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