{"id":10506,"date":"2025-12-17T17:24:15","date_gmt":"2025-12-17T16:24:15","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10506"},"modified":"2025-12-21T23:24:14","modified_gmt":"2025-12-21T22:24:14","slug":"quando-a-confianca-acende-a-noite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10506","title":{"rendered":"QUANDO A CONFIAN\u00c7A ACENDE A NOITE"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Medo, confian\u00e7a e o sagrado da inf\u00e2ncia <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O medo acompanha o humano desde sempre. Antes de ser emo\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica ou instrumento pol\u00edtico, \u00e9 experi\u00eancia elementar; \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o do corpo e da imagina\u00e7\u00e3o perante o desconhecido. No escuro, o medo intensifica-se porque a realidade perde contornos. O invis\u00edvel expande-se e, com ele, a sensa\u00e7\u00e3o de amea\u00e7a. No entanto, n\u00e3o \u00e9 o escuro em si que paralisa, mas a aus\u00eancia de confian\u00e7a.<\/p>\n<p>A confian\u00e7a n\u00e3o elimina a noite da vida! Ela acende uma luz interior que permite caminhar nela.<\/p>\n<p><strong>O medo como experi\u00eancia origin\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um medo saud\u00e1vel, inato, ligado \u00e0 sobreviv\u00eancia. Ele protege, alerta e prepara o corpo para reagir. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m um medo que nasce quando o mundo deixa de ser percebido como habit\u00e1vel. Este medo n\u00e3o reage a um perigo concreto; reage \u00e0 incerteza radical.<\/p>\n<p>Na crian\u00e7a, essa experi\u00eancia \u00e9 total. O escuro n\u00e3o \u00e9 apenas falta de luz: \u00e9 espa\u00e7o onde a fantasia e a realidade caminham juntas. O medo n\u00e3o \u00e9 irracional; \u00e9 proporcional \u00e0 intensidade do mist\u00e9rio. A crian\u00e7a ainda n\u00e3o separou o vis\u00edvel do invis\u00edvel, o simb\u00f3lico do real. Por isso, o medo \u00e9 tamb\u00e9m abertura, abertura mal protegida.<\/p>\n<p><strong>A inf\u00e2ncia como lugar do sagrado<\/strong><\/p>\n<p>A inf\u00e2ncia \u00e9 o lugar onde o mundo ainda se apresenta como presen\u00e7a antes de conceito. O sagrado n\u00e3o \u00e9 uma ideia, mas sim uma atmosfera. A crian\u00e7a n\u00e3o pergunta se algo \u00e9 verdadeiro; pergunta se \u00e9 confi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Por isso, a confian\u00e7a \u00e9 a primeira forma de f\u00e9. Antes de qualquer doutrina, h\u00e1 a experi\u00eancia de se ser acompanhado. O sagrado manifesta-se como proximidade, como guarda silenciosa, como certeza difusa de que o mundo, apesar do escuro, n\u00e3o \u00e9 hostil.<\/p>\n<p>Quando essa confian\u00e7a existe, o medo n\u00e3o desaparece, mas perde o poder de fechar o horizonte.<\/p>\n<p><strong>Uma mem\u00f3ria: rezar no escuro<\/strong><\/p>\n<p>Entre os nove e os doze anos, quando regressava sozinho de casa da minha av\u00f3, em Santa Marinha de Trope\u00e7o, situada atr\u00e1s de um monte, a cerca de um quil\u00f3metro da casa dos meus pais, em V\u00e1rzea, eu atravessava a noite envolto no escuro e nas sombras. O caminho era o mesmo, mas \u00e0 noite tornava-se outro, devido \u00e0s sombras, aos ru\u00eddos, \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o desperta. Para uma crian\u00e7a, a noite n\u00e3o \u00e9 apenas aus\u00eancia de luz: \u00e9 espa\u00e7o povoado de presen\u00e7as, de figuras indefinidas e de receios que n\u00e3o s\u00e3o ainda distinguidos entre o imaginado e o real.<\/p>\n<p>N\u00e3o combatia o medo com explica\u00e7\u00f5es, mas com uma pr\u00e1tica simples aprendida de minha m\u00e3e. Rezava todo o percurso uma ora\u00e7\u00e3o popular. Ao rezar, algo se mudava: o espa\u00e7o deixava de ser vazio e o caminho tornava-se habitado. O medo continuava presente, mas eu j\u00e1 n\u00e3o estava sozinho. A ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o afastava perigos reais nem imagin\u00e1rios; reinscrevia o medo numa rela\u00e7\u00e3o. O escuro continuava escuro, mas j\u00e1 n\u00e3o era absoluto. (Talvez seja isso que mais nos falta hoje: n\u00e3o a aus\u00eancia de medo, mas palavras, rituais e v\u00ednculos que nos permitam atravess\u00e1-lo sem nos deixarmos governar por ele.) Apresento aqui a ora\u00e7\u00e3o, uma mem\u00f3ria da minha inf\u00e2ncia, tempo em que o mundo ainda se apresentava como imagem habitada de sentido e onde fantasia e realidade percorriam a mesma estrada.<\/p>\n<p>S\u00e3o Bartolomeu me disse<br \/>\nque n\u00e3o tivesse medo de nada,<br \/>\nnem da noite nem da sombra<br \/>\nnem do que tem a m\u00e3o furada.<\/p>\n<p>Quatro cantos tem a casa,<br \/>\nquatro velinhas a arder.<br \/>\nQuatro anjos me acompanhem,<br \/>\nse esta noite eu morrer.<\/p>\n<p>Hoje compreendo: aquela ora\u00e7\u00e3o era um interruptor de luz. N\u00e3o iluminava o caminho exterior, mas acendia uma confian\u00e7a interior que permitia avan\u00e7ar; funcionava como teologia elementar. Como crian\u00e7a n\u00e3o precisava de explica\u00e7\u00f5es; precisava de saber-me acompanhado. A f\u00e9, antes de ser conceito, era companhia no escuro.<\/p>\n<p><strong>Confian\u00e7a: n\u00e3o \u00e9 nega\u00e7\u00e3o do medo, mas abertura \u00e0 vida<\/strong><\/p>\n<p>A confian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 ingenuidade nem fuga da realidade. \u00c9 uma decis\u00e3o existencial: aceitar que a vida n\u00e3o \u00e9 totalmente transparente, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 absurda. Onde h\u00e1 confian\u00e7a, o medo deixa de ser centro organizador da experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Teologicamente, a confian\u00e7a \u00e9 rela\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se confia no vazio, mas numa presen\u00e7a, nomeada ou n\u00e3o, algo que nos acompanha. A confian\u00e7a cria resson\u00e2ncia: com o mundo, com os outros, consigo mesmo. Ela abre em vez de fechar, acolhe em vez de excluir.<\/p>\n<p>Por isso, um ser humano confiante n\u00e3o precisa de controlar tudo. Pode caminhar no escuro sem se deixar dominar por ele.<\/p>\n<p><strong>Quando a confian\u00e7a desaparece, o medo governa<\/strong><\/p>\n<p>Uma sociedade que perde a confian\u00e7a fundamental torna-se vulner\u00e1vel \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o. O medo ocupa o lugar do sentido. Fecha-se ao outro, ao futuro, \u00e0 complexidade. O escuro deixa de ser mist\u00e9rio e torna-se amea\u00e7a absoluta.<\/p>\n<p>Por isso, quem governa pelo medo desconfia profundamente da confian\u00e7a e despreza o humano. Um povo confiante pensa, discerne, dialoga. Um povo dominado pelo medo aceita quase tudo.<\/p>\n<p><strong>Acender a luz sem destruir a noite<\/strong><\/p>\n<p>A confian\u00e7a n\u00e3o destr\u00f3i a noite; ela humaniza-a. N\u00e3o elimina o medo; coloca-o numa rela\u00e7\u00e3o maior. Talvez seja esta a tarefa espiritual do nosso tempo: reaprender a acender pequenas luzes interiores que nos permitam caminhar juntos no escuro.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a que reza no caminho ensina ao adulto que pensa: a vida n\u00e3o precisa de ser totalmente compreendida para ser vivida. Basta que seja confi\u00e1vel. E quando a confian\u00e7a se acende, o mundo, mesmo na sombra, volta a ressoar como lar.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Te\u00f3logo e Pedagogo<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Medo, confian\u00e7a e o sagrado da inf\u00e2ncia O medo acompanha o humano desde sempre. Antes de ser emo\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica ou instrumento pol\u00edtico, \u00e9 experi\u00eancia elementar; \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o do corpo e da imagina\u00e7\u00e3o perante o desconhecido. No escuro, o medo intensifica-se porque a realidade perde contornos. 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