{"id":10478,"date":"2025-12-10T14:53:22","date_gmt":"2025-12-10T13:53:22","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10478"},"modified":"2025-12-10T16:01:46","modified_gmt":"2025-12-10T15:01:46","slug":"da-europa-armada-a-europa-pensante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10478","title":{"rendered":"DA EUROPA ARMADA \u00c0 EUROPA PENSANTE"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Urg\u00eancia de uma Cultura de Paz versus Neocolonialismo mental<\/strong><\/p>\n<p><strong>Quando a guerra deixa de ser excep\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A Europa atravessa um momento hist\u00f3rico de particular gravidade. N\u00e3o apenas pelos conflitos armados nas suas fronteiras alargadas, mas sobretudo pela transforma\u00e7\u00e3o silenciosa da guerra em horizonte normal da pol\u00edtica. O rearmamento acelerado, o discurso da inevitabilidade do conflito e a aceita\u00e7\u00e3o quase acr\u00edtica de exig\u00eancias como a da NATO para investir 5% do PIB na militariza\u00e7\u00e3o indicam que estamos perante uma mudan\u00e7a civilizacional, n\u00e3o meramente estrat\u00e9gica, mas cultural e moral de consequ\u00eancias tr\u00e1gicas.<\/p>\n<p>Neste contexto, a Nota Pastoral da Confer\u00eancia Episcopal Italiana (CEI), de 5 de dezembro de 2025, com o t\u00edtulo: &#8220;Educar para uma paz desarmada e desarmante&#8221;, apresenta-se como um raro contraponto \u00e9tico. N\u00e3o prop\u00f5e ingenuidades pacifistas, mas uma cr\u00edtica estrutural \u00e0 cultura da guerra que se reinstala no continente europeu com assustadora naturalidade.<\/p>\n<p><strong>A irresponsabilidade alem\u00e3: mem\u00f3ria perdida e repeti\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<\/strong><\/p>\n<p>O papel da Alemanha nesta espiral armamentista \u00e9 particularmente inquietante. Depois de d\u00e9cadas em que a conten\u00e7\u00e3o militar se justificava pela mem\u00f3ria do horror do s\u00e9culo XX, o pa\u00eds surge agora como motor central do rearmamento europeu. Esta mudan\u00e7a \u00e9 apresentada como pragmatismo geopol\u00edtico, mas cont\u00e9m um grave erro hist\u00f3rico: a amn\u00e9sia estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>A Alemanha esquece que a sua seguran\u00e7a nunca foi garantida pelo militarismo, mas precisamente pela integra\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, pelo di\u00e1logo, pela coopera\u00e7\u00e3o continental e por uma ordem europeia baseada na supera\u00e7\u00e3o dos antagonismos armados. Ao investir massivamente em armamento e ao aceitar o enquadramento estrat\u00e9gico imposto pela NATO e pelo eixo anglo-atl\u00e2ntico, Berlim abdica de pensar a Europa como sujeito aut\u00f3nomo para pens\u00e1-la com objcto. E o que desautoriza a Europa \u00e9 o facto de toda ela dan\u00e7ar em torno da elite europeia EU-3 (Alemanha, Fran\u00e7a e Reino Unido) que com sua encena\u00e7\u00e3o desvia as aten\u00e7\u00f5es da Europa para os seus interesses nacionalistas de elite. Os belicistas europeus na pol\u00edtica e no jornalismo transmitem uma imagem de companheirismo agitado como se a amea\u00e7a viesse toda de fora. \u00abQuem cava uma cova para os outros, cai nela\u00bb, diz um prov\u00e9rbio.<\/p>\n<p>Mais grave ainda: a Alemanha assume uma l\u00f3gica de confronta\u00e7\u00e3o com a R\u00fassia sem refletir seriamente sobre as consequ\u00eancias geopol\u00edticas mal\u00e9volas de longo prazo para o pr\u00f3prio continente europeu.<\/p>\n<p><strong>NATO e Reino Unido: a geopol\u00edtica da divis\u00e3o permanente<\/strong><\/p>\n<p>A NATO, enquanto alian\u00e7a militar, cumpre a fun\u00e7\u00e3o para a qual foi criada. O problema surge quando ela se transforma num ator normativo e cultural, ditando prioridades econ\u00f3micas, pol\u00edticas e at\u00e9 educativas aos Estados membros.<\/p>\n<p>A proposta, expl\u00edcita ou impl\u00edcita, de destinar 5% do PIB \u00e0 defesa n\u00e3o visa apenas garantir seguran\u00e7a, mas militarizar a sociedade: a linguagem, os valores, o imagin\u00e1rio coletivo. A guerra torna-se aceit\u00e1vel antes mesmo de come\u00e7ar.<\/p>\n<p>O Reino Unido, por sua vez, desempenha um papel particularmente amb\u00edguo e irrespons\u00e1vel. Ap\u00f3s o Brexit, Londres procura reafirmar relev\u00e2ncia geopol\u00edtica atrav\u00e9s de uma postura agressiva, promovendo uma vis\u00e3o de confronto permanente com o espa\u00e7o euroasi\u00e1tico. A sua influ\u00eancia sobre a pol\u00edtica externa europeia, embora indireta, continua a alimentar uma estrat\u00e9gia de fragmenta\u00e7\u00e3o do continente, historicamente vantajosa para pot\u00eancias mar\u00edtimas, mas profundamente nociva para a estabilidade europeia.<\/p>\n<p><strong>A leviandade da Uni\u00e3o Europeia: economia sem geoestrat\u00e9gia<\/strong><\/p>\n<p>Talvez o elemento mais preocupante seja a aus\u00eancia de pensamento geoestrat\u00e9gico pr\u00f3prio da Uni\u00e3o Europeia. A UE reage, mas n\u00e3o age; segue, mas n\u00e3o prop\u00f5e; administra crises, mas n\u00e3o constr\u00f3i vis\u00f5es.<\/p>\n<p>A Europa parece incapaz de refletir sobre um dado fundamental: geograficamente, \u00e9 uma pen\u00ednsula do grande continente asi\u00e1tico. A sua seguran\u00e7a de longo prazo n\u00e3o pode ser pensada contra a R\u00fassia, mas com a R\u00fassia. A hist\u00f3ria mostra que sempre que a Europa tentou excluir, cercar ou humilhar o espa\u00e7o russo, acabou por gerar conflitos devastadores, \u00a0primeiro para si pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Elaborar um <strong>tratado de paz duradouro com a R\u00fassia<\/strong>, fundado na seguran\u00e7a comum, na coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e no respeito m\u00fatuo, n\u00e3o seria sinal de fraqueza, mas de maturidade civilizacional. A CEI aponta precisamente nessa dire\u00e7\u00e3o ao rejeitar a l\u00f3gica da dissuas\u00e3o armada como fundamento da paz.<\/p>\n<p><strong>Do colonialismo cl\u00e1ssico ao neocolonialismo mental<\/strong><\/p>\n<p>O rearmamento europeu n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o militar. Ele insere-se numa continuidade hist\u00f3rica mais profunda: a transi\u00e7\u00e3o do colonialismo esclavagista cl\u00e1ssico para um neocolonialismo mental.<\/p>\n<p>Se outrora o dom\u00ednio se exercia pela for\u00e7a f\u00edsica, pela ocupa\u00e7\u00e3o territorial e pela explora\u00e7\u00e3o direta dos corpos, hoje exerce-se pela manipula\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. A centraliza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, a homogeneiza\u00e7\u00e3o do discurso medi\u00e1tico, a redu\u00e7\u00e3o do debate p\u00fablico a narrativas simplistas e polarizadas produzem cidad\u00e3os incapazes de pensar fora das categorias impostas.<\/p>\n<p>Este neocolonialismo \u00e9, paradoxalmente, mais radical que o anterior: escraviza a consci\u00eancia desde a inf\u00e2ncia, moldando perce\u00e7\u00f5es, medos e lealdades antes mesmo que o pensamento cr\u00edtico possa emergir. A guerra, neste contexto, n\u00e3o precisa de ser declarada porque \u00a0passa a ser interiorizada.<\/p>\n<p><strong>O sangue dos filhos do povo e os interesses das elites<\/strong><\/p>\n<p>A Nota Pastoral da CEI recupera uma verdade antiga e sempre atual: as guerras s\u00e3o decididas por elites e pagas pelo povo. Os filhos das classes populares continuam a ser a mat\u00e9ria-prima dos conflitos, enquanto os benef\u00edcios econ\u00f3micos, pol\u00edticos e estrat\u00e9gicos se concentram em c\u00edrculos restritos.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria do armamento, os complexos financeiros e os aparelhos pol\u00edticos alimentam-se de medo e divis\u00e3o. A paz, pelo contr\u00e1rio, amea\u00e7a esses interesses porque exige redistribui\u00e7\u00e3o, transpar\u00eancia, coopera\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a social.<\/p>\n<p><strong>Uma cultura da paz como investimento estrat\u00e9gico<\/strong><\/p>\n<p>A grande invers\u00e3o proposta, implicitamente pela CEI e explicitamente necess\u00e1ria \u00e9 esta: substituir o investimento na guerra por um investimento estrutural na paz.<\/p>\n<p>Aplicar 5% do PIB europeu numa <strong>cultura da paz<\/strong> significaria: educa\u00e7\u00e3o para o pensamento cr\u00edtico e plural; diplomacia preventiva e cont\u00ednua; media\u00e7\u00e3o internacional independente; justi\u00e7a social como pol\u00edtica de seguran\u00e7a; comunica\u00e7\u00e3o descentralizada e diversidade informativa; reconstru\u00e7\u00e3o do sentido comunit\u00e1rio e da fraternidade civil e universal procurando neste sentido tamb\u00e9m levar as m\u00e1quinas e as ind\u00fastrias de produ\u00e7\u00e3o para pa\u00edses carenciados em vez de os obrigar a abandonar os seus bi\u00f3topos naturais fugindo da pobreza para a Europa.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9 utopia, seria estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Europa armada ou Europa consciente?<\/strong><\/p>\n<p>A Europa encontra-se perante uma escolha hist\u00f3rica. Pode continuar a seguir as pol\u00edticas tradicionais da guerra, travestidas de realismo, ou pode ousar uma rutura cultural profunda.<\/p>\n<p>A Nota Pastoral da Confer\u00eancia Episcopal Italiana recorda algo essencial: a paz n\u00e3o \u00e9 fraqueza, \u00e9 for\u00e7a civilizacional. N\u00e3o nasce das armas, mas da justi\u00e7a; n\u00e3o se imp\u00f5e, constr\u00f3i-se; n\u00e3o serve elites, protege povos.<\/p>\n<p>Sem uma convers\u00e3o \u00e9tica, cultural e estrat\u00e9gica, a Europa arrisca tornar-se apenas um espa\u00e7o militarizado, dividido, subalterno, rico em armas, mas pobre em consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Uma Europa que n\u00e3o pensa, apenas reage. Uma Europa que esquece que a verdadeira seguran\u00e7a come\u00e7a quando a guerra deixa de ser imagin\u00e1vel.<\/p>\n<p>A pergunta que a Europa e particularmente a E-3 precisa de enfrentar n\u00e3o \u00e9 apenas quanto gastar em defesa, mas que tipo de humanidade deseja promover. Financiar a guerra \u00e9 f\u00e1cil, r\u00e1pido e politicamente rent\u00e1vel no curto prazo. Financiar a paz exige paci\u00eancia, coragem e vis\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Urg\u00eancia de uma Cultura de Paz versus Neocolonialismo mental Quando a guerra deixa de ser excep\u00e7\u00e3o A Europa atravessa um momento hist\u00f3rico de particular gravidade. N\u00e3o apenas pelos conflitos armados nas suas fronteiras alargadas, mas sobretudo pela transforma\u00e7\u00e3o silenciosa da guerra em horizonte normal da pol\u00edtica. 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