{"id":10468,"date":"2025-12-08T21:16:00","date_gmt":"2025-12-08T20:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10468"},"modified":"2025-12-08T21:16:00","modified_gmt":"2025-12-08T20:16:00","slug":"maria-deusa-encoerta-do-cristianismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10468","title":{"rendered":"MARIA DEUSA ENCOERTA DO CRISTIANISMO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Reflex\u00f5es para o Dia da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>No dia 8 de dezembro, a Igreja Cat\u00f3lica celebra a Imaculada Concei\u00e7\u00e3o de Maria. Al\u00e9m da recorda\u00e7\u00e3o de um acontecimento do passado, trata-se de uma experi\u00eancia simb\u00f3lica e espiritual que aponta para uma realidade que ultrapassa o meramente hist\u00f3rico, factual ou biol\u00f3gico. Os s\u00edmbolos religiosos, como afirma a fenomenologia da religi\u00e3o, n\u00e3o se esgotam no que representam: remetem sempre para al\u00e9m de si pr\u00f3prios, para uma dimens\u00e3o do real que n\u00e3o se deixa reduzir \u00e0 materialidade nem ao pensamento l\u00f3gico-linear.<\/p>\n<p><strong>O s\u00edmbolo e a verdade<\/strong><\/p>\n<p>Em filosofia costuma-se distinguir entre tr\u00eas tipos de verdade:<\/p>\n<p>&#8211; a verdade em si mesma,<\/p>\n<p>&#8211; a verdade para n\u00f3s,<\/p>\n<p>&#8211; e a nossa verdade.<\/p>\n<p>O ser em si n\u00e3o coincide com o modo como o apreendemos. Por isso, no acto do conhecimento, n\u00e3o \u00e9 leg\u00edtimo identificar a realidade com a sua apar\u00eancia. O conhecimento implica sempre uma dualidade: h\u00e1 algo que \u00e9 percebido e algu\u00e9m que percebe. Como recordava Immanuel Kant, \u201co conhecimento come\u00e7a com a experi\u00eancia, mas n\u00e3o se esgota nela\u201d. A facticidade oferece apenas o campo onde se manifestam condi\u00e7\u00f5es mais profundas do conhecer.<\/p>\n<p>Aplicado \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3, isto significa que as verdades religiosas n\u00e3o podem ser tratadas apenas como factos hist\u00f3ricos nem como proposi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas. Elas pertencem a uma ordem experiencial e relacional, intemporal, que a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica chama <em>kairos<\/em>: um tempo que n\u00e3o passa, mas acontece sempre.<\/p>\n<p><strong>Maria, M\u00e3e de Deus e M\u00e3e da Humanidade<\/strong><\/p>\n<p>Maria recebeu o t\u00edtulo de <em>Theot\u00f3kos<\/em> (M\u00e3e de Deus) no Conc\u00edlio de \u00c9feso, em 431, n\u00e3o por exalta\u00e7\u00e3o pessoal, mas por aquilo que o t\u00edtulo afirma sobre Jesus: o Verbo feito carne. Ao confessar Maria como M\u00e3e de Deus, a Igreja confessa simultaneamente que Deus entrou plenamente na hist\u00f3ria humana.<\/p>\n<p>O dogma da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, proclamado em 1854 pelo Papa Pio IX, afirma que Maria foi preservada do pecado original para ser morada do Filho de Deus. Este dogma n\u00e3o pretende oferecer uma explica\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, mas expressar simbolicamente um novo come\u00e7o da humanidade, uma cria\u00e7\u00e3o recriada pela gra\u00e7a. Maria \u00e9 a nova Eva, aquela que diz \u201csim\u201d \u00e0 vida como dom, unindo c\u00e9u e terra.<\/p>\n<p><strong>Virgindade: sinal de transcend\u00eancia, n\u00e3o nega\u00e7\u00e3o da vida<\/strong><\/p>\n<p>Num mundo de matriz materialista e utilitarista, a virgindade \u00e9 frequentemente reduzida a tabu, repress\u00e3o ou mito. No entanto, biblicamente e teologicamente, a virgindade aponta para o Reino de Deus, para uma realidade n\u00e3o esgot\u00e1vel no imediato nem no instinto. Leonard Boff afirma:<\/p>\n<p>\u201cA virgindade crist\u00e3 \u00e9 maternal: gera filhos para o Reino.\u201d<\/p>\n<p>A virgindade de Maria n\u00e3o nega o valor da sexualidade, mas relativiza a sua absolutiza\u00e7\u00e3o. Liberta o feminino de ser mero ap\u00eandice do masculino e revela, em Maria, os tra\u00e7os maternais do pr\u00f3prio Deus. Neste sentido simb\u00f3lico profundo, pode falar-se de Maria como a \u201cdeusa encoberta do cristianismo\u201d: n\u00e3o uma deusa concorrente, mas o rosto materno do divino revelado na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Encarna\u00e7\u00e3o e supera\u00e7\u00e3o da dualidade<\/strong><\/p>\n<p>No nascimento de Jesus reconhece-se a supera\u00e7\u00e3o da grande polaridade que marca o pensamento humano: esp\u00edrito e mat\u00e9ria. Em Jesus Cristo, o divino e o humano tornam-se compat\u00edveis de modo pleno. Karl Rahner lembrava que a virgindade ocupa um lugar secund\u00e1rio na hierarquia das verdades, mas exprime de forma intensa que a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 dom gratuito, n\u00e3o produ\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a ci\u00eancia contempor\u00e2nea, particularmente a f\u00edsica qu\u00e2ntica, aponta para uma realidade menos mec\u00e2nica e mais relacional do que o paradigma cl\u00e1ssico permitia supor. Mat\u00e9ria e energia, observador e observado, encontram-se em intera\u00e7\u00e3o. Tal aproxima-se surpreendentemente da vis\u00e3o crist\u00e3 da realidade como processo relacional, expressa simbolicamente na f\u00f3rmula trinit\u00e1ria: unidade na diferen\u00e7a, comunh\u00e3o sem fus\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A linguagem do mito e da poesia<\/strong><\/p>\n<p>Para falar de Deus, do amor e da vida, a linguagem puramente racional revela-se insuficiente. A linguagem po\u00e9tica e simb\u00f3lica \u00e9 mais adequada, porque n\u00e3o pretende esgotar o real, mas abri-lo. Uma sociedade excessivamente colada ao texto literal tende a petrificar a realidade, confundindo s\u00edmbolo com facto e mito com mentira.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a ci\u00eancia recorre a s\u00edmbolos: quando fala de \u201cLucy\u201d como m\u00e3e da humanidade, n\u00e3o faz hist\u00f3ria factual, mas usa uma imagem para facilitar a compreens\u00e3o. Do mesmo modo, os dogmas n\u00e3o s\u00e3o f\u00f3rmulas matem\u00e1ticas, mas janelas para o mist\u00e9rio.<\/p>\n<p><strong>Maria como apelo \u00e9tico e espiritual<\/strong><\/p>\n<p>A Imaculada Concei\u00e7\u00e3o recorda-nos o princ\u00edpio da cria\u00e7\u00e3o, quando tudo era original e bom, mas tamb\u00e9m a responsabilidade de continuar essa cria\u00e7\u00e3o. O nascimento do novo Ad\u00e3o aponta para um Jesus que deve renascer em cada ser humano, tornando cada pessoa pres\u00e9pio vivo, laborat\u00f3rio divino onde o c\u00e9u continua a tocar a terra.<\/p>\n<p>Num tempo marcado por dualismos, culpa instrumentalizada e manipula\u00e7\u00e3o do pecado ao servi\u00e7o do poder, Maria permanece como figura de esperan\u00e7a, liberdade interior e fidelidade ao essencial. A consci\u00eancia, como recordava Newman, \u00e9 o primeiro vig\u00e1rio de Cristo.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Reduzir a realidade ao que \u00e9 mensur\u00e1vel equivale a reduzir o universo ao sistema solar. O sentido da vida n\u00e3o se esgota no caminho, porque o caminhante e a caminhada transcendem o pr\u00f3prio caminho. A f\u00e9 e a esperan\u00e7a permanecem como raios de sol que nos levantam a cabe\u00e7a para vermos mais al\u00e9m.<\/p>\n<p>Na Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, c\u00e9u e terra unem-se uma vez mais para afirmar que a \u00faltima palavra n\u00e3o \u00e9 da mat\u00e9ria nem da morte, mas da Vida como dom.<\/p>\n<p><strong>Parab\u00e9ns a todas as m\u00e3es.<\/strong><\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\nTe\u00f3logo e Pedagogo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reflex\u00f5es para o Dia da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o No dia 8 de dezembro, a Igreja Cat\u00f3lica celebra a Imaculada Concei\u00e7\u00e3o de Maria. Al\u00e9m da recorda\u00e7\u00e3o de um acontecimento do passado, trata-se de uma experi\u00eancia simb\u00f3lica e espiritual que aponta para uma realidade que ultrapassa o meramente hist\u00f3rico, factual ou biol\u00f3gico. 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