{"id":10451,"date":"2025-12-04T22:40:09","date_gmt":"2025-12-04T21:40:09","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10451"},"modified":"2025-12-04T22:40:09","modified_gmt":"2025-12-04T21:40:09","slug":"a-profundidade-do-advento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10451","title":{"rendered":"A PROFUNDIDADE DO ADVENTO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Espera que arde e Esperan\u00e7a que encarna<\/strong><\/p>\n<p><strong>A Arte de esperar acordado<\/strong><\/p>\n<p>O Advento n\u00e3o \u00e9 simplesmente um tempo de prepara\u00e7\u00e3o para o Natal. \u00c9, antes de tudo, uma escola da exist\u00eancia, um ritmo espiritual que nos confronta com a condi\u00e7\u00e3o humana mais fundamental: a de seres em espera. Como escreveu Simone Weil, \u201ca espera \u00e9 a mais alta forma de aten\u00e7\u00e3o\u201d e o Advento \u00e9 justamente o exerc\u00edcio dessa aten\u00e7\u00e3o radical. O mundo, na sua brutalidade e beleza, escapa ao nosso controlo. De facto, n\u00e3o podemos salvar o mundo, nem proteger as pessoas do mal e do erro.<\/p>\n<p>Esta impot\u00eancia, por\u00e9m, nunca pode justificar uma resigna\u00e7\u00e3o bovina, uma vida reduzida \u00e0 erva rasteira ao n\u00edvel do ch\u00e3o. Tal atitude seria uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa pr\u00f3pria natureza. A vida, com toda a sua majestade e mist\u00e9rio, \u00e9 muito maior e mais expansiva do que os estreitos limites da nossa compreens\u00e3o. Santo Agostinho recorda-nos: \u201cFizeste-nos, Senhor, para Ti, e inquieto est\u00e1 o nosso cora\u00e7\u00e3o enquanto n\u00e3o repousa em Ti.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente esta consci\u00eancia da nossa finitude e falibilidade que nos torna dependentes da gra\u00e7a e da miseric\u00f3rdia. Contudo, paradoxalmente, essa depend\u00eancia n\u00e3o anula a vontade; pelo contr\u00e1rio, ilumina-a. N\u00e3o apaga a vontade de sermos esperan\u00e7osos buscadores. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 a partir deste reconhecimento humilde que a busca verdadeiramente pode come\u00e7ar. O Advento \u00e9 o apelo solene a essa busca esperan\u00e7osa a esta inquieta\u00e7\u00e3o luminosa que nos empurra para o alto.<\/p>\n<p><strong>Deus disp\u00f5e\u2026 atrav\u00e9s das nossas M\u00e3os<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 S\u00e9neca dizia: \u201cN\u00e3o \u00e9 porque as coisas s\u00e3o dif\u00edceis que n\u00e3o ousamos; \u00e9 porque n\u00e3o ousamos que elas s\u00e3o dif\u00edceis.\u201d<\/p>\n<p>O homem prop\u00f5e e Deus disp\u00f5e. Este antigo ad\u00e1gio n\u00e3o nos condena \u00e0 passividade, mas revela a colabora\u00e7\u00e3o sagrada da hist\u00f3ria. Deus disp\u00f5e, mas f\u00e1-lo atrav\u00e9s das m\u00e3os humanas que aceitam realizar a Sua mensagem. N\u00f3s somos, de facto, as m\u00e3os de Deus. Como escreveu Teresa de \u00c1vila: \u201cCristo n\u00e3o tem agora outro corpo sen\u00e3o o teu.\u201d O Advento ou se realiza em n\u00f3s ou n\u00e3o se realiza.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o cerne da responsabilidade espiritual: mesmo quando o mundo parece destinado \u00e0 decad\u00eancia, \u00e0 ru\u00edna ou \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o horr\u00edvel de ciclos de viol\u00eancia, a n\u00f3s \u00e9 deixada a iniciativa de, no nosso pequeno espa\u00e7o, germinar o novo. O Verbo fez-se carne, mas continua a precisar de corpos que O encarnem no tempo. O nosso \u201cdevir\u201d \u00e9 este cont\u00ednuo processo de gesta\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 termina com o \u00faltimo suspiro.<\/p>\n<p>E nesse respirar h\u00e1 uma saudade da paz que \u00e9 o sopro divino dentro de n\u00f3s. Contudo, essa paz n\u00e3o \u00e9 fuga; n\u00e3o pode esconder-se em recantos interiores, recusando-se a encarar a fealdade que a amea\u00e7a de fora e de dentro. \u201cA paz n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de conflito, mas a presen\u00e7a de justi\u00e7a,\u201d recordava Martin Luther King Jr.<\/p>\n<p>A fealdade \u00e9 vasta e a vida aponta muitas vezes para os infernos da impot\u00eancia, da inseguran\u00e7a e da barb\u00e1rie que tantos s\u00e3o for\u00e7ados a habitar. Aponta para o purgat\u00f3rio da indiferen\u00e7a sarc\u00e1stica que nos permite viver ao lado desses sofrimentos, anestesiados pela enxurrada de not\u00edcias que nos informam sem nos transformar.<\/p>\n<p><strong>O Incenso e o Fogo interior<\/strong><\/p>\n<p>Como manter a esperan\u00e7a diante deste abismo?<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a \u00e9 como o incenso da nossa vida. Procuramos nele resili\u00eancia, coragem e paz. Mas esquecemo-nos: para respirarmos o seu aroma, algo tem de arder. A verdadeira esperan\u00e7a advent\u00edcia n\u00e3o \u00e9 um sentimento confort\u00e1vel; \u00e9 um fogo que purifica. Exige que algo em n\u00f3s seja consumido: a indiferen\u00e7a, o comodismo, as ilus\u00f5es de autossufici\u00eancia.<\/p>\n<p>Vivemos no entremeio, no territ\u00f3rio tenso entre a contempla\u00e7\u00e3o e a a\u00e7\u00e3o, entre a paz interior e a luta contra a fealdade exterior. S\u00f3 nesse entremeio nasce o discernimento. Para isto aponta Bonhoeffer quando dizia: \u201cA a\u00e7\u00e3o nasce do pensamento respons\u00e1vel; mas s\u00f3 quem espera pode realmente agir.\u201d<\/p>\n<p><strong>A Luz que j\u00e1 veio e ainda espera por n\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 nesta tens\u00e3o que o paradoxo central do Advento resplandece: esperar pelo que j\u00e1 chegou e se encontra soterrado nas cinzas de cada um de n\u00f3s. A Luz j\u00e1 veio ao mundo; o Reino j\u00e1 irrompeu em Cristo. Mas, como uma semente ou uma brasa sob cinzas, aguarda a nossa coopera\u00e7\u00e3o para se reacender e crescer.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a, portanto, n\u00e3o \u00e9 a expectativa vaga de um futuro melhor. \u00c9 a expectativa de que algo aconte\u00e7a em n\u00f3s. \u00c9 a for\u00e7a ativa de quem, sabendo que a vit\u00f3ria final \u00e9 certa, luta no presente para que ela se manifeste. \u00c9 a for\u00e7a da onda que avan\u00e7a contra a que a envolve e faz retroceder.<\/p>\n<p>Neste caminho surgem aqueles que mant\u00eam uma aten\u00e7\u00e3o especial: os profetas do nosso tempo. S\u00e3o os que percebem a inquieta\u00e7\u00e3o antes dos outros, os que expressam a perturba\u00e7\u00e3o silenciosa que nos sacode do torpor. Neles, algo da orienta\u00e7\u00e3o divina pode revelar-se. Eles s\u00e3o os arautos do Advento, lembrando-nos que a espera n\u00e3o \u00e9 vazia, mas gr\u00e1vida de Deus.<\/p>\n<p>O Advento convida-nos a uma espera ativa. \u00c9 um tempo para deixar arder, como o incenso, os nossos medos e ego\u00edsmos. Um tempo para escavar as cinzas do nosso cansa\u00e7o e cinismo e reencontrar a brasa da promessa divina. Um tempo para, com as m\u00e3os de Deus que somos, trabalhar para aliviar os infernos e purgat\u00f3rios \u00e0 nossa volta, por pequena que seja a nossa a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E \u00e9, sobretudo, um tempo para reafirmar, com uma f\u00e9 que \u00e9 confian\u00e7a radical no que vir\u00e1, que enquanto houver um cora\u00e7\u00e3o humano em espera, a Luz n\u00e3o se apagou. A onda do Esp\u00edrito continuar\u00e1 a avan\u00e7ar, at\u00e9 que a espera se dissolva no encontro e a esperan\u00e7a d\u00ea lugar \u00e0 vis\u00e3o preanunciada no pres\u00e9pio.<\/p>\n<p><strong>A T\u00edtulo de Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Conta-se que, numa aldeia perdida entre montanhas, havia uma sentinela que todas as noites subia ao alto da colina para vigiar. Muitos riam dela, pois o horizonte estava sempre escuro e nada acontecia.<br \/>\nUma noite de inverno, um jovem da aldeia perguntou-lhe: \u201cPorque sobes tu, se nunca v\u00eas nada?\u201d<br \/>\nA sentinela respondeu: \u201cEu n\u00e3o subo para ver. Subo para que, quando a luz vier, n\u00e3o a encontre sozinho a dormir.<\/p>\n<p>O jovem ficou silencioso, e a sentinela acrescentou: \u201cE quando o frio me vence, fa\u00e7o o que posso: sopro a minha pequena brasa. Se ela se apagar, como aquecerei quem vier pedir-me calor?\u201d<\/p>\n<p>Na primavera seguinte, uma tempestade devastou a aldeia. Muitos procuraram abrigo na colina. L\u00e1 encontraram a sentinela, e ao seu lado, humilde, mas viva, a pequena brasa que aquecia as m\u00e3os de todos.<\/p>\n<p>E foi ent\u00e3o que compreenderam: a sentinela n\u00e3o esperava porque via a luz, esperava para que a luz tivesse quem a visse.<br \/>\nE a brasa, pequena como era, n\u00e3o salvou o mundo; mas salvou aqueles que lhe ficaram pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pegadas do Tempo<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Espera que arde e Esperan\u00e7a que encarna A Arte de esperar acordado O Advento n\u00e3o \u00e9 simplesmente um tempo de prepara\u00e7\u00e3o para o Natal. \u00c9, antes de tudo, uma escola da exist\u00eancia, um ritmo espiritual que nos confronta com a condi\u00e7\u00e3o humana mais fundamental: a de seres em espera. 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