{"id":10445,"date":"2025-11-26T22:02:31","date_gmt":"2025-11-26T21:02:31","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10445"},"modified":"2025-11-26T22:02:31","modified_gmt":"2025-11-26T21:02:31","slug":"um-desabafo-sobre-democracia-e-etica-no-meu-pais-e-na-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10445","title":{"rendered":"UM DESABAFO SOBRE DEMOCRACIA E \u00c9TICA NO MEU PA\u00cdS E NA EUROPA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jardim Infantil e o Cad\u00e1ver Adornado<\/strong><\/p>\n<p>Quem chega de fora e aqui pousa o olhar, sente primeiro um espanto mudo. O que vejo? A trag\u00e9dia do potencial subjugado: um povo de seiva humana, facultoso e laborioso, cuja energia vital \u00e9 drenada por um destino imposto e cujo fado paradoxal o ancorou no breve sonho do dia-a-dia, enquanto o seu horizonte mais ardente se transformou no mapa da partida.<\/p>\n<p>Um pa\u00eds que se assemelha a um grande jardim infantil, onde as vozes mais altas n\u00e3o s\u00e3o as da raz\u00e3o, mas as do capricho. No centro deste recreio, sente-se um cad\u00e1ver em putrefa\u00e7\u00e3o, o cad\u00e1ver da \u00e9tica p\u00fablica que \u00e9 adornado com as fitas coloridas do discurso f\u00e1cil e dos interesses mesquinhos. E o povo, confundido pela cantiga de embalar de uns e outros, vagueia sem rumo, apontando o dedo ao vizinho, pois foi despojado da sua \u00fanica b\u00fassola que seria a Esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Os instalados deste regime, cimentado em Bruxelas, vivem do engano, e o povo, tragicamente, parece n\u00e3o ter outra sorte que querer ser enganado. \u00c9 um pacto t\u00e1cito e doentio. Nos p\u00falpitos da democracia, os mais corruptos s\u00e3o os que mais gritam, advogando por um Estado sem governa\u00e7\u00e3o, para que o seu poder, absoluto e divorciado da justi\u00e7a, permane\u00e7a inquestion\u00e1vel. T\u00eam o poder, e por isso, aos olhos deste tempo enviesado, passam a ter raz\u00e3o. <strong>A autoridade que lhes foi emprestada pelo cr\u00e9dito do povo \u00e9 usada para provar o seu cinismo final: a cren\u00e7a de que tudo, inclusive a consci\u00eancia, se compra com dinheiro.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A Metamorfose dos Justos<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma trag\u00e9dia \u00edntima que se desenrola nos corredores do poder: a metamorfose da alma. Vi pessoas boas, simples e justas, mudarem de casaca com uma facilidade que envergonharia um camale\u00e3o. Ao tocarem no n\u00famero m\u00e1gico do contribuinte, sentem-se absolutos, transfigurados. J\u00e1 n\u00e3o os reconhe\u00e7o. <strong>O poder n\u00e3o os corrompeu; substituiu-os. E assim, a coisa p\u00fablica torna-se um palco onde quem entra deixa \u00e0 porta n\u00e3o s\u00f3 o casaco, mas a pr\u00f3pria integridade.<\/strong><\/p>\n<p>Faltam-nos personalidades, sobejam pol\u00edticos. N\u00e3o temos homens de Estado, temos administradores da mis\u00e9ria, subordinados a um ritmo distante, coreografado em Bruxelas. S\u00e3o dan\u00e7arinos do poder, abra\u00e7ando-se em cena enquanto lan\u00e7am um olhar c\u00ednico ao povo subordinado. <strong>O seu curr\u00edculo n\u00e3o inclui os princ\u00edpios crist\u00e3os da caridade, a metaf\u00edsica categ\u00f3rica de Kant, ou qualquer no\u00e7\u00e3o de \u00e9tica que n\u00e3o seja a do momento oportuno.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A Rep\u00fablica sem Virtude e o Esp\u00edrito Adormecido<\/strong><\/p>\n<p><strong>Plat\u00e3o sonhava com fil\u00f3sofos a governar a Rep\u00fablica, fundamentando-a na Virtude. Hoje, a virtude \u00e9 um termo estranho, um anacronismo perigoso. Vivemos num regime que fomenta a banalidade, que difama a honra porque ela seria um impedimento \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade sobre alicerces f\u00fateis e mecanicistas.<\/strong> Destr\u00f3i-se o senso comum, atafulham-se as cabe\u00e7as com ideias individualistas, mas rouba-se a capacidade para o discernimento. Quase j\u00e1 n\u00e3o se estuda filosofia nem \u00e9tica nos liceus; estuda-se o \u00fatil, o momentaneamente oportuno, preparando gera\u00e7\u00f5es de t\u00e9cnicos eficientes e cidad\u00e3os passivos.<\/p>\n<p>Esta destrui\u00e7\u00e3o gera uma paralisia existente. As a\u00e7\u00f5es e as tomadas de posi\u00e7\u00e3o s\u00e3o adiadas, substitu\u00eddas por um ros\u00e1rio intermin\u00e1vel de lamenta\u00e7\u00f5es. <strong>E eis a ironia mais cruel: este murm\u00fario queixoso tornou-se um dos sustent\u00e1culos do sistema.<\/strong> <strong>Confere a ilus\u00e3o de uma vida \u00e9tica, a sensa\u00e7\u00e3o de que se est\u00e1 a criticar, quando na verdade se est\u00e1 apenas a gemer, inofensivamente porque disto se ri quem manda<\/strong>. <strong>A cr\u00edtica verdadeira, que \u00e9 a presen\u00e7a viva da pessoa na sociedade, capaz de formular ideias e solu\u00e7\u00f5es, \u00e9 substitu\u00edda pelo coment\u00e1rio prim\u00e1rio, pelo &#8220;a favor&#8221; ou &#8220;contra&#8221; que tudo transforma em espet\u00e1culo e aplauso.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Despertar das Consci\u00eancias: Do Bi\u00f3topo \u00e0 Floresta<\/strong><\/p>\n<p>Uma sociedade consciente n\u00e3o nasce de um decreto, mas de consci\u00eancias unidas. Tal como a vida teima em brotar em &#8220;bi\u00f3topos&#8221; , em pequenos ecossistemas de resist\u00eancia e clareza, no solo degradado da sociedade, assim ter\u00e1 de ser a nossa esperan\u00e7a. A consci\u00eancia individual, formada na luta e no cultivo interior, precisa de se expressar em grupos que n\u00e3o se circunscrevam \u00e0s meras necessidades econ\u00f3micas e pol\u00edticas.<\/p>\n<p><strong>Numa sociedade regulada por interesses, a sociedade civil deve organizar-se em grupos de interesse que exijam, simplesmente, humanidade, paz e justi\u00e7a. Tal como os sindicatos defendem o p\u00e3o, estes grupos defender\u00e3o a alma. Uma opini\u00e3o sensata s\u00f3 pode nascer da observa\u00e7\u00e3o de todas as opini\u00f5es, um contraponto ao consentimento p\u00fablico fabricado pela ret\u00f3rica dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, que forjam a opini\u00e3o no sentido desejado por Lisboa e Bruxelas.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Este teatro da viol\u00eancia simb\u00f3lica, onde os dan\u00e7arinos do poder encenam a nossa realidade, s\u00f3 cair\u00e1 quando o esp\u00edrito cr\u00edtico despertar. Esse esp\u00edrito n\u00e3o \u00e9 um luxo intelectual; \u00e9 o ant\u00eddoto para a vida manietada entre a remunera\u00e7\u00e3o e o consumo. \u00c9 a recusa em ser apenas um detergente social que limpa a sujidade dos interesses, prolongando-lhes inconscientemente a atividade.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O cad\u00e1ver da \u00e9tica p\u00fablica est\u00e1 \u00e0 vista. Cabe a n\u00f3s decidir se continuaremos a adorn\u00e1-lo com fitas, ou se, finalmente, o enterraremos para semear algo novo no terreno que ele ocupa. A explora\u00e7\u00e3o come\u00e7a no exterior, mas a liberta\u00e7\u00e3o come\u00e7a no interior, no cultivo de um esp\u00edrito que se recusa a ser enganado. A necessidade de o explorar em si n\u00e3o \u00e9 uma sugest\u00e3o; \u00e9, neste momento da hist\u00f3ria, um imperativo de sobreviv\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pegadas do Tempo<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jardim Infantil e o Cad\u00e1ver Adornado Quem chega de fora e aqui pousa o olhar, sente primeiro um espanto mudo. O que vejo? 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