{"id":10440,"date":"2025-11-19T19:26:38","date_gmt":"2025-11-19T18:26:38","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10440"},"modified":"2025-11-20T22:35:34","modified_gmt":"2025-11-20T21:35:34","slug":"a-igreja-nao-pode-tornar-se-um-superpartido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10440","title":{"rendered":"A IGREJA N\u00c3O PODE TORNAR-SE UM SUPERPARTIDO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>A miss\u00e3o da Igreja \u00e9 transumana transcendente e n\u00e3o pode ser reduzida a mais uma voz no debate partid\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>A presen\u00e7a p\u00fablica de respons\u00e1veis eclesi\u00e1sticos tem vindo a adquirir um tom crescentemente politizado nos \u00faltimos anos. Entre a pandemia, a guerra na Ucr\u00e2nia e a ascens\u00e3o de partidos da direita na Europa, setores da Igreja parecem inclinados a alinhar-se com posi\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, muitas vezes repetindo o discurso dominante.<br \/>\nEsse caminho, por\u00e9m, \u00e9 um erro que prejudica a pr\u00f3pria Igreja e os crist\u00e3os que, na sua liberdade e soberania, participam na vida pol\u00edtica. Na comunidade crist\u00e3, \u201cn\u00e3o h\u00e1 estrangeiros\u201d, mas tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 partidos.<\/p>\n<p>Em alguns pa\u00edses, como a Alemanha, chegaram mesmo a existir institui\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 Igreja que evitavam contratar pessoas com filia\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria \u201cdesconforme\u201d ou desalinhada com o poder institu\u00eddo. Hoje, como ontem, assiste-se \u00e0 tentativa de afastar certos grupos, ontem comunistas, hoje membros de partidos populistas da fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Este tipo de pr\u00e1ticas, para al\u00e9m de d\u00fabias do ponto de vista democr\u00e1tico, torna a Igreja c\u00famplice de exclus\u00f5es que n\u00e3o lhe competem. Na pr\u00e1tica, este tipo de comportamento pol\u00edtico-punitivo fragiliza o pr\u00f3prio sistema democr\u00e1tico e a dignidade humana.<\/p>\n<p><strong>A miss\u00e3o transcendente da Igreja<\/strong><\/p>\n<p>A Igreja n\u00e3o \u00e9 um poder temporal, deve ser o sal da terra. A sua miss\u00e3o \u00e9 espiritual, moral e universal. N\u00e3o lhe cabe indicar \u201co partido certo\u201d, nem avaliar programas de governo. O espa\u00e7o espec\u00edfico da sua a\u00e7\u00e3o \u00e9 outro: formar consci\u00eancias \u00e0 luz do Evangelho.<\/p>\n<p>Os leigos, esses sim, s\u00e3o chamados a participar ativamente na vida pol\u00edtica.<br \/>\nA eles cabe filiar-se, debater, negociar e propor solu\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAos cl\u00e9rigos cabe iluminar com princ\u00edpios, n\u00e3o \u201cdar o voto\u201d nem deixar-se utilizar por interesses partid\u00e1rios.<\/p>\n<p>Quando sacerdotes ou bispos criticam publicamente partidos espec\u00edficos, mesmo quando movidos por boa inten\u00e7\u00e3o, arriscam-se a:<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 &#8211; partidarizar a f\u00e9<\/strong>,<\/p>\n<p><strong>&#8211;\u00a0 alienar fi\u00e9is que pensam de forma diferente<\/strong>,<\/p>\n<p><strong>&#8211; transformar a Igreja num ator pol\u00edtico previs\u00edvel e parcial<\/strong>.<\/p>\n<p>E isso contradiz a pr\u00f3pria natureza da Igreja, que \u00e9 casa para todos.<\/p>\n<p>\u201cA Igreja n\u00e3o se confunde de modo algum com a comunidade pol\u00edtica e n\u00e3o est\u00e1 vinculada a nenhum sistema pol\u00edtico.\u201d (Conc\u00edlio Vaticano II, GS 76)<\/p>\n<p>\u201cA Igreja respeita a leg\u00edtima autonomia da ordem democr\u00e1tica.\u201d (Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, 571)<\/p>\n<p>O Papa Francisco lembra repetidamente que a Igreja deve evitar \u201ccoloniza\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas\u201d, seja de direita, de esquerda ou de qualquer tipo.<\/p>\n<p><strong>Princ\u00edpios s\u00e3o uma coisa; programas partid\u00e1rios s\u00e3o outra<\/strong><\/p>\n<p>A Doutrina Social da Igreja n\u00e3o prop\u00f5e solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, mas sim princ\u00edpios: dignidade da pessoa humana, bem comum, fraternidade, solidariedade, subsidiariedade.<br \/>\nEstes princ\u00edpios n\u00e3o se traduzem automaticamente numa \u00fanica proposta pol\u00edtica. Muito menos num \u00fanico partido.<\/p>\n<p>Dois crist\u00e3os igualmente s\u00e9rios podem, a partir dos mesmos princ\u00edpios, chegar a op\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias diferentes sem perder fidelidade \u00e0 f\u00e9.<br \/>\nE isso \u00e9 saud\u00e1vel.<br \/>\nO que n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel \u00e9 a Igreja tratar como erro doutrinal aquilo que, na realidade, \u00e9 apenas uma op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica leg\u00edtima.<\/p>\n<p>Confundir o Evangelho ou princ\u00edpios universais com aplica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas contingentes (com um programa partid\u00e1rio) \u00e9 reduzi-lo e instrumentaliz\u00e1-lo, pois, torna-se fonte de conflitos.<\/p>\n<p><strong>O risco do reducionismo moral<\/strong><\/p>\n<p>Quando a Igreja entra demasiado no debate pol\u00edtico, tende a reduzir a moral a dois ou tr\u00eas temas, esquecendo o conjunto mais amplo da sua mensagem: justi\u00e7a econ\u00f3mica, paz, cuidados dos mais fr\u00e1geis, ecologia integral, liberdade religiosa, dignidade da pessoa em todas as etapas da vida.<\/p>\n<p>O Evangelho exige uma vis\u00e3o integral.<br \/>\nN\u00e3o existe um partido que encarne todos os valores crist\u00e3os e n\u00e3o compete \u00e0 Igreja escolher um.<\/p>\n<p><strong>Profetismo, sim. Partidariza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>A Igreja tem, sem d\u00favida, o dever de denunciar tudo o que fere gravemente a lei de Deus: aborto, eutan\u00e1sia, xenofobia, viol\u00eancia, corrup\u00e7\u00e3o, injusti\u00e7as estruturais.<br \/>\nMas deve faz\u00ea-lo partindo dos princ\u00edpios, n\u00e3o dos partidos.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma enorme diferen\u00e7a entre afirmar \u201cO partido X est\u00e1 errado\u201d<br \/>\ne afirmar \u201cToda pol\u00edtica que viola a dignidade humana est\u00e1 errada\u201d.<\/p>\n<p>Na primeira formula\u00e7\u00e3o, a Igreja torna-se um ator pol\u00edtico.<br \/>\nNa segunda, cumpre a sua miss\u00e3o e deixa aos fi\u00e9is a tarefa de discernir.<\/p>\n<p><strong>O papel central dos leigos<\/strong><\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da sociedade n\u00e3o \u00e9 miss\u00e3o dos padres.<br \/>\n\u00c9 miss\u00e3o dos leigos. A pr\u00f3pria \u00a0Igreja ensina que o sujeito principal da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica s\u00e3o os leigos.<\/p>\n<p>A eles pertence o debate pol\u00edtico; \u00e0 Igreja pertence a forma\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias.<br \/>\nQuando esta ordem se inverte, ambos perdem:<br \/>\na Igreja perde a sua universalidade; os fi\u00e9is perdem a sua autonomia. Os fi\u00e9is, bem formados, julgar\u00e3o por si mesmos os programas partid\u00e1rios e evitar\u00e3o entrar na pol\u00e9mica divisionista pr\u00f3pria de estrat\u00e9gias partid\u00e1rias.<\/p>\n<p><strong>Uma Igreja livre para todos<\/strong><\/p>\n<p>A Igreja deve ser uma consci\u00eancia cr\u00edtica da sociedade, e n\u00e3o um lobby disfar\u00e7ado. Deve ser inc\u00f3moda para todos os partidos quando necess\u00e1rio e dependente de nenhum.<\/p>\n<p>Se cair na tenta\u00e7\u00e3o de se transformar num \u201csuperpartido\u201d, perder\u00e1 a for\u00e7a prof\u00e9tica e a capacidade de unir todos os que procuram Deus.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica passa. Os partidos mudam e o Evangelho permanece.<br \/>\nE \u00e9 a partir dele e n\u00e3o das l\u00f3gicas partid\u00e1rias que a Igreja deve continuar a iluminar a vida p\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Te\u00f3logo<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A miss\u00e3o da Igreja \u00e9 transumana transcendente e n\u00e3o pode ser reduzida a mais uma voz no debate partid\u00e1rio A presen\u00e7a p\u00fablica de respons\u00e1veis eclesi\u00e1sticos tem vindo a adquirir um tom crescentemente politizado nos \u00faltimos anos. 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