{"id":10438,"date":"2025-11-14T00:42:46","date_gmt":"2025-11-13T23:42:46","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10438"},"modified":"2025-11-14T00:42:46","modified_gmt":"2025-11-13T23:42:46","slug":"a-paz-e-as-tres-lanternas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10438","title":{"rendered":"A PAZ E AS TR\u00caS LANTERNAS"},"content":{"rendered":"<p>Met\u00e1fora sobre o sil\u00eancio, a arte, o saber e o valor das pessoas simples<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Diz-se que a Paz caminhava por um vale antigo levando uma lanterna apagada.<\/p>\n<p>As pessoas olhavam-na e pensavam que ela j\u00e1 tinha luz suficiente, pois o seu pr\u00f3prio sil\u00eancio iluminava o ambiente. Mas a Paz sabia que aquilo era apenas penumbra, uma luz fraca que n\u00e3o revelava os contornos das coisas.<\/p>\n<p>Cansada de trope\u00e7ar no escuro, decidiu procurar quem pudesse ajud\u00e1-la a acender a sua lanterna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A primeira chama foi a Arte<\/strong><\/p>\n<p>No sop\u00e9 de uma montanha encontrou a Arte, que pintava o vento com pinc\u00e9is invis\u00edveis.<\/p>\n<p>A Arte tocou a lanterna da Paz e acendeu nela uma chama azulada.<\/p>\n<p>\u201cAgora tens brilho\u201d, disse ela.<\/p>\n<p>\u201cA minha luz n\u00e3o mostra caminhos, mas desperta sentimentos. Ela faz as pessoas verem o mundo com outros olhos.\u201d<\/p>\n<p>E era verdade: por onde a Paz passava, a chama azul tingia tudo com beleza.<\/p>\n<p>Mas a chama oscilava demasiado. \u00c0 menor rajada de conflito, sentia-se insegura e tremia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A segunda chama foi o Saber<\/strong><\/p>\n<p>A Paz continuou a caminhada e encontrou o Saber sentado junto a uma velha ponte, enrolado em livros e mapas.<\/p>\n<p>\u201cA tua chama \u00e9 bonita, mas inst\u00e1vel\u201d, disse o Saber.<\/p>\n<p>\u201cDeixa-me oferecer-te outra.\u201d<\/p>\n<p>E soprou sobre a lanterna da Paz, acendendo nela uma segunda chama, dourada que era firme, clara, quase como o Sol.<\/p>\n<p>\u201cA minha luz ajuda a ver as causas das sombras. Mostra os caminhos, mesmo os que a Arte n\u00e3o sabe nomear.\u201d<\/p>\n<p>A Paz agradeceu, mas perguntou:<\/p>\n<p>\u201cE os que n\u00e3o sabem ler mapas nem se ocupam com livros de muito saber? E os que vivem do que a terra d\u00e1 e s\u00f3 querem passar o dia sem temores? N\u00e3o os cegar\u00e1 tanta luz?\u201d<\/p>\n<p>O Saber sorriu benevolente:<\/p>\n<p>\u201cA luz n\u00e3o exige que todos falem sobre tudo. Apenas ilumina para que ningu\u00e9m se perca. Quem quiser ver ver\u00e1; quem preferir caminhar devagar ter\u00e1 sempre a sua dignidade intacta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A terceira chama foi o Sil\u00eancio<\/strong><\/p>\n<p>A Paz seguiu viagem e encontrou o Sil\u00eancio junto a um lago parado.<\/p>\n<p>Era discreto, quase invis\u00edvel, mas ao aproximar-se, a Paz sentiu uma calma profunda.<\/p>\n<p>\u201cTenho tamb\u00e9m uma chama para ti\u201d, disse o Sil\u00eancio.<\/p>\n<p>E acendeu na lanterna uma pequena brasa branca.<\/p>\n<p>\u201cA minha luz n\u00e3o se v\u00ea; sente-se. \u00c9 o espa\u00e7o entre as palavras, onde as pessoas simples se recolhem quando o mundo fala demais. Sou o abrigo para quem teme dizer tolices, para quem se sente esmagado por debates que n\u00e3o compreende ou porque simplesmente gosta de ouvir. Sou prud\u00eancia e prud\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a Paz compreendeu algo essencial: cada chama tinha a prud\u00eancia e a sua medida.<\/p>\n<p>A Arte iluminava o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Saber iluminava o entendimento.<\/p>\n<p>O Sil\u00eancio iluminava a prud\u00eancia e a dignidade dos mais simples.<\/p>\n<p>Mas nenhuma das tr\u00eas, sozinha, bastava.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A aldeia da grande luz<\/strong><\/p>\n<p>Quando a Paz voltou ao vale com a lanterna de tr\u00eas chamas, aconteceu algo extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>As aldeias foram-se iluminando gradualmente: Os artistas viam melhor o mundo e criavam com mais responsabilidade; os s\u00e1bios falavam com mais humildade e as pessoas simples j\u00e1 n\u00e3o se sentiam diminu\u00eddas, porque perceberam que o seu sil\u00eancio n\u00e3o era ignor\u00e2ncia, mas um modo leg\u00edtimo de viver! E assim todos descobriram que s\u00f3 se cresce quando se escuta: escuta-se a arte, o saber e at\u00e9 o sil\u00eancio alheio.<\/p>\n<p>A lanterna da Paz tornou-se, ent\u00e3o, uma met\u00e1fora viva: uma luz feita de tr\u00eas chamas que se equilibram mutuamente, cora\u00e7\u00e3o, raz\u00e3o e prud\u00eancia.<\/p>\n<p>E assim, onde quer que ela ande, deixa agora n\u00e3o um sil\u00eancio vazio, mas uma luz completa: uma luz onde cada pessoa, instru\u00edda ou simples, pode caminhar com dignidade, sem se sentir menor e sem diminuir ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>De facto, a sabedoria n\u00e3o se mede pela altura a que se sobe, mas pela dignidade com que se caminha ao n\u00edvel de todos.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Met\u00e1fora sobre o sil\u00eancio, a arte, o saber e o valor das pessoas simples &nbsp; Diz-se que a Paz caminhava por um vale antigo levando uma lanterna apagada. 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