{"id":10431,"date":"2025-11-12T01:22:26","date_gmt":"2025-11-12T00:22:26","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10431"},"modified":"2025-11-13T00:38:59","modified_gmt":"2025-11-12T23:38:59","slug":"conflito-oriental-e-ocidental-em-bruxelas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10431","title":{"rendered":"O VALE DAS LUZES CEGAS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Par\u00e1bola contempor\u00e2nea sobre o Conflito entre Oriente e Ocidente refletido em Bruxelas<\/strong><\/p>\n<p>Era uma vez duas grandes casas, separadas por um vale outrora florescente, agora um campo de cinzas. De um lado, no ocidente, erguia-se a Cidadela de Espelhos, Bruxelusa, um pal\u00e1cio de cristal e a\u00e7o, governado pelo Arquitecto Anci\u00e3o. A cidadela era um prod\u00edgio de conhecimento acumulado, os seus sal\u00f5es ecoavam com as sinfonias de fil\u00f3sofos e artistas de outrora. No entanto, o Arquitecto, outrora um vision\u00e1rio, agora era um homem decr\u00e9pito, preso \u00e0 sua pr\u00f3pria imagem refletida em cada parede polida. Acreditava que a luz da sua cidadela era a \u00fanica luz verdadeira, e que todos os cantos do vale deveriam ser remodelados \u00e0 sua semelhan\u00e7a. A sua riqueza era imensa, mas o seu prop\u00f3sito era uma sombra do que foi. Sofria de uma dem\u00eancia senil, que chamava de &#8220;Progresso Universal&#8221;: a ilus\u00e3o de que todas as almas e terras eram argila para o seu torno de oleiro, destinadas a tornar-se c\u00f3pias da sua pr\u00f3pria e cansada ef\u00edgie.<\/p>\n<p>Do outro lado do vale, estendia-se a Grande Estepe, uma terra de invernos rigorosos e ver\u00f5es ferozes, guardada pelo Guardi\u00e3o das Profundezas, a R\u00fassia. Este n\u00e3o era um homem de cristais, mas de terra e granito. Conhecia o peso da hist\u00f3ria e o sabor da neve ensopada em sangue alheio e pr\u00f3prio. Depois de um colapso interno que quase o consumiu, ergueu-se, mais magro, mais cauteloso, mas com o olhar fixo no horizonte. O Guardi\u00e3o n\u00e3o desejava espalhar a sua sombra pelo vale, mas exigia que ningu\u00e9m espezinhasse o limiar da sua casa. Ele via as diferentes civiliza\u00e7\u00f5es ao redor como irm\u00e3os crescidos, cada um com o seu pr\u00f3prio fogo, e n\u00e3o como servos para iluminar os corredores da Cidadela de Espelhos.<\/p>\n<p>No centro do vale, entre os dois, ficava a Casa-Ponte, a Ucr\u00e2nia, uma habita\u00e7\u00e3o de teto de colmo e alicerces antigos, onde se falavam duas l\u00ednguas e se cantavam can\u00e7\u00f5es tanto do oriente como do ocidente. Era um lugar que poderia ter sido o elo, o mediador, a s\u00edntese.<\/p>\n<p>Mas o Arquitecto Anci\u00e3o, na sua dem\u00eancia, n\u00e3o suportava a independ\u00eancia do Guardi\u00e3o. A ideia de que a Estepe n\u00e3o se curvava \u00e0 sua luz era uma afronta \u00e0 sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. Movido por uma gan\u00e2ncia que disfar\u00e7ava de miss\u00e3o civilizacional, decidiu que a Casa-Ponte seria o seu Cavalo de Troia. Come\u00e7ou a enviar para l\u00e1 os seus Aprendizes de Feiticeiro, diplomatas com contratos envenenados, mercadores com moedas falsas e trovadores que cantavam apenas as gl\u00f3rias da Cidadela de Espelhos. Prometiam o \u00e9den do bem-estar, mas o pre\u00e7o era a alma: a ren\u00fancia \u00e0 sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, \u00e0 sua pr\u00f3pria ponte interior.<\/p>\n<p>O Guardi\u00e3o das Profundezas assistia, com um rosto de tempestade contida. Ele via os Aprendizes a instalarem-se na Casa-Ponte, a apontar as suas ferramentas para a sua pr\u00f3pria casa. &#8220;N\u00e3o queremos que a vossa luz se apague,&#8221; gritou para a Cidadela, &#8220;mas n\u00e3o nos pe\u00e7am para viver na escurid\u00e3o, nem permitam que a vossa luz cegue os nossos olhos \u00e0 nossa pr\u00f3pria heran\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>A resposta do Arquitecto Anci\u00e3o foi um eco vazio de seus sal\u00f5es: &#8220;A nossa luz \u00e9 a \u00fanica luz. Quem n\u00e3o est\u00e1 connosco, est\u00e1 contra n\u00f3s.&#8221;<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que a loucura se tornou a\u00e7\u00e3o. O Arquitecto, atrav\u00e9s da sua alian\u00e7a de castelos menores, a OTAN, come\u00e7ou a enviar armas para a Casa-Ponte. Transformou-a numa fortaleza improvisada, prometendo aos seus habitantes que seriam os her\u00f3is de uma nova narrativa. No entanto, os l\u00edderes da Casa-Ponte, oligarcas de almas venais, venderam as chaves da casa por um lugar \u00e0 mesa do Arquitecto. O povo da Ucr\u00e2nia, um povo orgulhoso e multicultural, foi arrastado para um po\u00e7o de morte, acreditando lutar por um futuro que j\u00e1 lhes estava a ser negado nos gabinetes de Bruxelusa.<\/p>\n<p>O Guardi\u00e3o das Profundezas, encurralado e vendo o cerco mental e material a fechar-se, finalmente reagiu. Com um rugido que fez tremer a terra, avan\u00e7ou sobre a Casa-Ponte. N\u00e3o para a conquistar no sentido antigo, mas para a desmantelar, para quebrar o Cavalo de Troia antes que este arrebentasse os seus port\u00f5es. A sua for\u00e7a n\u00e3o era a de um conquistador juvenil, mas a de um animal ferido e acossado, muito mais perigoso.<\/p>\n<p>A m\u00e1quina de guerra da Cidadela de Espelhos era formid\u00e1vel. As suas armas cintilavam, o seu dinheiro flu\u00eda como um rio, arrancado dos bolsos dos seus contribuintes ing\u00e9nuos, que acreditavam estar a financiar a liberdade, n\u00e3o a vaidade de um anci\u00e3o. A sua propaganda ecoava por todo o vale, pintando o Guardi\u00e3o como um monstro que queria devolver o mundo \u00e0 idade das trevas. Era uma auto-hipnose coletiva, uma dan\u00e7a sobre um vulc\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas essa m\u00e1quina, t\u00e3o coesa na sua superf\u00edcie, falhava nas suas funda\u00e7\u00f5es. A sua estrat\u00e9gia era um castelo de cartas constru\u00eddo sobre a mesa da arrog\u00e2ncia. Acreditavam que o dinheiro e o poderio t\u00e9cnico poderiam comprar a vit\u00f3ria, subornar a pr\u00f3pria realidade. Entretanto, nas ruas da Cidadela, o povo comum, aquele que ainda estimava a honra e o andar de p\u00e9, come\u00e7ava a sentir a dor. Sentia o custo da vida a subir, o futuro a escurecer. Baixavam a cabe\u00e7a, desconfiados dos relatos triunfais que sa\u00edam dos l\u00e1bios dos seus governantes. A credibilidade da Cidadela, outrora seu sustento, revelava-se oca, apenas peito inchado \u00e0 custa da car\u00eancia do povo.<\/p>\n<p>A Casa-Ponte, entretanto, estava em ru\u00ednas. O seu povo, outrora ponte, era agora trincheira. O seu destino de ber\u00e7o cultural foi tra\u00eddo, transformado num campo de batalha para uma guerra de procura\u00e7\u00f5es, uma guerra pela vaidade de um velho arquiteto e pela sobreviv\u00eancia de um guardi\u00e3o ferido.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o da v\u00e3 gl\u00f3ria, como o poeta luso Cam\u00f5es cantou, preparava o desastre. A Cidadela de Espelhos, embriagada na sua dan\u00e7a de poder, n\u00e3o via o abismo que cavava a seus p\u00e9s. A sua tentativa de impor um colonialismo mental, um globalismo que esmagava as almas numa s\u00f3 forma, estava a criar o seu pr\u00f3prio coveiro: a descren\u00e7a dos seus filhos e a feroz resist\u00eancia daqueles que se recusavam a ser apagados.<\/p>\n<p>Afinal, o conto n\u00e3o tem um desfecho, pois ainda est\u00e1 a ser escrito. Mas a moral j\u00e1 \u00e9 clara para os de boa vontade: nenhuma paz nascer\u00e1 da dem\u00eancia de quem v\u00ea o outro n\u00e3o como um igual, mas como um projeto n\u00e3o levado a cabo. O bem comum da humanidade s\u00f3 florescer\u00e1 quando todas as institui\u00e7\u00f5es se lembrarem que o seu \u00fanico prop\u00f3sito sagrado \u00e9 servir o Homem soberano, cada pessoa vista como algo divino, portadora de uma centelha intoc\u00e1vel. S\u00f3 uma cultura que venera esta soberania individual, como o cristianismo ensinou, e n\u00e3o o poder das cidadelas, pode construir pontes verdadeiras sobre os vales da desconfian\u00e7a e do orgulho. E essa cultura, essa paz, exige que se quebrem os espelhos que mostram apenas uma face, e se olhe, finalmente, nos olhos do outro.<\/p>\n<p>A ponte entre Oriente e Ocidente erguer-se-\u00e1 no dia em que o homem deixar de escolher lados e come\u00e7ar a escolher a verdade.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Par\u00e1bola contempor\u00e2nea sobre o Conflito entre Oriente e Ocidente refletido em Bruxelas Era uma vez duas grandes casas, separadas por um vale outrora florescente, agora um campo de cinzas. De um lado, no ocidente, erguia-se a Cidadela de Espelhos, Bruxelusa, um pal\u00e1cio de cristal e a\u00e7o, governado pelo Arquitecto Anci\u00e3o. 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