{"id":10422,"date":"2025-11-12T00:24:46","date_gmt":"2025-11-11T23:24:46","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10422"},"modified":"2025-11-12T00:46:24","modified_gmt":"2025-11-11T23:46:24","slug":"o-jardim-dividido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10422","title":{"rendered":"O JARDIM DIVIDIDO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Elegia sobre o S\u00e9culo amn\u00e9sico<\/strong><\/p>\n<p><em>Reflex\u00e3o po\u00e9tica sobre o conflito na Ucr\u00e2nia e os descaminhos da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental<\/em><\/p>\n<p><strong>O Senhor do Jardim Ocidental<\/strong><\/p>\n<p>Nas alamedas de Bruxelas, o velho jardineiro conta moedas de ouro sobre terra est\u00e9ril, esquecido de quando plantava e agora apenas colhe o que outros semearam com suor e esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Os seus olhos, tornados cataratas de mem\u00f3ria selectiva, j\u00e1 n\u00e3o veem rebentos novos nem flores no jardim alheio: s\u00f3 enxergam ervas daninhas onde florescem ciprestes, invasores onde crescem ra\u00edzes milenares.<\/p>\n<p>O atlas nas suas m\u00e3os tr\u00e9mulas mostra fronteiras desenhadas \u00e0 r\u00e9gua sobre rios vivos, cercas onde antes corriam crian\u00e7as e muros onde o vento dan\u00e7ava livre.<\/p>\n<p>\u00c1vido de poder diz ele aos seus parceiros: &#8220;Expandamos o canteiro! Que toda a seara se torne nossa quinta!&#8221; Mas a terra, velha m\u00e3e, recusa-se a parir para quem s\u00f3 conhece o arado da conquista.<\/p>\n<p><strong>A Casa do Leste<\/strong><\/p>\n<p>Do outro lado do jardim, a casa de pedra resiste. Velha tamb\u00e9m, cicatrizes de invernos que ningu\u00e9m recorda, mas com celeiros cheios e fornalha acesa, mem\u00f3ria longa de quem sobreviveu ao degelo.<\/p>\n<p>Ofereceram-lhe pap\u00e9is perfumados de Bruxelas, tratados escritos em tinta que desvanece ao sol, promessas de parceria que soavam a corrente, abra\u00e7os que escondiam algemas de veludo.<\/p>\n<p>&#8220;Ser\u00e1s nosso pomar&#8221;, diziam os do Ocidente, &#8220;teus frutos para n\u00f3s, tua sede para ti.&#8221; Mas a casa de pedra conhece essa can\u00e7\u00e3o antiga: j\u00e1 a cantaram outros imp\u00e9rios, tornados agora p\u00f3.<\/p>\n<p><strong>A Jovem entre Dois Fogos<\/strong><\/p>\n<p>Entre os jardins, a jovem Ucr\u00e2nia, filha de ambos, reconhecida por nenhum como igual. Prometeram-lhe vestidos de seda ocidental, se renegasse a metade do sangue eslavo que corre nas suas veias.<\/p>\n<p>Teceram-lhe sonhos em Bruxelas: &#8220;Ser\u00e1s europeia!&#8221; (Mas nunca disseram: ser\u00e1s fam\u00edlia, ser\u00e1s irm\u00e3.) Encheram-lhe os ouvidos de melodias douradas enquanto lhe esvaziavam os celeiros e a alma.<\/p>\n<p>Os seus oligarcas, corvos em pele de pomba, venderam-na em leil\u00e3o a quem mais ouro oferecia. Transformaram-na em Troia, cavalo oco de promessas, prenhe n\u00e3o de guerreiros, mas de caros m\u00edsseis alheios.<\/p>\n<p>E o seu povo? Ah, o seu povo multicultural, russo e ucraniano entrela\u00e7ado como trigo e centeio, viu-se obrigado a escolher entre metades de si mesmo, a amputar-se para caber em bandeiras emprestadas.<\/p>\n<p><strong>A Dem\u00eancia dos Velhos Imp\u00e9rios<\/strong><\/p>\n<p>O Ocidente, senhor outrora de luzes, raz\u00e3o e vontade pr\u00f3pria, que deu ao mundo Bach e Pessoa, Newton e Cervantes, entra na charneca no s\u00e9culo XXI como o \u201cRei Lear\u201d na trag\u00e9dia de William Shakespeare: coroa torta, cetro partido, mem\u00f3ria em frangalhos.<\/p>\n<p>N\u00e3o reconhece os filhos que educou e cresceram, passando a gritar &#8220;trai\u00e7\u00e3o!&#8221; quando eles querem voz pr\u00f3pria; chama &#8220;amea\u00e7a&#8221; ao vizinho que fortifica a sua casa depois de d\u00e9cadas a ver cercas a aproximarem-se.<\/p>\n<p>A OTAN, outrora escudo, tornou-se lan\u00e7a errante, procurando drag\u00f5es onde h\u00e1 apenas orgulho ferido. Expandiu-se como mancha de \u00f3leo sobre a \u00e1gua, at\u00e9 tocar a pele do urso que tinha jurado n\u00e3o despertar.<\/p>\n<p><strong>A Auto-Hipnose Colectiva<\/strong><\/p>\n<p>Nos \u00e9crans luminosos, a verdade dan\u00e7a distorcida: &#8220;Defendemos a liberdade!&#8221; (Mas quem lucra com as armas?) &#8220;Protegemos a democracia!&#8221; (Mas quem escolheu esta guerra?) &#8220;Salvamos a Europa!&#8221; (Mas quem paga a factura de sangue?)<\/p>\n<p>Os contribuintes ing\u00e9nuos, ovelhas tosquiadas, financiam foguetes com o p\u00e3o dos seus filhos, aplaudem discursos de l\u00edderes em pal\u00e1cios aquecidos enquanto o povo europeu treme de frio e d\u00edvida.<\/p>\n<p>A m\u00e1quina medi\u00e1tica, coesa como formigueiro, repete o mantra at\u00e9 parecer evangelho: &#8220;O inimigo est\u00e1 \u00e0 porta! Precisamos mais armas!&#8221; (Mas ningu\u00e9m pergunta: quem levou a porta \u00e0 casa dele?)<\/p>\n<p><strong>O Pre\u00e7o da v\u00e3 Gl\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>Como Cam\u00f5es cantou da &#8220;v\u00e3 cobi\u00e7a&#8221; que lan\u00e7ou naus portuguesas ao abismo, hoje a arrog\u00e2ncia ocidental prepara n\u00e3o descobrimentos, mas o pr\u00f3prio naufr\u00e1gio.<\/p>\n<p>Querem transformar culturas milenares em sucursais da sua cosmovis\u00e3o \u00fanica, impor um globalismo sem ra\u00edzes onde todos pensem com o mesmo chip implantado.<\/p>\n<p>Chamam-lhe &#8220;progresso&#8221;: um mundo pasteurizado (esterilizado) a diversidade \u00e9 crime de pensamento, onde o humanismo \u00e9 &#8220;obst\u00e1culo \u00e0 efici\u00eancia&#8221; e o cidad\u00e3o \u00e9 c\u00f3digo de barras ambulante.<\/p>\n<p><strong>O Ber\u00e7o Tra\u00eddo<\/strong><\/p>\n<p>A Ucr\u00e2nia, que poderia ser ponte, unir leste e oeste como Kiev, no passado, uniu Escandin\u00e1via e Biz\u00e2ncio, foi seduzida a tornar-se fossa, trincheira onde se enterram os sonhos de reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Traiu a sua pr\u00f3pria multiplicidade, a riqueza de ser encruzilhada de l\u00ednguas e santos, por promessas ocas de &#8220;integra\u00e7\u00e3o europeia&#8221; que significava apenas: seja nosso posto avan\u00e7ado.<\/p>\n<p>E o povo ucraniano, esse \u00e9 o verdadeiro m\u00e1rtir: n\u00e3o dos russos nem dos americanos, mas dos seus pr\u00f3prios traidores dom\u00e9sticos que venderam p\u00e1tria em troca de iates e mans\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>A Credibilidade Desmoronada<\/strong><\/p>\n<p>O povo europeu, de cabe\u00e7a baixa, come\u00e7a a n\u00e3o reconhecer no espelho medi\u00e1tico a realidade que palpa com as pr\u00f3prias m\u00e3os: infla\u00e7\u00e3o galopante, futuro hipotecado, inverno gelado.<\/p>\n<p>A f\u00e9 nas institui\u00e7\u00f5es esfarela-se como p\u00e3o velho. A UE, catedral sem fi\u00e9is, soa oca. A NATO, gigante de p\u00e9s de barro, sust\u00e9m-se apenas no medo que semeia.<\/p>\n<p>Mas um povo que ainda estima a honra n\u00e3o pode viver indefinidamente de joelhos. A dor acumula-se, combust\u00edvel lento, at\u00e9 ao dia em que a pilha de mentiras desmorona.<\/p>\n<p><strong>O Olhar Benigno Ausente<\/strong><\/p>\n<p>Falta ao Ocidente o que outrora possuiu: a compaix\u00e3o nascida da pr\u00f3pria vulnerabilidade, a humildade de quem sabe que civiliza\u00e7\u00f5es ascendem, brilham e fenecem como estrelas.<\/p>\n<p>Substitu\u00edram a sabedoria pelo militarismo, o di\u00e1logo pelo chicote econ\u00f3mico, a parceria pela subjuga\u00e7\u00e3o, o amor pelo medo como ferramenta de controlo.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se constr\u00f3i paz sobre terror, nem ordem sobre ressentimento acumulado. O imp\u00e9rio mental que tentam erigir ser\u00e1 pris\u00e3o tamb\u00e9m para os seus carcereiros.<\/p>\n<p><strong>Elegia pelo Bem Comum<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 preciso um regresso ao princ\u00edpio esquecido: que cada pessoa, de Vladivostok a Lisboa, \u00e9 soberana em sua dignidade inerente, e que as institui\u00e7\u00f5es existem para servir, n\u00e3o para dominar.<\/p>\n<p>Que a Ucr\u00e2nia seja novamente ber\u00e7o, n\u00e3o sepultura de uma gera\u00e7\u00e3o sacrificada. Que o Ocidente recupere a mem\u00f3ria de quando era farol e n\u00e3o ar\u00edete que arromba portas e muralhas.<\/p>\n<p>Que o Oriente n\u00e3o repita os erros dos imp\u00e9rios que um dia condenou. Que todos reconhe\u00e7am a humanidade comum que precede fronteiras, bandeiras, credos.<\/p>\n<p>O jardim da humanidade \u00e9 um s\u00f3, embora cada canteiro tenha flores diferentes. \u00c9 tempo de jardineiros que cultivem com amor, n\u00e3o de senhores que cerquem com arame farpado.<\/p>\n<p>Pois enquanto houver quem veja no outro<br \/>\nn\u00e3o um inimigo, mas um filho da mesma terra,<br \/>\nhaver\u00e1 esperan\u00e7a de que a v\u00e3 gl\u00f3ria<br \/>\nn\u00e3o arraste toda a humanidade ao abismo.<\/p>\n<p>E que as institui\u00e7\u00f5es, despertando da dem\u00eancia,<br \/>\nrecordem que servem algo sagrado:<br \/>\na vida, simplesmente a vida,<br \/>\nem toda a sua diversidade irredut\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\n\u00a9 Pegadas do Tempo<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/poesiajusto.blogspot.com\/2025\/11\/o-jardim-dividido.html\">https:\/\/poesiajusto.blogspot.com\/2025\/11\/o-jardim-dividido.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elegia sobre o S\u00e9culo amn\u00e9sico Reflex\u00e3o po\u00e9tica sobre o conflito na Ucr\u00e2nia e os descaminhos da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental O Senhor do Jardim Ocidental Nas alamedas de Bruxelas, o velho jardineiro conta moedas de ouro sobre terra est\u00e9ril, esquecido de quando plantava e agora apenas colhe o que outros semearam com suor e esperan\u00e7a. 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