{"id":10417,"date":"2025-11-09T01:33:03","date_gmt":"2025-11-09T00:33:03","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10417"},"modified":"2025-11-11T10:57:35","modified_gmt":"2025-11-11T09:57:35","slug":"morreu-o-nosso-gato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=10417","title":{"rendered":"A MORTE DO GATO"},"content":{"rendered":"<p>Morreu o \u201cBicho\u201d da nossa estima\u00e7\u00e3o. A saudade \u00e9 grande e a minha maneira de domar a dor \u00e9 escrever sobre ele, erguendo-lhe um memorial de palavras onde outros, talvez, encontrem consolo para sofrimentos maiores.<\/p>\n<p>Com a partida do Yoschi, o meu \u201cBicho\u201d de dezanove anos, n\u00e3o partiu apenas um gato. Partiu um pequeno embaixador de um mundo paralelo, que sempre coexistiu com o nosso. Ele era siam\u00eas, mas a sua verdadeira p\u00e1tria era um reino de gestos simples e verdades profundas. Era s\u00e1bio n\u00e3o por acumular conhecimento, mas por viver numa curiosidade perp\u00e9tua. Era limpo e aprumado, n\u00e3o por vaidade, mas por um respeito inato pelo seu pr\u00f3prio ser e pelo espa\u00e7o que partilhava connosco. Cham\u00e1vamos-lhe Yoschi, seu nome alem\u00e3o, e &#8220;Bicho&#8221; para mim; dei-lhe o nome de \u201cBicho\u201d como t\u00edtulo de honra, que celebrava a centelha de selva soberana que nele ardia, domada, mas nunca extinta.<\/p>\n<p>O Yoschi\/Bicho era um mestre da arte de ser. As suas li\u00e7\u00f5es eram silenciosas. Ensinou-nos que a sociabilidade n\u00e3o \u00e9 barulho, mas presen\u00e7a selectiva. Afectuoso, mas n\u00e3o carente; aproximava-se para receber carinho e, uma vez satisfeito o seu grau de necessidade sentimental, recolhia-se com uma dignidade serena para as suas &#8220;medita\u00e7\u00f5es m\u00edsticas&#8221;. Esta independ\u00eancia n\u00e3o era frieza, era autossufici\u00eancia. N\u00f3s n\u00e3o \u00e9ramos os seus donos, \u00e9ramos os seus companheiros de jornada. E, nessa qualidade, servi-lo, encher a ta\u00e7a de \u00e1gua, providenciar o conforto, tarefa que a senhoria assumia com carinho, tornava-se um acto de rever\u00eancia, n\u00e3o de posse.<\/p>\n<p>A sua maior magia era a sua percep\u00e7\u00e3o agu\u00e7ada do ambiente. Parecia decifrar as emo\u00e7\u00f5es humanas com uma precis\u00e3o que nos humilhava. Se a tristeza ou a doen\u00e7a pairassem no ar, ele dirigia-se ao cora\u00e7\u00e3o da dor e, com o seu ronronar terap\u00eautico que se assemelhava a um zumbido ancestral que parecia vibrar na pr\u00f3pria frequ\u00eancia da cura, oferecendo consolo. Era um calmante vivo, um ajudante antisstress que n\u00e3o exigia mais do que o reconhecimento da sua exist\u00eancia \u00fanica.<\/p>\n<p>A sua vida foi um testemunho eloquente. Um gato como o Yoschi n\u00e3o \u00e9 um substituto para uma rela\u00e7\u00e3o humana; \u00e9 uma ponte para uma forma de rela\u00e7\u00e3o diferente, mais silenciosa e intuitiva. Ele n\u00e3o preenchia lacunas humanas; ensinava-nos a preench\u00ea-las connosco pr\u00f3prios, mostrando-nos os valores da autonomia, da percep\u00e7\u00e3o e da comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o-verbal. Os animais, tantas vezes ignorados, s\u00e3o precisamente estes embaixadores. Eles n\u00e3o anseiam ser humanos, anseiam por ser compreendidos no seu pr\u00f3prio direito que lhe vem da nossa estima e companhia. O segredo da empatia entre os nossos mundos, como o Yoschi t\u00e3o bem ilustrou, reside na nossa disponibilidade para &#8220;entrar em rela\u00e7\u00e3o&#8221;, para ouvir a li\u00e7\u00e3o contida no seu olhar sereno, no seu ronronar regenerador, no seu modo de caminhar pelo mundo com uma soberania tranquila. Enfim, um exemplo do modo de se relacionar do cidad\u00e3o com as suas chefias.<\/p>\n<p>Naturalmente, o pre\u00e7o deste v\u00ednculo aut\u00eantico \u00e9 a dor da despedida. No seu \u00faltimo dia, o Yoschi, j\u00e1 debilitado pela diabetes, percorreu todos os cantos da casa que outrora frequentava, um derradeiro ritual de despedida ao seu lar. A sua morte deixa um vazio, mas tamb\u00e9m a semente de uma compreens\u00e3o mais profunda. Ele foi feliz, teve um lar como seria de desejar para muitos. E, ao faz\u00ea-lo, ofereceu-nos a rara oportunidade de espreitar os mist\u00e9rios da vida animal, n\u00e3o para os dominar, mas para com eles aprender, honrando a sua mem\u00f3ria atrav\u00e9s de um olhar mais respeitoso e emp\u00e1tico para com todas as criaturas com quem partilhamos este mundo.<\/p>\n<p>\u00c0 mem\u00f3ria do Yoschi, o &#8220;Bicho&#8221;, cuja vida foi uma li\u00e7\u00e3o de afei\u00e7\u00e3o sem depend\u00eancia e de uma liga\u00e7\u00e3o que liberta em vez de aprisionar.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morreu o \u201cBicho\u201d da nossa estima\u00e7\u00e3o. A saudade \u00e9 grande e a minha maneira de domar a dor \u00e9 escrever sobre ele, erguendo-lhe um memorial de palavras onde outros, talvez, encontrem consolo para sofrimentos maiores. Com a partida do Yoschi, o meu \u201cBicho\u201d de dezanove anos, n\u00e3o partiu apenas um gato. 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